Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 09.06.07

Minha querida netinha:

 

 

            Quando vivia na minha aldeia, as famílias não compravam quase nada nas lojas. Aliás só havia uma pequena mercearia onde se vendia de tudo. Comprava-se algum açúcar - bolos não se compravam nem se faziam – uns poucos pacotes de arroz, uns quilos de bacalhau e pouco mais.

 

            A nossa roda de alimentos era um pouco coxa porque quase nunca incluía carne – a não ser carne de porco ou alguma galinha velha que deixara de pôr ovos e peixe ainda menos pois não havia redes de frio, nem frigoríficos, nem nada disso e só lá de vez em quando vinha um peixeiro que trazia no seu burrico umas barricas de sardinhas salgadas e às vezes já a picar na língua.

 

            Os alimentos mais utilizados eram o caldo verde ou a sopa de couve com feijão manteiga, regados com bom azeite da nossa lavra. Também se comiam muitas batatas cozidas – fritas raramente – com molho de azeite e vinagre, um ou outro ovo estrelado e a carne de porco que matávamos em casa e dava para todo o ano. Quando o meu pai ia à Vila comprava alguma carne de vaca e então havia o rancho melhorado com algum bife, arroz de carne ou carne guisada acompanhada com batatas cozidas, sempre presentes.

 

            Depois, havia os mimos que a roda do ano trazia: as alfaces e tomates para as saladas e o feijão verde, no verão, as uvas e maçãs quando chegava o Outono e as castanhas cozidas ou assadas no braseiro da cozinha, a mitigarem o frio do Inverno. Ah! Esquecia-me das cerejas. Era a fruta de que eu mais gostava porque eram bonitas – até davam para fingirem de brincos nas orelhas – e porque inauguravam a época das delícias: abrunhos, nêsperas, peras que nos regalávamos a colher das árvores para comermos ali mesmo, sumarentas e fresquinhas. Havia até um ditado a que eu achava muita graça: “De cerejo ao castanho bem me eu avenho – porque havia muita fartura de fruta e legumes – mas de castanho ao cerejo é que eu me vejo”. No Inverno, e tirando as castanhas que se guardavam na arca piladas para a sopa ou ao natural, desapareciam todos os mimos e às vezes havia semanas que nem à horta se podia ir buscar as couves para a sopa por causa da neve ou do sincelo.

 

            Como se vê. Embora a roda dos alimentos fosse bastante incompleta, comia-se de forma saudável, recorrendo aos produtos da terra que quase todos cultivavam em alguma pequena courela. Infelizmente, alguns poucos nem isso tinham mas sempre havia alguém que repartia com eles um pouco que possuía.

 

            Toda a gente, miúda ou graúda, tinha bom apetite e não torcia o nariz ao que lhe punham no prato. Ninguém, é como quem diz: havia uma menina mais crescida, que vivia na casa em frente da nossa. Era filha única e órfã e a mãe fazia-lhe todas as vontades. Era um castigo para comer: não gostava de café com leite, não gostava de favas, nem de ervilhas nem sequer de bacalhau, embora na nossa casa comesse de tudo como nós. Os meus irmãos e eu ficávamos estupefactos ao observarmos as verdadeiras lutas que se travavam entre a mãe e a menina, e em que ela levava sempre a melhor. Nós achávamos aquilo o máximo e quisemos seguir-lhe o exemplo: quando a minha mãe serviu o almoço – já não me lembro de que era – todos nós afastamos os pratos. A minha mãe, espantada com tão invulgar atitude perguntou:

 

            - Que é que se passa? Comeram em casa dos avós?

           - Não – respondemos em coro, só não nos apetece comer essa comida.

           - Ai não?

               

            E, sem mais palavras, abriu a gaveta da mesa da cozinha e enfiou lá os quatro pratos de comida, vítimas da nossa greve. Aí pelas quatro horas, fomo-nos aproximando um a um devorámos tudo quanto havia nos pratos., que apetite não nos faltava e a minha mãe não se deixava enganar. Bem sabia ela que a fome falava mais alto.

 

            E foi assim que terminou a nossa greve da fome e ainda hoje dou graças a Deus pelos alimentos variados que nos dava à volta do ano, ao ritmo das estações.

                                                      

publicado por clay às 01:01 | link do post | comentar | favorito
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