Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 24.06.07

 

Meus queridos netinhos:

 

            Num Natal, já eu andava pelos cinquenta anos, recebi o presente mais inesperado da minha vida. Ou antes, mais des-esperado.

 

            Estávamos a trocar as ofertas, quando o meu filho mais novo, agora Pai da Cristina, me pôs nos braços uma caixa enorme, muito bem embalada com fitas e laços e, lá dentro, uma boneca que eu tinha esperado durante toda a minha infância e que nunca chegara a receber.

 

            Nessa época já distante e numa pequena aldeia perdida para lá do Marão, poucas crianças tinham brinquedos e só os mais felizardos faziam gala do seu pião, da bola geralmente de trapos, duns carrinhos puxados por dois bois, tudo em madeira bem colorida, e as meninas atingiam o seu maior desejo quando de alguma feira ou romaria lhes traziam uma pequena boneca de pasta de cartão, toda ela cor de rosa e que em breve, por isso mesmo, estava já a pedir uma boa banhoca. E lá vinham então os choros desesperados em face da massa peganhenta que restava de tão lindo sonho.

 

            Eu tive uma ou duas dessas bonecas, de caras inexpressivas que também encontraram o seu fim na selha de lavar roupa. E tive também mais algumas, feitas pela minha mãe a partir dum pequeno ramo de árvore, onde se pudessem simular uns braços, mais raramente umas pernas, e que com uma cabeça de pano branco recheado de algodão, onde se bordavam grosseiramente uns olhos e uma boca, se podia vestir de muitas roupitas que a minha mãe fazia com retalhos que tivesse à mão. Eram as minhas “monas” e como me tinham dado uma caminha de lata e um pequeno fogão do mesmo material, não precisava de mais nada: podia cozinhar e dar-lhes de comer, despi-las e deitá-las na caminha, enfim, o que uma menina gosta de fazer como se tudo fosse a sério.

 

            Mas o meu problema com as bonecas surgiu no dia em que a minha madrinha, irmã da minha mãe, me mostrou uma grande e bela boneca de porcelana, a meu ver luxuosamente vestida, com cabelo natural e que abria e fechava os olhos azuis como se fosse verdadeira. Mostrou-ma e disse que seria para mim quando eu fosse um pouco mais crescida – na altura não teria mais de seis anos – e embora continuasse na sua posse, eu sentia-a já como se fosse minha: imaginava-me a pentear-lhe os cabelos, a deitá-la no berço do meu irmão mais novo, a abraçá-la, a dar-lhe mimos e carinho.

 

            Mas passados uns dois anos, quando já se aproximava a altura de ver realizadas as promessas que me tinham feito, eis que surge na minha vida a primeira grande catástrofe: os meus avós receberam a visita duns sobrinhos que viviam numa aldeia próxima e a filha deles, uma menina já com os seus doze anos, vê a boneca, agarra-se a ela e nada nem ninguém lha consegue tirar dos braços, e muito menos calar a choradeira que se seguia a cada tentativa de a recuperar.

 

            Lá fiquei eu sem a boneca e também sem a fantasia que rodeava as minhas “monas”, agora reduzidas à sua insignificância.

 

            Os anos passaram, casei, tive filhos todos rapazes pelo que nunca mais entrou na minha vida uma boneca a valer. Vi-as nos quartos das filhas das minhas amigas, quase sempre abandonadas no meio de muitas variantes:  Nenucos (gémeos ou não), Barbies equipadas com inúmeros vestidos para as várias profissões e circunstâncias, bebés chorões, enfim, um enjoo para mim e para elas.

 

            Podeis portanto imaginar, meus queridos netinhos, qual não terá sido a minha emoção ao receber das mãos dum filho quase adulto, como prenda de Natal, uma boneca muito parecida com aquela que tão cruelmente me fora tirada.

 

            - Ó mãe, é para si que nunca teve uma boneca.

 

            Claro que já não a abraçava nem lhe dava miminhos e quando lhe penteava os cabelos era porque, realmente, eles estavam a ficar embaraçados. Mesmo assim, sentada numa cadeira no meu quarto, era com parcimónia que te deixava, Cristina, brincar com ela. E agora que tenho um netinho com um ano e meio, estou sempre alerta para evitar que ele lhe puxe pelas pernas ou pelo cabelo – é o que o Zézinho mais gosta de fazer - e a estatele no chão, sabe Deus, com que funestas consequências.

 

Até breve! Beijinhos dos Vóvós!

Estão a reconhecê-la, aqui em baixo?

                              

publicado por clay às 16:12 | link do post | comentar | favorito

 

 

 

            Meus queridos netos:

 

            No dia em que cheguei a Lisboa, pela noitinha, o meu Tio foi levar-me a conhecer a Família que me iria acolher e que era composta pelo pai, a mãe, um filho e uma filha. Ao vê-los, gente normal, jamais poderia imaginar que aquele iria ser o período mais triste da minha vida.

 

            Quando o meu Tio, ao apresentar-me, disse que eu tinha sido muito boa aluna na primária pelo que a minha tia-professora insistira com os meus Pais para que me deixassem continuar os estudos, logo a mãe se apressou a dizer:

 

            - Pode vir a ser muito boa aluna mas nunca como a minha Eutávia, que tem sempre bom em todas as disciplinas.

 

            Estava traçada a minha sentença: os ciúmes e a inveja envenenaram uma relação que podia ter sido amável e gratificante para todos. Mas não.

 

            Já falei do desdém que mereceu a minha roupa interior. E esse desdém foi como um vírus que nada deixou incólume.

 

            Era o tempo da II Guerra Mundial, cujos sinais mais visíveis no nosso país eram as tiras de papel branco cruzado sobre tudo quanto era vidro para minorar os estragos dos bombardeamentos, que graças a Deus nunca nos atingiram e um racionamento apertado pois escasseavam os bens, que alguns diziam ser enviados para os países beligerantes.

Por outro lado os rendimentos daquela família como os da maioria, eram tão escassos que roçavam a miséria: a mãe fazia acabamentos de peças de roupa – calças sobretudo – que ia buscar e levar aos Armazéns do Grandela e que lhe ocupavam os serões até bastante tarde. Chuleava, fazia bainhas, abria cavas e pregava botões, ganhando um tanto por cada peça; a filha, realmente era boa aluna, sobretudo se se tomasse em conta que frequentava um curso comercial nocturno e trabalhava de dia num escritório, donde, mesmo que não fosse bem paga, trazia um importante contributo para as despesas. A minha mensalidade pagava o arrendamento de um rés-do-chão perto da Alameda D. Afonso Henriques e, portanto, também do meu Tio, que tinha  a sua loja de “Louças, Vidros e Mercearias Finas” na Avenida Almirante Reis, perto do Largo que ainda não existia e se viria a chamar Praça do Areeiro; o filho, mais novo, andava a estudar e o pai estava desempregado. Ia, uma vez por semana, à Lota do Peixe, onde comprava um cabaz de carapaus que, depois de salgados, eram cozidos com batatas e nos serviam de conduto durante toda a semana. Por isso era dia de festa quando chegava da família do Alentejo uma modesta encomenda de toucinho e alguns chouriços.

 

            O racionamento era feito através de cupões individuais que davam direito a comprar determinadas quantidades muito pequenas dos bens alimentares de primeira necessidade e também o petróleo do fogareiro onde se cozinhava. De tudo isto eu só sabia as generalidades já que, como diz o povo, não eram contas do meu rosário. Só me lembro do pão: um quarto de pão por pessoa, para todo o dia. Mas, antes do sistema de racionamento ter sido instituído, a situação era ainda pior, pois formavam-se grandes filas de espera junto aos estabelecimentos. Havia pessoas que, quando viam uma dessas filas, alinhavam logo nela, sem indagar sequer o que “estavam ali a dar”, como então se dizia, porque o quer que fosse era batalha ganha, mesmo pagando!

 

            Por isso, como me magoava, ao pequeno-almoço (uma chávena de café de cevada, com uma pequena fatia de pão) ouvir dizer ironicamente:

 

            - Se calhar gostavas mais das tuas couves!

 

            E gostava. Que bem me sabia, na casa dos meus Pais, quando não havia leite, um prato de excelente caldo verde e uma boa fatia de pão de centeio aquecida e mergulhada em azeite. Mas ficava-me calada a tentar ignorar a conversa:

 

- Só faltava dizer que passas fome!

 

Penso que nessa época, a maior parte das pessoas passava fome ou não comia quanto tinha na vontade.

 

Mas, apesar disso e porque não queria dar parte de fraca e ser mandada para casa, deixando os meus queridos estudos, quando ia a casa do meu Tio, onde por ele ter uma mercearia nada faltava na mesa em que às vezes os encontrava a jantar, não aceitava qualquer comida, a não ser rebuçados ou chocolates. E não era por ser gulosa.

 

Também a minha Mãe, lá tão longe, não fazia a mínima ideia dos meus sacrifícios pois sempre as minhas cartas eram cheias de optimismo, centrando-se, sobretudo, nos bons resultados que obtinha nas aulas e sabia irem dar-lhe a maior satisfação, por mim e por verem os seus esforços compensados.

 

Mas também esses sucessos foram – e talvez mais do que tudo o resto – motivo para mim, de grande motivação, e de cada vez que tinha notas muito elevadas, o que sempre acontecia pois era a melhor aluna da Escola, fazia todo o caminho até casa de coração apertado, a pensar em que, em vez da alegria que sentiam os meus Pais, ouvia quase invariavelmente:

 

            - Pois, os cestos cheios que os teus Pais mandam da terra para os teus professores sempre haviam de servir para alguma coisa …

 

            Engoli muitas lágrimas em seco, perante tão grande mentira e tão requintada maldade, mas não só não retorquia – não valia a pena – como até gostava de ajudar: como nunca precisava de estudar à noite, passei muitos serões entretida a pregar botões e a fazer outros acabamentos, aperfeiçoando os rudimentares conhecimentos de costura que tinha adquirido na aldeia durante o ano em que esperei ter a idade que a minha mãe achava a mínima para me aventurar em Lisboa.

 

            E vejam lá a aventura que havia de ocorrer, mal tinha chegado à grande cidade. No primeiro dia de aulas, o meu Tio pediu a uma menina nossa vizinha que também frequentava a Escola Comercial Veiga Beirão no Liceu Maria Amália, que me servisse de guia e companheira.

 

            Fomos juntas, a pé, do Areeiro ao Liceu Maria Amália, quem conhece Lisboa sabe que é uma grande distância. Mas, depois, nunca cheguei a saber qual a razão do desacerto, não vi sombra da minha companheira e fiquei sem guia para o regresso a casa.

 

            Era Outubro, os dias mais pequenos e não havia que hesitar: meti pés ao caminho e lá fui andando na direcção certa até que me encontrei num dilema: eu sabia que tinha seguido uma linha de eléctrico mas, a dada altura, essa linha dividia-se, indo um ramal para o Jardim Zoológico.

 

            Nada disso eu conhecia. Começavam a acender-se as luzes e o meu coração, pequenino, parecia querer saltar do peito. Reparei numa grande igreja, acabada de construir e que mais tarde vim a saber tratar-se da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Pedi ajuda à Nossa Senhora Auxiliadora, a quem na igreja da minha aldeia rezava desde pequena. Lembrei-me, então, da recomendação da minha Mãe: “Se alguma vez te perderes, não te fies em ninguém. Pede ajuda a um polícia”.

 

            Assim fiz e o senhor guarda foi tão amável que me levou até casa, explicando-me pelo caminho com todo o pormenor, qual o erro de orientação que eu tinha cometido. E o certo é que nunca mais me perdi em Lisboa.

 

            Muito mais poderia contar mas, para não ser maçadora, resumo dizendo que foram assim, sem grandes variantes, os primeiros dez meses da minha vida com estranhos.

 

            Mas quando Julho chegou, orgulhosa do meu esforço e da minha obstinação, foi como se se me tivessem aberto as portas do Paraíso: o regresso a casa, o carinho da família que tanto me tinha faltado e a minha pequena aldeia, tal qual a tinha deixado, perdida para lá do Marão.

 

 

                 

 

 

 

           

 

           

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