Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 20.11.07
 

            Meus queridos netos:

 

         Nunca na minha vida fiz nada extraordinário. Mas, nas tarefas da vida quotidiana espero, com a ajuda de Deus, ter posto todo o empenho e dedicação de que fui capaz e penso tê-las levado a bom termo.

 

         Assim sucedeu nos meus estudos, de que já vos falei noutra carta, como no aperfeiçoamento da minha vida profissional, às vezes com bastante sacrifício como vereis.

 

         Quando acabei o curso da Faculdade, a melhor entre quarenta, dois caminhos se abriam à minha frente: aguardar que vagasse um lugar para professora assistente, conforme me tinha prometido o meu saudoso Professor Doutor Jacinto do Prado Coelho ou fazer o estágio pedagógico para seguir a carreira docente, minha primeira aspiração.

 

         Já sabem que a primeira via se mostrou sempre inacessível para mim, sobretudo porque decidi casar e ir viver com o Vôvô para Angola e aí constituir família.

 

         Quanto ao estágio, nessa altura, era extremamente difícil, não só o ser admitida como os dois anos em que tínhamos de trabalhar numa Escola, sem qualquer remuneração o que, desde logo, me afastava dessa hipótese que não garantia a minha subsistência e seria demasiado difícil para os meus Pais sustentar-me.

 

         Além disso, só havia dois centros de estágio: um em Lisboa e outro em Coimbra, cada um deles com apenas duas vagas. Os exames de admissão eram muito difíceis e tinham a agravante de, ainda que tivéssemos nota positiva ou mesmo boa, se a dos outros concorrentes fosse superior à nossa, só o melhor é que entrava e ao segundo de nada lhe valia o exame pois, além de não ser admitido na única vaga que havia, teria de repetir o exame até conseguir ser o melhor.

 

            Para o que tinha sorte de entrar, ficava durante dois anos lectivos a dar aulas, quer sob a orientação dum professor categorizado e com muita prática, quer como único responsável de algumas turmas, mas sempre sujeito à intervenção do metodólogo que assistia à aula e fazia as suas críticas. Uma vez feito o estágio com êxito, era-lhe conferida a categoria de professor agregado, que, embora parcamente remunerado, nada recebia durante as férias grandes e, em certos grupos, eternizava-se nessa situação por muitos anos.

 

         Ora, como no ano anterior em que eu devia candidatar-me ao estágio vi a melhor aluna desse ano, que tinha concluído a Faculdade com dezassete valores, como eu, ter tido doze no exame de admissão e ser suplantada por outra colega que teve catorze valores, senti-me completamente desmoralizada para me arriscar nessa aventura, tão difícil de todos os pontos de vista.

 

         Fui então dar aulas para o Liceu Antero de Quental, em S. Miguel e ali fiquei um ano maravilhoso de que já vos fiz um relato entusiasta. Depois vim para Lisboa, para o Liceu Maria Amália, durante três anos, até me casar com o Vôvô, em 1958 e ter ido para Angola. Das vicissitudes que lá passei e também das alegrias – já têm notícia.

 

         Quando fui para Luanda, como professora do Liceu Salvador Correia, sempre me distribuíram turmas do terceiro ciclo, que me davam muito trabalho a preparar até ficarem a meu gosto: rigorosas nos conteúdos e motivadoras na forma para os alunos. Nem sempre o devo ter conseguido, mas posso dizer que era uma professora respeitada e apreciada por todos.

 

         A dada altura fui convidada para exercer um cargo na Mocidade Portuguesa Feminina e a minha primeira resposta ao convite foi não, porque eu nunca tinha tido da M.P. mais do que um pin com um número e quando, ao terminar o Liceu com uma média que ultrapassava em muito os catorze valores exigidos para ser admitida num Lar da Organização, foi-me dada uma resposta rotundamente negativa, com a alegação de que eu não era filiada na M.P.

 

         Dito não, fui para casa a pensar se esta não seria uma vingança mesquinha, e dei o dito por não dito, até porque me interessava muito o trabalho com as raparigas angolanas pobres que na Casa de Trabalho da M.P.F. em Luanda, aprendiam a cozinhar, a tratar dos seus bebés, a costurar, etc. Esse já era um acréscimo de trabalho extenuante e que, além de não ser remunerado, até me saía caro porque tinha de pagar do meu bolso a gasolina para as deslocações. Tais funções também me obrigavam a deslocar-me frequentemente de avião pelo extenso território angolano para supervisionar os Lares distritais e, com as habituais aulas do Liceu, o meu sacrifício aumentou e a minha saúde estava à beira do colapso. É preciso não esquecer que, entretanto, eu tinha tido um filho que morreu à nascença, os meus dois filhos Zé António e Joaquim Manuel e ainda um aborto acidental de quatro meses, penso que motivado por grandes aflições devido a uma doença mental de minha Mãe que vivia connosco em Luanda, por essa altura.

 

         Embora procurasse dar toda a atenção aos meus dois filhos, cuidando deles, ajudando-os nos estudos e levando-os connosco em passeios e viagens, ao cinema, às aulas de natação, valeu-me de muito ter uma empregada, a Luísa, que foi o meu braço direito em relação a eles.

 

         Entretanto, foi promulgada uma lei que abria o estágio para cerca de trezentas vagas e num regime muito mais facilitado. Para o fazer, como era meu grande desejo, tive de vir sozinha para Lisboa e fui dar aulas para o Liceu Pedro Nunes. Alojei-me na Casa de Santa Zita, que era perto, mas doía-me a alma por estar longe dos meus filhos e marido. Até que a corda rebentou: eu chorava a todo o momento, tive de abandonar as aulas e fui fazer uma cura de sono em Belas, onde tive a sorte de encontrar um médico sabedor e paternal, que levou a sua abnegação a tratar-me de Lisboa, por correspondência, durante o tempo todo do meu estágio. Do meu estágio? Sim, eu não fui capaz de continuar em Lisboa, mas, entretanto, tinha sido aberto o estágio em Luanda e, com muito apoio do Vôvô, decidi levar ao fim essa tarefa, sem o êxito do qual ficaria para sempre frustrada. Foi um esforço enorme: quando a maioria das minhas colegas o acabavam arrasadas por um esgotamento nervoso, eu comecei-o já doente e a tomar um punhado de remédios que o médico de Belas ia controlando à distância.

 

         E assim, ajudada pelo Vôvô que me passava todos os meus trabalhos à máquina e me levava ao fim da tarde, com os filhos, até à ponta da Ilha de Luanda onde recuperava paz e força para continuar, lá concluí o meu estágio com a melhor nota dos oito concorrentes e fui logo convidada para Metodóloga de Francês. Para poupar um pouco a saúde, recusei terminantemente acumular essas funções com o lugar na M.P.F. que, tendo ficado à minha espera, nunca voltou a ser preenchido.

 

         Mal acabei o estágio vim com o Vôvô e os dois filhos passar férias a Portugal. Aconteceu então que, dado a minha saúde não me permitir instalar-me em Portalegre para ajudar a Bisavó na tarefa de tomar conta dos rapazes, e para que não perdessem o ano, resolvemos inscrevê-los no Colégio de Tondela, de que tínhamos muito boas referências e onde o Quim fez a quarta classe e o Zé o primeiro ano do ciclo. Durante os seis meses que estiveram no Colégio, nós íamos, mais do que uma vez por mês, visitá-los e levar-lhes mimos e, nas férias da Páscoa, como já contei numa carta anterior, demos praticamente com eles a volta a Portugal e à Galiza. Só nessas férias, o nosso carro novo fez mais de dezoito mil quilómetros.

 

         Embora me tenha custado muito esta separação, olhando para as circunstâncias e para dentro de mim, não acho que tenha sido egoísta. Tanto o Vôvô como eu, fizemos o que nos pareceu ser melhor para todos: para eles que não perdiam o ano, para os seus Avós que já não estavam em idade de ter tanta balbúrdia em sua casa e para mim, que assim pude recuperar as minhas forças e ir retomar, em Luanda, o meu lugar de Metodóloga, que desempenhei até ao fim do ano lectivo de 1976, quando os meus estagiários ficaram com as habilitações que lhes permitiram concorrer a professores efectivos em Portugal, para onde todos viemos, fugindo dos horrores da guerra.

 

Até breve. Beijinhos da Vóvó.

 

publicado por clay às 16:35 | link do post | favorito

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