Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 08.10.07

            Nova Iorque, Nova Iorque

 

Meus queridos Netos:

 

            Um país onde não tencionava ir era os Estados Unidos da América, não por não me impressionar um país tão vasto e tão poderoso, ao qual em grande parte ficámos a dever o derrube do nazismo e dos seus horrores, mas exactamente por ser tão vasto que não se podem conhecer senão pequenas fracções suas e por eu ter um preconceito contra os arranha-céus, nomeadamente os de Nova Iorque.

 

            Mas foi exactamente a Nova Iorque que nos levou um convite da Maria José, então colocada nessa cidade, num departamento do Estado.

 

            Que sorte a nossa! Nova Iorque era, e ainda é, apesar do terrorismo, um dos pólos culturais mais importantes do mundo.

 

            Ao contrário do que eu julgava, os arranha-céus que compõem um deslumbrante sky-line, não roubam nenhuma luz às ruas e muito menos às avenidas, todas larguíssimas, com muitas árvores e flores, estas plantadas em vasos que são colocados, periodicamente, em sítios estratégicos.

 

            Tem uma vida cultural riquíssima – museus, exposições, galerias de arte, teatros de ópera, a Broadway e as suas inúmeras casas de espectáculos, o Central Park com actividades muito diversificadas, um nunca acabar de motivos de interesse.

 

A cidade impressionou-nos também pela diversidade dos seus habitantes, oriundos de todo o mundo, alguns morando em bairros específicos: o chinês, o italiano, o alemão onde nós vivemos – e só estou a falar de Manhattan, o coração da Big Apple.

 

Também os comportamentos das pessoas nos causaram espanto: ora se via um homem deitado no meio dum autocarro sem ninguém se impressionar com isso, ora, ao pedir uma informação ao motorista, todas as pessoas que aguardavam na fila revelavam a maior compreensão e paciência, incluindo o próprio motorista do autocarro, sempre solícito. A cada passo éramos contemplados com um sorridente “Have a nice day”, tanto na rua como nas grandes ou pequenas lojas.

 

E um dia aconteceu-nos um episódio cómico mas bem expressivo: vestidos e calçados como turistas que éramos, entrámos num elevador e ficámos de olhos arregalados de espanto pelas toilettes requintadas das pessoas que nele subiam. Julgando ir ver um teatro, num trigésimo andar, vimos o elevador desembocar directamente, em pleno salão dum restaurante de luxo, todo na penumbra, para que os clientes, entretanto servidos por várias e graciosas “coelhinhas”, pudessem lá do alto ver a cidade, feericamente iluminada. O chefe de mesa, todo elegante no seu smoking, veio ao nosso encontro e, escondendo a estranheza que certamente sentiu, perguntou-nos delicadamente o que desejávamos. Como lhe disséssemos que nos tínhamos enganado, levou-nos com um please, a dar a volta ao salão, para também nós nos deslumbrarmos com a iluminação da cidade. Isto aconteceu antes do terrível ataque terrorista às duas Torres Gémeas. Hoje não sei se as coisas se passariam assim.

 

            Mas era na sede das Nações Unidas, onde fomos frequentemente almoçar por intermédio da Maria José e onde assistimos a uma sessão em que Kurt Waldheim, secretário-geral da ONU na época, presidiu à cerimónia da entrada de um novo e pequeno país naquela Organização, que podíamos ver um resumo de todas as raças e nações, com os trajes mais variados e falando “desvairadas” línguas como só se terá verificado na Torre de Babel...

 

            Houve algumas coisas que muito estranhámos em Nova Iorque: o grande número de obesos com que nos cruzávamos a cada passo, a quantidade de colchões, como novos, que todas as manhãs eram recolhidos no lixo da cidade para uma reutilização e os saldos da cadeia de livrarias Barner and Nobel: livros e discos, mal deixassem os tops, eram logo postos à venda por metade do preço. Também nos admirámos ao verificar que nos museus havia selecções de tudo, além do que era normal encontrar nos museus europeus: desde carroças a testemunharem as aventuras do Oeste, até máquinas de costura, telefones, sei lá!, só sei que tal procedimento resultava do facto de se tratar dum país com uma história recente, cuja memória tanto querem preservar. Fomos visitar a Estátua da Liberdade e subimos até à coroa, onde se abrem janelas que proporcionam vistas maravilhosas sobre a cidade e o rio Hudson.

 

 Num fim-de-semana alargado, fomos de comboio a Washington onde, entre outras coisas, visitámos a Casa Branca e o Cemitério de Arlington, no qual está sepultado o presidente Kennedy e fomos ainda ao National Air and Space Museum, museu famoso por nele se encontrar a cápsula que levou Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins à Lua em 1969, além de outras preciosidades ligadas à aviação e à conquista do espaço.

 

            E foi pena não termos aproveitado a sugestão da Maria José: irmos noutro fim-de-semana, de autocarro, visitar as cataratas do Niagara ou, como queria o Vôvô, fazer um passeio de helicóptero sobre a cidade de Nova Iorque.

 

            Nunca se pode ter tudo e devemos saber ser gratos a Deus por ter criado tantas maravilhas que não cabem na curta duração de qualquer vida humana.

 

Até breve. Beijinhos.

 

 

publicado por clay às 17:30 | link do post | comentar | favorito
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