Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 26.06.07

                       

 Meus queridos netinhos

 

                        Agora sim, é que vou direita ao assunto: a Páscoa aparece sempre em plena Primavera. um tempo de renovação tanto nas almas como na própria Natureza,

 

                        Eu achava que as almas estavam mais felizes e, por isso, as pessoas diziam e repetiam: Aleluia! Aleluia!

 

                        A Natureza cobria-se de galas, toda adornada das mais diversas e coloridas flores, de que não podíamos prescindir nesta Festa. Primeiro vinham os lírios roxos da Paixão e logo a seguir os brancos, destinados ao altar de Nossa Senhora. Mas eram as “coroas de noiva”, umas hastes flexíveis semeadas de tufinhos de flores brancas, que nos davam a certeza de que a Páscoa estava à porta. Floresciam também os lilases e os goivos, brancos, cor-de-rosa ou vermelhos e uma ou outra roseira temporã. Era com estas flores e também com os malmequeres e as campainhas amarelas espalhadas  nos campos que enfeitávamos os nossos ramos de oliveira, espetando cuidadosamente uma flor em cada folha, a ver qual seria o mais vistoso e artístico na procissão dos Ramos, no domingo anterior à Páscoa.

 

                        Mas, embora gostássemos muito da procissão dos Ramos, andávamos um pouco aéreos com o jogo do “aconchagar” que consistia no seguinte: escolhia-se um parceiro (colega, amigo ou familiar), enganchava-se o dedo indicador dum no do outro e dizia-se: “Aconchagar, aconchagar para no dia de Páscoa me dares o folar. Reza!”. A cena repetia-se ao longo de semanas, mal se avistava ao longe o nosso alvo e quem dissesse primeiro a frase, é que tinha direito a receber o folar que, na melhor das hipóteses, seria um pacotinho de confeitos de açúcar de várias cores ou, na falta de guloseimas, um berlinde ou um pião, se se tratava de rapazes. As amêndoas doces eram exclusivas das apostas dos namorados. Mas, apesar de ser constantemente repetida, pois estávamos sempre a encontrar-nos, a fórmula mágica só valia no Sábado de Aleluia, depois do repicar dos sinos.

 

                        O folar era um elemento indispensável na Páscoa: eram grandes pães feitos com massa levedada a que se juntava azeite e ovos em abundância e que enchiam o forno do povo de alegria e cheirinho bom. Cada família cozia, geralmente, um grande tabuleiro desses bolos (também se chamavam assim embora não levassem açúcar), alguns em formato mais pequeno que os padrinhos tinham por hábito dar, no domingo, aos afilhados. Para tornar a massa mais amarelinha e apetitosa – que os olhos também comem – juntava-se à massa um pouco de água onde se tinham fervido os estames dumas campânulas arroxeadas a que chamávamos açafrão e cuja apanha – porque eram raras – constituía também uma ocasião de despique e brincadeira entre os mais novos.

 

                        No dia de Páscoa, começava-se pela higiene pessoal.: toda a gente tomava banho na grande tina de zinco onde se deitavam baldes de água quente e vestia “o fato de ver a Deus” que se trocava por um mais simples, a seguir ao almoço da Festa.

 

                        A missa era cantada por dois ou mais sacerdotes (e só um quando começaram a escassear).

 

                        Os meninos que ajudavam à missa, muito importantes nas suas roupas vermelhas e brancas, abanavam os turíbulos e o cheiro do incenso embalsamava toda a igreja e também os nossos corações. Era sinónimo de alegria e de fé.

 

                        Acabada a missa, cada um se apressava a regressar a casa, porque já lá estava pronta a mesa da Páscoa: uma alvíssima toalha bordada, enfeitada com lilases, uns pires com biscoitos de azeite, o melhor prato da casa com um folar, uma garrafa de vinho fino (vinho do Porto) da nossa pequena produção e uma laranja, a maior e a mais bonita do pomar, para nela se cravar uma moeda de cinco escudos. Como não sabem o que eram escudos, vou dizer-vos quanto lhe corresponderia agora em euros: dois cêntimos e meio! Mas olhem que naquela altura, embora fosse uma oferta simbólica, não era de deitar fora, até porque muitos poucos fazem muito.

 

                        E eis que se aproximava da nossa casa, situada mais ou menos a meio da aldeia, anunciado pelo toque de uma sineta e pela algazarra das crianças que se incorporavam no cortejo à espera de partilharem também das guloseimas, o senhor Prior e a sua comitiva.

 

                        O sacerdote pedia licença para entrar, saudava os presentes com a aclamação de júbilo Aleluia! Aleluia!, abençoava-os com a cruz que levava de casa em casa para essa cerimónia, comia o seu biscoito e tomava o seu cálice de vinho, e conversava um pouco, enquanto o sacristão metia num saco o folar, e numa caixa, os cinco escudos da laranja.

 

                        Distribuíam-se alguns mimos pelas crianças e lá seguiam todos para a casa vizinha, onde geralmente se juntavam familiares e amigos já visitados, em sinal de confraternização. Chamava-se este ritual “Tirar o Folar” que, noutras regiões do Norte, por exemplo no Porto, se chama “Correr o Compasso”.

 

                        Conversando e bebericando passava-se o resto da manhã. E, quando tudo acabava, forçoso é dizer que tanto o Padre como o Sacristão, este bem vermelhusco, já não pisavam com a mesma firmeza a irregular calçada da aldeia.

 

                        Seguia-se o almoço familiar que, nas casas fartas, constava de cabrito assado no forno público e, nas mais modestas, duma galinha corada depois de cozida para uma saborosa canja perfumada a hortelã.

 

                        E, claro, uma ou duas fatias de folar que não precisava de ser doce para nos adoçar a Páscoa e a tornar inesquecível.

 

       Um chi-coração da Vóvó

         

             Procissão (quadro de Amadeu de Sousa Cardoso)

 

 

                           

 

publicado por clay às 19:19 | link do post | comentar | favorito

 

Meus queridos netinhos:

 

Pela minha carta sobre o Natal, devem ter ficado a julgar que era essa a Festa mais bonita da minha infância – ou, pelo menos, aquela de que eu mais gostava.

 

Mas não. Havia outra que era mais alegre, mais mágica, até porque ocorria em plena Primavera, com os campos cheios de flores.

 

Talvez até porque era precedida, na Quaresma, por uma procissão que deixava todas as crianças com o coração a balançar entre o espanto e o medo.

 

Nesse dia, predeterminado, juntava-se quase toda a população da aldeia e fazia uma espécie de Via Sacra – que consiste em percorrer um caminho semelhante ao que levou Jesus até à Cruz onde iria ser morto – mas muito mais especial que se chamava mesmo “Ir ao Calvário”.

 

Tinha lugar já noite dentro, em quase completa escuridão, cujo breu só era cortado pela luz de um pequeno archote empunhado, com muito orgulho, por um rapaz já crescido e que fosse bem comportado. Um homem adulto, também de vida limpa, levava uma grande cruz de madeira, que, de vez em quando, passava a outro que também fosse merecedor.,

 

Saía-se da Igreja em silêncio apenas cortado, a espaços, por um fragmento de um cântico lúgubre e um lúgubre bater de matracas. (A propósito: um dia, passados muitos anos, participei numa, semelhante, numa pequena aldeia da Andaluzia espanhola).

 

Ainda hoje me lembro de pedaços desgarrados desses hinos, que todos cantávamos em coro, numa melopeia muito arrastada, com paragens em certos lugares da única rua da aldeia, lugares que nada assinalavam, mas eram sempre os mesmos,  sabe-se lá há quantas gerações.

 

Aí, parados, erguia-se um enorme brado: “Senhor Deus, misericórdia!”.

 

Ainda hoje me ressoa aos ouvidos, com melodia e tudo, um hino que começava assim:

 

                 Pilatos, Pilatos, el-rei dos judeus

                        mandou uma carta

                        para os fariseus.

                        De porta em porta, de rua em rua,

                        Jesus da minha alma

                        sem culpa nenhuma.

 

Era um arrepio que nos tolhia de medo, embora lá mais para a frente, se abrisse uma porta de esperança, que me dava novo alento:

 

 

                 Eu fui ao Calvário

                        visitar a Cruz

                        deixei a minha alma

                        aos pés de Jesus

 

            E até parecia que eu ficava mais leve e mais reconfortada. A procissão prosseguia lenta e imutável, até um pequeno monte que havia já fora da aldeia e que sempre ouvi chamar – e ainda hoje se chama – o Calvário. Aí chegados, cravava-se no chão a Cruz que piedosamente tinha sido transportada da Igreja e entoavam-se, também em coro, algumas orações como estas:

 

              Senhor Salvador do Mundo,

que a todos salvais,

salvai a minha alma.

Bendito sejais!

Bendito sejais, Coração de Jesus,

que tanto padecestes

pregado na Cruz.

 

                                  A minha caneta pregou-me hoje esta partida: eu queria falar-vos da Páscoa, da alegria da Ressurreição, mas toda a minha memória foi submersa por estes momentos de fé, de luto e de dor pela morte de Cristo.

 

                                   Não quis deixar de os assinalar, até porque, tendo-os julgado esquecidos durante anos, na altura em que fui submetida a uma operação muito grave, logo ao sair da anestesia eles me acudiram ao pensamento, e uma voz interior cantava incessantemente em mim esses e outros trechos da Ida ao Calvário que me tinham acompanhado desde a infância e agora, incapaz de recordar ou elaborar outras orações, enchiam o meu coração de paz, de amor e de esperança como se tivesse voltado à minha infância e àquelas idas ao Calvário, como se a minha alma estivesse ajoelhada aos pés de Jesus, com a mesma confiança da criança que fora.

 

                                   A ida ao Calvário não era uma Festa, se pensarmos que Festa é sinónimo de alegria, mas era uma devoção profundamente enraizada na alma do povo, numa tradição que marcou para sempre a minha infância.

 

                                                  Beijinhos da Vóvó

publicado por clay às 12:13 | link do post | comentar | favorito
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