Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 06.08.07

                        Meus queridos netos:

 

            A minha velha Faculdade de Letras funcionava numa parte dum antigo convento e por isso não admira que as aulas não fossem funcionais.

 

            Entrava-se para um largo e comprido corredor, que tinha um dos lados, cheio de janelas, voltado para um modesto jardim, no meio do qual havia uma fonte e também uma figueira em que nunca vi figos. Juntávamo-nos às vezes lá, a conversar, em pequenos grupos, nessa época em que também os alunos universitários ainda não eram muitos.

 

            No meu curso de Românicas (português e francês) éramos cerca de quarenta maioritariamente meninas. Houve um rapaz, irmão do poeta David Mourão Ferreira que desistiu quase no princípio do Curso e morreu não muito tempo depois. Outro era o Barreiros que, ao todo, talvez não tenha feito as matérias de um só ano e um homem, já casado e com um filho, o Augusto, que era cego. Esse tocava violino numa das ruas do Chiado, para sobreviver e a família, e foi um grupo de alunos abastados e generosos que o convenceu a ir para a Faculdade e lhe dava, para isso, uma mensalidade, facto que poucos colegas conheciam. “Não veja a tua mão esquerda a esmola que dá a tua direita” era o preceito evangélico que eles seguiam.

 

            O Augusto era discreto, muito simpático e como só podia ler em Braille, eram as colegas, que ora uma ora outra, lhe ditavam as notas que tinham tomado nas aulas e lhe liam os textos fundamentais. Ele pegava nos seus “alfinetes” e picava o papel que ficava legível, do avesso, para os seus dedos tornados mais sensíveis para compensar a cegueira. Nunca o vi lamentar-se e acabou o curso nos quatro anos regulamentares como, aliás quase todos nós. As provas de exame eram-lhe lidas e ele respondia escrevendo à máquina. Só não pôde fazer exame de grego (clássico) porque não encontraram máquina que utilizasse caracteres gregos, diferentes dos das línguas latinas. Por isso foi dispensado desse exame, com toda a humanidade e justiça.

 

            Diga-se, aliás, que não perdeu nada com isso, pois só os alunos de Clássicas levavam essa disciplina a sério e a frequentavam vários anos. Mas a nossa classe de grego era a que tinha mais alunos (cerca de cem) pois era frequentada não só pela meia dúzia de alunos de Clássicas, como também pelos de Românicas e Germânicas, estes dois últimos grupos só durante o primeiro ano. Tratando-se de uma língua tão difícil e que não nos ia servir para nada, escusado será dizer que ninguém se matava a estudar.

O nosso professor, um italiano de meia-idade, estava sempre a dizer, com um acento característico: “Vocês olham para o grego como palácio para boi. Sim, que o boi ainda vê o palácio. Vocês é que não vêem absolutamente nada do grego”. A disciplina dividia-se em “Matéria Homérica” que era um estudo crítico, em tradução portuguesa claro, da Odisseia e da Ilíada e a gramática. Eu, que sempre fui boa aluna e gostava muito de estar na primeira fila para não “perder pitada” do que diziam os professores, naquela aula ficava mais para o meio da sala para evitar ser chamada ao quadro e assim revelar a minha ignorância. Mas, como gostava muito de História e de Literatura, tinha bons resultados na dita “Matéria Homérica”, o que no fim do ano, me valeu um dez, a nota mais baixa que tive em toda a vida escolar. Pior aconteceu à maioria dos meus colegas que, não só perdeu o ano, mas teve de repetir essa disciplina, a maior parte deles no fim do Curso e com outro professor mais exigente, o que obrigou alguns a “patinar”, pelo menos dois anos, para acabarem os seus cursos.

 

            Nesse primeiro ano da Faculdade eu só não gostei das aulas do Grego e do Latim, mas no segundo ano tive um professor muito competente nesta última disciplina e comecei a ter notas elevadas.

 

            De resto, tive professores muito bons, sobretudo em Literatura Portuguesa (Dr. Prado Coelho e Drª Maria de Lourdes Belchior), Francesa (Dr. Vitorino Nemésio e também o Dr. Prado Coelho) mas também em Linguística, o Dr. Cintra, que chegava a comover-se ao explicar a matéria.

 

            O professor que dava a Língua Francesa era um francês que não falava português e eu tive uma certa dificuldade em o acompanhar porque, na realidade, nunca tinha praticado o Francês falado, só o escrito e normalmente literário. Mas, nessa matéria, que era básica no meu curso esforcei-me bastante, a ponto de, no 2º ano, por ter sido distinguida com uma bolsa de estudo, passar um mês em França, (como já vos contei numa carta anterior), a estudar a língua mas sobretudo a praticá-la com os colegas das várias nacionalidades que ali encontrei e que serviu para definitivamente perder o medo do falar e passar a ser muito boa aluna.

 

            Poucos dias depois de ter sabido da atribuição da bolsa de estudo, fui contactada pelos pais de uma minha colega que também ia como bolseira, mas do 1º ano, e ali começou a minha grande amizade com a Milú, que ainda hoje dura. Fizemos-nos muito boa companhia em Pau, não só nas aulas como nos frequentes passeios ou visitas de estudo e para que o nosso convívio não prejudicasse a prática do francês, combinámos que, durante o dia e nas excursões, procuraríamos sempre ficar separadas, À noite juntávamo-nos, porque tínhamos ficado na mesma casa, duma francesa simpática, cada uma em seu quarto.

 

            Foi assim que a Milú se sentou num dia, já em fins do Curso, ao lado do Gilbert, que tinha vindo integrado num grupo de professores argelinos, árabes e franceses. Conversaram, combinaram continuar a conversar através de cartas, e, ao fim de dois anos, depois de o Gilbert ter vindo, com alguns membros da sua família, conhecer os Pais da Milú, casaram e partiram para a Argélia, onde lhes nasceram as filhas: a Marie (minha afilhada) e a Jeanne. Entretanto deu-se a descolonização daquele país, até então dominado pela França, e eles tiveram de regressar. E o mais fantástico é que foram viver, e ainda hoje lá estão, para Bayonne que fica exactamente na região onde se conheceram: perto de Pau e dos Pirinéus.

 

            Na Faculdade, além de ser boa aluna, eu era a Maria das Festas. Todos nos dávamos muito bem e, na altura do Carnaval, organizávamos (ou melhor era eu que organizava com a ajuda do meu Tio Armando) um baile com buffet, que durava toda a tarde e toda a noite. O Tio Armando arranjava a casa e as loiças e cada uma levava os petiscos. Os rapazes é que se encarregavam das bebidas. O Tio Armando tinha ainda outra função: garantir às mamãs que as suas filhas ficavam bem entregues se fossem sozinhas porque imaginavam o Tio Armando uma pessoa já entrada nos anos como tio que era, quando afinal, ele era quase da nossa idade. Mas todas as vezes em que fizemos a festa nunca houve o menor incidente e divertíamo-nos a valer.

 

            Também, na Festa do Fim do Curso em que além da Queima das Fitas montávamos uma peça de teatro com cenas alusivas à vida da Faculdade e respectivos professores, foi a mim que coube imitar a Drª Maria de Lourdes Belchior e parece que não me saí mal.

 

            Algumas coisas que aqui conto estão documentadas no Livro do Final do Curso, onde cada aluno, de todos os cursos, tinha uma caricatura e versos feitos pelas colegas mais amigas ou com mais veia poética. Aqui que vos deixo em baixo, a seguir, uma amostra, do que a mim se refere.

 

            Muito mais havia que relatar, mas fiquemo-nos por aqui.

 

            Beijinhos da Vóvó.

 

publicado por clay às 17:50 | link do post | comentar | favorito
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