Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 27.06.07

 

 

 

            Meus queridos netos:

 

            Já referi, mas só de passagem e talvez não tenham reparado, que depois da saída da minha aldeia para estudar, férias ou o que realmente considerava férias, só tinham lugar no Verão, nos meses de Julho, Agosto e Setembro. Eram as férias grandes, de que falarei noutra altura.

 

            Claro que também tinha férias no Natal e na Páscoa – era só o que faltava ficar a Escola aberta só para mim – mas como continuava em Lisboa e não conhecia muita gente da minha idade a não ser as minhas colegas, ficava um pouco desasada, sem saber muito bem como ocupar o tempo. Não será fácil imaginarem como se podiam passar os dias sem televisão e portanto sem DVD, sem telemóvel e respectivos SMS, sem consolas e os seus variados jogos e também sem automóvel, privilégios de raras pessoas endinheiradas. Era como passar sem frigorífico, sem máquina de lavar loiça ou roupa, sem detergentes e as mil e uma coisas que a vida moderna e a publicidade de hoje nos tornaram indispensáveis.

 

            Havia rádios – chamava-se a telefonia – mas os transístores a pilhas e portáteis só haviam de chegar muito mais tarde.

 

            Os rádios davam notícias, teatro radiofónico ou seja, feito especialmente para esse meio de comunicação, transmitiam as festas dos Santos Populares, espectáculos musicais que elas mesmas produziam - falo da Emissora Nacional, do Rádio Clube Português, que eram as emissoras mais importantes do País – relatos de futebol e alguns anúncios publicitários.  Durante a II Guerra Mundial ouvia-se muito a BBC de Londres, onde o Fernando Pessa dava notícias que as nossas emissoras nem sempre transmitiam devido à censura. Nesse tempo havia uma Emissora em língua espanhola, que se ouvia muito bem em Portugal, pelo que era também muito escutada: tratava-se de “Aqui Rádio Andorra, emissora do Principado de Andorra!” como anunciava constantemente uma locutora de voz estridente mas persuasiva. Quanto a Rádios locais nem se sonhava o que viriam a ser.

 

Mas eu só conseguia ouvir rádio se estivesse com as mãos ocupadas a fazer renda ou qualquer peça de malha. Ouvir rádio nesse tempo era como agora a ver televisão sendo-se cego.

 

            Cinema é que já havia e muito frequentado. Assim, uma vez sem exemplo, lá ia ao cinema do meu bairro, ver um filme escolhido pelos meus Tios ou pelos meus Irmãos. Lembro-me de que o primeiro filme que vi, juntamente com um dos meus Irmãos, foi um filme de Cawboys em que não entrava uma única rapariga. Não fiquei com grande vontade de repetir, mas a verdade é que, depois, vi filmes muito bons e conheci todos os grandes artistas de cinema da época: o Mickey Rooney, o Gregory Peck, o Cary Grant, Humphrey Bogart, Clark Gable e estrelas como Elizabeth Taylor, Ava Gardner, a Betty Davis e tantos outros.

 

            A dada altura, porque a minha Tia e Madrinha, irmã de meu Tio tinha casado e partido com o marido para Angola, fui forçada a encontrar outro poiso. Mudei-me para a casa da Luísa, minha colega na Escola Comercial e minha particular amiga, onde fui encontrar o lar que acabara de perder e ao qual devo muitas e boas horas de felicidade.

 

            Com ela, nas férias, ia dar grandes passeios ao Jardim Botânico, à Estufa Fria, ao Jardim do Campo Grande que tinha (e tem) um lago onde se podia andar de barco e, já andávamos na Faculdade quando até vivemos uma aventura muito divertida:

 

 A Luísa tinha um amigo, aluno da Escola Naval e, num belo dia de Inverno, cheio de sol mas muito frio, fomos velejar para o Tejo, entre o Terreiro do Paço e Algés, ao pé da casa por assim dizer. Mas ao passar por nós um outro veleiro, não sei de quem foi a culpa, o nosso barco ficou com as velas inutilizadas e tiveram de nos rebocar para um porto de abrigo. Sentíamo-nos gelados por dentro e por fora mas eis que um dos nossos salvadores se nos dirigiu a convidar-nos para irmos jantar a sua casa, em Santos. A conversa foi em inglês, muito atabalhoada de ambas as partes, porque o nosso anfitrião era, nem mais nem menos do que o Embaixador dos Estados Unidos e, chegado há poucos meses ao nosso país, também não era perito em português. Era época de Natal porque da lareira acesa pendiam várias meias de lã com motivos alusivos à festa, à espera dos presentes do Pai Natal, coisa que eu nunca tinha visto na minha vida e me deixou deslumbrada.

 

Meias de lã e camisolas bem quentinhas foram também uma das amabilidades com que nos receberam porque viram que estávamos mais ou menos encharcados e a bater o dente de frio.

 

Seguiu-se um delicioso, embora simples, jantar e, depois de mais um pouco de conversa, lá partimos para casa, sem utilizar o carro com motorista que puseram à nossa disposição porque a casa da Luísa ficava duas ruas acima.

 

A Mamã Ema – como eu lhe chamava – já estava um pouco preocupada com a nossa demora e passou por todas as emoções, ao ouvir o relato do naufrágio, do salvamento e do festim americano que nós apostámos em lhe contar com todo o pormenor e suspense que nos foi possível.

 

Como esta carta já vai longa, constituirá matéria da próxima o poema épico-cómico que a narrada aventura me inspirou.

 

Mas voltemos ao assunto anterior: No Natal enfeitávamos uma pequena árvore, armávamos um presépio e nenhum de nós ficava sem presente, embora muito modesto e geralmente feito em casa.

 

Na Páscoa é que era o tempo dos passeios e das leituras, que muitas vezes eram simultâneos: Levávamos um livro e lá íamos para um daqueles jardins viver as aventuras de Oliver Twist, do Pai Tomás, mas também dos heróis de Dostoievski, da Pearl Buck, do Toltstoi, do Stephen Zweig , de Balzac, de Sthendal e um nunca acabar de autores escolhidos sem grande critério: devorávamos todos os livros que nos vinham parar às mãos. Depois trocávamos algumas impressões sobre o que tínhamos acabado de ler, sem nunca desvendar o enredo se uma de nós ainda não tinha lido aquele livro, que tínhamos ido buscar à Biblioteca Municipal ou alguma amiga nos havia emprestado.

 

Nessa altura já eu começava a escrever versos e, numa vez que a Luísa teve de ir para o hospital, eu escrevi, com os olhos cheios de lágrimas:

 

                 A menina está doente

                        e a casa ficou vazia.

                        Parece maior a casa

                        e longo, mais longo o dia.

 

Os dias eram realmente longos, mas nunca vazios nem tristes porque os nossos corações estavam cheios de sonhos e de esperanças que esses sim, nunca entravam de férias.

 

Até breve!         

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Terça-feira, 26.06.07

                       

 Meus queridos netinhos

 

                        Agora sim, é que vou direita ao assunto: a Páscoa aparece sempre em plena Primavera. um tempo de renovação tanto nas almas como na própria Natureza,

 

                        Eu achava que as almas estavam mais felizes e, por isso, as pessoas diziam e repetiam: Aleluia! Aleluia!

 

                        A Natureza cobria-se de galas, toda adornada das mais diversas e coloridas flores, de que não podíamos prescindir nesta Festa. Primeiro vinham os lírios roxos da Paixão e logo a seguir os brancos, destinados ao altar de Nossa Senhora. Mas eram as “coroas de noiva”, umas hastes flexíveis semeadas de tufinhos de flores brancas, que nos davam a certeza de que a Páscoa estava à porta. Floresciam também os lilases e os goivos, brancos, cor-de-rosa ou vermelhos e uma ou outra roseira temporã. Era com estas flores e também com os malmequeres e as campainhas amarelas espalhadas  nos campos que enfeitávamos os nossos ramos de oliveira, espetando cuidadosamente uma flor em cada folha, a ver qual seria o mais vistoso e artístico na procissão dos Ramos, no domingo anterior à Páscoa.

 

                        Mas, embora gostássemos muito da procissão dos Ramos, andávamos um pouco aéreos com o jogo do “aconchagar” que consistia no seguinte: escolhia-se um parceiro (colega, amigo ou familiar), enganchava-se o dedo indicador dum no do outro e dizia-se: “Aconchagar, aconchagar para no dia de Páscoa me dares o folar. Reza!”. A cena repetia-se ao longo de semanas, mal se avistava ao longe o nosso alvo e quem dissesse primeiro a frase, é que tinha direito a receber o folar que, na melhor das hipóteses, seria um pacotinho de confeitos de açúcar de várias cores ou, na falta de guloseimas, um berlinde ou um pião, se se tratava de rapazes. As amêndoas doces eram exclusivas das apostas dos namorados. Mas, apesar de ser constantemente repetida, pois estávamos sempre a encontrar-nos, a fórmula mágica só valia no Sábado de Aleluia, depois do repicar dos sinos.

 

                        O folar era um elemento indispensável na Páscoa: eram grandes pães feitos com massa levedada a que se juntava azeite e ovos em abundância e que enchiam o forno do povo de alegria e cheirinho bom. Cada família cozia, geralmente, um grande tabuleiro desses bolos (também se chamavam assim embora não levassem açúcar), alguns em formato mais pequeno que os padrinhos tinham por hábito dar, no domingo, aos afilhados. Para tornar a massa mais amarelinha e apetitosa – que os olhos também comem – juntava-se à massa um pouco de água onde se tinham fervido os estames dumas campânulas arroxeadas a que chamávamos açafrão e cuja apanha – porque eram raras – constituía também uma ocasião de despique e brincadeira entre os mais novos.

 

                        No dia de Páscoa, começava-se pela higiene pessoal.: toda a gente tomava banho na grande tina de zinco onde se deitavam baldes de água quente e vestia “o fato de ver a Deus” que se trocava por um mais simples, a seguir ao almoço da Festa.

 

                        A missa era cantada por dois ou mais sacerdotes (e só um quando começaram a escassear).

 

                        Os meninos que ajudavam à missa, muito importantes nas suas roupas vermelhas e brancas, abanavam os turíbulos e o cheiro do incenso embalsamava toda a igreja e também os nossos corações. Era sinónimo de alegria e de fé.

 

                        Acabada a missa, cada um se apressava a regressar a casa, porque já lá estava pronta a mesa da Páscoa: uma alvíssima toalha bordada, enfeitada com lilases, uns pires com biscoitos de azeite, o melhor prato da casa com um folar, uma garrafa de vinho fino (vinho do Porto) da nossa pequena produção e uma laranja, a maior e a mais bonita do pomar, para nela se cravar uma moeda de cinco escudos. Como não sabem o que eram escudos, vou dizer-vos quanto lhe corresponderia agora em euros: dois cêntimos e meio! Mas olhem que naquela altura, embora fosse uma oferta simbólica, não era de deitar fora, até porque muitos poucos fazem muito.

 

                        E eis que se aproximava da nossa casa, situada mais ou menos a meio da aldeia, anunciado pelo toque de uma sineta e pela algazarra das crianças que se incorporavam no cortejo à espera de partilharem também das guloseimas, o senhor Prior e a sua comitiva.

 

                        O sacerdote pedia licença para entrar, saudava os presentes com a aclamação de júbilo Aleluia! Aleluia!, abençoava-os com a cruz que levava de casa em casa para essa cerimónia, comia o seu biscoito e tomava o seu cálice de vinho, e conversava um pouco, enquanto o sacristão metia num saco o folar, e numa caixa, os cinco escudos da laranja.

 

                        Distribuíam-se alguns mimos pelas crianças e lá seguiam todos para a casa vizinha, onde geralmente se juntavam familiares e amigos já visitados, em sinal de confraternização. Chamava-se este ritual “Tirar o Folar” que, noutras regiões do Norte, por exemplo no Porto, se chama “Correr o Compasso”.

 

                        Conversando e bebericando passava-se o resto da manhã. E, quando tudo acabava, forçoso é dizer que tanto o Padre como o Sacristão, este bem vermelhusco, já não pisavam com a mesma firmeza a irregular calçada da aldeia.

 

                        Seguia-se o almoço familiar que, nas casas fartas, constava de cabrito assado no forno público e, nas mais modestas, duma galinha corada depois de cozida para uma saborosa canja perfumada a hortelã.

 

                        E, claro, uma ou duas fatias de folar que não precisava de ser doce para nos adoçar a Páscoa e a tornar inesquecível.

 

       Um chi-coração da Vóvó

         

             Procissão (quadro de Amadeu de Sousa Cardoso)

 

 

                           

 

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Meus queridos netinhos:

 

Pela minha carta sobre o Natal, devem ter ficado a julgar que era essa a Festa mais bonita da minha infância – ou, pelo menos, aquela de que eu mais gostava.

 

Mas não. Havia outra que era mais alegre, mais mágica, até porque ocorria em plena Primavera, com os campos cheios de flores.

 

Talvez até porque era precedida, na Quaresma, por uma procissão que deixava todas as crianças com o coração a balançar entre o espanto e o medo.

 

Nesse dia, predeterminado, juntava-se quase toda a população da aldeia e fazia uma espécie de Via Sacra – que consiste em percorrer um caminho semelhante ao que levou Jesus até à Cruz onde iria ser morto – mas muito mais especial que se chamava mesmo “Ir ao Calvário”.

 

Tinha lugar já noite dentro, em quase completa escuridão, cujo breu só era cortado pela luz de um pequeno archote empunhado, com muito orgulho, por um rapaz já crescido e que fosse bem comportado. Um homem adulto, também de vida limpa, levava uma grande cruz de madeira, que, de vez em quando, passava a outro que também fosse merecedor.,

 

Saía-se da Igreja em silêncio apenas cortado, a espaços, por um fragmento de um cântico lúgubre e um lúgubre bater de matracas. (A propósito: um dia, passados muitos anos, participei numa, semelhante, numa pequena aldeia da Andaluzia espanhola).

 

Ainda hoje me lembro de pedaços desgarrados desses hinos, que todos cantávamos em coro, numa melopeia muito arrastada, com paragens em certos lugares da única rua da aldeia, lugares que nada assinalavam, mas eram sempre os mesmos,  sabe-se lá há quantas gerações.

 

Aí, parados, erguia-se um enorme brado: “Senhor Deus, misericórdia!”.

 

Ainda hoje me ressoa aos ouvidos, com melodia e tudo, um hino que começava assim:

 

                 Pilatos, Pilatos, el-rei dos judeus

                        mandou uma carta

                        para os fariseus.

                        De porta em porta, de rua em rua,

                        Jesus da minha alma

                        sem culpa nenhuma.

 

Era um arrepio que nos tolhia de medo, embora lá mais para a frente, se abrisse uma porta de esperança, que me dava novo alento:

 

 

                 Eu fui ao Calvário

                        visitar a Cruz

                        deixei a minha alma

                        aos pés de Jesus

 

            E até parecia que eu ficava mais leve e mais reconfortada. A procissão prosseguia lenta e imutável, até um pequeno monte que havia já fora da aldeia e que sempre ouvi chamar – e ainda hoje se chama – o Calvário. Aí chegados, cravava-se no chão a Cruz que piedosamente tinha sido transportada da Igreja e entoavam-se, também em coro, algumas orações como estas:

 

              Senhor Salvador do Mundo,

que a todos salvais,

salvai a minha alma.

Bendito sejais!

Bendito sejais, Coração de Jesus,

que tanto padecestes

pregado na Cruz.

 

                                  A minha caneta pregou-me hoje esta partida: eu queria falar-vos da Páscoa, da alegria da Ressurreição, mas toda a minha memória foi submersa por estes momentos de fé, de luto e de dor pela morte de Cristo.

 

                                   Não quis deixar de os assinalar, até porque, tendo-os julgado esquecidos durante anos, na altura em que fui submetida a uma operação muito grave, logo ao sair da anestesia eles me acudiram ao pensamento, e uma voz interior cantava incessantemente em mim esses e outros trechos da Ida ao Calvário que me tinham acompanhado desde a infância e agora, incapaz de recordar ou elaborar outras orações, enchiam o meu coração de paz, de amor e de esperança como se tivesse voltado à minha infância e àquelas idas ao Calvário, como se a minha alma estivesse ajoelhada aos pés de Jesus, com a mesma confiança da criança que fora.

 

                                   A ida ao Calvário não era uma Festa, se pensarmos que Festa é sinónimo de alegria, mas era uma devoção profundamente enraizada na alma do povo, numa tradição que marcou para sempre a minha infância.

 

                                                  Beijinhos da Vóvó

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Domingo, 24.06.07

 

Meus queridos netinhos:

 

            Num Natal, já eu andava pelos cinquenta anos, recebi o presente mais inesperado da minha vida. Ou antes, mais des-esperado.

 

            Estávamos a trocar as ofertas, quando o meu filho mais novo, agora Pai da Cristina, me pôs nos braços uma caixa enorme, muito bem embalada com fitas e laços e, lá dentro, uma boneca que eu tinha esperado durante toda a minha infância e que nunca chegara a receber.

 

            Nessa época já distante e numa pequena aldeia perdida para lá do Marão, poucas crianças tinham brinquedos e só os mais felizardos faziam gala do seu pião, da bola geralmente de trapos, duns carrinhos puxados por dois bois, tudo em madeira bem colorida, e as meninas atingiam o seu maior desejo quando de alguma feira ou romaria lhes traziam uma pequena boneca de pasta de cartão, toda ela cor de rosa e que em breve, por isso mesmo, estava já a pedir uma boa banhoca. E lá vinham então os choros desesperados em face da massa peganhenta que restava de tão lindo sonho.

 

            Eu tive uma ou duas dessas bonecas, de caras inexpressivas que também encontraram o seu fim na selha de lavar roupa. E tive também mais algumas, feitas pela minha mãe a partir dum pequeno ramo de árvore, onde se pudessem simular uns braços, mais raramente umas pernas, e que com uma cabeça de pano branco recheado de algodão, onde se bordavam grosseiramente uns olhos e uma boca, se podia vestir de muitas roupitas que a minha mãe fazia com retalhos que tivesse à mão. Eram as minhas “monas” e como me tinham dado uma caminha de lata e um pequeno fogão do mesmo material, não precisava de mais nada: podia cozinhar e dar-lhes de comer, despi-las e deitá-las na caminha, enfim, o que uma menina gosta de fazer como se tudo fosse a sério.

 

            Mas o meu problema com as bonecas surgiu no dia em que a minha madrinha, irmã da minha mãe, me mostrou uma grande e bela boneca de porcelana, a meu ver luxuosamente vestida, com cabelo natural e que abria e fechava os olhos azuis como se fosse verdadeira. Mostrou-ma e disse que seria para mim quando eu fosse um pouco mais crescida – na altura não teria mais de seis anos – e embora continuasse na sua posse, eu sentia-a já como se fosse minha: imaginava-me a pentear-lhe os cabelos, a deitá-la no berço do meu irmão mais novo, a abraçá-la, a dar-lhe mimos e carinho.

 

            Mas passados uns dois anos, quando já se aproximava a altura de ver realizadas as promessas que me tinham feito, eis que surge na minha vida a primeira grande catástrofe: os meus avós receberam a visita duns sobrinhos que viviam numa aldeia próxima e a filha deles, uma menina já com os seus doze anos, vê a boneca, agarra-se a ela e nada nem ninguém lha consegue tirar dos braços, e muito menos calar a choradeira que se seguia a cada tentativa de a recuperar.

 

            Lá fiquei eu sem a boneca e também sem a fantasia que rodeava as minhas “monas”, agora reduzidas à sua insignificância.

 

            Os anos passaram, casei, tive filhos todos rapazes pelo que nunca mais entrou na minha vida uma boneca a valer. Vi-as nos quartos das filhas das minhas amigas, quase sempre abandonadas no meio de muitas variantes:  Nenucos (gémeos ou não), Barbies equipadas com inúmeros vestidos para as várias profissões e circunstâncias, bebés chorões, enfim, um enjoo para mim e para elas.

 

            Podeis portanto imaginar, meus queridos netinhos, qual não terá sido a minha emoção ao receber das mãos dum filho quase adulto, como prenda de Natal, uma boneca muito parecida com aquela que tão cruelmente me fora tirada.

 

            - Ó mãe, é para si que nunca teve uma boneca.

 

            Claro que já não a abraçava nem lhe dava miminhos e quando lhe penteava os cabelos era porque, realmente, eles estavam a ficar embaraçados. Mesmo assim, sentada numa cadeira no meu quarto, era com parcimónia que te deixava, Cristina, brincar com ela. E agora que tenho um netinho com um ano e meio, estou sempre alerta para evitar que ele lhe puxe pelas pernas ou pelo cabelo – é o que o Zézinho mais gosta de fazer - e a estatele no chão, sabe Deus, com que funestas consequências.

 

Até breve! Beijinhos dos Vóvós!

Estão a reconhecê-la, aqui em baixo?

                              

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            Meus queridos netos:

 

            No dia em que cheguei a Lisboa, pela noitinha, o meu Tio foi levar-me a conhecer a Família que me iria acolher e que era composta pelo pai, a mãe, um filho e uma filha. Ao vê-los, gente normal, jamais poderia imaginar que aquele iria ser o período mais triste da minha vida.

 

            Quando o meu Tio, ao apresentar-me, disse que eu tinha sido muito boa aluna na primária pelo que a minha tia-professora insistira com os meus Pais para que me deixassem continuar os estudos, logo a mãe se apressou a dizer:

 

            - Pode vir a ser muito boa aluna mas nunca como a minha Eutávia, que tem sempre bom em todas as disciplinas.

 

            Estava traçada a minha sentença: os ciúmes e a inveja envenenaram uma relação que podia ter sido amável e gratificante para todos. Mas não.

 

            Já falei do desdém que mereceu a minha roupa interior. E esse desdém foi como um vírus que nada deixou incólume.

 

            Era o tempo da II Guerra Mundial, cujos sinais mais visíveis no nosso país eram as tiras de papel branco cruzado sobre tudo quanto era vidro para minorar os estragos dos bombardeamentos, que graças a Deus nunca nos atingiram e um racionamento apertado pois escasseavam os bens, que alguns diziam ser enviados para os países beligerantes.

Por outro lado os rendimentos daquela família como os da maioria, eram tão escassos que roçavam a miséria: a mãe fazia acabamentos de peças de roupa – calças sobretudo – que ia buscar e levar aos Armazéns do Grandela e que lhe ocupavam os serões até bastante tarde. Chuleava, fazia bainhas, abria cavas e pregava botões, ganhando um tanto por cada peça; a filha, realmente era boa aluna, sobretudo se se tomasse em conta que frequentava um curso comercial nocturno e trabalhava de dia num escritório, donde, mesmo que não fosse bem paga, trazia um importante contributo para as despesas. A minha mensalidade pagava o arrendamento de um rés-do-chão perto da Alameda D. Afonso Henriques e, portanto, também do meu Tio, que tinha  a sua loja de “Louças, Vidros e Mercearias Finas” na Avenida Almirante Reis, perto do Largo que ainda não existia e se viria a chamar Praça do Areeiro; o filho, mais novo, andava a estudar e o pai estava desempregado. Ia, uma vez por semana, à Lota do Peixe, onde comprava um cabaz de carapaus que, depois de salgados, eram cozidos com batatas e nos serviam de conduto durante toda a semana. Por isso era dia de festa quando chegava da família do Alentejo uma modesta encomenda de toucinho e alguns chouriços.

 

            O racionamento era feito através de cupões individuais que davam direito a comprar determinadas quantidades muito pequenas dos bens alimentares de primeira necessidade e também o petróleo do fogareiro onde se cozinhava. De tudo isto eu só sabia as generalidades já que, como diz o povo, não eram contas do meu rosário. Só me lembro do pão: um quarto de pão por pessoa, para todo o dia. Mas, antes do sistema de racionamento ter sido instituído, a situação era ainda pior, pois formavam-se grandes filas de espera junto aos estabelecimentos. Havia pessoas que, quando viam uma dessas filas, alinhavam logo nela, sem indagar sequer o que “estavam ali a dar”, como então se dizia, porque o quer que fosse era batalha ganha, mesmo pagando!

 

            Por isso, como me magoava, ao pequeno-almoço (uma chávena de café de cevada, com uma pequena fatia de pão) ouvir dizer ironicamente:

 

            - Se calhar gostavas mais das tuas couves!

 

            E gostava. Que bem me sabia, na casa dos meus Pais, quando não havia leite, um prato de excelente caldo verde e uma boa fatia de pão de centeio aquecida e mergulhada em azeite. Mas ficava-me calada a tentar ignorar a conversa:

 

- Só faltava dizer que passas fome!

 

Penso que nessa época, a maior parte das pessoas passava fome ou não comia quanto tinha na vontade.

 

Mas, apesar disso e porque não queria dar parte de fraca e ser mandada para casa, deixando os meus queridos estudos, quando ia a casa do meu Tio, onde por ele ter uma mercearia nada faltava na mesa em que às vezes os encontrava a jantar, não aceitava qualquer comida, a não ser rebuçados ou chocolates. E não era por ser gulosa.

 

Também a minha Mãe, lá tão longe, não fazia a mínima ideia dos meus sacrifícios pois sempre as minhas cartas eram cheias de optimismo, centrando-se, sobretudo, nos bons resultados que obtinha nas aulas e sabia irem dar-lhe a maior satisfação, por mim e por verem os seus esforços compensados.

 

Mas também esses sucessos foram – e talvez mais do que tudo o resto – motivo para mim, de grande motivação, e de cada vez que tinha notas muito elevadas, o que sempre acontecia pois era a melhor aluna da Escola, fazia todo o caminho até casa de coração apertado, a pensar em que, em vez da alegria que sentiam os meus Pais, ouvia quase invariavelmente:

 

            - Pois, os cestos cheios que os teus Pais mandam da terra para os teus professores sempre haviam de servir para alguma coisa …

 

            Engoli muitas lágrimas em seco, perante tão grande mentira e tão requintada maldade, mas não só não retorquia – não valia a pena – como até gostava de ajudar: como nunca precisava de estudar à noite, passei muitos serões entretida a pregar botões e a fazer outros acabamentos, aperfeiçoando os rudimentares conhecimentos de costura que tinha adquirido na aldeia durante o ano em que esperei ter a idade que a minha mãe achava a mínima para me aventurar em Lisboa.

 

            E vejam lá a aventura que havia de ocorrer, mal tinha chegado à grande cidade. No primeiro dia de aulas, o meu Tio pediu a uma menina nossa vizinha que também frequentava a Escola Comercial Veiga Beirão no Liceu Maria Amália, que me servisse de guia e companheira.

 

            Fomos juntas, a pé, do Areeiro ao Liceu Maria Amália, quem conhece Lisboa sabe que é uma grande distância. Mas, depois, nunca cheguei a saber qual a razão do desacerto, não vi sombra da minha companheira e fiquei sem guia para o regresso a casa.

 

            Era Outubro, os dias mais pequenos e não havia que hesitar: meti pés ao caminho e lá fui andando na direcção certa até que me encontrei num dilema: eu sabia que tinha seguido uma linha de eléctrico mas, a dada altura, essa linha dividia-se, indo um ramal para o Jardim Zoológico.

 

            Nada disso eu conhecia. Começavam a acender-se as luzes e o meu coração, pequenino, parecia querer saltar do peito. Reparei numa grande igreja, acabada de construir e que mais tarde vim a saber tratar-se da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Pedi ajuda à Nossa Senhora Auxiliadora, a quem na igreja da minha aldeia rezava desde pequena. Lembrei-me, então, da recomendação da minha Mãe: “Se alguma vez te perderes, não te fies em ninguém. Pede ajuda a um polícia”.

 

            Assim fiz e o senhor guarda foi tão amável que me levou até casa, explicando-me pelo caminho com todo o pormenor, qual o erro de orientação que eu tinha cometido. E o certo é que nunca mais me perdi em Lisboa.

 

            Muito mais poderia contar mas, para não ser maçadora, resumo dizendo que foram assim, sem grandes variantes, os primeiros dez meses da minha vida com estranhos.

 

            Mas quando Julho chegou, orgulhosa do meu esforço e da minha obstinação, foi como se se me tivessem aberto as portas do Paraíso: o regresso a casa, o carinho da família que tanto me tinha faltado e a minha pequena aldeia, tal qual a tinha deixado, perdida para lá do Marão.

 

 

                 

 

 

 

           

 

           

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Sábado, 23.06.07

 

 

 

            Meus queridos netos:

 

 

            Li outro dia numa revista - com grande pasmo se diga – que uma menina de nove anos pôs em alvoroço clientes e empregados  do El Corte Inglês, a gritar quase histérica, para a outra ponta do corredor da secção “Moda Jovem”:

 

            - Mãe, ó mãe. Anda cá ver. Sabes que já trouxeram para aqui uma secção de roupa da Dolce & Gabana.

 

            A mãe, entre vaidosa pela precocidade da filha e um certo receio do ridículo, lá foi esclarecendo:

 

            - Sabem, é que tanto o meu marido como eu trabalhamos no domínio da moda, no que já fomos seguidos pela nossa filha mais velha, a Celeste, que colabora numa revista da especialidade, com dezasseis anos apenas. E é isso: as revistas que recebemos, as nossas conversas profissionais têm condicionado bastante a maneira de ser das miúdas.

 

            Ao lado, uma senhora já perto dos sessenta anos comentava para uma amiga:

 

             - Pode ser. Mas o que eu penso é que isto está a ser uma epidemia que atacou os graúdos e logo contaminou os miúdos. Ainda há dias, percorri de ponta à ponta o Centro Comercial das Amoreiras à procura de uns ténis para a minha neta que, com apenas sete anos, exigia uma determinada marca: “a que todos os colegas tinham lá na Escola dela”. Quando penso no meu tempo…

 

            Foi esta última frase que me fez recuar, não digo já à minha infância, em que “o vestido de ver a Deus” tinha de ser trocado por outro ainda mais simples e cuidadosamente guardado, mal se voltava da missa. Vem a propósito dizer que, certo domingo, ao enfiar o vestido que usava todos os dias, deslizou-me pelas costas abaixo uma salamandra relativamente grande, toda sarapintada e viscosa, de cujo contacto nasceu a minha aversão aos répteis.

 

            Nessa altura eu só sabia que a roupa, como tudo, tinha de ser muito bem poupada. Era cerzida, remendada, virada do avesso e ninguém reparava nisso. Era normal.

 

            A primeira vez em que me apercebi de que havia modas, ou seja roupas compradas nas lojas do Chiado e arredores, foi quando ao tirar da mala que trouxera da aldeia, a minha roupa interior para a guardar na gaveta que me tinham destinado, ouvi os risinhos sarcásticos da Eutávia, a filha mais velha do casal que me hospedara:

 

            - Que roupinha mais saloia! Ora vejam: combinação de opalete às florzinhas a condizer com as cuecas idem e ainda por cima todas enfeitadas com rendinhas feitas à mão, calculo que por ti própria. E meias de renda de cinco agulhas, até ao joelho – essas devem ter sido feitas pela tua avó e sabes o que me lembram? As que usam os campinos dos ranchos do Ribatejo nas exibições folclóricas. Olha, minha menina: a moda agora, a ultima moda, vinda da América, são combinações, cuecas, soutiens e meias, tudo de nylon. Qual lã, qual algodão, qual carapuça! Tem de ser tudo de nylon, que é fininho, brilhante e essa roupa nem precisa de ser engomada.

 

            Vim a conhecer essas maravilhas logo na manhã seguinte, quando fui ao quintal: lá estavam, dependuradas da corda, as elogiadas roupas que a Eutávia lavava à noite e tencionava vestir quando voltasse do emprego, pois, enquanto eu tinha pelo menos meia dúzia de combinações de opalete às florinhas, a minha crítica só possuía duas mudas de roupa, que mais não lhe permitia o modesto emprego que acumulava com os estudos, à noite.

 

            Não me lembro de ter ficado traumatizada – ia jurar que não – pois continuei a gostar do enxoval que a minha mãe me preparara com tanto carinho e a usar as meias à campino que, só chegando até ao joelho, me deixavam, no rigor do Inverno, as pernas todas vermelhas, embora nunca desse pelo frio. Lembro-me de, mais tarde, quando os sapatos ficaram velhos, com buracos nas solas, eu os forrar de papel de jornal para me enfiar na Barateira, um alfarrabista da Baixa, a cobiçar e a comprar, sempre que as poupanças davam para isso, um livro de Aquilino Ribeiro – que era lá dos meus sítios e falava de personagens que sempre me lembravam alguém que eu tinha conhecido e usavam palavras que, ao contrário de muitos dos meus colegas, eu conhecia muito bem – ou então de Stephan Zweig, da Pearl Buck e outros autores em voga.

 

            Passaram-se alguns anos. Quando entrei na Faculdade, tive o privilégio de comprar um casaco comprido, novo, feito por uma modista que trabalhava muito bem. Era todo às riscas estreitas, em diagonal, uma branca seguida por outra castanha. Usei-o durante quase todo o curso mas, lá para o fim, não resisti à tentação de renovar o guarda-roupa: mandei-o virar do avesso e tingir, todo de azul-escuro. E até ficou bem bonito com as riscas a conhecerem-se mas todas elas azuis, mais claras as que tinham sido brancas, mais escuras as castanhas. Muita gente assim procedia, incluindo os homens. O Vôvô conta que em Portalegre até havia um alfaiate especializado em virar fatos que depois ficavam como novos. O único problema era a casa que então se usava na lapela do lado esquerdo - onde alguns punham o emblema do clube da sua preferência ou uma flor – que passava a figurar na lapela do lado direito, o que denunciava a operação. Os que podiam mandavam-na cerzir, uma operação que a encarecia, hoje em desuso.

 

            Talvez vos custe a acreditar, meus queridos netos, mas ainda agora, passados mais de cinquenta anos, quando evoco algumas das minha quarenta colegas de Românicas, aliadas aos nomes, em que sou perita, surge logo a saia de xadrez pregueada da Conchita, o casaco verde-claro e talhado em godís  da Maria Helena, o grande casaco cinzento com pele de coelho da gorda Joana Queiró e assim por diante.

 

            Queres melhor prova do apego que tínhamos às nossas roupas, que nos acompanhavam sempre, durante vários anos e passavam a fazer parte das nossas personalidades? Marcas, para quê?

                                

 

publicado por clay às 18:53 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quarta-feira, 20.06.07

 

 

 

 

Meus queridos netinhos:

 

Nos primeiros dias de Outubro, iam em plena euforia as vindimas, com os socalcos do Douro pintados de todas as variantes de vermelho, ocre e castanho, quando, abraçada à minha Mãe e olhando já com saudades para tudo o que me rodeava e me era tão familiar, me despedi mais chorosa do que, nos meus onze anos, tinha imaginado. Era uma longa despedida, pois já sabia antecipadamente que não voltaria a casa senão nas férias grandes, ainda tão longínquas.

 

            Mas a aldeia não era servida por camionetas pois nem sequer estrada havia a não ser para as sedes dos concelhos e a viagem de comboio até Lisboa era um autêntico calvário, embora eu a encarasse muito mais como inesperada aventura.

 

            Saímos de casa ainda mal despontava o sol, eu montada no nosso velho Carriço, à ilharga de meu Pai e seguidos por outro cavalo que levava as minhas duas pequenas malas e o farnel da merenda. Isto quando se arranjavam dois cavalos. Caso contrário eu montava no meio das malas, segurando o farnel. E o meu Pai, coitado, lá ia a pé quilómetros e quilómetros por montes e vales até chegarmos à estação do Pinhão e aí esperávamos pelo comboio que chegava no princípio da tarde.

 

            A estação do Pinhão deixou-me totalmente fascinada com os seus azulejos azuis e brancos, onde se representavam os trabalhos da vinha e do vinho. Creio que foi o meu primeiro encontro com a arte que nessa altura considerei genial.

 

            Mas eis que o comboio entra na estação, vindo dos lados de Barca de Alva, vomitando espesso fumo negro e atroando os ares com os ruídos dos velhos freios e o descarregar das suas caldeiras. Não havia tempo a perder: um último abraço a meu Pai e eis que me encontro no meio dum rancho de vindimadores, que antes de se submeterem à inclemência do sol a faiscar no xisto das vinhas e ao peso dos cestos vindimeiros transportados encosta acima, afastavam as saudades da família e o receio do desconhecido com descantes que eu muito bem conhecia pois o roteiro de alguns desses ranchos passava pela minha aldeia, onde à noite descansavam em palheiros e partilhavam da sopa que sempre lhes ofereciam e armavam animados bailaricos.

 

            No comboio eu não via mais nada: só o rancho de vindimadores, cantando ao som do harmónio, dos ferrinhos e de uma ou outra perdida viola ou cavaquinho. Via também os bancos de madeira, pois viajava na 3ª classe, assinalada por três traços verticais (a 2ª tinha dois traços e a 1ª apenas um, que metia respeito. Penso que era assim para não haver enganos, pois naquele tempo a taxa de analfabetismo era muito elevada). Um dia olhei para dentro da primeira classe e vi os bancos estofados de veludo e um pano de renda para recostar a cabeça, luxos esses que estavam, como é de ver, muito longe das minhas possibilidades. No entanto ouvi dizer que, também lá havia pulgas e até percevejos, insecto este hoje quase desconhecido no nosso país, mas que naquele tempo infestava as melhores camas, mesmo em hotéis de nomeada. O vôvô conta que, quando fez o serviço militar em Mafra, na Escola de Oficiais Milicianos, alguns anos mais tarde, as camas de ferro era transportadas todos fins-de-semana para a parada do quartel onde eram desinfestadas a maçarico, porque os malfadados e malcheirosos bichinhos escondiam-se durante o dia nas zonas mais inacessíveis dos ferros e só o fogo lá chegava para os destruir. De noite passeavam entre os lençóis e massacravam com as suas picadas dolorosas os pobres cadetes que tentavam dormir. Nos primeiros dias da semana que se seguia, era um descanso, mas, quando se aproximava novo fim-de-semana, novo inferno e nova desinfestação…

 

            Os meus companheiros de viagem eram sobretudo soldados, pois tinha começado a segunda grande guerra (1940-1945) e havia muitas movimentações de tropas. Por essa razão se decretou o racionamento de bens alimentares (e também do petróleo e da gasolina) e as famílias enviavam das aldeias para os seus parentes nas cidades cestos e cestos de mantimentos que atravancavam todos os espaços. Não havia um cantinho livre. A certa altura, extenuada, aceitei com agrado a sugestão de alguém:

 

            - Ó menina, sente-se aí nesse cesto que só leva batatas e cebolas. Sempre dá um pouco de descanso às pernas.

 

            A princípio, achei o “estofo” bastante incómodo mas em breve adormeci. A noite passou sem eu quase ter dado por isso e, de manhã, cheia de fome, devorei uma perna de coelho frito, uma fatia de pão e um cacho de uvas do farnel. Uma paragem mais longa no Porto e lá segui, toda a manhã, com a sensação de estar ainda na Escola, numa sala de geografia, pois nos meus ouvidos atónitos iam desfilando todas as estações e apeadeiros cujos nomes ali tinha aprendido de cor e salteado.

 

            É verdade que no Porto tinha saído muita gente e muitos cestos e só então eu arranjei um lugar ao pé da janela, o que me permitiu ver o vasto mundo que ia atravessando e de que jamais suspeitara a incrível variedade e o incomensurável tamanho. Entretanto a minha aldeia ia-se-me afigurando cada vez mais pequenina. Cabia-me toda dentro do coração.

 

            Lá para o meio da tarde, um tudo nada atordoada, cheguei à estação do Rossio, onde me esperavam os braços amigos do meu Tio Armando, que muitas vezes me fez de Pai e companheiro, tornando a cidade grande bem mais acessível e acolhedora para mim.

 

            Não tanto nesse momento de encontro pois logo o meu Tio, apontando a minha cara, gracejou:

 

            - Ó cachopinha, tu vieste do Pereiro mas foste dar a volta pela África?

 

            E perante o meu ar encabulado, logo veio em meu auxílio:

 

            - Claro, claro, é do túnel. Por mais que fechem as janelas não se livra a gente de sair de lá todo enfarruscado com a fumaça negra do comboio!

                                         

 

 

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Domingo, 17.06.07

              

Nas ilhas gregas pressenti o antigo passar

dos deuses

e os traços

dos mitos.

 

Era verão.

A paisagem austera faiscava

e o mar de cobalto

falava

de Ulisses

e sereias

 

Mas nestas ilhas não,

tudo é diferente:

não há máscaras de ouro

de reis que foram

nem cavalos de bronze

no fundo do mar.

 

Nestas Ilhas há Gente.

 

 

Angra do Heroísmo, 1984

 

Clementina Relvas

(em homenagem aos obreiros da reconstrução

dos Açores após o grande terramoto de 1980).

 

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publicado por clay às 19:27 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 16.06.07

 

                                 

 

            Meus queridos netos:

 

            Quando agora vos falam, e com toda a razão, do valor da água e da possibilidade, não muito remota, de ela se tornar cada vez mais escassa devido às alterações climatéricas, os vossos olhos revêem as trágicas imagens de meninos ou mesmo adultos esqueléticos que, principalmente em África, carregam à cabeça, com os pés descalços na terra gretada, vasilhas de plástico cheias desse precioso líquido, quantas vezes tirada de rios ou poços poluídos.

 

            O vosso coraçãozinho aperta-se, eu sei, porque se consideram uns meninos privilegiados com água a correr nas torneiras e porque acham que nada podem fazer para ajudar aquelas pessoas. Mas isso não é verdade: sei que conhecem muitos truques para poupar água, na cozinha, na casa de banho e não é disso que eu vos quero falar.

 

            Quero mostrar-vos a importância que a falta de água teve para mim quando eu era pequena. A minha aldeia ficava no alto dum monte e não se achava por perto nenhum curso de água permanente. Havia, é certo, pequenos ribeiros que, mal acabava a primavera, se iam rendendo à torreira do sol e ficavam reduzidos a uma ou outra pequena poça onde, não sei como, algumas rãs conseguiam sobreviver quebrando, com o seu coaxar, o silêncio das tardes calmosas.

 

            Havia também uma fonte, ou melhor um fontanário à saída da aldeia. Mas chegados os calores do mês de Julho, a bica começava a diminuir, e quedava no pingue-pingue até chegar de novo o Inverno. Algumas pessoas, poucas, tinham aberto minas onde iam buscar água pura e fresquinha, mas mesmo essa tinha de ser transportada em cântaros de lata, à cabeça, às de vezes de uma distância considerável. E como as nascentes eram pequenas, não era possível partilhá-la com todos os habitantes da aldeia. Esses, na sua quase totalidade iam logo de manhã à fonte pôr os seus cântaros ou bilhas em fila de espera, uma fila que chegava a ter muitos metros e levava muitas horas a desaparecer. Diga-se em abono da verdade que, às vezes até era divertido ficar ali algum tempo à espera da nossa vez. As mulheres punham em dia os ditos e mexericos e as crianças brincavam perto delas, ao bom barqueiro, em danças de roda, à macaca e, as mais afoitas, iam mostrar o seu equilíbrio correndo na borda inclinada dum tanque de granito, onde no Inverno, muita gente lavava a roupa. Claro que não se tratava apenas da nossa habilidade mas também da força centrífuga, que só mais tarde viemos a conhecer na Física, que nos impedia de “malhar” lá dentro.

 

            O povo, porém, lamentava-se, com razão, de tanta falta de água, até que uma pessoa que tinha ido viver para Lisboa e ali conhecia algumas pessoas influentes decidiu meter mãos à obra e conseguir que o Governo desse dinheiro para se escavar mais a mina, em busca de um veio mais generoso que viesse matar aquela sede de água.

 

            Ora acontecia que a mina era pública mas tinha sido escavada, há muitos anos, numa propriedade agora do meu Avô, onde ele tinha outra mina que alimentava um tanque. Aí se lavava a roupa e a água deste ainda se aproveitava para regar uma horta de tamanho razoável. Meteu-se então na cabeça das pessoas – e parece também dos engenheiros encarregados da obra – que, se conseguissem captar a nascente do meu Avô, ficava resolvido o problema do abastecimento de água à povoação.

 

            Mas como nos meios pequenos – e não só – a inveja e a maldade são mais fortes do que a razão, num dia toda a aldeia acordou alvoroçada, dizendo que a água da fonte pública tinha sabão e que este só podia porvir do tanque do meu Avô. Nada mais errado, porque o tanque ficava muito para cima e ao lado da mina e nunca até essa data ninguém se queixara de nada. O que de facto acontecera é que alguém, a ocultas, tinha ido ensaboar a água, para mais facilmente conseguirem as prometidas obras.

 

            Foi um reboliço na aldeia e também na nossa casa porque o meu Pai, que era o Regedor, pegou numa velha espingarda e dirigiu-se para a fonte, onde o povo se tinha amotinado. Claro que nunca ele, alma pacífica e boa, seria capaz de utilizar a arma para fazer mal a quem quer que fosse e nem sei se mesmo de dar um tiro para o ar. A minha Mãe, pessoa impetuosa e mais irritável, acompanhou-o e, qual Maria da Fonte, foi ela quem acabou com a manifestação.

 

            Nós, os meus irmãos e eu, ainda pequenos, ficámos em casa cheios de medo e de angústia, embora então não percebêssemos bem o que se estava a passar.

 

            Mas a questão arrastou-se por muitos anos: o lisboeta metia a sua cunha e vinham os engenheiros para começar a obra; o meu Avô que, na sua qualidade de presidente da Junta, conhecia muito bem e até era amigo do Governador Civil, ia a Viseu e voltava de lá com uma ordem de embargo. Os engenheiros iam, voltavam, a cena repetia-se até que, por fim, o povo levou a melhor e as obras começaram. E porque se tinha partido do falso princípio de que o terreno do meu Avô é que inquinava a água, fizeram por cima da mina uma vedação de arame que lhe tirou um bom pedaço de terreno. Foi tal o seu desgosto que, já velho como era, nunca mais saiu de casa.

 

            Uma bela tarde, mal o terreno tinha sido vedado, a minha Mãe deparou-se com uma enfiada de roseiras junto à cerca, que uma irmã do lisboeta, até aí nossa vizinha e amiga, se tinha entretido a plantar. Então é que foram elas. A minha Mãe, num ataque de fúria, lançou as mãos às roseiras ignorando os espinhos e veio de lá com as mãos a sangrar mas feliz por ter exercido a sua justiça:

 

            - Então o terreno tinha de ser vedado para não se cultivar lá nada e queriam agora transformá-lo num jardim público, para se irem para lá saracotear, a fazer troça de nós? Nem morta …

 

            A verdade é que, feitas as obras, a bica continuou no seu pingue-pingue e só muitos anos mais tarde, com uma nova captação feita muito longe, é que se resolveu o problema da falta de água que agora corre, farta, nas torneiras das casas.

 

Até breve!...

                                      

publicado por clay às 16:42 | link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 14.06.07

 

            Meus queridos netos:

 

           Se eu perguntar quais as festas de que mais gostam, tenho quase a certeza de não me enganar na vossa resposta:

 

            Em primeiro lugar a festa para assinalar o vosso aniversário para a qual convidam alguns familiares e sobretudo os amigos da vossa idade. O que nela mais vos interessa são as prendas, que avidamente desembrulham para lhes dar uma olhadela  e logo as abandonar,  que já todos os meninos estão à espera das brincadeiras.

 

            Também vos interessa o lanche, em que vos mimoseiam com salgados, doces, gelados, sumos e champomy para fazerdes as saúdes como é hábito dos adultos. Isto quando não vos levam a um Mac Donald. ou outro sítio que ofereça um espaço para os vossos jogos. Ofereça, é como quem diz, pois na maioria dos casos, são bem pesados para a bolsa dos vossos Pais.

 

            Outra festa que também aguardam com ansiedade é o Natal quase pelos mesmos motivos: os presentes, sobretudo os presentes, pois em geral não podem contar com os amigos, entretidos a viver a sua própria Festa e quanto a comidas, torcem o nariz ao peru, às rabanadas e ao arroz doce que tudo isso trocam de bom grado por um hamburguer ou um cachorro.

 

            É claro que gostam de enfeitar as árvores de Natal, de a verem cintilante de luzes e de bolas coloridas. Talvez até acham indispensável colocar ao pé da árvore um presépio, onde Nossa Senhora e São José bem como a vaca e o burrinho, são as únicas companhias do Menino Jesus, pelo menos até chegarem os pastores e os Reis Magos. Mas quem é para vós, o Menino Jesus? E porque é que Ele também entra na Festa? Que Ele é o Filho de Deus, que tomou a forma humana e morreu para nos salvar, escapa-vos completamente. Até porque ignoram da mesma forma quem é Deus, criador do Céu e da Terra e que reserva, para os que O amam, um lugar a Seu lado no Céu.

 

            Mas eu não pretendo, pelo menos aqui, dar-vos uma lição de catequese que actualmente muitos meninos ignoram o que seja.

 

            Eu queria era falar-vos das Festas da minha infância, que nunca se varreram nem varrerão da minha memória.

 

            A Festa dos anos? Não fazíamos a menor ideia do que fosse. Que eu me lembre, nunca nenhum menino, na aldeia da minha infância festejou esse dia, que passava, como qualquer outro, sem deixar rasto nem sinal. Era como se o tempo fosse um contínuo na ânsia de nos fazer mais velhos.

 

            Mas havia Festas, sim, e que nos punham em grande alvoroço:

 

            O Natal começava com a chegada dum pinheirinho que o meu Pai ia buscar ao nosso pinhal, procurando o que menos espaço tinha para crescer, encostadinhos aos outros. Enfeitávamo-lo com algumas estrelas, por nós recortadas em papel de prata, grinaldas em papel branco em que muitos anjinhos se davam as mãos – fazem isso na Escola que eu já vi – e alguns bugalhos que a muito custo conseguíamos atar e pendurar aqui e ali. Por detrás da árvore a minha Mãe colocava, em lugar seguro, um candeeiro de petróleo que ela apagava quando nos íamos deitar, por causa dos incêndios.

 

            Também tínhamos um presépio: era uma cabana em madeira feita pelo meu Pai, com colmo a fazer de telhado. Uma das nossas maiores alegrias era irmos ao campo apanhar o musgo que de há muito tínhamos considerado como o melhor e com ele forrar o chão do presépio que era constituído por vários degraus, onde ficavam colocadas as toscas figurinhas de barro, compradas na feira quando o meu irmão mais velho fez dois anos e que iam desde os pastores e as suas ovelhinhas aos Reis Magos com os seus presentes que totalmente desconhecíamos o que fossem, principalmente a mirra que nunca tínhamos visto. Havia também um galo lá no alto dos degraus, e junto ao Menino Jesus, deitado na manjedoura e guardado pelos Pais e aquecido pelo burrinho e a vaca. Espalhados no cenário, cães, gatos, pintainhos e outros animais nossos conhecidos que, não sei porquê, o meu Pai comprara com um desapego ao dinheiro que lhe não era habitual.

 

            Mas como todos nós frequentávamos a catequese, sabíamos que aquela era a festa de anos, do Menino Jesus, Filho de Deus e Nosso Salvador e por isso todos os dias, juntos com os nossos Pais, O adorávamos rezando.

 

            A noite do Natal era outro momento mágico: sentados frente à lareira, rodeando a minha Mãe, víamos crescer o alguidar das filhoses ou coscorões, que passados por açúcar e canela ou mergulhados, quando ficavam mais duros, numa calda de açúcar perfumada com casca de limão e canela, iriam dar para toda a semana os que sobravam da Ceia de Natal. Esta era sempre feita de bacalhau cozido com batatas e couves tronchas e de polvo também cozido ou em arroz malandrinho.

           

            A mesa era um nunca acabar de gulodices: nozes, religiosamente guardadas para esse dia, algumas das primeiras laranjas do ano, figos secos e pinhões que nós próprios extraíamos das pinhas e das cascas e que, além de saborearmos com gosto, serviam para jogar ao par ou pernão (ímpar) até cairmos de sono, felizes por uma Festa tão bonita.

Até à próxima!

                                     

 

 

           

 

 

 

publicado por clay às 11:52 | link do post | comentar | favorito
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