Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 27.11.07

 

  

 Meus queridos netos:

 

 

Cá estou eu a continuar a narrativa do meu ano lectivo nos Açores. Já falei dos professores. Hoje vou falar dos alunos que, literalmente, me calharam em sorte.

Já referi as informações alarmantes (e deprimentes) que recebi da colega que, no dizer dela, tinha apanhado uma depressão por causa daquela gente e do capacete climático da Ilha.

Pois uma das primeiras turmas a que fui dar aulas tinha-a tido como professora no ano anterior. Ao entrar na sala, foi com um espanto contido que deparei com um grande cão, de pêlo amarelo, com peladas e tão magro que se lhe podiam contar os ossos.

Olhando para a turma com toda a severidade que consegui arranjar, perguntei, com aparente calma

- Quem é que teve o atrevimento de trazer este cão sarnoso para a minha sala de aula?

Resposta imediata e quase em coro:

- Ó Sra. Dra., este cão assistiu a todas as aulas durante o passado ano lectivo.

Ocorreu-me uma resposta pronta que deixou toda a turma sem fala:

- Ah! Sim? Pois fiquem sabendo que eu já ensinei alguns burros, mas cães é que não tenciono ensinar. Levem já o bicho daqui para fora!

Lá foi o cão para a rua e tudo se apaziguou mas, passados dois ou três dias, assistia-se, na aula, à seguinte cena:

- Ó Pedro, empresta-me aí a borracha – dizia alguém em voz alta.

E logo a borracha rasava a cabeça dalguns alunos e ia cair perto daquele que a tinha pedido

Nesse dia, limitei-me a dizer:

- Mas que educação é essa? Lá em casa é assim que passam o pão, quando alguém vo-lo pede? Comigo não. Que não torne a acontecer!

Aborrecida com os sucessivos abusos, resolvi investigar junto dos próprios alunos, numa conversa amena, qual a razão de tais comportamentos, tanto mais que esta, uma turma do então quarto ano, só de rapazes, era a única a dar-me problemas. Disseram-me que a professora do ano anterior, muito míope, só conseguia ver as duas primeiras filas de carteiras. Para além delas, cada um podia fazer o que quisesse pois nunca ninguém era repreendido. E achavam que a referida professora nunca tinha dado pela presença do cão, tão assíduo às suas aulas e nem pela movimentação com que alguns alunos, agarrados à respectiva carteira, levavam a cabo para se deslocarem dum para outro lado da sala. Pediram-me desculpa e juraram que as brincadeiras não se repetiriam, o que cumpriram escrupulosamente talvez, também, por terem visto que eu estava ali para ensinar e não para meter na ordem adolescentes mal-educados.

Foi apenas esta turma que me deu estas passageiras preocupações, porque as restantes oito ou nove foram, desde o primeiro dia, encantadoras comigo, não só nos estudos como no trato.

E em breve chegou o dia 11 de Março, dia dos meus anos. Qual não foi o meu espanto e emoção quando, ao entrar em cada sala de aula, em todas, sem excepção, encontrei a minha secretária debruada a flores: camélias, azáleas e folhagens. Em quase todas me aguardava uma prenda: um livro, um alfinete de malaquite, um colar de fantasia e, isso sim em todas, um poema no género deste, da autoria das meninas do IV B:

 

Não queríamos deixar

Neste dia tão ditoso

De lhe virmos augurar

Um futuro venturoso

 

O dia 11 de Março

É dia que não se esquece.

Deus lhe dê muitas venturas,

A felicidade que merece.

 

Dedicamos-lhe estes versos

Do fundo do coração.

Apesar de pobrezinhos,

Revelam nossa afeição.

 

Escritos num papel a imitar pergaminho, assinado, no verso, pelas trinta e seis alunas da turma.

Ora sucedeu que a Manuela fez anos poucos dias depois e teve manifestações semelhantes. Até a turma de Físico-Químicas do VI ano, que muito trabalho lhe deu, porque ela, que nunca tinha leccionado, preparava exaustivamente as aulas, sobretudo as aulas práticas (às vezes com a ajuda da Dra. Maria Emília) lhe ofereceu um carro de bois e a respectiva parelha de que o puxava, muito bem trabalhado em madeira de faia. Só não recebeu tantos poemas como eu, talvez por os seus alunos, de Ciências, não terem tanta queda para a poesia.

Ambas ficámos muito impressionadas, mas partimos do princípio que era um hábito naquele Liceu. Mas não. E qual não foi o nosso espanto quando vários professores e o próprio Reitor, o Dr. João Anglin pediram aos nossos alunos que, com todo aquele material, organizassem um Sarau, no palco do Ginásio. Os alunos encarregaram de elaborar o programa e coordenar a sessão as alunas da turma do IV A, que, no convite, tiveram a delicadeza de escrever uma dedicatória mais abrangente: «Homenagem aos Excelentíssimos Professores».

 Como eu leccionava quase exclusivamente Francês, duas rubricas eram nesta língua. Eis o programa:

 

1 – Anecdote – Por Guida e Ana Cristina, um pequeno sketch humorístico da sua autoria.

 

2 - «Fermosíssima Maria»- extraído d’Os Lusíadas, por Ana Cristina e Teresa Almeida.

 

3 - «Une singulière consultation», por Aurora e Filomena da Luz, fragmento da peça «O Doutor Knock ou o triunfo da medicina» de Jules Romain, ensaiado pala Dra. Clementina.

 

E uma segunda parte, em que vários alunos interpretavam canções regionais. Em tudo puseram o maior esmero, inclusivamente na decoração, com muitas e variadas flores, do cenário onde apresentaram as suas produções.

Todos os professores do Liceu assistiram, sentados nas primeiras filas e, atrás deles, os meus alunos e os da Manuela, que quase esgotaram a lotação, com muita pena de colegas doutras turmas.

Que bom ser professor de tais alunos!

Disseram-nos, a brincar, que era para nos pagarem da «colaboração» no Carnaval. Quando este já estava próximo, surpreendi alguns alunos com uma espécie de limas verdes nas mãos. Perguntei-lhes o que estavam a fazer e responderam-me que eram limas de cera, para brincar ao Carnaval. Que já tinham dúzias delas cada um, pois a festança era uma verdadeira batalha, não de flores mas de água. Além das limas cheias desse líquido e que se esborrachavam, molhando tudo e todos e eram em tão grande número que, no dia seguinte, quase não se podia transitar nas ruas, escorregadias da cera, saíram do Liceu com uma camioneta de carga, em cuja caixa aberta levavam muitos baldes de água para despejar em cima de quem lhes aprouvesse. E ninguém levava a mal, mesmo os que não se dispunham a calçar galochas e a vestir capas de borracha. Nós escapámos ao «banho» porque, previamente avisadas por colegas, ficámos a ver o «filme» duma janela da nossa pensão, num andar alto, onde estávamos a bom recato.

            Muito mais teria para contar: passeios que os alunos nos proporcionaram, por exemplo, a uma fábrica de óleo de baleia (que cheiro horrível!) ou mimos que nos traziam de casa. Era um ambiente tão amigável e descontraído que. em alguns dias de primavera ou início do verão, dei aulas de Francês ao ar livre, numa escadaria do jardim cheio já de hortenses e agapantos, a que, na Ilha, chamavam «Coroas de Henrique»

            Ainda bem que não me deixei influenciar pela experiência negativa da minha infeliz colega pois, usando uma expressão banalizada, tudo foi para nós «um mar de rosas», em sentido próprio e figurado.

            As pessoas foram encantadoras, os alunos excepcionais e a paisagem… apetece-me repetir a frase com que um dos meus alunos terminou uma redacção, em que descrevia vários sítios espectaculares de S. Miguel: «Na minha terra, a bem dizer, é tudo paisagem!».

 

Beijinhos da vossa Vóvó 

 

publicado por clay às 10:02 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Novembro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
14
15
16
17
18
19
21
22
23
25
26
28
30
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO