Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 01.10.07

                         

            Meus queridos netos:

 

            Outra viagem de sonho consistiu num cruzeiro de barco de Moscovo a S. Petersburgo, cidades que visitámos.

 

            Em Moscovo impressionou-me a majestade do Kremlin, sinónimo de fortaleza em russo, da Praça Vermelha bem como a sua vizinha e típica catedral de S. Basílio e ainda o Metro, com grandes escadarias mecânicas por onde, diariamente, passa meio milhão de pessoas e com algumas salas que são autênticos museus.

 

            Em S. Petersburgo extasiei-me, como não podia deixar de ser, com a grandiosidade do museu Ermitage e a riqueza do seu acervo, mas também com a fabulosa catedral de Santo Isaac e o palácio de Catarina, a Grande. Ainda me encantaram os canais, ladeados por sumptuosas igrejas ou palacetes e os jardins bem tratados que havia por toda a parte.

 

            Durante os dias que durou o cruzeiro, por rios, lagos ou canais, quase sempre ladeados de florestas de bétulas, fizemos curtas paragens em algumas aldeias típicas e até fizemos um piquenique, servido pela tripulação do óptimo navio que nos transportava. Um desses pequenos povoados ficou-me no coração porque mulheres e crianças, muito pobres, vieram ao nosso encontro oferecendo-nos flores silvestres. Era uma forma de pedir esmola mas gentil e comovedora.

 

            Não vos vou falar de viagens repetidas nem das muitas cidades espanholas que conhecemos: mas não quero omitir Barcelona, cidade encantadora com a sua riqueza artística em que sobressai a arquitectura de Gaudi e as suas movimentadas e coloridas Ramblas; Sevilha, as suas danças típicas e as impressionantes procissões da Semana Santa e, entre as ilhas mediterrânicas, Maiorca, com as suas calas, pequenas piscinas de água azul e transparente, onde se miram árvores e moradias estivais e Valldemossa, refúgio romântico de Chopin e George Sand. Granada, a branca, com o palácio de Alhambra, Córdova com os seus floridos bairros típicos e a sua original Mesquita-Catedral. Finalmente uma lembrança comovida para Covadonga, por razões históricas e religiosas.

 

            Mas quero ainda referir-me a uma das nossas últimas viagens. A Estocolmo, capital da Suécia, uma das cidades mais originais que conheci devido às inúmeras ilhas que a compõem e onde, entre outras coisas, visitamos a Câmara Municipal, belo edifício onde se organiza anualmente a cerimónia da distribuição do Prémio Nobel.

 

            De Estocolmo partimos, em autocarro de turismo, para a Noruega, onde fizemos um tour de alguns dias e onde tudo me cativou: Oslo, a capital, o extraordinário Parque Vigeland, com as suas duzentas e doze originais esculturas, uma enorme exposição permanente de enormes estátuas em pedra ou em bronze esculpidas pelo escultor do mesmo nome, que as doou à cidade. Depois as aldeias de casas típicas, geralmente em madeira pintada de várias cores e uni familiares, construídas entre vegetação ou à beira dos fiordes, a visita ao glaciar Birkedal que sobrevoámos de helicóptero,

                        

                                   A Vóvó ao dirigir-se para o helicóptero que nos levou a ver os glaciares

 

a subida no comboio de Flam, através de montanhas nevadas cortadas por túneis até a um miradouro de extraordinária beleza e, evidentemente, o passeio de barco no Fiorde dos Sonhos. A neve por toda a parte, as lendas dos Trolls a recordar-nos a música de Grieg e os bons hotéis em que ficámos tornaram esta viagem inolvidável.

 

            Num circuito de autocarro de turismo, a partir de Zurique, na Suíça, fomos um dia conhecer as grandes cidades da Europa Central: Viena, Praga e Budapeste. Mas desde já vos dou licença, caso estejam cansados de tanto viajar: abandonem o autocarro na primeira paragem. Saltar do avião não vos aconselho que seria mortal e do barco também não, porque teriam de nadar longas distâncias. Eu continuo.

 

            Visitámos Praga exactamente um ano depois da queda do muro de Berlim, do qual já vos falei em cartas anteriores, consequente desmembramento da União Soviética e a perda de influência da Rússia e da sua ideologia nos países vizinhos. Por isso havia muita falta de tudo e a nossa guia, que trocara a apologia do comunismo pelos louvores de tudo o que era ocidental, chegou a dizer-nos que os animais do Zoo da cidade eram bem alimentados do que os seus habitantes.

 

            Isso mesmo era visível em montras do centro da cidade, uma das quais totalmente ocupada por um biquini e alguns grandes girassóis de papel a enfeitar e sobretudo a ocupar espaço e outra, de géneros alimentícios, repleta de latas de legumes em conserva. Em contraste com esta penúria, o mastodôntico hotel onde ficámos, destinado exclusivamente a turistas estrangeiros, servia-nos um pequeno-almoço buffet que, em quantidade, desde a sopa de goulash até aos milhentos iogurtes, ultrapassava tudo o que estávamos habituados. A sala de refeições mais parecia um supermercado...

 

            Mas a “Cidade Dourada”, que nunca sofreu qualquer bombardeamento durante a II Guerra Mundial, era um museu de casas artisticamente ornamentadas, embora muito degradadas e ainda com várias famílias a habitar o mesmo apartamento. Com as suas várias pontes sobre o rio Vitava, Praga, capital da República Checa, fez-me lembrar Paris em ponto mais pequeno. A Ponte Carlos, ladeada de estátuas em tamanho natural é um dos principais atractivos turísticos, o que não admira pois é considerada uma das mais belas do mundo. Mas também a Catedral, a Torre da Pólvora, a Praça Venceslau e o Castelo, bem como toda a cidade velha são de visita obrigatória, como é obrigatório comprar um objecto em cristal da Boémia, à venda em todo o lado,   a contar com os turistas.

 

Mas já devem estar cansados de tanta agitação e eu também de puxar pela memória e de escrever cartas tão longas. Vou deixar, para uma próxima carta, as restantes cidades da Europa Central que visitei nesta viagem.

 

Até lá, desejo que a vossa vida seja sempre uma viagem feliz mesmo se, como Xavier de Maître, for uma viagem mais calma, à volta do vosso quarto.

 

Beijinhos, muitos, dos Vóvós.

 

 

publicado por clay às 11:15 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
29
30
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds