Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 10.10.07

            Meus queridos netos:

  

Hoje vou começar por vos falar de moedas muito velhinhas, algumas das quais nem eu, sequer, conheci.

 

            Quando eu nasci, o dinheiro que circulava era, como agora, em notas de papel e em moedas. As que passavam mais pelas minhas mãos eram, claro, as moedas mais pequeninas e, mesmo estas, raramente.

 

            Tinham ficado para trás muitas moedas em ouro, prata e outro metais menos valiosos. É interessante saber que as primeiras moedas mandadas cunhar por D. Afonso Henriques, se chamaram dinheiro e mealha (metade de um dinheiro e cujo nome deve ter vindo da palavra migalha, pois se tratava duma parte da moeda principal). Mas a estas seguiram-se muitas outras, algumas com nomes bem engraçados: o morabitino, de D. Sancho I, o tornês de D. Dinis, a barbuda, o gentil, o real, todos na primeira dinastia. E depois o ceitil de que fala Gil Vicente, o chinfrão, o escudo ainda no tempo de D. Afonso V, o vintém, o cruzado, o engenhoso – nome derivado da alcunha de seu fabricante. A inovação principal da dinastia filipina foram as moedas em ouro e D. João IV mandou cunhar uma moeda em prata, a que chamou conceição, em homenagem a Nossa Senhora, que ele coroou Rainha de Portugal, oferecendo-lhe a sua própria coroa. Com D. João V e a abundância do ouro vindo do Brasil surgem várias moedas de ouro a mais importante das quais é o dobrão de 24.000 réis e este metal continuou a ser preferido até ao reinado de D. Maria I que mandou cunhar em prata o chamado cruzado novo. D. João VI e D. Pedro IV tinham emitido uma moeda de bronze muito pesada, o pataco e também o vintém de prata. Mas faltava o maluco que valia 80 réis. Nos últimos reinados cunham-se moedas de bronze de V, X e XX  réis e os tostões de prata.

 

            Com a proclamação da República em 1910, a moeda que teve maior realce foi a de um escudo em prata. A partir daí e até 2001 circularam as moedas de 1, 2,  5, 10, 20 e 50 centavos e as de 1, 2, 5, 10, 20, 50, 100 e 200 escudos. Foram estas as moedas que circularam no meu tempo (também havia notas) E, sobretudo no campo, quem tinha uma moeda de cinco escudos, de que falei numa carta anterior a propósito da Páscoa, já podia comprar muitas coisas. Houve até uma altura em que o escudo português era considerado um moeda muito forte. Lembro-me bem que, em Paris, vimos na montra dum estabelecimento a indicação de que compras ali efectuadas com escudos portugueses (e francos suíços) tinham um determinado desconto... E sabem quanto valeria hoje a moeda de cinco escudos de que falo atrás? Cerca de dois cêntimos e meio!

  

                  

 

A última nota mais recente de 10 contos (10.000 escudos) que circulou em Portugal

 

 

            Mas, na minha infância e juventude, muita gente ainda falava em is: cinco escudos eram cinco mil réis, dez escudos eram dez mil réis até novecentos e noventa e noventa e nove mil réis. A seguir, era o “euromilhões”: a nota de mil escudos que, mesmo assim, se chamava um conto de réis.

 

            Também ouvi falar no pataco, usado em expressões como “comprar bacalhau a pataco”, para mostrar como era barato, mas não lidei com esta moeda. Nem com vinténs, de que ainda falavam as pessoas da idade dos vossos bisavós e de que também ficou o dito “não vale um vintém furado”. Conheci foi o tostão – até vinte e cinco tostões, que era metade de cinco escudos. E vejam de quanto valeriam na altura, pois costumava-se dizer: “para bom melão vinho de tostão” para recomendar que se devia beber um bom vinho!

 

            Quando fui a Nova Iorque em 1980 (releiam a minha carta anterior com o título “É uma terra com muita gente”) era muito frequente encontrar na rua moedas de um, dois e até cinco cêntimos (fracções do dólar) que as pessoas deixavam cair e não se davam ao trabalho de apanhar. Enchi por graça uma tacinha delas, que ainda conservo. Mas se fôssemos ao hipermercado e nos faltasse um cêntimo era certo e sabido que não nos deixavam levar as compras

 

            Mas vintém, pataco ou morabitino, dinheiro sempre foi dinheiro e quando deixou de se praticar a troca directa – um produto por outro – ninguém mais o pôde dispensar. Foi fonte de muitas alegrias mas também de muitas desgraças, sobretudo se as pessoas se deixavam dominar pela ganância, o arranjavam por meios ilegítimos e se serviam dele para humilhar o próximo em vez de o ajudarem.

 

            Agora temos o euro, cujo símbolo é (€) A ele aderiram, por enquanto, os seguintes países da União Europeia: Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslovénia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Países Baixos e Portugal. Um euro divide-se em 100 cêntimos, existindo notas de 5, 10, 20, 50, 100, 200 e 500 euros e moedas de 1, 2, 5, 10, 20 e 50 cêntimos e de 1 e 2 euros. Cada moeda em circulação tem uma face comum e uma face que depende do país para que foi cunhada. As notas de papel são idênticas em todos os países aderentes. Quando Portugal adoptou o euro em substituição do escudo, foi calculado que um euro valia 200,482 escudos e foi nesta base que se fez a conversão.

                  

                    A nota de Euro de valor mais elevado (quinhentos euros)

 

                As gerações mais antigas, por vezes, para fazerem uma ideia dos custos dos produtos, principalmente quando se trata de altas quantias, ainda recorrem aos escudos, melhor dizendo, aos contos, fazendo contas de cabeça. Os jovens, fazem o contrário, quando ouvem falar em contos, desejam saber quanto é em euros. Tu, Cristina, já tens perguntado, quando ouves os mais velhos falar em contos: “quanto é isso em euros?”. Ora as contas são muito fáceis de fazer: Por exemplo, se ouvirem dizer que uma casa custa 30.000 contos, e como 1 conto são cerca de 5 euros, multipliquem este número por 5 e já está: 30.000 x 5 = 150.000 €.. O preço da dita casa são 150.00 euros e um pouco mais. Se quiserem converter milhares de euros em contos, divide-se, como é óbvio, os euros por 5 e dá milhares de contos: 150000 € / 5 = 30.000 contos!

               

                Também a importância do dinheiro é sempre a mesma e não se pode viver sem ele. A melhor maneira de o ganhar é através do trabalho honesto e este consegue-se aprendendo, através do estudo, para se ter uma profissão que permita ter uma vida digna.

 

Até breve. Beijinhos.

 

 

publicado por clay às 19:38 | link do post | comentar | favorito
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