Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 03.07.07

Meus queridos Netos:

 

            Como prometi na carta anterior, aqui estou a mandar-vos o tal poema trágico-cómico que a aventura nela narrada me inspirou, esperando que ele vos agrade:

 

 

As damas e os barões assinalados

que dum canto da praia lusitana,

por rios muitas vezes navegados,

se julgaram heróis da Taprobana.

E por perigos mortais, “esmasiados”,

que não iam além da sua gana,

entre gente remota se encontraram

e aí lançaram ferro e lá jantaram.

Esses, eu canto com engenho e arte

aqui, em Paio Pires e em toda a parte.

 

Ó Tágides fiéis, ó imortais,

dai-me o metro e a rima, a veia enfim

em que eu cante as andanças geniais

do Fernando, do Néo, de nós, do Pim.

Que, pensando já ser presa da morte,

andaram afinal cheios de sorte.

 

Depois de faina intensa, esmagadora,

num barco velho e com “estais” partidos,

quando a tarde morria sonhadora,

nós, os da nau, deixados os vestidos

em terra seca, fomos à aventura;

por companhia só levando os comes

e para eles a mais voraz das fomes.

 

Seguimos pois e sempre pelo rio

(continuamente fomos abatendo).

Faltava vento e sobejava frio

Contrariamente as águas empurrando.

A sorte era adversa e alguém lembrava

que em transes tais Eolo se invocava.

 

Mas de repente que feroz combate.

Nem sei como o descreva com o dó:

Assaltas-me a dispensa e no embate

é tudo reduzido a nada, a pó;

Que não podem os fados desfazer

a vontade tremenda de comer.

 

Não se acabava quando uma figura

se nos mostra no Tejo a dar sinal

ou  perigo, ou não sei quê e a noite escura

vinha avançando a passo triunfal;

Preparámo-nos todos p´ra morrer

e só o que fizemos foi comer.

 

Uma abordagem feita – que grande arte!

em sentido contrário ao que convinha

Foi por nós tida em conta de proeza.

O mastro ao inimigo em dois se parte

Sua bandeira à nossa sem defesa

tem de ceder lugar – e do naufrágio

foi esse o triste e mais fatal presságio

 

Como se o Pólo Nórdico buscássemos

a tiritar seguimos nossa rota.

Não admira pois, que nos lembrássemos

de fazer da toalha a nossa cota.

Cada um se furtando ao vento frio,

lá íamos seguindo pelo rio.

 

Já as solas de molho quase estavam

quando um porto seguro demandando,

os nautas e as donzelas naufragavam

nas Caribdes novas encalhando.

Foram esforços árduos, resolutos,

de que pensámos não sair enxutos.

 

Mas entretanto alguém se oferecia

para ao mastro enormíssimo subir

a ver se terra firme conseguia

dessas alturas inda descobrir.

E vê um Pontiac, coisa rara,

visão que toda a seita desejara.

 

Não foi a Calecute que chegámos

mas a gentes estranhas que falar

falavam muito, e bem... os entendemos

logo aceitando, alegres, de jantar.

E por aqui terminaria a história

a não ter de levar dedicatória.

 

Não mais, Musa, não mais: tenho a voz rouca

e a tinta da caneta permanente

parece que já está quase no fim.

Para tais feitos acho coisa pouca

a minha inspiração; e, simplesmente,

sem peneiras nem nada,

ofereço este poema  ao Néo, ao Pim

ao Fernando, e às damas todas três

pedindo-lhes perdão para a estopada

e ficando à espera de outra vez.

 

                                               

 

Beijinhos da Vóvó

publicado por clay às 14:24 | link do post | comentar | favorito
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