Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 28.05.07

Minha querida neta:

 

           Eu sei que tu aprendeste a fazer pão, quando tinhas aí uns sete anos, nas actividades para-escolares da Escola Alemã. Fizeste muito direitinho tudo a que a professora foi dizendo, regalaste-te com um dos pãezinhos feitos por ti e levaste, para casa, um outro que toda a gente provou e elogiou.

 

Depois, com a tua independência, quiseste repetir a experiência, mas sozinha, claro, e ao fim de algum tempo tendeste (ou seja moldaste) uns pãezinhos muito bonitos que levaste ao forno, a cozer. Quando passou o tempo que a professora tinha indicado para a cozedura, tiraste-os do forno e oh! tristeza, os pãezinhos não tinham crescido. Ficaram muito sossegadinhos com a forma que lhes tinhas dado, mas o pior foi quando lhe ferraste os teus dentinhos: duros que nem uma pedra. Não choraste porque não és menina de chorar, pelo menos para fora, mas foste-o mostrar à Mami que logo calculou onde devia estar o mistério. De facto, em cima da mesa, estava o fermento branquinho que até te pareceu ter um ar levemente trocista.

 

Agora, já sabes fazer bolos – com a experiência é que melhor se aprende – e fazê-los sobretudo quando um de nós faz anos: para o vôvô com pouco açúcar, para não lhe aumentar o risco dos diabetes, para mim, sem creme para não ficar a D. Redonda e para os outros, o que tu gostas mais de fazer é uma montagem de chantilly e frutas frescas variadas e coloridas, com tanta arte, que até os olhos se regalam. Mas muito mais se regala o paladar pois é de comer e chorar por mais.

 

Vieram estas recordações, e muitas outras de que vou falar, da visita que, com o vôvô, fiz há dias ao Museu do Pão, na cidade de Seia. É um espaço muito amplo e muito bem organizado: uma casa moderna, construída para o efeito, e onde se pode ver todo o ciclo do pão, desde a sementeira do grão até, quando as searas já estão maduras, a ceifa, que consiste em cortar as espigas, à debulha, ou seja, retirar o grão da cápsula de palha que o envolve. Depois vêem-se três moinhos antigos, cada um com duas mós (pedras redondas) que, roçando uma na outra, transformam os grãos em farinha. Os moinhos podiam ser manuais (mais pequenos) ou então puxados por animais ou movidos a água ou vento.

 

Tudo isto está muito bem ilustrado com gravuras apelativas e legendas simples, tal como o que se segue. Mas aqui vêm misturar-se as tais outras minhas recordações de que te falava. Sim, em minha casa, havia uma divisão na cave onde se fazia o pão. Era aí que a minha mãe peneirava a farinha, para lhe extrair o farelo e o pão sair branquinho, a masseira, uma grande caixa de madeira onde se juntava a farinha, o fermento que se tirava da massa da semana anterior, e que era desfeito antes de juntar a farinha e água necessárias até a massa ter a consistência desejada. Mas para chegar a esse ponto, só te digo, Cristina, tinha de se dar muitas voltas: primeiro juntando suavemente os elementos e depois sovando-os – sim, como se estivessem a levar uma sova. Uma vez pronto – não era difícil de adivinhar à experiência de minha mãe que repetia esta tarefa todas as semanas – passava-lhe um pouco de farinha para o moldar melhor e fazia uma cruz em cada pão, dizendo:

 

São Vicente te acrescente,

São João te faça pão,

e a Virgem Santa Maria

te deite a sua benção (o acento circunflexo no e omitia-se por causa da rima)

 

Depois era só pôr-lhe um sinal distintivo: um pedacinho de pau, uma bola de massa, no topo, ou outra coisa assim, porque, na aldeia, só havia um forno – o forno do povo – e várias pessoas coziam o pão ao mesmo tempo. E nunca vi que ninguém se tivesse enganado ao recolher o seu pão.

 

Ficávamos, então, com pão para toda a semana e, mesmo um bocadinho duro nos últimos dias, sempre nos perecia o melhor pão do mundo.

 

Mas havia outro reino onde eu assistia a uma tarefa semelhante: era na escola primária que funcionava na casa da senhora professora que, por sinal, era minha tia. Quando era o dia de amassar o pão, lá era eu destacada para ir deitar a água na massa à medida que a empregada o achava necessário. E bem gostava eu desta tarefa: é que num banco preguiceiro fechado, ao lado da masseira, havia uma colecção de livros, meio reais meio lendários, sobre figuras conhecidas da nossa História. E eu, olho na massa, olho no livro, passava ali um bom bocado de sonho.

 

            Tudo isto me veio à memória no Museu do Pão, onde encontrei eco de todas as minhas impressões de infância: quatro salas com todas as fases do fabrico do pão, uma outra dotada de um vidro para se poder ver, de longe, - e assim evitar contaminações -como tudo isso era feito. Havia também pães, feitos sem fermento, que eram autênticas esculturas, com muitos e variados bonecos, alguns bem engraçados.

 

            Mas além de tudo isto, há ainda uma cafetaria com uma varanda panorâmica para a serra e um restaurante que não vi porque levávamos outro destino através da Serra da Estrela até à Covilhã, o que de facto fizemos mas com um nevoeiro de cortar à faca e de cortar de medo a respiração. Ah! É verdade: cá fora havia dois carrinhos pequenos e um comboiozinho – não tão zinho assim – para transportar grupos, principalmente de meninos das escolas que, graças àquela visita, ficam a saber as voltas que leva o pão até chegar à padaria.

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Sexta-feira, 25.05.07

Luvas, para que vos quero?

Para trazerdes calor

quando estou sem fazer nada

e o tempo vai de rigor.

Servem também a vaidade

de ter mãos sempre macias

que estando inúteis, paradas,

não passam de mãos vazias.

E se forem de plástico

servem para minorar

o sofrimento dos outros

ou até para os curar.

Mas é com as mãos sem luvas

que o rosto do nosso neto

nós podemos afagar

e que rezamos a Deus

que use as suas mãos

divinas para nos abençoar.

Clementina Relvas

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Quinta-feira, 24.05.07

Minha querida netinha:

 

 

            Quando somos pequenos, uma Escola é o centro do nosso mundo: ali nos juntamos aos amigos – brincamos com eles mesmo não tendo recinto adequado – começamos a sentir-nos importantes porque já temos o nosso trabalho, as nossas obrigações e, sobretudo, começamos a descobrir um mundo imenso que torna a nossa aldeia mais pequena.

 

            Por isso eu decidi escrever-te uma segunda carta sobre a minha Escola Primária.

 

            Já fazes uma ideia de como eram as aulas, não tão calmas como talvez te feito parecer, pois alguns meninos, sobretudo os mais velhos, estavam sempre a arranjar problemas que, em casos mais graves, eram resolvidos pela “menina-de-cinco-olhos”: uma espécie de pequena raquete de ténis, com o tamanho aproximado da palma da mão e com cinco furos dispostos simetricamente e que aumentavam a dor das palmatoadas. Essa sim, creio que, felizmente, já está completamente extinta.

 

            Mas nem o medo da palmatória impedia alguns meninos mais marotos de tentarem espreitar por baixo das carteiras das meninas, ou puxar-lhes os cabelos se estavam à frente deles e outras garotices do género. Às vezes não escapavam à vigilância da professora e, claro, entrava em função a referida “menina-de-cinco-olhos” e lá ficavam as palmas das mãos a arder. Entre os alunos mais irriquietos e inventivos para essas “brincadeiras” contava-se o meu irmão Alfredo que, apesar de ter muito bom coração, não resistia a uma boa partida e, às vezes, também a sorte lhas pregava a ele.

 

            Havia na sala de aula um quadro bastante grande, feito de pedra chamada ardósia e assente num cavalete bem resistente. A professora tinha determinado que, quando chegasse à aula, já devia estar escrito no quadro, a giz e com bonita letra: Pereiro, 20 de Março de 1936, suponhamos. Era a data do dia. Havia sempre dois ou três dos melhores alunos que disputavam entre si o privilégio de escrever a data. Um deles era sempre o meu irmão Alfredo. Mas há dias de azar, não há? Como ainda era pequeno, tinha de subir ao cavalete, agarrar-se ao bordo superior do quadro com a mão esquerda e escrever a data com a direita. Ora nesse dia, ou porque alguém tivesse mexido no quadro ou porque ele se agarrou com mais força, o quadro desabou por cima dele, com grande estrondo, partindo-se em mil bocados. Ainda hoje tenho gravada na memória, e bem nítida, a imagem do meu irmão caído de borco, com os bocados da ardósia por cima e tentar desembaraçar-se delas antes da chegada da professora.  A mim, embora me desse pena, também me dava vontade de rir porque só me fazia lembrar um sapo a nadar numa poça de água. Felizmente que os ferimentos se limitaram a uns arranhões. Mas do que não se livrou foi de uma severa reprimenda da minha tia, que se repetiu em casa, tanto mais que foram os meus pais que tiveram de comprar um quadro novo.

 

            Mas se me pusesse a contar as aventuras do Alfredo, acho que nunca mais acabaria.

 

            O nosso material escolar era uma ardósia, feita da mesma pedra do quadro e um pau de giz para nela escrevermos. Algum tempo depois, tínhamos direito a um caderno de “duas linhas estreitinhas”  para apurar a caligrafia, uma caneta de aparo e um tinteiro que se encaixava na nossa carteira, o livro de leitura da lª classe. Também tínhamos um lápis preto, uma pequena caixa de de lápis de cor. Só nas classes adiantadas é que havia mais livros: História de Portugal, Geografia e pouco mais. Levávamos tudo numa sacola de chita ou feita de retalhos, onde ainda metíamos uma fatia de pão para o lanche.

 

            Nos tempos livres jogávamos à macaca ou às escondidas, ao bom-barqueiro e os rapazes saltavam ao eixo, jogavam à bola ou ao pião.

 

            Para os exames da terceira e quarta classe, tínhamos que nos deslocar à Vila, o que era um verdadeiro acontecimento: como não havia camionetas de carreira e ninguém lá na aldeia tinha carro, montávamos no cavalo atrás do meu pai e lá fazíamos aquele longo percurso: descíamos até ao rio Távora, e subíamos a Serra de Chavães, que lhe ficava em frente e depois apanhávamos a estrada que ainda se estendia por uns oito ou nove quilómetros.

 

            Finalmente era o exame, com aqueles senhores professores muito sérios que nós nunca tínhamos visto e que nos interrogavam sobre tudo. No meu exame da quarta classe, deu-se um caso engraçado: como eu tinha feito provas muito boas, quando chegou o interrogatório de História, houve um senhor que me disse:

 

            - De que parte da História gostou mais? Quer que a interroguemos sobre que dinastia?

 

            Muito despachada nos meus dez anos, respondi desinibidamente:

 

            - Podem-me perguntar sobre tudo menos sobre as guerras entre os liberais e miguelistas, que sempre me fez confusão aquela trapalhada.

 

            Ouviu-se uma gargalhada geral dos professores e do público e eu, muito envergonhada, lá procurei fazer melhor figura com o reinado de D. Manuel I.

 

            E, como na terceira classe, fui aprovada com distinção.

 

            Aqui há dias ouvi dizer que ia deixar de haver escola na minha aldeia por lá não haver meninos. E foi então que me acudiram à memória todas estas recordações, e apesar de todos os progressos destes tempos modernos, chorei – por dentro – por aquela escolinha tão pobre mas onde se aprendia tão bem que, quando já andava no quarto ano de Liceu, não resisti ao impulso de escrever uma carta à minha tia, a agradecer-lhe tudo o que me tinha ensinado e que ainda me valia nessa fase já adiantada dos meus estudos.

Boa noite, até breve!

 

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Quarta-feira, 23.05.07

Senhor, Tu nos deste

dois netinhos

que vieram de Ti

para nossa alegria;

protegei-os, Senhor,

que eles estejam sempre

em Tua companhia.

Que Te amem e Te adorem

e Te louvem com suas vidas

feitas hinos de amor.

Preserva-os do pecado,

de toda a tentação:

protege-os, meu Senhor.

Conserva suas almas como lírios

brancos, sem mancha,

neste mundo cruel;

jamais percam a graça do baptismo

e a terra para eles

seja de leite e mel.

Seja de leite e mel,

Terra de Promissão

onde sigam as marcas de Teus passos;

toma-os ao colo,

se perderem as forças:

acolhe-os nos Teus braços.

 

No dia do baptizado do Zézinho

13.06.2006    Clementina Relvas
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Terça-feira, 22.05.07

Minha querida netinha:

 

 

            Na última carta falava-te da minha Escola, uma Escola muito especial, que não ocupava um edifício novo e bonito como a tua: era uma sala onde a minha tia dava aulas a mais de trinta meninos, com idades entre os cinco e os dezasseis anos, que frequentavam várias fases da primária. Também tinha dois quartos contíguos: um era a sala dos mapas: globo terrestre, planisférios, mapa-mudo – onde não havia nomes, só o relevo das montanhas e os rios que tínhamos de identificar depois de os termos aprendido num grande mapa de Portugal. No outro quarto, havia pesos e medidas e quando, com a chegada do Outono, as aulas retomavam o seu curso, um estendal de cachos de uvas e de maçãs que enchia o ar de perfumes bons. Nenhum menino mexia na fruta porque havia muita lá na aldeia e todos sabíamos que a Senhora Professora não ia gostar. Embora às vezes, quando um menino mostrava que tinha estudado tudo muito bem, levava como prémio uma rica maçã amarela e rosadinha nas bochechas e essa sim, sabia muito melhor.

 

            A professora, minha tia, como te disse, sentava-se atrás de uma espécie de secretária que lhe tapava as pernas e a que chamávamos o trono. Quando íamos ler púnhamos o nosso livro virado para ela e todos nós aprendemos a ler com o livro direito ou de pernas para o ar, o que não nos fez mal nenhum, antes nos tornava mais ágeis na leitura.

 

            Dez em quando, a professora levantava-se e dava uma volta pela turma, a verificar se os que sabiam mais – e nem sempre eram os mais velhos – estavam a desempenhar bem a tarefa de ensinar os mais novos. Mas também a estes dedicava, na medida do possível, a sua dedicada atenção.

 

            Eu entrei para a Escola aos cinco anos porque era muito viva e o meu maior desejo era aprender a ler. Já lá fui encontrar os meus dois irmãos mais velhos – o Manuel na quarta classe e o Alfredo na segunda. O Manuel era muito sossegado e aplicado mas o Alfredo, embora muito inteligente, estava sempre na mira da minha tia, pois era um diabrete incorrigível. Como talvez não imagines, racaía sobre nós uma grande responsabilidade: tínhamos sempre de dar o exemplo, no estudo e no comportamento. Essa situação trouxe-me um dia um tremendo dissabor: estava um menino da quarta classe a tentar desenhar uma circunferência e não conseguia apanhar o jeito de se servir do compasso. Então a minha tia, como era habitual, chamou um sobrinho, neste caso a sobrinha que era eu e disse para a classe:

 

            - Vão ver como a Clementina, que só anda na terceira, vai fazer uma circunferência  sem lhe custar nada.

 

            Contente por ter sido escolhida mas nervosa com a responsabilidade, não havia meio de segurar o compasso como devia. Então a minha tia, decepcionada e por isso mesmo furiosa, agarrou-me a gola do vestido da parte das costas, para me dar um safanão. Mas as unhas, que tinha afiadas, resvalaram e fizeram um grande arranhão no pescoço.

 

            Regressei ao meu lugar cheia de pena por não ter sido mais hábil – eu até estava farta de desenhar circunferências – e talvez, por isso, nem sentia o arranhão.

 

            Só que daí a dias íamos fazer à sede do concelho o exame da terceira, o primeiro da nossa vida.

 

            A minha mãe pensou, pensou e chegou à solução: um vestidinho com folhos à volta do pescoço, que nada deixava suspeitar. E fui aprovada, com distinção!

 

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Segunda-feira, 21.05.07

                        

 (Para a Cristina, nos seus doze anos)

 

Lisboa, 8 de Maio de 2007

  

Minha querida netinha:

 

Quando eras muito pequena e ainda não sabias ler, gostavas que eu te contasse aquelas histórias que quase todos os meninos e meninas conhecem: a Branca de Neve, a Gata Borralheira, o Polegarzinho, o Gato das Botas, o Feiticeiro de Oz e tantas outras que muitas vezes transformávamos a teu gosto, sobretudo para que as pessoas más se tornassem um bocadinho melhores.

 

Agora, que já fazes doze anos, essas histórias “foram à vida”, como tu costumas dizer a brincar, mas na realidade foram mesmo: foram encantar outras crianças pequenas dilatando o seu reino de fantasia e de sonho. E talvez não queiras acreditar mas, muitas vezes, quando vamos ficando velhos, voltamos a deliciar-nos com elas, talvez para escaparmos a certas realidades mais duras. Sobretudo se temos um netinho ou uma netinha, de olhos muito abertos, curiosos e atentos, a escutar-nos e a pedir-nos, quem sabe? – Conta lá outra vez.

 

Mas tudo isto é para te dizer que tu cresceste, queres saber como é o mundo real e me pedes – e ao Vôvô – para te contarmos “casos das nossas vidas”.

 

É isso que vou fazer, embora pense que esta, ainda que verdadeira, é uma história fantástica: inesperada, invulgar e com um desfecho que desconheço mas deixo à tua fértil imaginação encontrar.

 

E era uma vez… Não, não era uma vez, há muitos anos. Foi há poucos dias, numas curtas férias que o Vôvô e eu decidimos passar na Beira, naquilo que se costuma chamar “Portugal Profundo”. E aqui, penso eu, já te começa a cheirar a um qualquer mistério, muito bem guardado. Mas não é só um mistério: são vários.

 

Antes de mais nada, tratou-se de irmos visitar uma pequena aldeia, que desde tempos medievais (o séc. XIII) vira passar os anos., escorregando pela encosta abaixo, até à beirinha do rio Dão. Com muita chuva e nevoeiro no Inverno e toda coberta de flores na Primavera.

 

Lia-se na placa indicativa do lugar que se tratava de uma aldeia medieval reconstruída e eu pus-me logo a imaginar um aglomerado de pequenas casas escuras feitas de granito, telhados de colmo com uns pequenos buracos por onde, às horas de preparar as refeições, saía um rolo mais ou menos espesso de fumo que enchia o ar de cheiro a estevas e rosmaninho. Haveria também uma pequena igreja cujo sino, quando tocava as Trindades, ao fim da tarde, fazia a criançada recolher imediatamente a casa…

 

A igreja lá estava, à entrada da aldeia: pequenina mas toda caiada de branco e com o seu sino silencioso pois já não se costuma tocar as Trindades.

 

Mas o resto… o que eu tinha pensado não existia nem se podia imaginar como fora dantes. Agora as casas eram ainda de granito mas feitas com perfeição por operários habilitados, com janelas muito bem esquadriadas e os telhados… os telhados de telha marselha a brilhar de nova… Um mar de vermelho claro… Ao longe, mais ao fundo, duas piscinas e um campo de basquete.

 

Mas então o que tinha sido feito da minha aldeia medieval? Tive a resposta no restaurante, num restaurante típico reconstruído à imagem da aldeia, à porta do qual já se apinhava um grupo de pessoas que vinha aproveitar o seu domingo. Disse-me o gerente que aquela aldeia tinha sido comprada em bloco por um construtor imobiliário muito rico e também com bom faro para os negócios. Mandara refazer as casas, uma a uma, e agora ali estavam bem mobiladas, luz eléctrica e água corrente e daí televisão, casa de banho e todo o conforto que faria morrer de espanto um habitante já não digo do séc. XIII mas de meados do séc. XX. Em resumo, da velha aldeia só restava o nome: Póvoa Dão. Algumas casas foram compradas por gente da cidade desejosa de encontrar na natureza remédio para o desgaste da vida quotidiana. Outras, alugam-se agora ao dia – mínimo duas noites – integrando-se no que actualmente se chama “turismo de aldeia”.

 

Ainda meio aturdida, só o canto de muitas aves, aves diferentes, as giestas, tojos e várias árvores, todos carregados de flor, me faziam lembrar a pequena aldeia onde nascera há muitos anos, essa sim, quase medieval nessa época.. Mas faltava ali qualquer coisa. Algo que eu não sabia identificar mas me causava uma sensação de perda: não havia crianças a correr, nem os seus risos ou choros. Era isso então…

 

Entretanto, aproximei-me da ampla varanda do restaurante, com largas vistas para o lado do rio, e esfreguei os olhos: ali, diante de mim, estava um menino dos seus doze anos, sentado a escrever, muito compenetrado no seu trabalho. O meu lado de professora levou-me logo até junto dele, disposta a meter conversa sobre os trabalhos de casa que tão aplicadamente fazia. Mas os meus espantos não tinham terminado: o menino, que me disse chamar-se Henrique, estava a escrever um livro de aventuras e já ia em fase adiantada: o malvado tinha adormecido a menina com a ajuda de uns pós misteriosos e o mágico, seu amigo, estava prestes a despertá-la.

 

- Gostas de escrever? Perguntei-lhe.

- Gosto muito. Sou a única criança desta aldeia e quando regresso da Escola que fica a uns vinte quilómetros da Póvoa, tenho de vir aqui para o restaurante, onde a minha mãe é cozinheira.

- E para te entreteres…

- Primeiro faço os trabalhos de casa e depois ia ver televisão.

- Nada mal…

- Pois não, só que há uns tempos para cá, eu já não suportava a televisão: os desenhos animados tinham deixado de me interessar e os outros programas eram, na maioria de guerra, fome e violências.

- E então…

- Então tomei uma decisão: ia inventar e escrever uma história para mim, com as aventuras que me viessem à cabeça, e já não quero outra coisa. E olhe, já escrevi mais isto aqui atrás.

- Estás muito adiantado. Tens uma letra bonita, um vocabulário rico que sabes utilizar muito bem e nas páginas que já li não encontrei erros de ortografia. Os meus parabéns, Henrique. Imagino que um dia serás escritor e quando o teu primeiro livro for publicado corro logo à livraria a comprá-lo. A menos que o publiques com pseudónimo e então não saberei que o autor és tu.

- Pois é. Até já tenho pensado nisso porque, se tiver um pseudónimo  sou como que outra personagem a juntar às que eu invento.

 

Despedi-me do Henrique, convencida de ter assistido a vários milagres: uma aldeia trazida das trevas para os tempos modernos e um menino que espero venha a ser escritor como deseja.

 

Só uma mágoa me apertava o coração: olhar para o campo de basquete sem meninos com quem o Henrique pudesse brincar aos fins-de-semana e nas pausas da sua labuta de escritor.

Olha a Vóvó com o Henrique:

 

                  

  Beijinhos e até à próxima!

 

publicado por clay às 18:09 | link do post | comentar | favorito

Meus queridos netos:

 

            Quando, já com muitos anos de vida, resolvi recordar para vós, ao correr da pena, episódios da minha infância, tão diferente da vossa, nunca imaginei que os “olhos do meu coração”, no dizer de S. Paulo, fossem capazes de ver tão longe, de desencantar pormenores por mim julgados completamente esquecidos. Nunca pensei,  também, que desse meu coração pudessem brotar, inesgotáveis, torrentes de emoção ao simples recordar dum cheiro a pão acabado de cozer, do perfume dos lilazes da Páscoa, da imagem dum campo roxo de violetas na margem de um ribeiro, do eco das vozes dos que amei e já partiram para sempre.

 

Enganei-me redondamente. A cada carta que vos escrevo, sinto um aperto no peito, um aperto que não magoa mas me dá momentos de felicidade e paz para partilhar convosco.

 

Não quero dizer como muitos outros: “No meu tempo…” como se este não fosse também o meu tempo e como se cada tempo não tivesse sempre coisas positivas e negativas, que a nós cabe aproveitar ou rejeitar, procurando sempre tirar de tudo o maior proveito para a nossa felicidade.

 

Sim, meus queridos netos: como haveis de aprender ao longo da vida, a felicidade não é uma estrada plana, calcetada de blocos de oiro e tendo, no seu extremo, um arco-íris de sonhos.

 

Tem bocados assim: brilhantes, gloriosos, onde nos sentimos reis ou rainhas, príncipes ou princesas, destinados por uma fada madrinha a alcançarmos, sem custo, o referido arco-íris.

 

Mas logo se apresenta uma curva inesperada que nos esconde o que fica para além dela , um charco onde os nossos pés patinam e se sujam ou um qualquer outro obstáculo que nos julgamos incapazes de transpor.

 

E, tal como o caminho do arco-íris, nunca se esvai por completo, continuando a estimular o nosso coração, também a via difícil e acidentada mais cedo ou mais tarde ficará para trás, deixando-nos mais fortes e com esperança de sermos o atleta no lugar cimeiro do pódio.

 

Por isso vos escrevo estas cartas: nelas encontrareis bocados de arco-íris – o que eu consegui fazer de bom na minha vida – e também muitos revezes e dificuldades que me atrasaram a caminhada ou fizeram mudar de rumo sem nunca perder a esperança de chegar ao arco-íris. Aqui vereis situações de penúria que só o serão para vós, nascidos neste tempo de consumismo e outras, de tão deliciosa paz e tranquilidade, como agora só raramente se conseguem viver.

Podereis confrontar o que era, como era e por que era com a realidade que hoje vivemos. Vós e eu, porque como já disse, este vosso tempo também é o meu tempo.

 

Não vos quero deixar tristes com o meu passado, em que muitas vezes fui feliz, nem apreensivos com o vosso futuro, que já não será o meu, mas, acredito piamente tenha também, no fim do caminho um arco-íris para o qual ireis caminhar, apesar das curvas e outros obstáculos.

 

Tereis é de ter sempre presente que nada se consegue sem trabalho, sem esforço e que o optimismo é meio caminho andado.

 

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