Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 14.06.08


Como a vida não é só trabalho, vou agora falar-vos dos três períodos de férias que passámos na Metrópole, como então nos referíamos a Portugal, durante a nossa longa estadia em Angola. A intenção era descansar de tantos anos sem férias. Só que Deus, às vezes, troca-nos as voltas, talvez, como diz o ditado, escrevendo direito por linhas tortas.

 

Desta primeira vez chegámos a Portugal em finais dum mês de Julho abrasador do ano de 1965, depois de uma ausência de quase sete anos. Instalámo-nos em casa dos Bisavós, em Portalegre, que assim, pela primeira vez, conheceram os seus dois netos, os vossos Pais, Zé e Quim.

 

 Mas, como eu vinha determinada a ir frequentar um Curso de Férias para melhorar o meu Francês, arranjámos uma ama para os pequenos e, no fim de Agosto partimos, de comboio, para Tours, em França. Ao chegar ao comboio, a primeira coisa que fizemos foi dirigir-nos ao restaurante para nos refrescarmos com um sumo bem fresco. Não nos podíamos aproximar da chaparia, que escaldava. Por isso, qual não foi o nosso espanto quando, no dia seguinte à nossa chegada, o tempo se nos apresentou invernoso, com chuva miudinha e frio de gelar os ossos. Enganados pelo nosso verão, tão calmoso, só tínhamos roupas ligeiras, as mesmas que trouxéramos de Luanda. De tal modo que, ainda antes de nos apresentarmos no Instituto, fomos comprar agasalhos e gabardinas que nos protegessem daquela inclemência do clima da Normandia.

 

À chegada fôramos instalados pelo Instituto numa bela casa apalaçada, propriedade dum médico e sua família, que tinha cedido uma parte das dependências, onde vivia a sogra, para ela aumentar um pouco os seus rendimentos com o aluguer de alguns quartos a estudantes. O nosso era amplo e confortável, mas, quanto a condições higiénicas, em breve verificámos que deixavam muito a desejar: durante todo aquele mês não foi mudada a roupa da cama, nem efectuada qualquer espécie de limpeza, a não ser por mim, com os meios rudimentares de que dispunha. Mas, pior do que isso, esta parte da casa apenas dispunha de W.C. pelo que os banhos tinham de ser tomados num balneário público, aliás impecável, onde nos forneciam, se quiséssemos pagar, variados artigos de higiene e toalhas.

 

 Nessa época, em 1965, ainda se notavam as sequelas da Segunda Guerra Mundial e a França estava bastante atrasada neste aspecto, a ponto de a encarregada do Balneário se ter mostrado muito admirada por eu não tomar banho na mesma água que o Vôvô, o que ficava, claro, por metade do preço. E ainda não estavam em voga as preocupações ecológicas… Conta o Vôvô que, quando ele ainda era solteiro, fez uma excursão de camioneta (era assim que se designavam naquele tempo os auto-carros) a França, com o tio Zeca e um camarada da tropa, em 1955, isto é, dez anos depois de terminada a Segunda Guerra Mundial. Em território francês, a caminho de Paris, nas imediações de Limoges, pararam num local apropriado a que hoje chamaríamos “zona de serviço” e todos se dirigiram ao estabelecimento em busca das instalações sanitárias. O Vôvô ia à frente e ao perguntar ao empregado onde era o WC, indicaram-lhe uma porta ao fundo da sala. Ao abri-la, ficou estupefacto ao dar de caras… com um cavalo. Era uma cavalariça! Pensou que se enganara mas não. Era ali mesmo o lugar que procuravam e do qual todos se serviram. Conta ele também que nessa viagem, ficaram todos muito admirados por, em Paris, se fumar nos cinemas durante as projecções. E não era num cinema qualquer. Os cinzeiros encontravam-se presos nas costas da cadeira da frente e as salas cheias de fumo. Em Portugal, pelo menos naquela altura, tal não era possível. Quando regressaram ao nosso país tiveram a sensação de terem reentrado num país aparentemente mais desenvolvido, uma vez que também a Espanha vivia em apuros, saída ainda há poucos anos de uma terrível Guerra Civil. É verdade que Portugal foi poupado às destruições da II Guerra Mundial, mas também é verdade que a França e a Espanha souberam sarar as feridas e tornarem-se nos grandes países que são hoje. O Vôvô quando se lembra disto, costuma interrogar-se: “como foi possível termo-nos deixado atrasar tanto em relação aos outros países europeus, quando a diferença entre nós e eles não era, naquele tempo, tão grande como hoje é?”. Mas tenhamos esperança nas nossas novas gerações!

 

O Curso correu muito bem, pois os professores eram competentes e dedicados e, à tarde, frequentávamos o laboratório de línguas, instrumento de aprendizagem que eu não conhecia e de que tirei muito proveito. Era, como sempre fui, uma aluna assídua – o que já se não pode dizer do Vôvô, mais propenso a passear do que a assistir às aulas, dum nível elementar e que, talvez por isso, lhe não despertassem tanto interesse. Mas, quando havia excursões, aí sim, lá íamos sempre os dois. Visitámos a justamente famosa Catedral de Chartres e um grande número de Castelos do Vale do Loire: Blois, Chambord, Chenonceau, Amboise etc., sempre acompanhados por professores que nos ajudavam a conhecer e a admirar todos aqueles monumentos.

 

Em Tours, muito havia também a conhecer: a Catedral, a Mairie, uma belíssima estufa de flores, um espantoso cedro gigante e as margens do Loire, onde dávamos grandes passeios a pé ou nos sentávamos, a ler, nos bancos de pedra vendo passar batelões e barcos de recreio.

 

Terminado o Curso, partimos para Paris, cidade que só o Vôvô conhecia. Na ânsia de vermos tudo e aproveitar bem os quinze dias que tínhamos destinado a esta visita, com o menor gasto possível, instalámo-nos num quarto modesto no Quartier Latin e tratámos de comprar bilhetes para espectáculos, o que nos ocupava quase todas a noites e nos deixava ainda mais derreados do que no começo das férias. O Vôvô tinha levado a nossa máquina de filmar, pesadíssima, e às vezes ainda me ajudava a levar a minha mala, pois saíamos do Hotel logo de manhã e, normalmente, só regressávamos perto da meia noite. Além das visitas a monumentos como a Torre Eiffel, igrejas como a Notre-Dame, Saint Denis ou o Sacré Coeur, museus como o Louvre e um passeio no Sena, em bateau mouche, assistimos a espectáculos no Lido, nas Folies Bergères, no Moulin Rouge. Mas não quisemos deixar de aproveitar a variada oferta cultural mais exigente: um ballet na Ópera, a representação duma peça de Shakespeare, do Huis-Clos, de Sartre e ainda a apresentação, pela primeira vez na Europa, no Palácio de Chaillot, duma grande Companhia de Circo chinesa.

No dia 4 de Outubro, quisemos celebrar os quarenta anos do Vôvô em grande estilo, com um almoço na Torre Eiffel. Como, mesmo no restaurante mais acessível (havia um de grande luxo), a despesa já não era muito adequada à nossa bolsa, fomos parar a um pequeno mas simpático restaurante, no Bois de Boulogne, onde nos serviram um magnífico chateaubriand e uma sobremesa deliciosa.

 

De regresso a Lisboa, aproveitámos a passagem do comboio por Bayonne e aí passámos uns dias em casa da Milú, com passeios por aquela encantadora cidade, algumas idas a Biarritz, Saint Jean de Luz e outros locais de interesse, que abundam naquela região dos Pirinéus.

Acompanhavam-nos a Marie e a Jeanne, pouco mais velhas do que os nossos filhos e de quem estávamos mortos de saudades.

 

De regresso a Portalegre, por aí ficámos algum tempo até dispararmos para outras viagens, mas cá dentro, como se diz agora. Delas vos falarei em breve.

 

Beijinhos da Vóvó

 

 

 


publicado por clay às 19:19 | link do post | comentar | favorito
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