Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 29.11.07

                                                      

                Os Açores, e principalmente a Ilha Terceira, são a terra das festas. Todos os pretextos são bons para celebrar qualquer coisa.

              Comecemos pelo Natal, que aí se celebra como no Continente mas com uma particularidade:  a   mesa, com a sua toalha bordada, arte em que as açorianas são exímias, mantém-se posta, com fartos e deliciosos manjares, até ao dia de Reis. Não foi sem estranheza que muitas vezes ouvi um amigo perguntar, quando encontrava outro: «O teu Menino Jesus mija?». Era a senha convencionada para saber se, em caso de visita, se encontraria a mesa bem fornecida, com as correspondentes bebidas.

             No Carnaval, eram as Associações Recreativas, muito numerosas, que promoviam as cavalhadas: música e cantares regionais, mascarados e brincadeiras, não sei qual a sua relação com os torneios a cavalo dos tempos antigos.

                A Páscoa, altura em que mais se notava a profusão das azáleas, além de solenes e concorridas celebrações religiosas, era a época dos doces em que se distinguiam, pela sua originalidade, os tradicionais  alfenins , uma espécie de suspiro (açúcar e claras em castelo) moldado em artísticas figurinhas, sobretudo de aves. Eram, como podem calcular, extremamente doces, mas os terceirenses não gostavam de poupar no açúcar…nem no sal.

                Mas as festividades mais queridas dos açorianos em geral e dos terceirenses em particular são as Festas em Louvor do Divino Espírito Santo que os povoadores portugueses levaram, logo no século XV, para o arquipélago. E digo bem arquipélago pois todas as Ilhas, com mais ou menos variantes, as organizam com toda a devoção e todo o brio, desde o Domingo de Páscoa ao Pentecostes, às vezes até ao Domingo da Santíssima Trindade e, mais modernamente, também no Verão, para dar cumprimento à promessa dum ou outro emigrante, expressamente vindo da América ou do Canadá.

                Das Festas do Espírito Santo, que se estenderam, graças à diáspora açoriana, não só a estes dois países e ao Brasil, também ainda restam vestígios em Portugal Continental – no Alentejo (Portalegre, Marvão e Nisa), na Beira Baixa (em Cardigos) e encontramos ecos delas na Festa dos Tabuleiros, em Tomar. Mas é nos Açores que ficaram mais profundamente enraizadas, como devoção e, simultaneamente, motivo de convívio e de festa.

                Na Ilha Terceira, todas as paróquias e até alguns lugarejos têm a sua mordomia ou irmandade e o seu Império.

                                        

                                           Um Império

Na primeira cerimónia, um pajem ladeado por quatro vereadores leva, numa salva de prata, o ceptro e a coroa do Espírito Santo, cerne do cortejo, aberto por uma bandeira encarnada com a pomba ao centro, que é empunhada pelo alferes e segue até à casa do imperador, sorteado na segunda feira de Pentecostes e aí ficam, durante uma semana, num trono, erguido junto a uma parede do meio da casa e muito bem ornamentado. À noite, depois dum animado serão, rezam o terço, com familiares e amigos, durante os sete dias da semana.

                No domingo e segunda feira do bodo tudo transita para o Império, pequena capela geralmente pintada com cores garridas, que tem ao lado uma despensa , onde se guardam os cestos de pão de cabeça, cântaros de vinho e, por vezes, carne assada, distribuídos generosamente por todos os que ali se encontram e também pelos passantes, mesmo desconhecidos.

                O bodo propriamente dito ou função é servido geralmente ao domingo, depois da cerimónia  religiosa da coroação, numa mesa que ocupa, quase sempre, toda uma longa rua da freguesia. Confeccionado em enormes panelas de ferro, postas sobre um lume de brasas, ocupa bastantes mulheres orientadas pela mestra da função.

                É constituído pelas sopas do Espírito Santo: um caldo onde se cozeram carnes com osso (do pescoço, do peito), galinhas, quartos de repolho, tudo temperado com muitas especiarias.

                Quando pronto, o caldo é escorrido por cima de bocados de pão, cozido na quarta-feira anterior cortado aos pedaços, à mão, e que se deixa abeberar bem. As hortaliças e as carnes servem-se em travessas, à parte.

                Quanto à alcatra é basicamente (há muitas variantes nos temperos) uma peça de carne assada no forno, num alguidar próprio. Deve ser bem besuntada com manteiga, posta sobre uma camada de cebola e alho, regada com vinho de cheiro (ou vinho branco) destemperado com água e com este caldo se há-de ir regando, enquanto cozinha. Leva também muitas especiarias e sal a gosto. Quando começa a tostar, cobre-se com folhas de repolho. Depois de cozida, chama-se um homem encarregado de a cortar. o trinchante e come-se acompanhada com pão de cabeça.

                As mesas estão postas com toalhas brancas, louças, talheres e copos da irmandade e, sobre elas, há vinho e laranjada com fartura. Ali se senta toda a gente da freguesia, parentes, amigos, convidados e, se alguém vier sem ser esperado, também terá o seu lugar à mesa. Depois, em frente ao Império, é a distribuição do pão, do vinho e por vezes também de fatias de alcatra, para os que desejarem.

                Mas falta falar de duas coisas: quem paga as despesas da coroação, evidentemente o mordomo e o ritual do bezerro ou gueixa, o animal que se imola em cumprimento da promessa. O bezerro vai-se buscar ao pasto – por vezes dum lavrador amigo que aí o criou – enfeita-se com boninas e coloridas fitas de papel coladas com breu ao pêlo e aos chifres. Põe-se-lhe uma coroa garrida na cabeça e uma campainha ao pescoço. Dirige-se para casa do mordomo seguido por um cortejo constituído por convidados e a cantoria – rancho de tocadores de viola, rabeca, instrumentos de sopro e os repentistas com as suas trovas, por vezes maliciosas.

                Chegado à porta do imperador, o bezerro é obrigado a ajoelhar e é tocado, no lombo e na testa, com o ceptro do Senhor Espírito Santo. Depois matam-no e distribuem a carne em esmolas, de quilo ou meio quilo, à porta do imperador, na tarde de sábado.

                A cerimónia da coroação realiza-se depois da missa dominical. O padre vem à porta da Igreja, receber e aspergir as crianças – e por vezes algum adulto – que se apresentam para serem coroadas por designação do imperador e leva-os até ao altar, ao som do Vinde Criador. Uma vez efectuada a coroação - as grandes coroas de prata são erguidas por duas pessoas sobre a cabeça das crianças – e o padre acompanha o cortejo até ao adro, desta vez ao som do Magnificat.

                     Para terminar , aqui deixo, inspirado por estas celebrações, o poema.

 

                 O MEU BRASÃO DE ANGRA

                 Entre a lava e o agapanto,

                 meu heráldico brasão

                 tem uma insígnia no meio:

                 um coração.

 

                 Um coração de gueixa,

                 desenfreada,

                 solta

                 e todo o mar em volta.

 

                 Um coração selvagem,

                  potro de olhar bravio

                  e, a toda a volta,

                  um campo vazio.

 

                  Fica em suspenso o escudo

                  da minha heráldica ambição.

                  Mas, entre a lava e o agapanto,

                  esquartelado, meu coração

            

 

            P. S. Para fazer uma merecida referência ao livro «Em louvor do Espírito Santo», do escritor açoriano Francisco Ernesto de Oliveira, onde fui buscar alguns elementos para colmatar as falhas que o tempo causou na minha memória.

    

          Beijinhos e até breve.

                                                                          

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Terça-feira, 27.11.07

 

  

 Meus queridos netos:

 

 

Cá estou eu a continuar a narrativa do meu ano lectivo nos Açores. Já falei dos professores. Hoje vou falar dos alunos que, literalmente, me calharam em sorte.

Já referi as informações alarmantes (e deprimentes) que recebi da colega que, no dizer dela, tinha apanhado uma depressão por causa daquela gente e do capacete climático da Ilha.

Pois uma das primeiras turmas a que fui dar aulas tinha-a tido como professora no ano anterior. Ao entrar na sala, foi com um espanto contido que deparei com um grande cão, de pêlo amarelo, com peladas e tão magro que se lhe podiam contar os ossos.

Olhando para a turma com toda a severidade que consegui arranjar, perguntei, com aparente calma

- Quem é que teve o atrevimento de trazer este cão sarnoso para a minha sala de aula?

Resposta imediata e quase em coro:

- Ó Sra. Dra., este cão assistiu a todas as aulas durante o passado ano lectivo.

Ocorreu-me uma resposta pronta que deixou toda a turma sem fala:

- Ah! Sim? Pois fiquem sabendo que eu já ensinei alguns burros, mas cães é que não tenciono ensinar. Levem já o bicho daqui para fora!

Lá foi o cão para a rua e tudo se apaziguou mas, passados dois ou três dias, assistia-se, na aula, à seguinte cena:

- Ó Pedro, empresta-me aí a borracha – dizia alguém em voz alta.

E logo a borracha rasava a cabeça dalguns alunos e ia cair perto daquele que a tinha pedido

Nesse dia, limitei-me a dizer:

- Mas que educação é essa? Lá em casa é assim que passam o pão, quando alguém vo-lo pede? Comigo não. Que não torne a acontecer!

Aborrecida com os sucessivos abusos, resolvi investigar junto dos próprios alunos, numa conversa amena, qual a razão de tais comportamentos, tanto mais que esta, uma turma do então quarto ano, só de rapazes, era a única a dar-me problemas. Disseram-me que a professora do ano anterior, muito míope, só conseguia ver as duas primeiras filas de carteiras. Para além delas, cada um podia fazer o que quisesse pois nunca ninguém era repreendido. E achavam que a referida professora nunca tinha dado pela presença do cão, tão assíduo às suas aulas e nem pela movimentação com que alguns alunos, agarrados à respectiva carteira, levavam a cabo para se deslocarem dum para outro lado da sala. Pediram-me desculpa e juraram que as brincadeiras não se repetiriam, o que cumpriram escrupulosamente talvez, também, por terem visto que eu estava ali para ensinar e não para meter na ordem adolescentes mal-educados.

Foi apenas esta turma que me deu estas passageiras preocupações, porque as restantes oito ou nove foram, desde o primeiro dia, encantadoras comigo, não só nos estudos como no trato.

E em breve chegou o dia 11 de Março, dia dos meus anos. Qual não foi o meu espanto e emoção quando, ao entrar em cada sala de aula, em todas, sem excepção, encontrei a minha secretária debruada a flores: camélias, azáleas e folhagens. Em quase todas me aguardava uma prenda: um livro, um alfinete de malaquite, um colar de fantasia e, isso sim em todas, um poema no género deste, da autoria das meninas do IV B:

 

Não queríamos deixar

Neste dia tão ditoso

De lhe virmos augurar

Um futuro venturoso

 

O dia 11 de Março

É dia que não se esquece.

Deus lhe dê muitas venturas,

A felicidade que merece.

 

Dedicamos-lhe estes versos

Do fundo do coração.

Apesar de pobrezinhos,

Revelam nossa afeição.

 

Escritos num papel a imitar pergaminho, assinado, no verso, pelas trinta e seis alunas da turma.

Ora sucedeu que a Manuela fez anos poucos dias depois e teve manifestações semelhantes. Até a turma de Físico-Químicas do VI ano, que muito trabalho lhe deu, porque ela, que nunca tinha leccionado, preparava exaustivamente as aulas, sobretudo as aulas práticas (às vezes com a ajuda da Dra. Maria Emília) lhe ofereceu um carro de bois e a respectiva parelha de que o puxava, muito bem trabalhado em madeira de faia. Só não recebeu tantos poemas como eu, talvez por os seus alunos, de Ciências, não terem tanta queda para a poesia.

Ambas ficámos muito impressionadas, mas partimos do princípio que era um hábito naquele Liceu. Mas não. E qual não foi o nosso espanto quando vários professores e o próprio Reitor, o Dr. João Anglin pediram aos nossos alunos que, com todo aquele material, organizassem um Sarau, no palco do Ginásio. Os alunos encarregaram de elaborar o programa e coordenar a sessão as alunas da turma do IV A, que, no convite, tiveram a delicadeza de escrever uma dedicatória mais abrangente: «Homenagem aos Excelentíssimos Professores».

 Como eu leccionava quase exclusivamente Francês, duas rubricas eram nesta língua. Eis o programa:

 

1 – Anecdote – Por Guida e Ana Cristina, um pequeno sketch humorístico da sua autoria.

 

2 - «Fermosíssima Maria»- extraído d’Os Lusíadas, por Ana Cristina e Teresa Almeida.

 

3 - «Une singulière consultation», por Aurora e Filomena da Luz, fragmento da peça «O Doutor Knock ou o triunfo da medicina» de Jules Romain, ensaiado pala Dra. Clementina.

 

E uma segunda parte, em que vários alunos interpretavam canções regionais. Em tudo puseram o maior esmero, inclusivamente na decoração, com muitas e variadas flores, do cenário onde apresentaram as suas produções.

Todos os professores do Liceu assistiram, sentados nas primeiras filas e, atrás deles, os meus alunos e os da Manuela, que quase esgotaram a lotação, com muita pena de colegas doutras turmas.

Que bom ser professor de tais alunos!

Disseram-nos, a brincar, que era para nos pagarem da «colaboração» no Carnaval. Quando este já estava próximo, surpreendi alguns alunos com uma espécie de limas verdes nas mãos. Perguntei-lhes o que estavam a fazer e responderam-me que eram limas de cera, para brincar ao Carnaval. Que já tinham dúzias delas cada um, pois a festança era uma verdadeira batalha, não de flores mas de água. Além das limas cheias desse líquido e que se esborrachavam, molhando tudo e todos e eram em tão grande número que, no dia seguinte, quase não se podia transitar nas ruas, escorregadias da cera, saíram do Liceu com uma camioneta de carga, em cuja caixa aberta levavam muitos baldes de água para despejar em cima de quem lhes aprouvesse. E ninguém levava a mal, mesmo os que não se dispunham a calçar galochas e a vestir capas de borracha. Nós escapámos ao «banho» porque, previamente avisadas por colegas, ficámos a ver o «filme» duma janela da nossa pensão, num andar alto, onde estávamos a bom recato.

            Muito mais teria para contar: passeios que os alunos nos proporcionaram, por exemplo, a uma fábrica de óleo de baleia (que cheiro horrível!) ou mimos que nos traziam de casa. Era um ambiente tão amigável e descontraído que. em alguns dias de primavera ou início do verão, dei aulas de Francês ao ar livre, numa escadaria do jardim cheio já de hortenses e agapantos, a que, na Ilha, chamavam «Coroas de Henrique»

            Ainda bem que não me deixei influenciar pela experiência negativa da minha infeliz colega pois, usando uma expressão banalizada, tudo foi para nós «um mar de rosas», em sentido próprio e figurado.

            As pessoas foram encantadoras, os alunos excepcionais e a paisagem… apetece-me repetir a frase com que um dos meus alunos terminou uma redacção, em que descrevia vários sítios espectaculares de S. Miguel: «Na minha terra, a bem dizer, é tudo paisagem!».

 

Beijinhos da vossa Vóvó 

 

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Sábado, 24.11.07

      Meus queridos netos:

 

 

Terminado o Curso de Românicas, só arranjei colocação compatível nos Açores, o que logo me agradou porque me dava o ensejo de viajar que é, juntamente com ler bons autores, o que mais gosto de fazer. Procurando algumas informações sobre o que podia esperar-me no Liceu Antero de Quental, de Ponta Delgada, só consegui contactar com uma colega que lá tinha leccionado no ano anterior e me deu as piores referências possíveis: alunos indisciplinados, pessoas fechadas e até hostis para os colegas do Continente, enfim, um rol de desgraças que lhe tinha causado uma depressão. A senhora era tímida, muito míope, o que vai ter o seu interesse no decorrer da narrativa. Mas lá chegaremos.

Por agora, eis-me a bordo do paquete Carvalho Araújo, onde logo me relacionei com duas colegas, uma do meu grupo e outra de Físico-Químicas, todas nós principiantes. Era a primeira vez que andava de barco – eu ia para S. Miguel e só havia aviões para Santa Maria – e os primeiros dias, com o mar agitado, passei-os intermitentemente na cama, enjoada.

Depois as coisas acalmaram e o nosso grupo aumentou, ao conhecermos um médico escolar, que já tinha estado no Liceu em dois anos anteriores e um amigo indiano da colega de Físico-Químicas, que ia como delegado do Procurador da República para o Nordeste.

Foram poucos mas muito agradáveis os dias da viagem – exceptuando o enjoo, claro – e aí se cimentou entre nós cinco uma amizade que nos uniu durante todo o ano lectivo e nos permitiu relacionar-nos com pessoas da Ilha, fazer passeios de carro, conduzido pelo médico e cujo aluguer dividíamos entre nós e assim conhecer a fundo toda a Ilha de S. Miguel.

Instalámo-nos numa pensão que se situava no Largo onde se suicidou o grande e infeliz poeta Antero de Quental, cuja obra sempre me fascinou. Era também nesse Largo que ficava a Igreja do Senhor Santo Cristo dos Milagres, a cuja famosíssima procissão, em Maio, assistimos das janelas do nosso quarto

Pouco tardou que nos apresentássemos ao serviço e, como é natural quando se chega a um meio que nos é estranho, todas nos sentimos vagamente apreensivas. Mas sem razão porque, em breve, éramos, as três, tratadas como as «estrelas» do Liceu que, embora tendo um corpo docente constituído, em grande parte, por professores açorianos, todos muito mais velhos do que nós e conceituadíssimos no seu meio, nos acolheram como as meninas que iam rejuvenescer e alegrar o ambiente. Falou em nosso favor um pormenor inesperado: como éramos muito jovens, nunca nos passou pela cabeça tratar os professores mais velhos e com tanta experiência por colegas, mas sim por Senhor Doutor. E só muito tarde viemos a saber o quanto isso tinha sido importante. Foi o saudoso Dr.Cortes-Rodrigues quem, um dia, me disse:

 - Todos gostámos muito da vossa atitude educada e modesta. Podiam tratar-nos por colegas, que o são, mas só o fez quem o não era: a doutora de corte e costura. Referia-se ele à professora de Trabalhos Manuais que, pelo seu modo de ser, nunca entrou para o nosso grupo.

Nessa altura – 1954-1955 – o Liceu Antero de Quental tinha um escol de professores ilustres, dignos do grande poeta, seu patrono. Pela minha parte, nunca esquecerei as gentilezas que recebi da parte do Dr. Cortes-Rodrigues, professor de Português, grande poeta que tinha sido companheiro das lides literárias de Fernando Pessoa e com ele tinha colaborado no Orfeu. Além de nos convidar para passeios, entre os quais, já lá para o fim do ano, o que preencheu o dia esplendoroso que passámos no Ilhéu de Vila Franca do Campo, também nos recebeu, algumas vezes, a jantar em sua casa onde, sendo então viúvo, imperava a sua única filha, a Ernestina, perfeita na arte de receber os amigos do seu Pai.

Outro poeta, o Dr. Ruy Galvão, professor de Filosofia, era mais retraído, mas ambos me distinguiram com poemas seus, que conservo religiosamente e que vão aparecer no final desta carta.

O Dr.João Bernardo era um verdadeiro melómano. Foi ele quem, no Centenário da morte de Almeida Garrett, organizou o «Serão de Arte» que teve lugar na Academia Musical de Ponta Delgada com música clássica e poesia, tendo eu sido encarregada de declamar o início de D. Branca, o célebre poema «Saudade». O texto de ligação foi propositadamente escrito pelo Dr. Cortes-Rodrigues, e o Sarau foi um verdadeiro sucesso, naquele meio tão devotado à cultura
     O Dr. Pavão, também professor de Português, era um dos mais novos desse grupo e encontrei-o, mais tarde, já como professor da Universidade de Ponta Delgada. Estava eu, vários anos depois, a trabalhar na Ilha Terceira, quando até me convidou para sua assistente. Foi com pena que declinei tão honroso convite, mas o meu destino não passava pelo ensino universitário, que me tinha passado ao lado primeiro em Lisboa, quando já tinha constituído família em Luanda, depois em Angola, onde a Faculdade de Letras foi instalada em Sá da Bandeira e agora nos Açores. Desta vez, além de me achar já demasiado cansada para iniciar uma carreira universitária, também se deu o caso de eu morar na Ilha Terceira e, ao fim de quatro anos, estar ansiosa por regressar a Lisboa, onde estavam os nossos filhos, já na Universidade.

Mas, voltando aos professores, havia, ainda o professor de Matemática Dr. Rego da Costa, cuja esposa preparava uns deliciosos gelados de maracujá, com que, de vez em quando, nos regalava.

Contudo, a nossa grande companheira e amiga foi a Dra. Maria Emília Benevides, professora de Físico-Químicas, que logo se tornou a patrona da Manuela e, em seguida, adoptou o grupo dos cinco. Tinha carro e carta de condução, o que, na época, não era frequente numa senhora, para mais já de certa idade. Com ela visitámos quase todos os lugares turísticos da Ilha, incluindo as suas estufas de ananases, na Ribeira Grande. Passámos inúmeros serões em sua casa onde, além do marido, vivia também um irmão deste, que não casara. Não faltavam, pois, parceiros para a canasta, jogo de cartas então muito em voga. E, em seguida, deliciosos bolos caseiros e chá ou licores, entre eles o famoso licor de maracujá Ezequiel, uma especialidade da Ilha que várias gerações com este nome celebrizaram e preservaram até hoje.

A Dra. Maria Emília era, como já supõem, muito mais velha do que nós, quase na idade da reforma, mas uma pessoa afável, bem disposta e muito respeitada na cidade Só era igualada pelo seu marido na lhaneza do trato e na amizade que nos dispensava.

Quanto ao ambiente com que nos deparáramos à chegada, não deixou de ser cada vez mais aberto e afectuoso, tendo sido sempre cumuladas, as três, de favores e gentilezas.

Assim, nas férias da Páscoa, o nosso colega melómano, Dr. João Bernardo, pôs à nossa disposição uma casa nas Furnas, à beira dum riacho, com muitas azáleas floridas e um pomar de laranjeiras. Aí colhíamos as laranjas para os sumos que diariamente tomávamos antes do pequeno-almoço. Este, além do café com leite, incluía sempre queijo fresco e massa sovada que o filho do dono do restaurante onde comíamos ia, logo de manhã, levar-nos a casa.

 Foram umas férias de sonho, com passeios a pé e a cavalo naquele paraíso das Furnas. Paraíso mascarado de inferno, por causa das erupções vulcânicas, que enchiam o ar de vapor sulfuroso. Às vezes também saíamos de barco a remos, que era fácil alugar com marinheiro, quando não havia um aluno disponível para ser nosso guia e companheiro.

Houve tanta coisa boa nesta nossa passagem pelos Açores, que vos prometo outra carta, pelo menos, sobre o Liceu e os nossos alunos.

                Seguem-se os dois poemas prometidos:

Um poema filosófico, na linha de Antero de Quental, que o Dr. Ruy Galvão me dedicou e outro do Dr. Côrtes-Rodrigues, lamentando o nosso regresso ao Continente.

 

                                                   

  

    Beijinhos da Vóvó.

 

 
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Terça-feira, 20.11.07
 

            Meus queridos netos:

 

         Nunca na minha vida fiz nada extraordinário. Mas, nas tarefas da vida quotidiana espero, com a ajuda de Deus, ter posto todo o empenho e dedicação de que fui capaz e penso tê-las levado a bom termo.

 

         Assim sucedeu nos meus estudos, de que já vos falei noutra carta, como no aperfeiçoamento da minha vida profissional, às vezes com bastante sacrifício como vereis.

 

         Quando acabei o curso da Faculdade, a melhor entre quarenta, dois caminhos se abriam à minha frente: aguardar que vagasse um lugar para professora assistente, conforme me tinha prometido o meu saudoso Professor Doutor Jacinto do Prado Coelho ou fazer o estágio pedagógico para seguir a carreira docente, minha primeira aspiração.

 

         Já sabem que a primeira via se mostrou sempre inacessível para mim, sobretudo porque decidi casar e ir viver com o Vôvô para Angola e aí constituir família.

 

         Quanto ao estágio, nessa altura, era extremamente difícil, não só o ser admitida como os dois anos em que tínhamos de trabalhar numa Escola, sem qualquer remuneração o que, desde logo, me afastava dessa hipótese que não garantia a minha subsistência e seria demasiado difícil para os meus Pais sustentar-me.

 

         Além disso, só havia dois centros de estágio: um em Lisboa e outro em Coimbra, cada um deles com apenas duas vagas. Os exames de admissão eram muito difíceis e tinham a agravante de, ainda que tivéssemos nota positiva ou mesmo boa, se a dos outros concorrentes fosse superior à nossa, só o melhor é que entrava e ao segundo de nada lhe valia o exame pois, além de não ser admitido na única vaga que havia, teria de repetir o exame até conseguir ser o melhor.

 

            Para o que tinha sorte de entrar, ficava durante dois anos lectivos a dar aulas, quer sob a orientação dum professor categorizado e com muita prática, quer como único responsável de algumas turmas, mas sempre sujeito à intervenção do metodólogo que assistia à aula e fazia as suas críticas. Uma vez feito o estágio com êxito, era-lhe conferida a categoria de professor agregado, que, embora parcamente remunerado, nada recebia durante as férias grandes e, em certos grupos, eternizava-se nessa situação por muitos anos.

 

         Ora, como no ano anterior em que eu devia candidatar-me ao estágio vi a melhor aluna desse ano, que tinha concluído a Faculdade com dezassete valores, como eu, ter tido doze no exame de admissão e ser suplantada por outra colega que teve catorze valores, senti-me completamente desmoralizada para me arriscar nessa aventura, tão difícil de todos os pontos de vista.

 

         Fui então dar aulas para o Liceu Antero de Quental, em S. Miguel e ali fiquei um ano maravilhoso de que já vos fiz um relato entusiasta. Depois vim para Lisboa, para o Liceu Maria Amália, durante três anos, até me casar com o Vôvô, em 1958 e ter ido para Angola. Das vicissitudes que lá passei e também das alegrias – já têm notícia.

 

         Quando fui para Luanda, como professora do Liceu Salvador Correia, sempre me distribuíram turmas do terceiro ciclo, que me davam muito trabalho a preparar até ficarem a meu gosto: rigorosas nos conteúdos e motivadoras na forma para os alunos. Nem sempre o devo ter conseguido, mas posso dizer que era uma professora respeitada e apreciada por todos.

 

         A dada altura fui convidada para exercer um cargo na Mocidade Portuguesa Feminina e a minha primeira resposta ao convite foi não, porque eu nunca tinha tido da M.P. mais do que um pin com um número e quando, ao terminar o Liceu com uma média que ultrapassava em muito os catorze valores exigidos para ser admitida num Lar da Organização, foi-me dada uma resposta rotundamente negativa, com a alegação de que eu não era filiada na M.P.

 

         Dito não, fui para casa a pensar se esta não seria uma vingança mesquinha, e dei o dito por não dito, até porque me interessava muito o trabalho com as raparigas angolanas pobres que na Casa de Trabalho da M.P.F. em Luanda, aprendiam a cozinhar, a tratar dos seus bebés, a costurar, etc. Esse já era um acréscimo de trabalho extenuante e que, além de não ser remunerado, até me saía caro porque tinha de pagar do meu bolso a gasolina para as deslocações. Tais funções também me obrigavam a deslocar-me frequentemente de avião pelo extenso território angolano para supervisionar os Lares distritais e, com as habituais aulas do Liceu, o meu sacrifício aumentou e a minha saúde estava à beira do colapso. É preciso não esquecer que, entretanto, eu tinha tido um filho que morreu à nascença, os meus dois filhos Zé António e Joaquim Manuel e ainda um aborto acidental de quatro meses, penso que motivado por grandes aflições devido a uma doença mental de minha Mãe que vivia connosco em Luanda, por essa altura.

 

         Embora procurasse dar toda a atenção aos meus dois filhos, cuidando deles, ajudando-os nos estudos e levando-os connosco em passeios e viagens, ao cinema, às aulas de natação, valeu-me de muito ter uma empregada, a Luísa, que foi o meu braço direito em relação a eles.

 

         Entretanto, foi promulgada uma lei que abria o estágio para cerca de trezentas vagas e num regime muito mais facilitado. Para o fazer, como era meu grande desejo, tive de vir sozinha para Lisboa e fui dar aulas para o Liceu Pedro Nunes. Alojei-me na Casa de Santa Zita, que era perto, mas doía-me a alma por estar longe dos meus filhos e marido. Até que a corda rebentou: eu chorava a todo o momento, tive de abandonar as aulas e fui fazer uma cura de sono em Belas, onde tive a sorte de encontrar um médico sabedor e paternal, que levou a sua abnegação a tratar-me de Lisboa, por correspondência, durante o tempo todo do meu estágio. Do meu estágio? Sim, eu não fui capaz de continuar em Lisboa, mas, entretanto, tinha sido aberto o estágio em Luanda e, com muito apoio do Vôvô, decidi levar ao fim essa tarefa, sem o êxito do qual ficaria para sempre frustrada. Foi um esforço enorme: quando a maioria das minhas colegas o acabavam arrasadas por um esgotamento nervoso, eu comecei-o já doente e a tomar um punhado de remédios que o médico de Belas ia controlando à distância.

 

         E assim, ajudada pelo Vôvô que me passava todos os meus trabalhos à máquina e me levava ao fim da tarde, com os filhos, até à ponta da Ilha de Luanda onde recuperava paz e força para continuar, lá concluí o meu estágio com a melhor nota dos oito concorrentes e fui logo convidada para Metodóloga de Francês. Para poupar um pouco a saúde, recusei terminantemente acumular essas funções com o lugar na M.P.F. que, tendo ficado à minha espera, nunca voltou a ser preenchido.

 

         Mal acabei o estágio vim com o Vôvô e os dois filhos passar férias a Portugal. Aconteceu então que, dado a minha saúde não me permitir instalar-me em Portalegre para ajudar a Bisavó na tarefa de tomar conta dos rapazes, e para que não perdessem o ano, resolvemos inscrevê-los no Colégio de Tondela, de que tínhamos muito boas referências e onde o Quim fez a quarta classe e o Zé o primeiro ano do ciclo. Durante os seis meses que estiveram no Colégio, nós íamos, mais do que uma vez por mês, visitá-los e levar-lhes mimos e, nas férias da Páscoa, como já contei numa carta anterior, demos praticamente com eles a volta a Portugal e à Galiza. Só nessas férias, o nosso carro novo fez mais de dezoito mil quilómetros.

 

         Embora me tenha custado muito esta separação, olhando para as circunstâncias e para dentro de mim, não acho que tenha sido egoísta. Tanto o Vôvô como eu, fizemos o que nos pareceu ser melhor para todos: para eles que não perdiam o ano, para os seus Avós que já não estavam em idade de ter tanta balbúrdia em sua casa e para mim, que assim pude recuperar as minhas forças e ir retomar, em Luanda, o meu lugar de Metodóloga, que desempenhei até ao fim do ano lectivo de 1976, quando os meus estagiários ficaram com as habilitações que lhes permitiram concorrer a professores efectivos em Portugal, para onde todos viemos, fugindo dos horrores da guerra.

 

Até breve. Beijinhos da Vóvó.

 

publicado por clay às 16:35 | link do post | comentar | favorito
Domingo, 11.11.07

 

         Meus queridos netos:

 

         Fala-se agora muito de emigrantes – os que saem de Portugal para irem tentar a sorte lá fora – e talvez ainda mais de imigrantes – os que deixam os seus países, em qualquer parte do mundo, e vêm para Portugal a fazer ou refazer as suas vidas.

 

         Mas que foi o nosso país senão um país de permanente emigração? Não vou falar de tempos remotos, em que, sobretudo com os Descobrimentos, os nossos homens corajosos e aventureiros, partiram a conhecer e a dar a conhecer o mundo e muitos por lá ficaram, uns vivos e outros mortos. Depois das Descobertas, a maior parte destas terras receberam portugueses que aí se estabeleceram para ganhar honras e riquezas ou para levar aos povos que lá viviam o conhecimento de Deus e dos seus mandamentos. Dos últimos, os missionários, alguns alcançaram um lugar cimeiro nas letras como o Padre António Vieira com os seus sermões e Cartas. Outros elevaram-se a cumes ainda mais altos, como S. Francisco Xavier, que, embora sendo espanhol, foi nas terras portuguesas do Oriente que, em língua portuguesa deixou as sementes de Fé e de civilização, num rastro que ainda hoje perdura, fruto de trabalho exaustivo e de total dedicação aos outros, o que lhe mereceu figurar na lista dos grandes Santos.

 

         Mas, sem deixarmos de os admirar e de lhes estar gratos, voltemo-nos para tempos mais recentes, para os brasileiros de torna-viagem  que assim se chamou aos portugueses que, no século XIX, deixaram as suas aldeias e os seus familiares e partiram para o Brasil, donde depois regressaram, uns ostentando o seu sucesso e a sua riqueza, outros tão pobres como daqui tinham partido apesar de terem travado duras lutas, contra o meio, a doença, as saudades.

 

         Se quiserem conhecer mais a fundo quanto acabo de narrar, leiam Camilo Castelo Branco, em cujos romances encontramos, a cada passo, brasileiros regressados à terra, não só para casarem, graças ao seu dinheiro, com raparigas mais novas, mas também alguns deles para fundarem obras de carácter social. Leiam também a Selva de Ferreira de Castro, onde encontrarão um rapazinho – ele próprio – que, aos doze anos, emigrou para o Brasil e aí conheceu a vida nos seringais e outros infernos.

 

         Por mim, vou-me cingir à nossa família que também contou com muitos emigrantes para o Brasil e, mais tarde para África, sobretudo para Angola e Moçambique.

 

         E que fomos nós, o Vôvô e eu, senão emigrantes em Angola? Só não nos consideravam assim por uma questão política: tinha-se legislado que Portugal era, não só o território europeu, mas também as terras sob nossa administração além-mar, ou seja, como então se dizia, “de Minho a Timor”, ultimamente designadas províncias ultramarinas e antes colónias.

Na estrutura do Governo, entre os vários ministérios, havia o Ministério das Colónias que depois passou a denominar-se Ministério do Ultramar.

 

         E que foi o vosso Bisavô José Relvas em Timor, para onde levou mulher e um filho, o Vôvô, quase acabado de nascer? Aí sofreu os tormentos de viver quatro anos, ele e centenas de outros portugueses, num campo de concentração nipónico, já com a família a salvo em Portugal, a qual durante aquele tempo todo nem sabia se ele estava vivo ou morto, por completa falta de notícias. Não se lhe chamava emigrante porque ele era militar e tinha sido chamado para uma missão de soberania. Mas foi longe da Pátria que lhe nasceram e se criaram os quatro filhos, o mais velho dos quais, o Vôvô, embarcou para lá com menos de um ano de idade e regressou já quando tinha cerca de quinze.

 

         Mas voltemos aos brasileiros de torna-viagem. Dos primeiros que tenho notícias na família é dos meus avós paternos, Manuel Curato e Sebastiana. Não sei nada do que foi a vida deles no Brasil, nem onde estiveram, porque no tempo em que os conheci estes assuntos ainda não me interessavam. Mas, na grande casa deles, respirava-se Brasil por todos os lados: eram as grandes malas de cabedal, enfeitadas com tachas de metal  ou baús de couro com os mesmo enfeites, era uma secretária de mogno, de harmónio, cheia de gavetinhas que suscitavam a minha constante curiosidade; era uma mesa de jogo de pé de galo, delicadamente torneado mas que, com os anos, não resistiu ao caruncho; era uma mesa, enorme, também de madeira exótica, onde em dias de festa a família – tiveram e criaram dez filhos – se reunia e onde recebiam convidados e, finalmente, um pequeno toucador também de pés torneados e com espelho oval, a única que me coube, e que ainda hoje, religiosamente guardado por mim, é a peça de mobiliário que mais estimo. Vocês conhecem-la bem quando cá vêm a casa:

                                      

                 Dizia eu que pouco sei das vidas deles como emigrantes, mas recordo-me de me ter contado um dia a minha Avó que, quando chegaram a Lisboa, traziam numa mala a quantidade de libras de ouro suficientes para comprarem uma boa propriedade na zona do Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa,. Mas nem o facto de aí viver um irmão que, viria a ter dezoito filhos, e a vontade da minha Avó o dissuadiram de regressarem à nossa aldeia e aí investirem esse dinheiro em propriedades que, numa aldeia tão pobre, fizeram deles as pessoas mais abastadas. Quando contava este caso, a minha Avó rematava-o sempre com o provérbio: “Desgraçado passarinho que nasce em ruim ninho.”.

 

         Tinham uma casa muito grande e com uma estranha estrutura: uma entrada de carros da rua para o quintal, passando por baixo das salas; uma divisão, uma espécie de cave; onde se preparava o pão e que nos servia de esconderijo nas brincadeiras; uma cozinha e um forno anexos à casa e, no vasto quintal, a pocilga, a capoeira e muitas árvores de fruto, em particular uma imponente nogueira que resistiu valentemente ao ciclone de Fevereiro de1941. E, numa das lojas, como era uso, o cavalo.

 

         Apesar de terem tantos filhos, viviam confortavelmente e, a certa altura, o meu Avô até achou reunir condições para comprar uma grande quinta, do outro lado do rio. Tinha sido um convento pelo que ficou conhecida por Convento das Águias e hoje é uma importante casa  vinícola na posse de estrangeiros. Mas quando o meu Avô se preparava para fechar o negócio, não sei por que forças de interesses familiares ou outros do proprietário, este morreu envenenado e o negócio gorou-se.

 

         Quanto ao meu Pai que, como eles, tentou a sua sorte no Brasil, também regressou à terra de mãos quase vazias. Convidado para uma loja maçónica, não lhe agradaram os rituais de iniciação e abandonou a cerimónia de investidura a meio, o que lhe valeu inimizades e perseguições que, certamente, não ajudaram o seu sucesso.

        

       Para Angola, emigraram muitos dos meus familiares, entre os quais cinco dos filhos do meu Avô. Só um enriqueceu numa fazenda de tabaco mas a vida de cada um deles – como a de qualquer pessoa – dava para escrever um romance sem ser preciso inventar muitas peripécias.

 

         Mas não tendo eu estofo de escritora, limito-me a deixar nestas cartas notícias do que foi a vida da nossa família nas gerações mais próximas e, sempre que vem a talho de foice, a fazer o paralelo entre os tempos que foram e os que são hoje.

 

         Até à próxima e beijinhos.

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publicado por clay às 18:54 | link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 05.11.07


Relembramos os cantos e os contos,
as mouras encantadas,
os dragões;
afastamos os medos, os papões
e em nossos corações
nascem espantos:
outra vez o milagre,
o dom, a graça
e no olhar cansado
um novo brilho …
passa a asa de um anjo
e, no arco que traça,
um neto é, na verdade,
duas vezes um filho.

Lisboa, 22 de Abril de 1999

Clementina Relvas
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