Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 18.07.07

 

 

 

 

                                               

 

 

 

            Meus queridos netos:

 

 

            As férias grandes! Como encontrar as palavras certas para exprimir o alvoroço, misto de ansiedade e emoção, que me invadia o coração mal começava a avizinhar-se o dia da partida.

 

            Nem mesmo o passar dos anos conseguem acalmar esse turbilhão confuso de sentimentos e criar uma rotina.

 

            Entrava na terceira classe do comboio, no Rossio, como se fosse uma princesa de volta aos seus domínios. Cada estação ultrapassada, até o mais modesto apeadeiro, me pareciam alguém conhecido a saudar-me e a desejar-me “Boa Viagem”! Em algumas reconhecia os festões de rosas de toucar, os hirtos malvaíscos multicoloridos ou os canteiros de gerânios em floração.

 

            Mas em breve caía a noite e as estações, desertas e mal iluminadas, eram ainda assim e enquanto o sono me não vencia, etapas ganhas naquela carreira para o pódio da felicidade.

 

            Do Porto para cima tudo se alterava. Era de manhã e as estações fervilhavam de vida: enfiavam-se apressadamente arrufadas pela janela do comboio em troca de algumas moedas. Viam-se mulheres atarracadas vergadas ao peso de grandes cestos de vime, cheios de maçãs ou de galinhas vivas e outras que, de bilha de barro ao quadril, vendiam copos de água aos passageiros, cuja sede aumentava à medida que se iam penetrando naquele reino de xisto, disposto em socalcos ao longo dos séculos por tantas gerações de homens heróicos que ali conseguiram o que, pela sua imponência, singularidade e beleza, foi integrado por mérito próprio no Património da Humanidade em l4 de Dezembro de 2001.

 

            Os meus olhos a custo se despregavam do rio, que, a determinado ponto do percurso, corre a par do comboio, ignorando que jamais haveria um vencedor e um vencido, porque o rio deslizava para oeste até à Foz do Douro e o comboio subia lentamente aquelas serranias em direcção a leste, a Barca de Alva.

 

Naquele tempo o rio Douro ainda não era navegável, ainda não se tinham construído as grandes barragens como as da Valeira e Carrapatelo, que o transformaram num rio diferente: um grande mas regulado canal, já sem as quedas traiçoeiras que afogaram o Barão de Forrester e agora permite um turismo de luxo com os seus paquetes de cruzeiro. Naquele tempo deslizavam rio abaixo muitos barcos rabelos, transportando ainda o vinho fino das grandes quintas produtoras até às casas de Vila Nova de Gaia. Hoje vêem-se raramente alguns exemplares dessas antigas embarcações, mas cheias de bandeirolas coloridas, a convidar para uma prometedora excursão.

 

            O meu rio Douro não é este. Apesar dum belíssimo cruzeiro que fiz, com o Vôvô, de Barca d’Alva até ao Porto, visitando sítios turísticos, o meu Douro é ainda aquele rio que ora apresentava imensas bacias de água parada, ora, sobretudo no Verão, se disfarçava de pequena ribeira, coleando por entre rochas que as águas do Inverno tinham ciosamente escondido.

 

            Com o passar do tempo e a repetição da viagem eu tinha já aprendido este meu rio de cor: aqui uma enseada, onde os freixos conviviam com os salgueiros, criando zonas de sombra que me enchiam de mórbida inquietação: pensava em afogados cujas almas muitos afirmavam ter visto a sondar por ali; mais acima e a alguns metros da margem, viam-se uvas de enforcado, ainda verdes, pendentes de videiras enroladas a poderosos troncos. e ramagens; e ali, já ali, estava aquele cantinho remansoso enfeitado de roseiras selvagens, que eu sempre procurava com o coração apertado, no receio de alguém o ter roubado da minha vida.

 

            E depois havia as quintas. Os seus nomes, que eu sabia de cor, liam-se em grandes letreiros visíveis de toda a parte: Taylors, Delaforce, Espinheiro, Borges, um nunca acabar de nomes célebres e que ficaram para sempre a fazer parte do meu imaginário.

 

As quintas, dum modo geral, só no Verão é que recebiam as visitas dos patrões, seus familiares e também amigos. Não queriam perder aquela paz e simplicidade rural, o reencontro com o caseiro que muitas vezes já era como se pertencesse à família. Depois, nas vindimas o ar rescendia a mosto e tinham lugar grandes pisas em que os homens, de calças ou ceroulas arregaçadas, passavam horas, dados os braços uns aos outros, a cantar as suas modas, enquanto pisavam as uvas até ficarem suficientemente esmagadas para serem prensadas no lagar.

 

            Na noite de sábado, os ranchos apresentavam o seu folclore e muitos patrões dignavam-se assistir à função, mandando distribuir uns copos de vinho e algum pedaço de chouriço com pão. As meninas da casa e, mesmo as senhoras, raramente se interessavam por espectáculo tão vulgar, com homens cheirando a suor acumulado durante muitos dias e as mulheres, no rodopiar, a mostrarem as enxovalhadas saias com que trabalhavam e dormiam. Só os do rancho sabiam saborear aquele intervalo no duro trabalho que ali os trouxera de longe na esperança de amealhar, custasse o que custasse, alguns tostões que iriam ajudar a mitigar a fome nos duros e longos invernos transmontanos. 

 

            Eram dois mundos completamente à parte: o dos ricos proprietários quantas vezes cheios de prosápia, a gastarem o seu dinheiro em termas e casinos, e o dos pobres vindimadores, crucificados de trabalho e quantas vezes de humilhações.

 

            O meu Avô, também tinha uma vinha, coisa pouca, na região demarcada. E embora geralmente vendesse as uvas à Casa do Douro, havia anos em que resolvia fazer o seu próprio vinho do Porto. O meu Pai seguiu-lhe o exemplo e muitas vezes eu trouxe para Lisboa com o fim de partilhar com colegas e amigos, um garrafão de cinco litros, o que era motivo de amigáveis insinuações sobretudo quando, num dos nossos bailes, eu começava a ficar muito corada com a excitação.

 

            Mas afastei-me do meu roteiro. Agora via, numa margem, um pescador que pacientemente esperava por uma deliciosa fritura para o almoço: assim as bogas picassem. Em breve passava os pequenos túneis que anunciavam o Pinhão, onde sempre me abastecia de rebuçados de mel, os mais saborosos rebuçados que já comi na minha vida e penso que só se vendiam ali e na Régua.

 

            Já tinha abraçado o meu Pai, sempre paciente à minha espera. Íamos os dois almoçar e lá partíamos para casa com as malas e nós a procurar equilibrar-nos nos cavalos.

 

            Em casa esperava-me um ambiente de festa: jantar melhorado e sempre interrompido por muitas perguntas e exclamações. Beijos e abraços havia sim, mas comedidos. O amor era para se sentir, para traduzir uma abnegada dádiva e não para ser exibido como um fenómeno de feira.

 

            Outros tempos, é verdade. Mas tudo tão puro, tão reconfortante que a saudade permanece para sempre.

 

Vossa Vóvó, com muita ternura

 

                      

           

publicado por clay às 18:54 | link do post | comentar | favorito
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