Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 02.12.07

 

 

 

                                     

                                                                 

                       As festas em honra do Divino Espírito Santo celebram-se em todo o arquipélago dos Açores, embora tenham a sua expressão mais completa na Ilha Terceira. Em S. Jorge assisti a uma coroação cujo bodo teve lugar dentro da casa do mordomo e, perante o meu espanto pela fartura da mesa, a dona da casa disse-me, muito convicta: «Ai de mim se a comida não chegasse! Teria de sair pela porta das traseiras!». Nas Flores, não assisti ao bodo. Mas vi o bezerro do sacrifício atrelado a um carro de bois, todo enfeitado, e, seguido por um barulhento cortejo em que predominavam as crianças. Iria percorrer as casas destinadas a receber o seu quinhão de carne.

                       Já as Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres são exclusivas da Ilha de S. Miguel. A estampa representando a imagem era o salvo-conduto para os que emigravam para longe, conforme se pode ver no quadro do célebre pintor micaelense, Domingos Rebelo, e que tem por título Os Emigrantes. Essas festas têm lugar em Maio e atraem à cidade de Ponta Delgada muitos milhares de peregrinos, muitos dos quais vindos dos mais variados lugares da América, nomeadamente da Califórnia e às senhoras, que envergavam espalhafatosos vestidos e ainda mais espalhafatosas capelines,  chamavam as calafonas.

                Depois de celebrada, na Igreja, a missa solene, formava-se uma concorridíssima procissão que começava no Largo fronteiro e percorria as principais ruas de Ponta Delgada. Integravam-se nela as forças vivas da cidade, tendo à frente o Presidente do Governo Regional seguidos por uma fanfarra, já não me lembro se militar, se dos Bombeiros Voluntários.

                A frontaria da Igreja era ornamentada por milhares de lampadazinhas de cores, desenhando frases e motivos religiosos e o Largo era também profusamente iluminado e ornamentado. A procissão pisava uma extensíssima passadeira de flores de azálea, das mais variadas cores, o que permitia elaborar artísticos desenhos.

Eu só assisti uma vez, da janela do meu quarto que ficava mesmo ao lado da Igreja, a esta inesquecível procissão, no primeiro ano em que vivi nos Açores.

               Mas além destas festas institucionais, sempre muito concorridas, todos os pretextos serviam para comemorar qualquer coisa: era o dia das comadres, o dia dos compadres, o das amigas, o dos amigos e até calhou eu assistir, numa das minhas deslocações em trabalho às Escolas, a uma dessas festinhas, onde reinava a camaradagem e a amizade.

                E havia ainda as festas de anos. Para só falar do que sei, recordo as celebradas na Secretaria Regional da Educação, onde trabalhei quatro anos, e no Gabinete de Apoio à Reconstrução (G.A.R.), para onde o Vôvô foi convidado após o grande sismo de 1980.

                Se alguém fazia anos, fosse o Director dos Serviços ou um modesto contínuo, mal se aproximava a hora de dar por terminado o trabalho do dia, começava a azáfama: secretárias despojadas dos objectos de escritório, alinhadas em número suficiente para os convivas e logo cobertas por mimosas toalhas brancas, bordadas; em cima destas, manjares deliciosos, salgados e doces, muito bem apresentados pelas senhoras. Aos homens competia encarregarem-se das bebidas. E isto à roda de todo o ano, havendo sempre uma simpática lembrança para o aniversariante.

                E isto para não falar das touradas sanjoaninas, célebres mesmo fora do Arquipélago, porque as touradas não são espectáculo do meu agrado e nada saberia dizer acerca delas. Apenas assisti a algumas corridas à corda, realizadas numa das muitas praias da Terceira. Era cómico ver os touros, enfurecidos, a empurrar para o mar os valentes que não se livravam dalgumas escoriações ou outros ferimentos, geralmente sem gravidade, e muito menos dum involuntário mergulho.

                Até parece que estes anos em que, já depois de reformada, fui trabalhar para os Açores, foram uma espécie de continuação das férias em S. Miguel, de que já falei, abundantemente, em cartas anteriores. Realmente o meu trabalho, orientar professores das diversas escolas do Arquipélago, além de me proporcionar a continuação das actividades que sempre me tinham ocupado, deu-me a oportunidade, não só de regressar várias vezes a S. Miguel, onde havia várias Escolas Secundárias dispersas por toda a Ilha, mas também de conhecer todas as outras Ilhas, à excepção do Corvo, cujo mar foi sempre hostil a uma visita minha. Em todo o lado fui sempre muito bem acolhida e fiquei a saber que todas as Ilhas dos Açores são maravilhosas, cada uma com as suas particularidades.

                Essa sensação de férias resultou também do facto de, o Vôvô e eu, termos estado sempre instalados, com o restante pessoal do G.A.R. numa Residencial, formando uma espécie de família em cujo seio nunca houve dissenções, antes uma forte solidariedade e simpatia. Ora, não tendo uma casa para governar, sobejava-me tempo para ler, conviver, frequentar o restaurante do Campo de Golfe, o Bingo da Base dos Oficiais Portugueses e, de vez em quando, à sexta feira, os lanches e a happy hour da Base Americana das Lajes. Só havia uma sombra nesta felicidade: as saudades dos filhos, que tinham ficado na nossa casa, em Lisboa, para prosseguirem os seus estudos universitários, que, infelizmente não concluíram. Vínhamos visitá-los mais ou menos de três em três meses e eles também foram, uma vez, passar uma semana connosco.

                Garanto-vos que ainda hoje temos amigos nos Açores e que são muitas as saudades que nos ficaram da terra e das gentes.

 

                Beijinhos, muitos, e até à próxima.

    

publicado por clay às 17:50 | link do post | comentar | favorito
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