Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 14.09.07

                      Meus queridos netos:

 

Esta casa dos bisavós, de que hoje vos vou falar, é a dos vossos bisavós paternos, pois os vossos pais nunca chegaram a conhecer a casa dos meus pais, de que já tanto falei noutras cartas.

 

A casa dos bisavós ficava numa rua apertada da cidade de Portalegre, que começava no Largo da Sé Catedral, na zona antiga da cidade. Era uma casa estreita e construída em altura: tinha dois quartos no rés-do-chão, empedrados e destinados a arrumos. Subia-se por uma escada até ao primeiro andar, com um quarto e a sala de visitas, daí para o segundo, onde ficava a cozinha, um quarto pequeno e a sala de jantar e continuava-se a subir até outro andar, o da casa de banho, mais um quarto de dormir e uma sala de engomados. Ainda se podia, por uma escada empinada e estreita, trepar a um terraço, onde em tempos houve um pequeno galinheiro, donde se tinha uma deslumbrante panorâmica sobre a cidade muito branca e sobre a serra, com as suas moradias também brancas a espreitar do arvoredo.

 

A cozinha era, e foi até ela ficar muito doente, o reino da Bisavó Inês: Aí cozinhava os seus óptimos manjares, desde as açordas ou “sopa gata”, até à deliciosa galinha corada em azeite ou um borrego feito na panela que não podia ter rival.

 

Embora, nos largos anos em que ela esteve em Timor, também, como diz o Vôvô, fosse perita em bolos e doces, quando eu a conheci já não tinha paciência para os fazer. Sabendo isso, da primeira vez em que viemos de férias, trouxe a minha batedeira, mas atrapalhei tanto a Bisavó ao invadir o seu território, que logo pus de parte as minhas boas intenções e resolvi ir todos os sábados, à casa das Martelas, duas irmãs que faziam bolos para fora e onde me abastecia para os lanches para o fim de semana: chá servido em finas chávenas de louça da China trazidas de Timor, os ditos bolos e paio de lombo, grande especialidade de Portalegre, queijo e pão da região que era óptimo. Frequentemente a Bisavó encomendava, com o pão, uns deliciosos bolos regionais: as boleimas, quadrados finos de massa de pão, recheados com açúcar mascavado e fatiazinhas de maçã. Ficavam tostadinhos e eram de chorar por mais.

 

O Bisavô José é que, sendo diabético e muito responsável, nunca alinhou nas guloseimas. Comprava-lhe nas Martelas uns pães achatados tipo “pita”, que levavam azeite e ele achava muito saborosos.

 

Quando, em 1965, viemos de Angola a Portugal, de férias, depois de uma viagem de luxo no paquete Infante D. Henrique, Zé e Quim conheceram Portalegre pela primeira vez, porque fomos para casa dos Bisavós. O Zé tinha feito cinco anos a bordo e o Quim ainda não tinha quatro. E logo o Bisavô lhes foi comprar, a cada um, como prenda, uma cadeirinha de madeira, pintada de azul e com florinhas à maneira alentejana, que tu, Cristina, muito bem conheceste e não serviu apenas para te sentares mas também para muitas brincadeiras, e dois pequenos guarda-chuvas pretos, porque as férias eram longas e também incluíam alguma chuva.

 

A primeira vez que o Bisavô os levou a passear, todo ufano de mostrar os seus netos aos amigos do Café Alentejano, viu-se e desejou-se para meter os dois na ordem. Daí em diante, passeavam muito com ele, mas ora um ora outro, nunca os dois juntos.

 

O Bisavô tinha uma propriedade rural, herança que recebeu da Mãe dele e que confinava com a dos Primos da Quinta da Broa, que também tinham duas filhas, embora mais velhas. Quando lá íamos visitá-los, sendo verão, havia por vezes boas almoçaradas à beira do grande tanque de rega, aproveitando a sombra das árvores que o ladeavam e o cheiro dos manjericos plantados pela Tia Florinda, irmã do Bisavô. Nessa altura, ainda podíamos contar com a presença da vossa Trisavó Casimira, já bastante velhinha, mãe da Bisavó, que viria a falecer alguns anos mais tarde, quando lhe faltavam apenas dois meses para completar os cem anos.

 

O Bisavô tinha, nas suas terras, um pequeno colmeal, que cuidava com esmero e que nos proporcionava um mel deliciosamente perfumado às ervas dos campos da Serra de S. Mamede e cercanias. E nada havia que os vossos pais mais gostassem do que ir ver o Bisavô tirar o mel, pois, para que as abelhas o não picassem, ele tinha de enfiar uma espécie de cota com capuz, com uma rede de metal a proteger-lhe a cara e nas mãos, luvas de borracha até aos cotovelos. Nós ficávamos de longe, a ver, não fôssemos confundidos com alguma flor pelas abelhas, desenfreadas, ao verem invadidos os seus domínios.

 

Havia por lá muita fruta (maçãs, laranjas, figos e até, na época própria, vistosas romãs com as suas coroas de princesa), que nós apanhávamos, comíamos ali mesmo e levávamos para casa.

 

Os vossos pais entretinham-se com os jogos de seu tempo, mas como a casa não era muito espaçosa, saíamos quase todos os dias para irmos a Castelo de Vide, a Marvão ou só até à Serra da Penha, onde havia um grande pinhal, com cujas pinhas, atadas umas às outras, se faziam fogosos cavalos que os punham a correr e a rir, muito divertidos. Também íamos a Lisboa, onde ficávamos na Casa de Santa Zita, ou até outras terras que tivessem motivos de interesse para eles, como, em Coimbra, o Portugal dos Pequeninos, um parque com miniaturas de casas e monumentos conhecidos e que ainda hoje existe.

 

De resto, passeávamos com a Bisavó na Corredoura, um jardim muito bonito com um lago e patinhos, por cujas alas de árvores ornamentais os vossos pais pulavam, jogavam à bola ou ao berlinde.

 

Quando saíamos para mais longe, às vezes a passar o dia e a comer um suculento lanche que a Bisavó arranjava, era certo e sabido que o Bisavô, uma hora, pelo menos, antes da partida, já estava de chapéu na cabeça e a contar os minutos, andando para trás e para diante, ansioso. Previamente já tinha avisado os seus companheiros do café, os catuas (velhos respeitáveis em língua timorense), como ele dizia, e tinha uma leve penalização pela falta: creio que era pagar, no dia seguinte, todos os cafés do seu grupo. E lá seguíamos nós, pelas estradas de Portugal, no nosso velho carocha Volkswagen, de óculo traseiro pequeno, vindo de Angola também de férias, que o Vôvô comprou um dia a um refugiado da guerra do Katanga!

 

Por duas vezes os vossos pais ficaram durante um mês com os Bisavós e uma empregada para os ajudar, enquanto nós íamos ao estrangeiro, mais concretamente a França, para eu aperfeiçoar o meu francês.

 

Da primeira vez, ao regressarmos a casa, ficámos muito admirados porque, estando habituados a que os vossos pais nos tratassem por “tu”, o Bisavô cortou radicalmente com esse tratamento, que, na sua opinião, era demasiado liberal e podia dar origem a abusos. Claro que não dava, mas a verdade é que o “tu” foi para sempre abolido nas relações deles com as pessoas mais velhas.

 

Cabe-me agora dizer que o Bisavô teve uma velhice muito feliz, sempre junto da Bisavó, desde que casaram e foram para Timor, na segunda década do século passado. Porém, uma única vez estiveram separados e de forma dramática. Foi durante a II Guerra Mundial, em que a Bisavó estava em Portalegre e o Bisavô em Timor, nessa altura brutalmente invadida pelos japoneses. Durante quatro anos não se sabia se ele era vivo ou morto. Só depois de terminada a guerra, se soube que passara todo aquele tempo prisioneiro num campo de concentração japonês, do qual foi um dos sobreviventes e onde passou fome, doenças e agruras de toda a espécie. A vida da Bisavó e dos seus quatro filhos menores, entre os quais se encontrava o vosso Vôvô, que era o mais velho, foi então muito difícil e dramática como devem calcular, e para mais no meio de tantas dificuldades que a guerra trouxe ao país.

 

 Graças ao temperamento e à coragem da Bisavó, lá foram vivendo e, os rapazes estudando, sem nunca perderem a esperança de virem a ter o Bisavô novamente ao pé deles, como felizmente veio a acontecer, quando a guerra terminou.

 

 Durante uma parte do tempo em que estiveram separados, sobreviveram graças a uma pequena pensão que lhes foi atribuída pelo Estado e conseguida através de muitos esforços e empenho do antigo Governador de Timor, Coronel Álvaro Fontoura, há muito falecido, que admirava o Bisavô.

 

 Quando o Bisavô desembarcou em Lisboa, regressado de Timor, o vosso Vôvô, ainda rapaz, esperava-o ansiosamente no porto de Lisboa e quase o não reconheceu de tão magrinho ele vinha. Um homem robusto estava reduzido praticamente a um esqueleto. Trouxe consigo apenas, vestido, um fato muito largo que lhe haviam dado quando foi libertado e um pequeno embrulho debaixo do braço. Nesse embrulho trazia a bandeira portuguesa que esteve permanentemente hasteada no campo de concentração, para mostrar a presença de portugueses, mas mesmo assim não livrou o campo de ser mais de uma vez metralhado pela aviação dos aliados. A referida bandeira ainda hoje se encontra, julgo, exposta no Palácio da Independência, em Lisboa, por oferta dos familiares do Bisavô. Nela estão bem patentes os buracos provocados pelas balas!

 

Alguns anos depois, o Bisavô teve um grande desgosto: ordem do governo de então para repor todo o dinheiro da pensão que a Bisavó recebera durante a guerra, o que veio a acontecer, compulsivamente, através de descontos que lhe fizeram na sua modesta pensão de reforma até ao fim da sua vida, em 1974.

 

Tanto o Bisavô como a Bisavó eram muito respeitados e óptimas pessoas, honestos e também sensíveis e afectuosos, mas sempre tinham sido habituados a manter uma certa distância, o que nos podia levar julgá-los demasiados frios. Não eram de andar aos abraços e beijinhos, queridinho para aqui, queridinho para lá, mas gostavam muito dos netos, vossos pais, e escreviam-lhes cartas muito ternas e postais para Angola.

 

Hoje estão sepultados, lado a lado. Eu e o Vôvô ainda há pouco tempo fomos depor flores na sua campa comum, em Portalegre. Temos muitas saudades deles. Paz às suas almas.

 

 

 

 

 

Beijinhos e até à próxima carta

 

 

 

 

 

 

           

publicado por clay às 00:10 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Setembro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
13
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
27
28
30
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds