Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 24.06.08

 
Meus queridos netos


Em excursões mais alongadas, visitámos Cognac, que todos conhecem pela famosíssima aguardente Napoléon e outras bebidas espirituosas. Aí, depois da visita à destilaria, fomos mimados com uma recepção no parque da propriedade.


Noutro passeio, percorremos, também, de barco, os canais da «Venise Verte», que são os pântanos da Vendée e a floresta de Mervent, tendo, nesse dia, almoçado no «Vieille Auberge», um restaurante típico de muita qualidade e visitado, entre outros monumentos, a Igreja românica de Vouvant, do séc. XI, que entrou no imaginário popular, pois diz a lenda que foi construída numa só noite, por uma fada com esse nome e que inspirou o seguinte poema popular:


Une place élevée sur une haute colline,
Des remparts féodaux et la Tour Mélusine,
Une église romane au portail émouvant
Le charme est permanent et partout à Vouvant.


Não contentes, porém, com todas as maravilhas da região, a Charente Maritime, houve um grupo de colegas que organizou, em autocarro turístico, uma excursão a dois dos lugares mais encantadores e emblemáticos de França: Saint-Mâlo, na Bretanha e o Mont Saint Michel, já na Normandia.


A primeira é chamada a «cidade corsária», por ser berço de corsários célebres, como Surcouf. Mas é também o local onde, numa ilhota face à cidade, se encontra o túmulo de Chateaubriand, um dos mais célebres poetas franceses do séc. XVIII. Como não tínhamos muito tempo, limitámo-nos a admirar, percorrendo as muralhas que a cercam, a «Cidade Velha» e a célebre “Tour Quic-en- Groigne”, onde existe um Museu de Cera, com a reconstituição de aspectos históricos, etnográficos e folclóricos de grande interesse.

 

Atravessando a Bretanha, onde ainda nos cruzávamos com mulheres exibindo as suas altas e brancas toucas típicas, deparava-se-nos, a cada passo, um magnífico Calvário de pedra, cujo culto ainda permanece vivo.


O Mont Saint Michel é uma autêntica jóia no meio do mar, ligado à terra por uma única passagem encimado por uma abadia românica, com a parte superior em gótico flamejante. Aí, visitámos os Três Museus: o Histórico, o do Historial e o Audiovisual. Passeámos nas suas ruas antigas, com casas muito bem preservadas e tivemos a sorte de assistir ao encher da maré, que é um fenómeno quase instantâneo, perigoso e assustador.


E agora, dirão vocês para os botões, se os tiverem: «Mas, afinal, que Curso foi esse, da Vóvó, que passava o tempo a passear?»,
Estão muito enganados, pois tinha um horário muito preenchido e nunca faltei a nenhuma aula. Além de que, conhecer novas terras e pessoas diferentes também é uma forma de nos cultivarmos.


Como já disse, a Residência ficava longe do Instituto, onde o Curso era ministrado por professores da Universidade de Poitiers e, como eu era a única que tinha despertador, levantava-me todos os dias às sete horas, para acordar a malta e nos aprontarmos para começar as aulas às oito e meia e acabá-las ao meio dia e meia. Estudávamos «O Ensino do Francês Língua Estrangeira» e, à tarde, tínhamos conferências de Literatura e Civilização Francesa ou fazíamos visitas acompanhadas e excursões como vos contei na carta precedente.


Passámos, em La Rochelle, o dia nacional da França, o 14 de Julho. Fomos todas para uma esplanada do «Vieux Port»,onde assistimos aos festejos, que achámos bastante fracos: apresentaram folclore da Argélia e de Cuba (miúdos), fanfarras também muito inferiores às nossas filarmónicas e, caída a noite, houve fogo de artifício entre as duas Torres que, não sendo mau, nada tinha a ver com os nossos espectáculos pirotécnicos. No fim, houve um interessante desfile de iates, abundantes naquela zona, onde há muitas marinas, seguido dum baile popular que me disseram ter-se prolongado até às seis da manhã.


No final do Curso, tivemos uma recepção na Câmara de Comércio e Indústria de La Rochelle, que consistiu numa soirée dançante, animada por uma orquestra local e seguida dum bem servido beberete.


Voltei ainda duas vezes a França, mas só a Bayonne, onde, a convite da Milú, Presidente da Associação França-Portugal, fui fazer duas conferências: uma sobre «A mulher na Literatura Portuguesa» e outra sobre «Os Poetas portugueses e o Mar». E tenho muitas saudades…


Beijinhos da Vóvó, em português, em francês e em todas as línguas mesmo nas que desconheço.


 

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Jovem, que és a promessa
do futuro
e em ti começa
a obra pastoral,
faz da tua vida um hino
de amor e Bem,
em permanente luta contra o Mal.

 

Sê exemplo, modelo de quantos te rodeiam.
Faz aquilo que faças
buscando a perfeição
com o pensamento em Deus.

 

Faz com que todos creiam
que, semear na Terra,
é a única via
.que nos foi prometida
para colher nos Céus.

 

Lisboa, 29.05-08

 

Clementina Relvas

 

 

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Sexta-feira, 20.06.08

Meus queridos netos:

 

 

Como vos disse numa das minhas primeiras cartas, não iria obedecer, nestas memórias, à ordem por que se deram os acontecimentos, pois que, ao escrever, muitos factos e sentimentos afluem ao meu pensamento e, ás vezes, sou inconscientemente impelida a privilegiar uns em detrimento de outros que só mais tarde se impõem à minha narrativa.


Foi o que se passou com o Curso de Férias em Tours e agora, de novo, com o que frequentei em La Rochelle, entre Nantes e Rochefort, já muito depois de ter regressado definitivamente de Angola.


Foi em 1983. Eu trabalhava na Secretaria Regional de Educação dos Açores, no apoio aos professores de Francês, em todo o arquipélago. e como me fora atribuída uma bolsa de estudo de mil e novecentos francos pelo Ministério da Educação, o meu Director prontificou-se a pagar-me as despesas da viagem, o que tudo somado, ainda não cobria os gastos, apesar do meu jeito para as poupanças. Nesse tempo, e penso que agora de novo, as ajudas oficiais eram muito limitadas, mas sempre eram um grande incentivo. E a generalidade das pessoas estava habituada a poupar em tudo quanto não fosse essencial.


Parti de Lisboa no Sud-Express, numa carruagem «couchette» que era uma cabine com beliches, partilhada com mais seis colegas, destinadas ao mesmo Curso. Fiz uma paragem em Bayonne, em casa da Milú, que me proporcionou o habitual acolhimento fraterno e um passeio a Biarritz, onde já tínhamos estado doutras vezes. De Bayonne a La Rochelle, com transbordo em Bordéus, viajei sozinha mas com outros passageiros, franceses, que me permitiram desenferrujar a língua.


Na estação de La Rochelle, encontrei-me com mais colegas e foi um estudante austríaco que nos transportou, no seu carro, até à Residência Universitária, instalada num Instituto de Formação que se encontrava disponível durante o tempo de férias. Era um edifício enorme e incaracterístico. Nós, as vinte portuguesas, ficámos no 5º andar, cada uma em seu quarto e com uma pequena cozinha para quem quisesse confeccionar as suas refeições. No andar debaixo, instalou-se um também numeroso grupo de professoras checoslovacas, que tinham aulas a horas diferentes e que não podiam conviver connosco, porque estavam sempre vigiadas por uma do grupo delas, cuja identificação desconheciam e que tinha como missão denunciar qualquer transgressão à rígida disciplina, imposta pelo Partido Comunista.


O que mais lamentámos foi a distância que separava a Residência do Instituto onde tínhamos as aulas, tanto mais que os autocarros que nos permitiam a deslocação só funcionavam até às dezanove horas, serviço complementado, até à meia noite, por pequenos barcos, os «bus de la mer» mas que nos deixavam a uma distância considerável de casa. Não resisto a contar já a aventura em que me vi metida, uma noite em que, depois de ter estado muito entretida a conversar com um grupo de colegas numa esplanada do Vieux Port, não dei pela partida das minhas companheiras e tive de ir, sozinha, no último barco. Deixou-me ao pé duma marina mas, para chegar a casa, ainda fui forçada a atravessar um infindável campo de girassóis, a que se seguia uma boa extensão de floresta. Tranquilizou-me ter encontrado, à entrada desta, um casal de franceses que por ali se passeavam e me acompanharam até à Residência.


A compensar tudo o que fosse menos agradável, estava a bonita cidade, com o Vieux Port flanqueado por duas torres-fortaleza e edifícios notáveis como o Hôtel de Ville, o moderno Museu do Novo Mundo, a Igreja de S. Salvador e a Promenade du Mail, muito bem cuidada e atravessada por um pequeno rio, onde pacíficos patos se banhavam e, sobretudo, com arredores fabulosos, para passeios inesquecíveis.


Logo ao lado, ficavam várias ilhas, que foram o objecto da nossa primeira excursão: um mini-cruzeiro inter-ilhas numa vedeta posta à nossa disposição e que nos levou à Ilha d’Aix, onde viveu Napoleão, a Oléron, chamada a Ilha Luminosa e que é a maior ilha francesa depois da Córsega. Com praias admiráveis, resguardadas por dunas e florestas, tem edifícios históricos como o Castelo, cujas muralhas foram erguidas sob a égide do grande arquitecto Vauban e prosperou com a cultura das ostras, que constituem a sua principal fonte de riqueza. Visitámos , a branca, pela cor das suas imensas praias, do seu casario caiado, de ruas ladeadas por contínuos canteiros de flores, onde eu aprendi o nome francês para malvaísco, as «roses tremières», que se perfilavam por todo o lado.
A Ilha de Ré passou a ser, digamos, o nosso passeio dominical, pois era servida por barcos que a ligavam ao Vieux Port, a menos de quatro quilómetros.


Outra Ilha, maior e igualmente cheia de encantos era a Ilha de Saint Martin, onde um dia, graças a uma boleia que me foi oferecida por uma mãe e uma filha, idas, de carro, de La Rochelle, fui com elas, pela primeira e única vez, a um campo de nudistas, tendo ficado, é claro, no grupo dos vestidos. Demos, depois, um passeio por toda a Ilha, onde ainda havia bunkers, desactivados, do passado recente da Segunda Guerra Mundial e lanchámos uns deliciosos crepes com gelado, num convívio que não se ficou por ali, pois ainda fui, algumas vezes, lanchar a casa delas, na pitoresca Rue de Sur-les-Murs e trocámos correspondência até o tempo e a distância ter arrefecido o entusiasmo. Delas guardo, no entanto, uma recordação muito viva e afectuosa.


Pensei que caberiam, numa só carta, as recordações de La Rochelle, mas, como vos não quero saturar com estas minhas memórias, voltarei ao mesmo assunto na que se lhe irá seguir.

 

Beijinhos da Vóvó.

 



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Sábado, 14.06.08


Como a vida não é só trabalho, vou agora falar-vos dos três períodos de férias que passámos na Metrópole, como então nos referíamos a Portugal, durante a nossa longa estadia em Angola. A intenção era descansar de tantos anos sem férias. Só que Deus, às vezes, troca-nos as voltas, talvez, como diz o ditado, escrevendo direito por linhas tortas.

 

Desta primeira vez chegámos a Portugal em finais dum mês de Julho abrasador do ano de 1965, depois de uma ausência de quase sete anos. Instalámo-nos em casa dos Bisavós, em Portalegre, que assim, pela primeira vez, conheceram os seus dois netos, os vossos Pais, Zé e Quim.

 

 Mas, como eu vinha determinada a ir frequentar um Curso de Férias para melhorar o meu Francês, arranjámos uma ama para os pequenos e, no fim de Agosto partimos, de comboio, para Tours, em França. Ao chegar ao comboio, a primeira coisa que fizemos foi dirigir-nos ao restaurante para nos refrescarmos com um sumo bem fresco. Não nos podíamos aproximar da chaparia, que escaldava. Por isso, qual não foi o nosso espanto quando, no dia seguinte à nossa chegada, o tempo se nos apresentou invernoso, com chuva miudinha e frio de gelar os ossos. Enganados pelo nosso verão, tão calmoso, só tínhamos roupas ligeiras, as mesmas que trouxéramos de Luanda. De tal modo que, ainda antes de nos apresentarmos no Instituto, fomos comprar agasalhos e gabardinas que nos protegessem daquela inclemência do clima da Normandia.

 

À chegada fôramos instalados pelo Instituto numa bela casa apalaçada, propriedade dum médico e sua família, que tinha cedido uma parte das dependências, onde vivia a sogra, para ela aumentar um pouco os seus rendimentos com o aluguer de alguns quartos a estudantes. O nosso era amplo e confortável, mas, quanto a condições higiénicas, em breve verificámos que deixavam muito a desejar: durante todo aquele mês não foi mudada a roupa da cama, nem efectuada qualquer espécie de limpeza, a não ser por mim, com os meios rudimentares de que dispunha. Mas, pior do que isso, esta parte da casa apenas dispunha de W.C. pelo que os banhos tinham de ser tomados num balneário público, aliás impecável, onde nos forneciam, se quiséssemos pagar, variados artigos de higiene e toalhas.

 

 Nessa época, em 1965, ainda se notavam as sequelas da Segunda Guerra Mundial e a França estava bastante atrasada neste aspecto, a ponto de a encarregada do Balneário se ter mostrado muito admirada por eu não tomar banho na mesma água que o Vôvô, o que ficava, claro, por metade do preço. E ainda não estavam em voga as preocupações ecológicas… Conta o Vôvô que, quando ele ainda era solteiro, fez uma excursão de camioneta (era assim que se designavam naquele tempo os auto-carros) a França, com o tio Zeca e um camarada da tropa, em 1955, isto é, dez anos depois de terminada a Segunda Guerra Mundial. Em território francês, a caminho de Paris, nas imediações de Limoges, pararam num local apropriado a que hoje chamaríamos “zona de serviço” e todos se dirigiram ao estabelecimento em busca das instalações sanitárias. O Vôvô ia à frente e ao perguntar ao empregado onde era o WC, indicaram-lhe uma porta ao fundo da sala. Ao abri-la, ficou estupefacto ao dar de caras… com um cavalo. Era uma cavalariça! Pensou que se enganara mas não. Era ali mesmo o lugar que procuravam e do qual todos se serviram. Conta ele também que nessa viagem, ficaram todos muito admirados por, em Paris, se fumar nos cinemas durante as projecções. E não era num cinema qualquer. Os cinzeiros encontravam-se presos nas costas da cadeira da frente e as salas cheias de fumo. Em Portugal, pelo menos naquela altura, tal não era possível. Quando regressaram ao nosso país tiveram a sensação de terem reentrado num país aparentemente mais desenvolvido, uma vez que também a Espanha vivia em apuros, saída ainda há poucos anos de uma terrível Guerra Civil. É verdade que Portugal foi poupado às destruições da II Guerra Mundial, mas também é verdade que a França e a Espanha souberam sarar as feridas e tornarem-se nos grandes países que são hoje. O Vôvô quando se lembra disto, costuma interrogar-se: “como foi possível termo-nos deixado atrasar tanto em relação aos outros países europeus, quando a diferença entre nós e eles não era, naquele tempo, tão grande como hoje é?”. Mas tenhamos esperança nas nossas novas gerações!

 

O Curso correu muito bem, pois os professores eram competentes e dedicados e, à tarde, frequentávamos o laboratório de línguas, instrumento de aprendizagem que eu não conhecia e de que tirei muito proveito. Era, como sempre fui, uma aluna assídua – o que já se não pode dizer do Vôvô, mais propenso a passear do que a assistir às aulas, dum nível elementar e que, talvez por isso, lhe não despertassem tanto interesse. Mas, quando havia excursões, aí sim, lá íamos sempre os dois. Visitámos a justamente famosa Catedral de Chartres e um grande número de Castelos do Vale do Loire: Blois, Chambord, Chenonceau, Amboise etc., sempre acompanhados por professores que nos ajudavam a conhecer e a admirar todos aqueles monumentos.

 

Em Tours, muito havia também a conhecer: a Catedral, a Mairie, uma belíssima estufa de flores, um espantoso cedro gigante e as margens do Loire, onde dávamos grandes passeios a pé ou nos sentávamos, a ler, nos bancos de pedra vendo passar batelões e barcos de recreio.

 

Terminado o Curso, partimos para Paris, cidade que só o Vôvô conhecia. Na ânsia de vermos tudo e aproveitar bem os quinze dias que tínhamos destinado a esta visita, com o menor gasto possível, instalámo-nos num quarto modesto no Quartier Latin e tratámos de comprar bilhetes para espectáculos, o que nos ocupava quase todas a noites e nos deixava ainda mais derreados do que no começo das férias. O Vôvô tinha levado a nossa máquina de filmar, pesadíssima, e às vezes ainda me ajudava a levar a minha mala, pois saíamos do Hotel logo de manhã e, normalmente, só regressávamos perto da meia noite. Além das visitas a monumentos como a Torre Eiffel, igrejas como a Notre-Dame, Saint Denis ou o Sacré Coeur, museus como o Louvre e um passeio no Sena, em bateau mouche, assistimos a espectáculos no Lido, nas Folies Bergères, no Moulin Rouge. Mas não quisemos deixar de aproveitar a variada oferta cultural mais exigente: um ballet na Ópera, a representação duma peça de Shakespeare, do Huis-Clos, de Sartre e ainda a apresentação, pela primeira vez na Europa, no Palácio de Chaillot, duma grande Companhia de Circo chinesa.

No dia 4 de Outubro, quisemos celebrar os quarenta anos do Vôvô em grande estilo, com um almoço na Torre Eiffel. Como, mesmo no restaurante mais acessível (havia um de grande luxo), a despesa já não era muito adequada à nossa bolsa, fomos parar a um pequeno mas simpático restaurante, no Bois de Boulogne, onde nos serviram um magnífico chateaubriand e uma sobremesa deliciosa.

 

De regresso a Lisboa, aproveitámos a passagem do comboio por Bayonne e aí passámos uns dias em casa da Milú, com passeios por aquela encantadora cidade, algumas idas a Biarritz, Saint Jean de Luz e outros locais de interesse, que abundam naquela região dos Pirinéus.

Acompanhavam-nos a Marie e a Jeanne, pouco mais velhas do que os nossos filhos e de quem estávamos mortos de saudades.

 

De regresso a Portalegre, por aí ficámos algum tempo até dispararmos para outras viagens, mas cá dentro, como se diz agora. Delas vos falarei em breve.

 

Beijinhos da Vóvó

 

 

 


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Segunda-feira, 09.06.08

 Meus queridos netos:

 

Tal como vos prometi numa das minhas últimas cartas, (ver: Angola, a debandada) venho hoje contar-vos o que se passou na curta ausência do Vôvô, quando se deslocou a Lisboa, em Abril de 1975, para levantar e pôr a bom recato o nosso Audi e algumas mobílias, sem as quais podíamos continuar a viver em Luanda, como era nossa intenção.


A nossa casa, situada no Bairro Alvalade por ser um bairro agradável e sossegado, tinha agora, instaladas na nossa própria rua, uma no princípio e outra no fim, duas delegações dos movimentos independentistas: a da U.N.I.T.A e, não muito longe, a do M.P.L.A. Com relativa frequência, começaram a trocar tiros que passavam mesmo pela nossa casa, tendo nós ido encontrar uma das balas no quarto do Quim. Que sorte estar o quarto vazio nessa altura!

 

Escusado será dizer que ficámos cheios de medo e passámos a refugiar-nos, com a Luísa, nas escadas interiores, que levavam ao 1º andar, sobretudo mal a noite caía, porque o rés-do-chão da nossa vivenda era quase todo envidraçado, sem a mínima protecção. Eu lá me dirigia todas as manhãs para o Liceu, que não tardou a fechar, bem como as restantes escolas. Mas, enquanto tal não aconteceu, muitas vezes mal metia o carro no jardim, corria para casa, com as balas a assobiarem sobre a minha cabeça. Depois, os vossos Pais deixaram de ter aulas e resolvemos mandar o Zé para Portalegre, para casa dos Bisavós, a fim de frequentar o último período do 5º ano no Liceu daquela cidade, o que fez com muito bom aproveitamento, para grande espanto dos seus colegas – e não sei se também de algum dos professores – convencidos de que no Ultramar tudo era facilitado e de segunda categoria.


O Quim, como sempre tinha estado adiantado relativamente ao seu desenvolvimento intelectual e psicológico, ficou connosco e, embora dadas as circunstâncias, tenha passado para o 5º ano como todos os seus colegas, teve de o repetir, em Lisboa, com grande proveito pois, a partir daí foi sempre muito bom aluno, o que lhe permitiu uma nota excelente para entrar no Instituto Superior Técnico, benesse que ele, infelizmente, não soube depois aproveitar. Mas isso já são outros contos e, por enquanto, estamos os três em Luanda, como dizia, pendentes das notícias do Vôvô, que não eram muito tranquilizantes pois, em Lisboa, vivia-se um conturbado processo revolucionário, com grandes manifestações sobretudo no 1º de Maio, que o Vôvô acompanhou pela televisão, em casa dos pais da Milú, onde fora almoçar e de que nos deu conta.


Ora, no meio de todas estas preocupações, houve um dia em que não resisti aos pedidos insistentes dos vossos Pais, ansiosos por irem ver o filme Lawrence da Arábia, um épico de grande e merecida fama, que passava, à noite, no Cinema Império, relativamente afastado da nossa casa. O grande problema é que havia recolher obrigatório a partir das onze da noite e nada nos garantia que, ao regressarmos a casa, não fôssemos surpreendidos por alguma patrulha ou um bandido qualquer. Íamos a contar com uma boleia de algum dos nossos amigos ou conhecidos, tão numerosos, mas, com grande surpresa nossa, mal o cinema acabou, todos os espectadores se esfumaram sem nós termos tempo de pedir a ajuda com que tínhamos contado. Em face deste contratempo, não tivemos outro remédio senão pôr pés ao caminho e lá viemos os três, por ruas desertas, com o recolher obrigatório já em vigor, cosidos com as paredes, sobretudo ao passarmos diante dum quartel que ficava no caminho para a nossa casa, mas, protegidos pelo nosso Anjo da Guarda, pelo que tudo não passou dum grande susto.


Quando o Vôvô regressou de Lisboa, vinha muito pessimista e, influenciado por um dos seus melhores amigos, decidido a seguir o seu exemplo e requerer a reforma, tanto mais que já tinha quase todo o tempo de serviço exigido. E como, com isto tudo, o meu sistema nervoso estava muito abalado, começou a convencer-me de que também para mim seria esse o melhor caminho a seguir, embora eu tivesse vaga de professora efectiva no Liceu Maria Amália e menos tempo de serviço do que ele, o que se traduziria numa pensão de reforma mais pequena.

 

Não digo que me tenha arrependido, não só porque a vida nas escolas não escapava à turbulência cá de fora, mas também porque passei a ter, em Lisboa, onde nos fixámos, muitos explicandos em casa, mantendo assim o contacto com alunos e arredondando, como dizem os franceses, o meu rendimento mensal. Além disso, essa situação permitiu-me acompanhar os estudos dos vossos Pais até à sua entrada no Ensino Superior e à nossa ida para os Açores, de que já vos falei longamente e que viria a trazer alguns benefícios às nossas reformas.


Por hoje é tudo.

 

Beijinhos muito cheios de ternura da Vóvó.

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Terça-feira, 03.06.08

 

 

Meus queridos netos:


Alguns anos depois do nosso regresso a Luanda, fui oficialmente destacada para ir assistir à inauguração duma Escola Primária na Província de Cabinda, muito perto da fronteira com o Congo ex-belga, integrada no programa «Levar a Escola à Sanzala», ou seja, tornar o ensino, especialmente a aprendizagem da língua portuguesa, acessível a todas as populações, inclusive as mais isoladas, programa que deu bons frutos, como se vê pela correcção com que os angolanos falam hoje o português, escolhida pelos seus governantes como língua oficial.

 

A comitiva, encabeçada pelo Secretário Provincial da Educação, Dr. Pinheiro da Silva, cérebro e impulsionador desta iniciativa, era composta por várias entidades importantes do sector.

 

Deu-se a coincidência de, nesses dias, o Vôvô também ter de se deslocar, ao serviço das Obras Públicas, à cidade de Cabinda para proceder a uma inspecção e, assim, aproveitámos viajar juntos, o que, em tais circunstâncias nunca tinha acontecido. Os vossos Pais, Zé e Quim, ficaram em Luanda aos cuidados da imprescindível Luísa.

 

Fomos todos no mesmo avião e ficámos instalados num bom Hotel, creio que o único da cidade. Depois dum curto descanso, partimos, uns de automóvel outros de jeep, para a dita sanzala, situada em plena floresta virgem do Maiombe, a muitos quilómetros. Era uma grande caravana, pois nela tinha sido integrada uma representação das forças vivas de Cabinda, devidamente escoltada por militares armados do exército português, já que a região não era nada segura.

 

Para abrilhantar a inauguração, o chefe da aldeia, senhor Tati, que o era também dum grupo de paramilitares africanos, maioritariamente composto por dissidentes de um dos Movimentos de Libertação, os chamados TE’s (Tropas Especiais), tinha preparada uma grande recepção, ou antes uma verdadeira festa popular, que durou todo o dia e noite e se prolongou para o dia seguinte. A enorme casa de adobe ficava situada numa elevação de terreno, donde se contemplava um rio, atravessado por uma ponte. Esta, de noite, ficava toda iluminada com luzeiros feitos de cascas de coco cheias de petróleo bruto e com um pavio, que davam à paisagem, engolida pelas trevas nocturnas, um aspecto verdadeiramente fantasmagórico. Sublinhavam-no os ritmos e os cantos dos batuques, a que o povo, acrescido de parentes e amigos vindos do outro lado da fronteira, se entregava freneticamente. Deviam estar ali centenas de pessoas.

 

Havia muita comida: desde os aperitivos e whiskies, às reses assadas inteiras, nos espetos, e, sempre que havia lugar na mesa, travessas enormes de frangos no churrasco. Não faltavam, claro, muitos e variados doces e frutas tropicais.

 

Durante a noite, organizaram um baile muito animado, especialmente pelos militares, que, distraídos da missão que lhes fora atribuída de nos protegerem, não paravam de dançar com as mulheres da terra e de beber e comer. E a protecção que lhes fora ordenado fazer às entidades presentes, entre as quais o Comandante daquela Região Militar? Pura e simplesmente, ou melhor, inacreditavelmente, e para ficarem de mãos livres para a festa, ensarilharam armas ou encostaram-nas a uma parede no exterior e….fé em Deus! De facto, Deus estava do nosso lado, pois não se verificou o mínimo distúrbio, numa zona em que, pouco tempo antes, vários militares portugueses tinham sido apanhados numa emboscada, enquanto se refrescavam numa pequena lagoa, com grande número de baixas.

 

        Mas, afinal, estávamos bem guardados, pois, a dada altura, o Vôvô necessitou de se ausentar dali por breves momentos e, mal deu alguns passos fora do recinto, saltaram-lhe à frente dois TE’s de armas em punho que, depois de o reconhecerem, respeitosamente o deixaram passar.

 

Quando o senhor Tati deu por terminada a festa, já quase de madrugada, levaram-nos para os vários alojamentos dispersos pela zona que cuidadosamente haviam sido preparados para cada grupo de convidados, A mim e ao Vôvô, depois de termos atravessado o rio pela tal ponte iluminada, coube-nos uma casa em plena floresta e ali passámos a noite, em claro, extenuados, a ouvir os ruídos sem fim, próprios da selva e da respectiva bicharada!

 

No dia seguinte foram-nos buscar de regresso ao local da festa, porque esta iria continuar até ao meio da tarde…Só que as nossas perigosas aventuras, do Vôvô e minhas, não iam ficar por aqui. Nós tínhamos ido, como disse, integrados numa coluna militar mas num Volkswagen “carocha” das Obras Públicas, conduzido por um motorista cabinda daqueles serviços. Chegada a hora do regresso, começou a organizar-se, de novo, a coluna; mas o senhor Tati, querendo ser amável para mim, que era a única senhora ida de Luanda, pediu-me que esperasse uns minutos pois queria oferecer-me uma prenda que já pertencera aos seus antepassados. Perante tal gentileza, que remédio senão esperar! Passados muitos minutos, chegou ele com uma pequena cesta de palhinha trançada (com outra mais pequena lá dentro, (estilo matriosca), realmente antiga e muito perfeita, que ainda hoje conservo.

Mas o meu contentamento foi de pouca dura, porque, com aquela demora, a caravana tinha partido sem se dar conta de que nós ficávamos para trás. Entretanto, tínhamos dado boleia a um professor daquela Escola que precisava de se deslocar a Cabinda. Um homem novo e robusto que, depois, muito nos havia de valer. E lá seguimos os quatro através da floresta, sem qualquer protecção. A tarde já ia adiantada e, não tardaria muito, naquela densa floresta só haveria negrume. Foi então que o nosso motorista, um profissional competente e muito desembaraçado, nos disse conhecer um atalho muito usado pelos madeireiros que nos permitiria ir encontrar, mais à frente, a coluna militar. Aceitámos a sugestão mas, naquela estrada de terra batida e muito gasta pela circulação dos carros pesados dos madeireiros, vencida uma lomba, entrámos num leito de areia, onde o nosso carro ficou assustadoramente enterrado. O Vôvô e os nossos dois acompanhantes trataram logo de ir cortar bissapas (ramos com muitas folhas), enquanto eu me entrincheirava no carro, com as portas bem fechadas, para fugir à fúria de milhares de mosquitos, atraídos pelas luzes dos faróis. O motorista carregava insistentemente no acelerador do carro e o Vôvô e o tal professor matulão bem empurravam a viatura, mas nada. Parecia que esta se enterrava cada vez mais.

 

Iríamos nós ficar ali toda a noite naquele desvio pouco frequentado, no meio de uma das florestas mais densas de África, muito perto da fronteira da actual República Democrática do Congo, possivelmente expostos a mil e um perigos?

 

A dada altura, pareceu ao Vôvô que o motorista, mais habituado a lidar com grandes carros pesados, não estava à altura do pequeno carocha e tomou o lugar dele. Agora, o Vôvô ao volante, carregando furiosamente no acelerador, os dois fortes angolanos atrás a empurrar, as bissapas postas por baixo das rodas a ajudar e, diga-se a verdade, também a prática que o Vôvô tinha de, durante anos e anos, guiar o nosso carocha, lá conseguiram desenterrar o Volkswagen e retomar, com compreensível alívio de todos, a nossa viagem de regresso. Escusado será dizer que da coluna militar não vimos nem sequer o rasto e, quando chegámos à cidade de Cabinda, sãos e salvos mas extenuados e cobertos de pó, alguém, muito admirado com a nossa aventura, da qual ninguém se tinha dado conta, nos informou:

 

- Mas olhem que agora têm de se ir arranjar para o banquete, pois já está quase na hora.

 

Com mais vontade de, tomado um duche refrescante, nos deitarmos a descansar, lá tivemos de comparecer na festa, pensando, como num pesadelo, que iríamos assistir à continuação da comezaina, agora com lagosta e outras requintadas iguarias, que não conseguiam exercer sobre nós qualquer espécie de tentação.

 

. Foi ou não foi uma arriscada aventura que, graças a Deus, correu bem?

Beijinhos da Vóvó, com a promessa de contar novas “façanhas”..

 

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