Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 27.07.07

                            

 

            Meus queridos netos:

 

            Eu sempre estive convencida de que tinha muitas e boas razões para estudar. Em primeiro lugar, aprender, depois recompensar os meus Pais que tantos sacrifícios faziam por mim e finalmente, também confesso o meu pecado, pelo orgulho de ser sempre a melhor. Daí resultavam, por vezes, algumas compensações: nem prendas, nem muitos elogios porque todos julgavam, e eu também, que estava apenas a cumprir um dever, fazendo o meu trabalho como os outros faziam o seu.

 

            Mas quando acabei o Curso Comercial com a média, muito elevada para aquele tempo, de dezassete valores, recebi o prémio de melhor aluna, dado pela Associação Comercial de Lisboa: um envelope amarelado, banal – que ainda guardo – tendo lá dentro cento e trinta e cinco escudos, o que corresponderia agora a cerca de sessenta cêntimos mas que, na altura dava para comprar cento e setenta jornais diários, fazer igual número de viagens de eléctrico ou ir dezassete vezes a um bom cinema.

 

                   

            Depois, além de ter sempre beneficiado de isenção de propinas, que só era concedida a alunos com bom aproveitamento – e baixos rendimentos, claro – fui ainda, no fim do segundo ano da Faculdade, premiada com uma bolsa de estudo de Francês que me proporcionou a regalia de passar um mês em Pau, uma cidade muito bonita perto de Lourdes, nos Pirinéus, para estudar a língua numa secção da Universidade de Bordéus.

 

            Acontecia, porém, que tínhamos de pagar a viagem de comboio, a qual, somada a outras pequenas despesas, se calculou vir a importar em quinhentos escudos (comparem com o prémio que tinha recebido e logo verão se não era inacessível para mim). Desesperada, tive a lembrança de expor o meu problema a um dos Tios que tinha em Angola e logo ele me enviou a quantia salvadora.

 

            Lá parti, então, na companhia da Milú, em terceira classe, mas radiante por ir conhecer um mundo que me era muito familiar dos livros, mas só.

 

            Na Universidade tínhamos aulas de Francês escrito e falado, muitas visitas de estudo, sobretudo à montanha, ainda nevada, do Pic du Midi ou a Gavarny mas também ao Santuário de Lourdes, às grutas de Betharam, etc.

 

            Tomávamos o pequeno-almoço na casa em que alugámos os quartos através da Universidade e almoçávamos na cantina universitária, talvez uma centena de alunos de várias nacionalidades. A Segunda Guerra Mundial tinha acabado há poucos anos e a França, em grande parte destruída, estava a renascer das cinzas e ainda havia muita falta de bens, sobretudo alimentares. Por isso, a nossa comida era bastante frugal, supervisionada contudo por uma nutricionista, para lhe garantir a composição adequada. Mas nem sempre nos deixava saciados, o que também acontecia quando íamos em excursão com o competente piquenique.

 

            À noite juntávamo-nos em grande número numa espécie de Associação -  separada do Liceu Louis Barthou, onde a Universidade funcionava -  e aí conversávamos em francês com holandeses, espanhóis, alemães, argelinos e outros, a princípio com grande dificuldade e depois já mais afoitamente. Os que melhor falavam francês eram evidentemente os argelinos, pois eram professores primários e a Argélia uma colónia francesa. Logo depois vinham os holandeses e os portugueses. Os ingleses não falavam francês propriamente dito, mas o que se costuma chamar “franciú”. Havia música gravada e, às vezes, lá se armava o bailarico. Vendiam-se bebidas não alcoólicas e não me lembro se alguma coisa de comer, do que duvido.

 

            Do que me recordo muito bem é que, quando voltávamos para casa, havia sempre um grupinho de rapazes ansiosos por nos acompanhar, não tanto por sermos muito novas e a Milú muito bonita, mas na esperança de serem mimoseados com algum biscoito de azeite de que a minha mãe, previdentemente, me enchera uma grande caixa ou com um pouco de doce de cerejas, que tinha de ser comido à colher, por falta de pão, e à porta da rua já que  não podíamos receber visitas.

 

            O ambiente era alegre e saudável, os professores competentes, exigentes sobretudo com os horários, mas também sabiam acamaradar connosco. Foi um mês inesquecível – rifixe como dizem agora e nós, no nosso tempo, considerávamos com himalaias de coisas boas.

 

            Havia uma das nossas colegas portuguesas, a Maridite, cujos pais a acompanharam. O Pai era bancário e a Mãe professora primária e, como simpatizaram logo connosco, eram eles que nos pagavam uma ou outra laranjada ou um apetecido gelado.

 

            Organizámos um jornal, em francês, de que saíram seis números com temas da vida académica e também anedotas que se chamava “PAU POURRI”. Era uma forma abreviada de dizermos “Pau pour rire” um trocadilho com o que realmente significa “Pau apodrecido”

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            No fim do curso tivemos de fazer uma composição sobre um tema, à escolha, relacionado com o nosso País. Eu escolhi Os Descobrimentos Portugueses e fiquei toda ufana quando vi, escrito pelo punho do professor: “Muito bem! escreve como uma francesa culta”.

 

            Ufana, mas também com vontade de rir porque, antes de ir para a Faculdade, tinha tido um correspondente francês a quem pedira para me corrigir os erros e que,  numa das suas cartas me dizia: “Praticamente não tenho erros para emendar mas, não sei porquê, quando leio as suas cartas, elas fazem-me lembrar os clássicos que estudei na Escola”. Mas eu sabia porquê: É que a minha professora de Português, da Escola Comercial, que muito me ajudou a preparar os exames de transição para o Liceu, além de me ensinar Latim, pusera-me a ler, intensivamente, Racine, Molière, Corneille, entre outros. E foi assim que adquiri um francês correcto mas antiquado, eu que, além desse, só tinha aprendido o francês comercial e ignorava como se dizia, por exemplo, candeeiro de iluminação pública e a maior parte das palavras usadas na vida corrente.

 

            O mês de Pau soube a pouco. Fiz a viagem de regresso, com a Milú, num comboio horrível e passámos quase toda a noite à espera da correspondência, numa estação desolada, fria e quase às escuras, com o fito de pouparmos um dinheirito e sair em Salamanca para comprar uma poucas peças de roupa interior.

 

            Para ocupar o tempo na gare, a Milú foi comprar cigarros, dos mais baratos, claro. E tanto eu como ela nos fartámos de tossir, engasgadas com aqueles“mata-ratos” e ficámos vacinadas contra o vício de fumar.

 

            Esta bolsa de estudo também me trouxe, por acréscimo, a amizade da Milú e do Gilbert que, como sabem, ainda hoje perdura.

 

 Até à próxima! Beijinhos da Vóvó!

                           0002d3gw

publicado por clay às 12:41 | link do post | comentar | favorito
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