Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 19.09.07

 

Meus queridos netos:

 

Ainda hoje quando penso nas minhas férias grandes, sinto o alvoroço daqueles tempos invadir-me o coração, pois até ao dia em que me casei, já com vinte e nove anos, sempre houve esses períodos de três meses que iluminavam todos os outros meses do ano, passados em Lisboa, longe da família.

 

Como era muito boa aluna, nunca tinha de fazer provas orais – ou raramente, em francês, por exemplo, pois tinha de mostrar como falava – e então mal chegava Julho, lá ia eu reencontrar não só os meus pais e outros parentes como também muitas outras pessoas, lugares e hábitos de que tantas saudades sentira.

 

Foi assim que aconteceu todos os anos, excepto num que vos passo a contar:

 

Tinham acabado as aulas – ainda eu vivia com os meus Tios – e mal tomei conhecimento das minhas notas, escrevi logo à minha Mãe, como era meu costume, a dizer em que dia tencionava chegar a casa.

 

Ora o meu Tio Armando, dos raros que tinha automóvel, andava há muito tempo a dizer que nas férias iríamos todos à aldeia. Todos era ele, a minha madrinha, sua irmã e eu, evidentemente. Quando soube da carta que eu tinha escrito, ficou muito zangado, sobretudo por eu não lhe ter dito nada sobre o assunto. E eu não o tinha feito porque ele era uma pessoa muito ocupada e não tinha nada definido sobre a data da tal viagem, que ora colocava num dia de Agosto ora noutro. Imaginem a minha inquietação, já sem aulas, separada de meus Pais há nove meses e com a perspectiva de passar mais um à espera da tal viagem de automóvel …

 

Mas o meu Tio foi inflexível:

 

- Então, menina, já não dá contas a ninguém da sua vida? Escreva imediatamente outra carta à sua Mãe a dizer-lhe que vai connosco de carro, logo que eu tenha oportunidade, o que julgo será nos princípios de Agosto.

 

Fiquei paralisada mas ainda consegui dizer:

 

- Ó Tio, e o que é que vou fazer neste mês de Julho, em que já não tenho aulas nem exames?

 

- O que vais fazer? É muito simples: vais substituir na cozinha a tua Tia, que bem precisa de algum descanso.

 

Ainda arranjei forças para retorquir:

 

- Mas eu não sei cozinhar!

 

- Não sabes, aprendes, que só te pode ser útil. Lá porque queres ser “doutora”, não significa que não venhas a precisar de cozinhar ou, pelo menos, de orientar uma empregada, se a tiveres. E ponto final. Amanhã começas a cozinhar em vez da Tia.

 

No dia seguinte, a minha Tia mandou-me fazer uma panela de sopa de feijão e legumes. Resignada, lá procurei seguir as suas instruções, mas como tive de aprender a fazer arroz de grelos e fritar carapaus, distraí-me da sopa que, a dada altura, já com pouca água, começou a pegar-se ao fundo da panela e encher a cozinha com um cheiro a queimado, o que nessa altura não sei porquê se chamava “bispo”. O resto, com a ajuda da minha madrinha, não me saiu muito mal mas a sopa estava quase intragável.

 

Com as lágrimas nos olhos, vi encherem-me o prato da malfadada sopa e dizerem-me que nada mais comeria nesse almoço, pois, dizia o meu Tio:

 

- Vais ver que nunca mais deixas esturrar a sopa.

 

E assim foi. Resignei-me à minha sorte e, a certa altura, não só já fazia uma comida muito aceitável, mas também comecei a ler receitas para variar um pouco e até, lá para o fim, me abalancei a fazer uma mousse de chocolate que não saiu mal e nos regalou a todos. O meu Tio não cabia em si de contente por ver que os seus métodos educativos estavam a dar bom resultado, com a ajuda mais ou menos disfarçada da minha Tia, diga-se em abono da verdade.

 

Mas o certo é que foi nesse mês que eu aprendi os princípios básicos da culinária o que, como o meu Tio vaticinara, me veio a dar muito jeito, sobretudo depois de casada e já em Angola.

 

Como o meu Tio tinha razão e como eu lhe agradeci o tão doloroso transtorno daquelas minhas férias grandes.!

Beijinhos da Vóvó

 

 

 

publicado por clay às 11:02 | link do post | comentar | favorito
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