Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 17.10.07

            Meus queridos Netos:

 

 

            Quando o meu Pai e a minha Mãe planearam o meu futuro – o futuro nunca se pode planear pois é cheio de imprevistos ou como diz o ditado: “…a Deus pertence”, decidiram como já disse, que eu iria fazer o Curso Geral de Comércio o qual, em quatro anos com aproveitamento, nos dava possibilidade de nos tornarmos funcionários médios, no Estado ou Empresas Privadas.

 

            Assim, pensaram eles. Empregar-me-ia e ajudaria a pagar os estudos da minha irmã, mais nova do que eu quatro anos precisamente. Mas, ao contrário de mim, a Maria Alice, embora inteligente, nunca gostou de estudar. E, sem grande vontade, aceitou ir para Lisboa mas para tirar, como a minha Madrinha, um Curso de Corte e Costura.

 

            Sem entusiasmo e cheia de saudades dos Pais, só aguentou um ano em casa de meu Tio. Regressou à nossa aldeia, onde se sentia bem e era muito estimada e onde só nos encontrávamos nas férias grandes, claro. Éramos e ainda somos muito amigas mas tivemos vidas muito diferentes: eu corri meio mundo – Lisboa, Açores, Angola, Moçambique, S. Tomé, novamente Lisboa, depois outra vez Açores e Lisboa sempre em trabalho, enquanto ela ficou muitos anos na aldeia onde casou com um rapaz duma freguesia próxima para onde foi morar passados uns anos e onde teve os seus quatro filhos. De lá só saiu para o Porto, quando foi ao casamento do seu filho mais velho, o Carlos, para o casamento da Minda e, infelizmente, depois muito frequentemente por causa da gravíssima doença que a atingiu há alguns anos.

 

            Em Távora, era essa a terra do marido, este tinha muitas propriedades herdadas do Pai e tornaram-se agricultores prósperos, pois cultivavam muitas árvores de fruto, principalmente videiras e cerejeiras. Tiveram de trabalhar muito: ela na lida da casa e a criar os filhos e ele no campo muitas vezes para evitar contratar mais um jornaleiro, fazendo o trabalho deste. Mas aumentaram as suas propriedades e agora, já com idade avançada, têm a ajuda do filho mais novo, o único que também escolheu a agricultura e a vida da aldeia, e da nora que muito os estima.

 

            E assim se explica que eu tenha continuado a estudar: ao acabar o Curso Comercial: como os estudos da minha irmã estavam definitivamente postos de parte e, como os meus professores insistiam em que eu fosse fazer o Curso de Letras, para o qual me achavam grande vocação, eu atirei-me ao estudo e nunca mais parei.

 

            Quando acabei o curso, concorri para o ensino pois, de facto, a minha vocação era ser professora.

 

            Já tinha leccionado, no ano dedicado à elaboração da minha tese de licenciatura, “Fialho de Almeida e as Artes Plásticas”, num colégio particular que então havia em Almada, tendo de fazer todas as manhãs a travessia do Tejo num cacilheiro. Mas ficava com a tarde em grande parte livre para os meus estudos.

 

            O meu professor Doutor Jacinto Prado Coelho prometeu-me a primeira vaga de assistente quer houvesse na Faculdade. Como estas vagas eram raras, tive de me candidatar ao ensino secundário. Mas, como o grande concurso era em Maio e nós só obtínhamos a licenciatura em Julho, poucos lugares nos restavam. A mim, apesar da minha alta classificação, ofereceram-me um lugar de professora de Inglês no Norte ou dar aulas nocturnas numa Escola Técnica. Pus de lado ambas as hipóteses até porque, entretanto, uma pessoa amiga conseguiu saber no Ministério que havia vaga para uma professora de Francês no Liceu Antero de Quental, em S. Miguel nos Açores. Esse ano lectivo, de que ainda falarei, considero-o como um ano de férias maravilhosas, apesar de ter muitas turmas e, além do mais, tratando-se de uma principiante, ter tido sempre muito trabalho, com a preparação das aulas, pois da Faculdade saía-se com conhecimentos meramente teóricos.

 

            Apesar da inesquecível experiência dos Açores, no ano seguinte não resisti à tentação de Lisboa e fui dar aulas no Liceu Maria Amália, onde fiquei três anos agradáveis até conhecer o Vôvô, casarmos e irmos para Angola.

 

            Como chegámos em Fevereiro e ainda para mais eu estava no quarto mês de gravidez do meu primeiro filho, só fui trabalhar para o Liceu Paulo Dias de Novais, de Luanda, em Outubro, e só durante um ano, em que nasceu o Zé António, pai do Zézinho. Tinha ele oito dias quando fomos com o Vôvô para a Caála, uma pequena cidade perto do Huambo, e, durante dois anos, fui professora de Português do terceiro ciclo no Liceu de Nova Lisboa, hoje Huambo. Aí ficámos dois anos e foi lá que nasceu o Quim, pai da Cristina. O Liceu ficava a vinte quilómetros, em óptima estrada alcatroada, quase toda ela uma recta. Apressei-me a tirar a carta de condução e lá ia eu todos os dias com uma colega de matemática a quem dava boleia. As aulas decorreram sempre na normalidade.

 

            Tirando os sobressaltos da guerra que irão constar de outra carta, a nossa vida decorreu pacífica e agradável, a ver crescer os dois bebés naquele clima de planalto, tão saudável. Tínhamos muitos amigos, em particular um casal da nossa idade e com um filho da idade dos nossos, com o qual dávamos grandes passeios, naquele imenso planalto, por vezes com mais de dois mil metros de altitude. O Monte Moco, por exemplo, atinge dois mil e seiscentos metros.

 

            Mas não era preciso ir muito longe para apreciar paisagens deslumbrantes. Basta dizer que na Primavera os campos ficavam esmaltados de cosmos vermelhos, brancos, cor-de-rosa, amarelos, numa paleta de cores como nunca mais encontrei.

 

            Mas passados esses dois anos fomos para Luanda, onde o Vôvô foi ocupar um cargo nas Obras Públicas e eu fui leccionar para o Liceu Salvador Correia, onde fiz o estágio e fui professora metodóloga durante alguns anos. Nessa qualidade e com outros colegas, fui por duas vezes a Moçambique integrar o júri nacional de exames e, muito bem recebidos, tivemos o privilégio de nos mostrarem algumas belas paisagens e também os hipopótamos, em plena liberdade, no Rio Limpopo.

 

            Ainda em Angola, acompanhei um grupo de jovens estudantes a S. Tomé, ilha que ficou gravada na minha memória, desde a magnífica Baía de Ana Chaves, onde a capital está implantada, até às roças de cacau, com as suas típicas casas coloniais ricas e enormes, mergulhadas no verde da vegetação luxuriosa e todas com praias lindíssimas, como a célebre Praia das Sete Ondas.

 

            Os dezassete anos de Angola foram cheios de peripécias mas, no conjunto, foram anos felizes. Como vos disse numa carta anterior, escreverei, lá mais para diante, algumas cartas dedicadas à vida dos vossos pais e dos vossos avós nessas terras de gente maravilhosa.

 

            Chegou então a época da descolonização e, como já disse, quase todos os portugueses e muitos africanos naturais das antigas colónias vieram para Portugal com o impróprio nome de “Retornados”, embora a grande maioria, mesmo portugueses, nunca tivesse estado em Portugal.

 

            Em Lisboa, onde nos fixámos, tivemos de criar novamente, a pouco e pouco, um novo lar. Alugámos então, por sorte e por intermédio de uma amiga, um apartamento que tinha vagado na parte da manhã. Mas, como corriam boatos de que essas casas eram logo ocupadas ilegalmente de noite, como garantia, fomos dormir lá nesse mesma noite, e no chão, porque, quanto a mobílias, durante alguns dias, “desfrutámos” apenas de uma cadeira e de uma mesinha de jogo cedidas amavelmente por uma vizinha de outro andar!

 

            Passados cinco anos, já os filhos andavam na Faculdade, partimos para os Açores, mais exactamente para Angra do Heroísmo, onde o Vôvô foi exercer um cargo num organismo estatal criado especialmente para proceder à reconstrução das ilhas mais devastadas pelo grande terramoto que ocorreu naquela Região Autónoma em 1980. E eu fui fazer formação profissional de professores para a Secretaria Regional de Educação, o que, além do mais, me permitiu percorrer as ilhas todas e ficar a conhecer bem o Arquipélago, até melhor do que muitos açorianos

 

            Cerca de cinco anos depois, em 1985, regressámos definitivamente a Lisboa. E desses cinco maravilhosos anos de trabalho nos Açores há tanta coisa interessante para contar, que prometo retomar o fio da meada numa próxima carta.

 

Até breve. Beijinhos.

 

           

 

           

publicado por clay às 18:24 | link do post | comentar | favorito
paisagemviva2 a 26 de Outubro de 2007 às 16:04
Parece que têm tido uma vida espectacular, apesar das dificuldades que provavelmente passaram, ainda assim deve ter sido muito enriquecedora e têm muita coisa a ensinar aos mais novos.
Muita saúde e felicidade

Paisagemviva
Hilário Godinho a 23 de Maio de 2008 às 16:50
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