Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 26.09.07

                                                

            Meus queridos Netos:

 

            Um dos grandes prazeres da minha vida, bastas vezes repetido, tem sido viajar. Infelizmente tenho-o feito sobretudo através de excursões, organizadas por Agências, mas também tive o privilégio de passar mais demoradamente por algumas cidades.

 

            Não é minha intenção maçar-vos com descrições de sítios, aliás lindíssimos, que conheci, pois para isso existem não só livros específicos como, actualmente, milhentas páginas na Internet com informações, fotografias e tudo o mais que se possa desejar.

 

            Limitar-me-ei a dar-vos conta de emoções por mim sentidas e sempre partilhadas pelo Vôvô.

 

            Não seguirei rigorosamente a ordem cronológica, mas procurarei dar-vos uma ideia de como, na medida das nossas limitadas possibilidades financeiras, procurámos fazer, das viagens pelo mundo, uma fonte de prazer e de conhecimento.

 

            Assim, tirando o mês que, graças a uma bolsa de Faculdade, passei em Pau e na região em que esta cidade está inserida, os Pirinéus, a primeira viagem que fiz foi a Madrid, pouco tempo depois do meu casamento com o Vôvô, para a nossa Lua de Mel. Aí visitámos museus e alguns locais de diversão, mas o que mais me impressionou, isto em 1958, foi o movimento nas ruas, cheias de gente quase até amanhecer. Fizemos um “Madrid à noite” e quando, por volta das seis da manhã, regressámos ao hotel, parecia que ninguém dormia naquela cidade.

 

            Depois fomos para Angola, onde eu fiquei cerca de dezassete anos – o Vôvô já lá tinha passado quatro, antes de me conhecer. Ao regressarmos de férias a Portugal, ao fim de sete anos, e como o Zé António só tinha cinco anos, feitos a bordo do navio que nos trouxe e o Quim ainda ia a caminho dos quatro, deixámo-los com os Bisavós de Portalegre que, com a ajuda de uma ama, não os deixaram sentir muito a nossa ausência de apenas oito dias, em que participámos numa excursão a Londres e à Holanda.

 

Londres foi um festival de surpresas, desde a arquitectura aos parques, do British Museum às lojas e à educação das pessoas. Amesterdão, se por um lado me chocou pela liberdade dos costumes, tão diferentes dos que conhecia, por outro deliciou-me comos seus canais, as suas flores, o Rijksmuseum e o “tour” que fizemos pelo país, por Haia, Volendam, Roterdão, etc.

 

Na segunda vinda a Lisboa, no que então se chamava a licença graciosa, os vossos Pais tiveram de ir para um colégio interno para não perderem um ano dos seus estudos, o que sucederia se fossem para o ensino oficial. As nossas viagens nesse ano, consistiram nas frequentes idas a Tondela, para visitar os nossos filhos. Lembro-me bem de que o nosso carro novo fez dezoito mil quilómetros só nessas férias. Na Páscoa fomos buscá-los ao colégio e fizemos um grande passeio em que percorremos Portugal do Algarve ao Minho com uma incursão na Galiza onde, em Santiago de Compostela, todos nos deslumbrámos com a Catedral, as sua cerimónias e o característico “bota-fumeiro”, pendurado da cúpula e puxado através de cordas por vários acólitos, que o balançavam de um lado para o outro da enorme nave do templo, espalhando o fumo do incenso que se consumia em louvor a Deus.

 

No entanto, depois de passarmos um mês em Portalegre, todos juntos, em Agosto fui fazer um Curso de aperfeiçoamento do Francês a Tours.. O Vôvô também se matriculou num nível menos avançado. Eu tirei grande proveito das aulas e conferências e ambos nos deslumbrámos com a visita a vários dos célebres Castelos do Loire e à Catedral de Chartres. Acabado o mês do Curso, partimos para Paris, cidade que só o Vôvô conhecia e aí passámos quinze dias repletos de visitas a museus, idas a espectáculos quase diariamente e contacto com os franceses que me pareceram pouco simpáticos, impressão que várias vezes confirmei, sem negar as excepções, claro.

 

Foi durante esta viagem que o Vôvô fez quarenta anos, festejados num acolhedor restaurante no Bois de Bologne. No regresso passámos por Bayonne, onde passámos alguns dias com a Milú e a família e com eles demos belos passeios.

 

De Angola, só regressámos a Portugal, em novo gozo de férias, em 1975, já depois do 25 de Abril, mas quando ainda julgávamos possível continuar a trabalhar naquela ex-colónia, onde ultimamente desempenhava a função de professora metodóloga, já com dirigentes angolanos no Ministério da Educação.

 

Durante essas férias, de apenas dois meses, fomos os quatro numa excursão a Londres e Escócia. O Quim, nessa altura com catorze anos, fez um diário desse passeio que ainda conservo, e que, se quiserem, um dia podem ler. Visitámos muitos museus e monumentos, conhecemos cidades muito diferentes mas cheias de interesse e beleza: Oxford, York, Edimburg, entre outras.

 

Em 1978 fizemos um circuito de doze dias pela Itália: fiquei apaixonada por Florença, pelo seu céu, pelo rio Arno e por incontáveis obras de arte nos museus e nas ruas. Admirei a grandeza e a riqueza do Vaticano e do seu museu, Capri encantou-me pela sua situação e o seu ambiente incomparável, subi – fui a única pessoa da excursão – à Torre de Pisa, recolhi-me em oração, em Assis, andei de gôndola em Veneza, mas o momento de maior emoção, experimentei-o, nesta cidade, na varanda da Catedral de S. Marcos, junto à quadriga e perante a grandiosidade e harmonia da praça fronteira.

 

 E aconteceu até que fui a Roma e vi o Papa, mas numa situação inesperada e rara. Passo a contar como foi: Setembro de 1978. Quando tomávamos o pequeno-almoço no hotel, aguardando o momento de ir receber a bênção papal, que fazia parte do programa da excursão, entrou na sala o nosso Guia que, com um ar um pouco alvoraçado, disse mais ou menos o seguinte: “minhas senhoras e meus senhores, já não há visita ao Papa porque ele morreu esta noite”. Pensámos que seria uma gracinha de mau gosto, porque o Papa João Paulo I tinha subido à Cadeira de S. Pedro apenas há cerca de um mês. Mas era verdade e não haveria, de facto, bênção papal. Fomos aconselhados a ir visitar a Basílica, cujas capelas laterais, incluindo aquela em que se expõe a famosa Pietá, iriam ser vedadas pelos crepes de luto. Assim fizemos e, após o almoço, corremos para o Vaticano, onde uma imensa mole de gente se acumulava já. Tivemos muitas dificuldades, a agitação era enorme e quase fui esmagada contra o gradeamento. Quando abriram as portas da Catedral, lá conseguimos entrar na fila e, vagarosamente, fomos avançando até chegar junto da essa onde fora colocado o corpo do Sumo Pontífice. E foi assim que vimos o Papa, mas morto. O Vôvô ainda conseguiu tirar duas fotografias sem flash.

 

Hoje fico por aqui. Prometo voltar e continuar a falar das minhas viagens.

 

Beijinhos da Vóvó

 

publicado por clay às 14:29 | link do post | comentar | favorito
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