Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 25.08.08


Meus queridos netos:

Durante a visita dum dia a Évora, nem o forte calor nos afastou das magníficas ruínas do Templo de Diana e, após um regalado almoço nas arcadas da Praça do Giraldo, dirigimo-nos à antiga Igreja de S. Francisco, que muito nos impressionou, sobretudo a célebre e macabra capela dos ossos.


Poucos dias depois, organizámos um passeio de dia inteiro por Espanha, com os Bisavós. Como de costume, o primeiro a ficar pronto para a partida foi o Bisavô, que, de chapéu na mão, esperava impacientemente a partida. Entrámos em Espanha por Badajoz e, a meio do caminho de Cáceres, já todos só desejávamos o momento de saborear o suculento e delicioso farnel que a Bisavó se tinha esmerado a preparar. A estrada, ao contrário do que acontecia em Portugal, não tinha árvore nem fonte que nos acolhesse mas, apesar do calor e do vento que se fazia sentir, foi uma agradável paragem e um bom augúrio para o resto do passeio.


De facto gostámos muito da cidade, com a sua praça principal rodeada por edifícios monumentais e antigas igrejas. Visitámos o Museu Arqueológico, onde os rapazes, talvez pouco motivados para aquelas relíquias pré-históricas, se quiseram fotografar montados em dois dos toscos animais de pedra que ocupavam o centro duma sala.

       

Tomámos um refresco e seguimos para Mérida, cidade que eles acharam bem mais interessante devido às imponentes ruínas do Teatro Romano, onde ainda hoje se apresentam magníficos espectáculos e onde puderam ver a estrutura dum teatro clássico, pois ainda eram bem nítidas as diferentes partes que o constituíam: o edifício monumental, com dois pisos assentes em colunatas e que era reservado aos actores (palco, camarins) e o imenso anfiteatro, destinado ao público, cujos lugares estavam estritamente destinados, conforme a sua categoria social e também a sua idade. Também puderam ver como, dada a distância a que ficavam os espectadores em relação ao palco, onde decorria a acção, estes anfiteatros tinham de ser dotados duma excelente acústica que era ajudada pelo uso de máscaras de madeira, com os grossos lábios em forma de funil, para amplificar o som.


Regressámos por Valência de Alcântara e todos nos sentimos felizes com este dia tão bem passado.


Os restantes, que faltavam, foram preenchidos com os preparativos para o regresso a Angola e as despedidas: à família da Broa e à do Tio Zeca. E não faltou um agradável almoço com os Bisavós num restaurante da Portagem, à beira do rio Sever, onde havia, além de muito boas sombras, uma piscina natural que fazia as delícias dos nossos filhos e onde tínhamos ido várias vezes.

        

  Com os Bisavós (Inês e José), na "Portagem", junto ao Rio Sevér


Deixámos os Bisavós com muitas saudades e regressámos à Casa de Santa Zita, em Lisboa. Enquanto aguardávamos o embarque, fomos a Fátima, aproveitando para visitar as Grutas de Santo António, ainda em estado tosco mas já de grande imponência como fenómenos da Natureza.


Visitámos o Palácio de Queluz, com os seus luxuosos aposentos, dominados pelo fausto da Sala do Trono e os seus jardins clássicos, tudo de influência francesa.


Terminámos o nosso vasto roteiro cultural com uma ida ao Convento de Mafra, esmagador nas suas dimensões e na riqueza da sua Biblioteca. Ao sair, ouvimos o Vôvô contar, mais uma vez, as aventuras e desventuras do seu serviço militar, numa parte daquele edifício destinada a esse fim e onde, apesar de cadete e futuro alferes miliciano, não escapou às investidas dos milhares de percevejos que, nessa época eram uma autêntica praga e infestavam as camaratas.

 


  Queridos netos: Os vossos Pais, numa visita à familia de Távora (1971)

 

Depois, foi a partida, no “Infante D. Henrique” Ao deixarmos ficar para trás o Monumento das Descobertas e, mais tarde, a Serra de Sintra, acudiram-me à memória aqueles tão sentidos versos de Camões: «Já a vista, pouco e pouco se desterra daqueles pátrios montes que ficavam…». Mas a verdade é que as saudades de Angola também já eram muitas e foi com grande alvoroço que desembarcámos em Luanda, depois duma confortável e animada viagem de regresso.

        

        


Como vêem, ainda tenho muito para contar. E tenciono continuar estas cartas, na esperança de que, um dia em que já o não possa fazer de viva voz, os nossos netos, ainda que, de quando em quando, saltem algumas partes mais maçadoras, recordem os seus Vóvós e se distraiam com as suas andanças.


Para já, muitos beijinhos da Vóvó

publicado por clay às 10:38 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Agosto 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
26
28
29
30
31
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds