Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 03.06.07

 

                                                                        

 

Meus queridos netos:

 

            A primeira e única procissão de que me lembro é também uma das minhas primeiras e piores recordações.

 

            Foi marcada por um episódio cómico – para os que a ele assistiram mas não para mim, apesar dos meus cinco anos – e que vos passo a contar:

 

            A Confraria, no desempenho das suas funções, já tinha decorado os andores: o da Nossa Senhora Auxiliadora (minha madrinha), sobre uma nuvem de flores brancas; o de S. Sebastião (o patrono da aldeia) num tronco de flores vermelhas que parecia terem brotado do sangue que escorria das numerosas setas que se lhe cravavam no corpo: o da Senhora das Dores, com lírios roxos como o seu manto e um rosto tão macerado que sempre, ao vê-lo, desatava a chorar e fugia para o colo da minha mãe.

 

            Os penitentes, que cumpriam promessas feitas em horas de aflição, já tinham as suas túnicas roxas deixando ver os pés descalços e iam desfiando as contas do rosário. Já havia alguns anjinhos mas faltava um: uma menina da minha idade que tinha tido um ataque de varicela e devia estar retida na cama. Então alguém se lembrou de que tínhamos mais ou menos a mesma estatura e, por isso, a sua roupa me serviria e eu poderia substituí-la.

 

            Vestiram-me o vestido branco, puseram-me na cabeça uma coroa de rosinhas brancas e – o que já não me agradava tanto – pregaram nas costas do meu vestido umas asas de penas brancas tão precariamente coladas que já faltavam algumas, desertadas de tão sobrenatural missão.

 

            Tomei o meu lugar na procissão, com toda a compostura que a minha pouca idade me permitia e, mal descemos do adro da igreja para a rua eis uma vozinha chorosa que ainda hoje ressoa aos meus ouvidos:

 

            - Eu quero o meu vestido e as minhas asas! Dá-me o meu vestido que o anjinho sou eu…

 

            Fiquei sem pinga de sangue como se já me tivessem despido; saí da procissão lavada em lágrimas, sem ver nada à minha frente e quando me refugiei junto dos meus pais e irmãos, já com uma asa a menos, ouvi o mais velho dizer:

 

            - Deixa lá. Não te aflijas porque, quando eu for grande, hei-de comprar-te uma farda de anjinho com as asas completas, sem lhe faltar pena nenhuma

 

Bem me quiseram convencer a retomar o meu lugar na procissão, mas nada feito. A menina, que não resistira a vir espreitar à porta de casa, já fora levada para a cama donde se pensava que não deveria ter saído; o meu lugar continuava vago na procissão em compasso de espera. O senhor prior tinha interrompido as ladainhas, os meninos das caldeirinhas de água benta entretinham-se a aspergir-se um ao outro, alguns anjinhos mais pequenos tinham desatado a chorar e todos olhavam para mim, suspensos da minha decisão.

 

Mas eu é que não queria mais aquela roupa emprestada, o lugar do outro anjinho e os risos mal disfarçados de alguns rapazes que diziam baixinho, mas de forma a serem por mim ouvidos:

 

- Pois é! Como lá diz o ditado “quem o alheio veste na praça o despe”.

 

Eu também conhecia aquele ditado mas nunca tinha imaginado que um dia andaria na “praça” com vestes alheias, ainda que fossem de um anjinho doente.

                                        Beijos da Vóvó

 

publicado por clay às 00:46 | link do post | comentar | favorito
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