Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 24.05.07

Minha querida netinha:

 

 

            Quando somos pequenos, uma Escola é o centro do nosso mundo: ali nos juntamos aos amigos – brincamos com eles mesmo não tendo recinto adequado – começamos a sentir-nos importantes porque já temos o nosso trabalho, as nossas obrigações e, sobretudo, começamos a descobrir um mundo imenso que torna a nossa aldeia mais pequena.

 

            Por isso eu decidi escrever-te uma segunda carta sobre a minha Escola Primária.

 

            Já fazes uma ideia de como eram as aulas, não tão calmas como talvez te feito parecer, pois alguns meninos, sobretudo os mais velhos, estavam sempre a arranjar problemas que, em casos mais graves, eram resolvidos pela “menina-de-cinco-olhos”: uma espécie de pequena raquete de ténis, com o tamanho aproximado da palma da mão e com cinco furos dispostos simetricamente e que aumentavam a dor das palmatoadas. Essa sim, creio que, felizmente, já está completamente extinta.

 

            Mas nem o medo da palmatória impedia alguns meninos mais marotos de tentarem espreitar por baixo das carteiras das meninas, ou puxar-lhes os cabelos se estavam à frente deles e outras garotices do género. Às vezes não escapavam à vigilância da professora e, claro, entrava em função a referida “menina-de-cinco-olhos” e lá ficavam as palmas das mãos a arder. Entre os alunos mais irriquietos e inventivos para essas “brincadeiras” contava-se o meu irmão Alfredo que, apesar de ter muito bom coração, não resistia a uma boa partida e, às vezes, também a sorte lhas pregava a ele.

 

            Havia na sala de aula um quadro bastante grande, feito de pedra chamada ardósia e assente num cavalete bem resistente. A professora tinha determinado que, quando chegasse à aula, já devia estar escrito no quadro, a giz e com bonita letra: Pereiro, 20 de Março de 1936, suponhamos. Era a data do dia. Havia sempre dois ou três dos melhores alunos que disputavam entre si o privilégio de escrever a data. Um deles era sempre o meu irmão Alfredo. Mas há dias de azar, não há? Como ainda era pequeno, tinha de subir ao cavalete, agarrar-se ao bordo superior do quadro com a mão esquerda e escrever a data com a direita. Ora nesse dia, ou porque alguém tivesse mexido no quadro ou porque ele se agarrou com mais força, o quadro desabou por cima dele, com grande estrondo, partindo-se em mil bocados. Ainda hoje tenho gravada na memória, e bem nítida, a imagem do meu irmão caído de borco, com os bocados da ardósia por cima e tentar desembaraçar-se delas antes da chegada da professora.  A mim, embora me desse pena, também me dava vontade de rir porque só me fazia lembrar um sapo a nadar numa poça de água. Felizmente que os ferimentos se limitaram a uns arranhões. Mas do que não se livrou foi de uma severa reprimenda da minha tia, que se repetiu em casa, tanto mais que foram os meus pais que tiveram de comprar um quadro novo.

 

            Mas se me pusesse a contar as aventuras do Alfredo, acho que nunca mais acabaria.

 

            O nosso material escolar era uma ardósia, feita da mesma pedra do quadro e um pau de giz para nela escrevermos. Algum tempo depois, tínhamos direito a um caderno de “duas linhas estreitinhas”  para apurar a caligrafia, uma caneta de aparo e um tinteiro que se encaixava na nossa carteira, o livro de leitura da lª classe. Também tínhamos um lápis preto, uma pequena caixa de de lápis de cor. Só nas classes adiantadas é que havia mais livros: História de Portugal, Geografia e pouco mais. Levávamos tudo numa sacola de chita ou feita de retalhos, onde ainda metíamos uma fatia de pão para o lanche.

 

            Nos tempos livres jogávamos à macaca ou às escondidas, ao bom-barqueiro e os rapazes saltavam ao eixo, jogavam à bola ou ao pião.

 

            Para os exames da terceira e quarta classe, tínhamos que nos deslocar à Vila, o que era um verdadeiro acontecimento: como não havia camionetas de carreira e ninguém lá na aldeia tinha carro, montávamos no cavalo atrás do meu pai e lá fazíamos aquele longo percurso: descíamos até ao rio Távora, e subíamos a Serra de Chavães, que lhe ficava em frente e depois apanhávamos a estrada que ainda se estendia por uns oito ou nove quilómetros.

 

            Finalmente era o exame, com aqueles senhores professores muito sérios que nós nunca tínhamos visto e que nos interrogavam sobre tudo. No meu exame da quarta classe, deu-se um caso engraçado: como eu tinha feito provas muito boas, quando chegou o interrogatório de História, houve um senhor que me disse:

 

            - De que parte da História gostou mais? Quer que a interroguemos sobre que dinastia?

 

            Muito despachada nos meus dez anos, respondi desinibidamente:

 

            - Podem-me perguntar sobre tudo menos sobre as guerras entre os liberais e miguelistas, que sempre me fez confusão aquela trapalhada.

 

            Ouviu-se uma gargalhada geral dos professores e do público e eu, muito envergonhada, lá procurei fazer melhor figura com o reinado de D. Manuel I.

 

            E, como na terceira classe, fui aprovada com distinção.

 

            Aqui há dias ouvi dizer que ia deixar de haver escola na minha aldeia por lá não haver meninos. E foi então que me acudiram à memória todas estas recordações, e apesar de todos os progressos destes tempos modernos, chorei – por dentro – por aquela escolinha tão pobre mas onde se aprendia tão bem que, quando já andava no quarto ano de Liceu, não resisti ao impulso de escrever uma carta à minha tia, a agradecer-lhe tudo o que me tinha ensinado e que ainda me valia nessa fase já adiantada dos meus estudos.

Boa noite, até breve!

 

publicado por clay às 00:12 | link do post | comentar | favorito
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