Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 28.10.07

                     

Meus queridos netos:

 

Como a neta Cristina já sabe, o Vôvô gosta de contar histórias verdadeiras. Por vezes põe-lhes um bocadinho de pó de arroz e umas verduras, para ficarem mais apelativas, mas, no fundo, são mesmo verdadeiras, e algumas até passadas com ele próprio.

 

Hoje vou transcrever aqui uma dessas histórias que ele escreveu e viveu, com o título que encima esta carta. Começa assim:

                        150 QUILOS DE ALEGRIA

 

Era uma vez, em Angola, numa terra linda, à beira de um grande rio, um dos maiores do Mundo, chamado Zaire, mais conhecido hoje por Rio Congo. Como cidade, tinha dimensões reduzidas, com uma única rua, onde ficava a minha casa, que era enorme, com muitas portas e janelas para deixarem entrar o ar fresco, mas protegidas com uma fina rede plástica para barrar a entrada de furiosos mosquitos que, mal o sol se punha, formavam verdadeiros exércitos.

 

Um belo dia, já tarde, quando me preparava para descansar, chegou ao meu conhecimento que os cipaios (guardas) sob o meu comando tinham detectado no rio uma piroga carregada de contrabando a caminho do Congo Belga, hoje denominada República Democrática do Congo, que ficava a montante. Como, propriamente, não era assunto da minha competência, mas sim do chefe da Alfândega local, mandei-o chamar à minha presença para se tomarem medidas. Mas disseram-me que ele se ausentara há já vários dias. Então dirigi-me à sua casa, que ficava no outro extremo da longa rua, a fim de perguntar à esposa para onde tinha ido o marido e quando regressaria.

 

Cabe aqui dizer que o alfandegário se chamava Sr. Palito, Jorge Palito, e que a senhora dele era a Dona Delfina Palito, uma pessoa fenomenalmente obesa, pelo que era conhecida nos meios mais chocarreiros do sítio como Dona Delgrossa Palito. E como eles tinham razão, pois a senhora era mesmo muito gorda. Ela não dizia o peso, mas dizia-se, à boca pequena, que rondava os 150 quilos!

 

Quando conheci pela primeira vez o Sr. Palito, até julguei que também era uma alcunha, porque o homem, ao contrário da mulher, era magríssimo. Como os habitantes angolanos menos cultos, os então chamados “indígenas”, o tratavam por sr. Paulito, convenci-me de que o nome dele era Paulo, e foi assim que o tratei da primeira vez. Mas ele foi rápido dizendo-me: “Palito, meu caro senhor, Palito!”, enquanto, em posição de sentido, batia com os tacões dos sapatos um no outro produzindo um forte som surdo, à maneira militar, embora ele o não fosse. “Desculpe-me sr. Palito”, emendei eu logo a seguir, mas medindo de alto a baixo toda aquela magreza!

 

O meu primeiro encontro com a Dona Delfina foi diferente. Deu-se no baile do clube, A senhora, toda vestida de seda preta, com um grande leque de rendas da mesma cor, abanava-se a si própria e às bandas do vestido, comprido até ao chão,ocultando os pés, pelo que parecia deslizar vagarosamente pela sala, esvoaçando. Lembrei-me repentinamente de certos entes estranhos que vira uma vez no cinema num documentário sobre a vida nas profundezas dos oceanos! Mas, quando ma apresentaram, daquela mole de carne destacou-se uma face gorda sim, mas simpática, muito risonha, com dentes muito brancos a luzir. E eu pensei, ora ali estavam cento e cinquenta quilos de alegria. E senti-lhe grande sinceridade quando ela disse: “Bem-vindo a esta terra perdida, que hoje ficou mais rica com a sua juventude. Tenho pena de não poder apresentar-lhe a nossa bela filha, que deve andar pela sua idade, mas está em Luanda a estudar”.

 

 Nesse tempo eu tinha apenas vinte e sete anos e ainda era solteiro, pelo que também fiquei com pena...

 

Posto isto à laia de intróito, voltemos ao terreno da história.

 

Chegado à casa do sr. Palito, um edifício muito antigo em ferro e madeira, com uma porta amarela, do tempo do Norton de Matos, seguido por uma dúzia de “indígenas” curiosos, preparava-me para dar uns toques na porta amarela, quando um deles me diz: “Patlão, gente já bateu. Siôraglita memo, não able. “Não abre?” disse eu e perguntei: “E o Sr, Palito onde está?” “Não tem siôr Paulito, sim siôr”.

 

Já pensando no pior, pois naquele tempo, de dia, ninguém tinha as portas fechadas, bati duas vezes com os nós dos dedos. De dentro veio a voz aflita de Dona Delfina: “Acudam-me!”.  Respondi logo: “Sou eu D. Delfina, abra a porta”. “Não posso!”. “Não pode porque?” “Não chego lá!” “Então vamos ter de a arrombar” “Não, não façam isso”. “Porque?” Resposta imediata e aflita: “Ai o roupão, o roupão!”

 

Parei alguns segundos a pensar naquelas respostas sem sentido e prossegui: “O Sr. Palito está aí?” "Não, tenho muita sede, quero água!", respondeu ela. “E o seu marido para onde foi?” “Há três dias e três noites que não estou com ele.”

 

Nisto chega ao pé de mim o Felício Maiombe, meu ajudante. Disse-lhe: Aqui há gato, Felício! Temos de arrombar a porta já. Vai à carrinha e trás de lá a marreta. Dona Delfina, lá dentro, ouviu e desatou numa berrarria infernal: “Não, não, por amor de Deus! O roupão! O roupão!”.

 

Pensei: Que mistério será este? A senhora deve estar amarrada do pés à cabeça para não poder abrir a porta. O marido não está com ela há três dias e três noites por isso ela está cheia de sede e de fome. Mas o roupão, o que quererá ela dizer com o malfadado roupão? Ou estará ela doida?

 

O Felício chegou com a marreta. Bastou uma pancada e a porta já carunchosa abriu-se logo. Com o barulho a senhora lá dentro gritava cada vez mais: “Não! não! não venham!”

 

 O que se estaria a passar? É o que vamos já saber, após um pequeno intervalo para a

 

 

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Eu e o Felício avançámos a correr e vimos, pelos ruídos, que a senhora devia estar na casa de banho. Para lá nos dirigimos e eu, fazendo sinal ao Felício para parar, fui espreitar de mansinho e, com um certo pudor, espreitei pela porta semiaberta e vi... Oh, meu Deus, o que vi eu? um monte de carne viva a tremer. Era a Dona Delfina estatelada no chão completamente despida. Escancarei a porta e por detrás dela, num cabide, lá estava o famoso roupão. Peguei nele e atirei-o para cima da Delfina que num suspiro só disse “obrigada!”. Mas porque não se levantava ela do chão? Oh! Maldição, coitada da senhora, era tão gorda, tão gorda, que só conseguia erguer-se com o auxílio de alguém possante! E estava aquela boa alma estendida no chão, há três dias e três noites, sem comer, nem beber, completamente despida a ser mordida por milhares de mosquitos esfomeados! Se fosse num país frio não resistiria!

 

“Felício, anda cá ajudar”. Mas qual quê, nós dois, com o maior cuidado para não destapar a senhora, não conseguíamos sequer movê-la. “Felício, vai lá fora e traz contigo o preto mais matulão que encontrares”. E assim foi.

Com muito esforço, os três, lá pusemos a pobre de pé. Amparada, caminhou com muita dificuldade até ao quarto e deitou-se com um grande suspiro.

 

Nisto, nem de propósito, chega o Sr. Palito que logo tomou conta da ocorrência. E eu, baixinho, disse ao ouvido do Felício: “Pronto, vamos embora, agora que chegou o lingrinhas, o assunto é com ele”.

 

Cá fora, os cipaios esperava-nos e diziam: “Senhor, os contrabandistas já fugiram pelo rio acima!” Mas que dia, hein!

 

                                                           FIM

 

Beijinhos e até à próxima.

 

 

 

publicado por clay às 01:11 | link do post | comentar | favorito
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