Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 26.07.07

            Meus queridos netos:

 

 

            Hoje vou contar-vos um dos acontecimentos mais dramáticos da minha vida.

 

            Ainda não tinha cinco anos quando se deu o desastre que vitimou o meu Irmão Zeca, mais novo do que eu dois anos, e meu predilecto companheiro.

 

            Tínhamos por hábito e diversão, quando o meu Pai chegava do trabalho no campo, montarmos ambos no nosso cavalo Carriço e levá-lo à fonte pública, onde ele se dessedentava na água que, apesar de ser escassa, pouco a pouco ia enchendo um tanque destinado aos animais.

 

            Também, nesse dia, nos agarrámos ao meu Pai, pedindo-lhe que nos deixasse “levar o cavalo a beber”. Apesar de muito pequenos, éramos peritos em montar o Carriço, animal meigo e dócil, de que muito gostávamos. Mas, nesse dia aziago, ao regressarmos da fonte, cruzámo-nos com um grupo de miúdos da nossa idade, dois deles até nossos primos, que, por brincadeira se puseram, com umas pequenas varas e fazendo uma grande algazarra, a fustigar o cavalo ou, pelo menos, a tentar fazê-lo. Contra o seu habitual comportamento, o cavalo assustou-se, tomou o freio nos dentes e disparou por aí fora a galope até chegar ao largo que fica no cimo da povoação, defronte da Igreja. Aí, com a curva que ele teve de dar, ambos fomos cuspidos. O meu irmãozinho bateu de chapa no lajedo e eu, que era mais velha e ia à frente, consegui agarrar-me às crinas do cavalo e assim amortecer a queda, saindo incólume do acidente. O mesmo não aconteceu ao Zeca, que se pôs a definhar, triste, triste, até que, passados uns quinze dias, começou a sangrar da boca. Chamado de urgência, o médico da Vila mais próxima veio vê-lo mas mais não pôde fazer que detectar uma grave hemorragia interna. Passados outros quinze dias, o menino não resistiu e foi ter com o seu Anjo da Guarda.

 

            Não se pode descrever a dor dos meus Pais, a casa mergulhada em luto e a tristeza de todos os irmãos que tanto o amávamos. A minha Mãe, que tinha uma grande sensibilidade poética, escreveu na sua Cédula Pessoal palavras dilaceradas e dilacerantes.

 

            Lembro-me dele no seu caixãozinho branco, o rosto e as mãozinhas cor de cera, e das campainhas amarelas que nessa primavera esmaltavam os campos e onde eu colhi uma autêntica braçada para lhe prestar a minha homenagem e amenizar um pouco o meu sofrimento.

 

            A minha Mãe não deixou que eu me culpabilizasse, dizendo que não era possível eu ter-lhe prestado qualquer ajuda mas, embora sabendo bem que ela só constatava a verdade, sempre me ficou gravada no fundo do coração, a mágoa daquela morte inesperada e injusta.

 

            Mais tarde havia de me interrogar sobre qual a razão de eu ter sido poupada e de o meu irmão, tão pequenino e tão bom, assim ter perdido a vida. A Fé fez-me acreditar que certamente ele era melhor do que eu e Deus o escolheu para ter junto de si mais um anjinho sem qualquer mancha de pecado, enquanto eu, na minha longa vida, iria ter muitas ocasiões de pecar, de me arrepender e de me acolher à protecção de Deus, pedindo-lhe que depois deste desterro eu possa reencontrar esse anjo que no Céu canta hossanas e intercede por mim.

 

            Esta não foi, porém, nem podia ser, a única morte que testemunhei: além da dos meus Pais, mais enquadradas, pelas suas idades, na lei da vida, vivi também a morte dos meus outros dois irmãos, o Alfredo ainda muito novo e no meio de grande sofrimento, e o Manuel já com idade avançada, bem como a de muitos amigos,

 

            E ainda duas mortes que foram, posso dizê-lo em consciência, mortes de bocados de mim: a do meu primeiro filho, José António, que, devido a um acidente de parto, só durou dois dias em que não chorou e mal se limitava a gemer baixinho, o que me enchia de angústia, e a de um quarto filho, também menino, que não chegou ao fim de tempo de gestação, tendo-o perdido aos quatro meses. A dor que então senti por tal perda acidental, é que me faz repudiar o aborto como um acto criminoso e cruel.

 

            Quanto ao que passei devido à morte do Zé António, não há palavras que descrevam a minha frustração quando, logo de manhã, via levar os bebés do berçário para o colo das mães a fim de serem amamentados e eu ficar ali no meu quarto, donde tinham retirado o bercinho vazio, sozinha e sempre a buscar com os olhos do coração o meu primeiro bébé, perdido para sempre.

 

            Foram ainda alguns dias assim, pois o parto tinha corrido muito mal e eu fui forçada a ficar algum tempo no hospital, em recuperação.

 

            Ao chegar a casa, arrumei bem longe da vista as roupinhas tornadas inúteis, até nascer o segundo Zé António, pai do Zézinho. Mas ainda fiquei num grave estado depressivo e, durante um mês, não fui capaz de me ocupar da casa nem de me interessar por nada. Valeu-me o facto de, passado cerca de um ano, ter tido este segundo filho e também o de, muito antes disso, ter começado a dar aulas no Liceu, o que, para mim, foi sempre um lenitivo. Cerca de quinze meses depois nasce o nosso terceiro filho, o Joaquim Manuel, carinhosamente tratado, até hoje, por Quim, pai da Cristina.

 

              Tempos felizes se seguiram então, até que, anos mais tarde, quando fiz o estágio para me tornar professora efectiva: após um profundo esgotamento nervoso, não era capaz de entrar no Liceu, mesmo acompanhado pelo Vôvô ou pela minha colega Manuela, a que esteve comigo nos Açores e depois se me juntou em Angola. (Sobre o meu trabalho e os anos que permaneci neste grande país de língua portuguesa ocupar-me-ei em futuras cartas). Na manhã do primeiro dia de aulas fui atacada de vómitos irreprimíveis e choro desabalado, a ponto de o Vôvô me dizer com voz mais enérgica do que habitualmente: “Vê lá se te decides. Se quiseres fazer o estágio, tens de vencer todas essas fraquezas. Se não puderes, não o fazes, porque não será por isso que iremos morrer de fome”.

 

            Ora o psiquiatra que me tratara em Lisboa tinha-me avisado desse dilema. E na sua opinião, se fazer o estágio ia exigir de mim uma grande força de vontade e um grande esforço, isso me compensaria psicologicamente pelo facto de ter vencido; o não o fazer talvez não fosse melhor para a minha saúde porque ficaria frustrada para sempre.

 

            Com esses conselhos presentes, decidi-me a dizer sim à minha vocação. E qual não foi o meu espanto quando, mal comecei a lidar com os alunos que começava o meu horário, me passou todo o mal-estar e me senti completamente à vontade.

 

            Desculpem, se hoje vos impressionei, mas a vida, que às vezes é uma festa, não tem só tempos felizes. E nós temos de nos preparar para, com coragem, enfrentar as adversidades e seguir em frente, na esperança de termos sempre Deus a nosso lado.

 

            Desejando que o mesmo suceda convosco, beijinhos da Vóvó.

26/07/2007 - Dia de S. Joaquim e Sant'Ana (dia dos avós) - Em baixo, reprodução da escultura em terracota policromada do séc.XVIII, representando S. Joaquim e Sant'Ana ensinando Nossa Senhora, sua filha, a ler (da página www.cabralmoncadaleiloes.pt/):

 

                                                                 

 

           

publicado por clay às 01:20 | link do post | comentar | favorito
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