Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 05.07.07

     

            Meus queridos netos:

 

            Eu comecei a aprender a ler num jornal, mas não era um jornal qualquer: servia para forrar o velho armário da cozinha, todo enegrecido do fumo da lareira acesa no chão, mas a minha Mãe não quis deixar de, apesar de tudo, lhe imprimir um pouco de fantasia.

 

            A borda que pendia da prateleira era uma sequência de recortes e estes enfeitados com entalhes à tesoura, formando desenhos geométricos e às vezes até flores, estilizadas em quatro pétalas. Só muito mais tarde vim a saber, numa exposição, que no Japão esta técnica rudimentar tinha atingido, juntamente com a dobragem artística do papel (o origami), uma elevada perfeição.

 

                        Esse jornal, que de vez em quando era mudado, apresentando rendados saídos da imaginação da minha Mãe, tinha umas palavras em letras grandes mas a maioria eram letras pequenas.

 

            O armário ficava ao lado da lareira e quando ali nos sentávamos, sobretudo no Inverno, os meus dois Irmãos mais velhos entretinham-se com um jogo que consistia no seguinte: adivinhar o resto da palavra que tinha sido imolada ao buraco, escolhido para servir de enfeite.

 

            A princípio achei a brincadeira maçadora mas, com o tempo, fui começando a prestar atenção e a querer participar do jogo. Com a ajuda dos meus Irmãos, lá fui somando alguns êxitos, recompondo e fixando palavras e foi assim que me iniciei na leitura .

 

            Diga-se em abono da verdade que o jornal nos proporcionava outra actividade lúdica: cortávamos umas tiras que enrolávamos a imitar os cigarros do meu Pai e acendíamos os rolinhos no lume da lareira. Então fumávamos aquela coisa horrível, onde se misturava o cheiro e gosto do papel, da tinta de imprensa e também da poluição provocada pela fogueira e pela gordura que se evolava dos cozinhados aí preparados em panelas de ferro de três pernas ou tachos colocados sobre uma trempe.

 

            Talvez os meus queridos netos pensem: mas então a Vóvó, uma menina pequena, também alinhava nessas maldades? Eu vos explico: em primeiro lugar, criança é criança e gosta sempre de imitar os outros; depois, havia também a pressão dos meus Irmãos, que assim me impediam de os denunciar, o que aliás, nunca seria possível, porque, em nossa casa, tanto o denunciado como o denunciante (o acusa-cristos, como se dizia) não só ficavam manchados pelo mesmo ferrete como sofriam a mesma punição.

 

            Mas voltemos à leitura. Como já disse, aos cinco anos entrei na Escola Primária e, foi um encantamento: conhecer as letras, juntá-las e formar com elas palavras, depois agrupar as palavras em frases e ler sozinha os textos do livro da lª classe, era, para mim, uma espécie de milagre.

 

            Na nossa casa havia poucos livros; lembro-me duma velha edição das Mil e Uma Noites donde a minha Mãe tinha tirado o conto de Ali-Bábá e os Quarenta Ladrões que repetidamente nos deslumbrava, com a magia do “Abre-te Sésamo!” e os incontáveis tesouros escondidos na caverna. Havia também um livro de que já não recordo o nome, que tinha sido publicado em folhetins, e cuja personagem principal era uma dama, D. Genoveva de Brabante. Resumidamente tratava-se duma castelã cujo marido tinha ido para a guerra, deixando-a, sem saber, grávida de um filho que um cortesão malvado viria a denunciar ao Rei como bastardo. O Rei, desesperado com a suposta traição da mulher, encarrega um escudeiro de levar mãe e filho para longe e de os matar, trazendo-lhe os corações de ambos como prova da ordem cumprida. Apiedado e não acreditando naquela calúnia, o escudeiro imola uma corça e seu bambi para lhes extrair os corações e deixa vivos mãe e filho, abandonados numa floresta onde irão passar muitas provações e onde, num dia de caça, são reencontrados pelo Rei já sabedor da verdade. Tudo acaba bem, com uma família feliz instalada no magnífico castelo e o castigo do caluniador.

 

            Esta história, que se passava num ambiente de cavalaria, com torneios e muitas aventuras, incluía a certa altura um poema cavaleiresco de que nunca esqueci o princípio:

 

                         Quando combate um guerreiro,

                                   em busca de glória e fama,

                                   dois pensamentos o guiam:

                                   por seu Deus, por sua dama.

 

                                   Por ela combatem juntos,

                                   juntos lhe dão a vitória.

                                   Por seu Deus, por sua dama,

                                   alcança as auras da glória.

 

            Li-a e reli-a muitas vezes, deixando para trás trabalhos que a minha Mãe me mandava fazer. Assim, quando ela saía e me encarregava de varrer a casa, lá me agarrava eu ao livro e, mal pressentia a sua chegada, enfiava-o hábil e rapidamente debaixo dum baú que havia na sala e retomava o meu trabalho como se nada fosse. Não sei se a minha Mãe alguma vez descobriu este meu inocente segredo, mas nunca me falou no assunto.

 

            Quando fui para Lisboa, li muitos livros que me emprestavam as minhas colegas, alguns que fui comprando em segunda mão na Livraria Barateira. As nossas professoras da Escola Comercial proibiam-nos de ler livros de duas escritoras então em voga: Magali e Max du Veuzit. Eram, diziam elas, livros alienantes pois só apresentavam o lado cor-de-rosa da vida. Mas, pelo menos um deles, creio que fez sonhar todas as raparigas da Escola. Chamava-se John, o Chauffeur Russo. O enredo deste romance andava à roda  da paixão da filha de um milionário pelo seu motorista contra a vontade dos pais. Afinal o motorista era, nem mais, do que um príncipe russo, médico e director de uma clínica. Como não podia deixar de ser num romance daquele tipo, casaram e foram felizes para sempre.

 

            Por essa altura, e numa das férias grandes, descobri em casa dos meus Avós dois livros que me haviam de acompanhar toda a vida: a Bíblia e um exemplar d’Os Lusíadas. O que primeiro me fascinou foi o poema épico de Camões, de que cheguei a saber muitas estrofes de cor. A Bíblia foi mais tarde, e continua a ser, o manancial de fé e de sabedoria onde vou beber consolo e alento nas horas mais difíceis e onde aprendi, nos Salmos, a louvar o Senhor pelas maravilhas que criou.

 

            Também lia, ao meu Avô, o Jornal de Notícias, que ele assinava. Era o tempo da II Guerra Mundial e ele torcia pelos Aliados, ou seja os ingleses mais tarde juntos aos americanos. Eram relatos às vezes muito dramáticos mas outros fastidiosos, não só para mim mas para o meu Avô que facilmente se deixava cair num sono superficial. Ao aperceber-me disso, aproveitava para saltar algumas partes, mas frequentemente o meu Avô acordava e dizia: “Ó Clementina, lê lá isso outra vez que eu já perdi o fio à meada!”

 

            Então, já eu era uma leitora compulsiva e levava para férias todos os livros que pudesse. Li-os à hora da sesta, sentada num murete em frente do meu quarto e que dava para os longes do Marão, ou à noite à luz duma vela ou dum candeeiro de petróleo, pois a electricidade ainda não tinha chegado – e só chegou muitos anos mais tarde – àquelas aldeias remotas.

 

            Mas a leitura continua a ser uma das minhas paixões. Certamente repararam nas várias estantes de livros que cobrem algumas paredes da nossa casa. E já foram mais, pois tive de me desfazer de alguns, dando-os a Instituições: os juvenis à Casa dos Rapazes, quando há dois anos mudámos para uma casa mais pequena. Mas, mesmo assim, ainda são cerca de quatro mil volumes. Como não podem ser arrumados por categorias, por falta de espaço, o Vôvô organizou uma base de dados e, quando preciso de um livro, o computador diz em que estante e prateleira ele se encontra.

 

Volto em breve! Beijinhos!

                    

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publicado por clay às 15:18 | link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
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