Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 17.09.08

 

Ficou – minha memória da cidade,
o tempo – há que tempos?
em que descia o Chiado
de volta da Faculdade.

 

Não vinha só. Nesse tempo
as pessoas conversavam,
não corriam, passeavam
com colegas, com amigos.
Havia tempo – há que tempos!

 

Sorríamos aos pombos no Camões,
espreitávamos luxos nas vitrinas
das lojas requintadas, que nos eram
o posterior ecrã televisivo,
só mais inacessíveis e mais finas.

 

As livrarias que nos fascinavam
a Bertrand, Sá da Costa, Portugal
colavam-nos às montras
ou, então, era o nosso passeio cultural
entrar e folhear as novidades
e muito amável, sempre, o pessoal
apontava doutores,
celebridades,
que às vezes eram nossos professores.

 

Faiscavam cristais, ouros e pratas,
maravilhosos raios de beleza:
inacessíveis e desnecessários
à nossa singeleza.

 

Olhávamos também os grandes armazéns:
O Grandela, o Chiado, onde todos os sonhos
se podiam tornar realidade,
até porque esses sonhos eram só os possíveis.
Não se comprava a crédito.
Só de acordo com as economias disponíveis.

 

Entrávamos, por vezes, no Café Chiado,
que já desapareceu,
- quase só os rapazes –
e lá íamos, felizes e a pé
ver, no Rossio, os lagos e as floristas
e, subindo a Avenida, parando aqui, ali,
o culminar perfeito desse dia,
a matiné clássica das terças
no cinema de culto: o Tivoli.

 

 

                                      *


É a minha memória da cidade
desse tempo – há que tempos: reactiva,
nítida e mágica, nostálgica, feliz,
uma realidade que passou,
que o incêndio e o tempo devorou
mas que em meu coração é sempre viva.

 

                      Clementina Relvas
(Agosto de 2008, 20 anos após o incêndio do Chiado)

 

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Segunda-feira, 15.09.08


Meus queridos netos:

 

Mais uma vez as acácias floriram, numa embriaguez de rubro, para nos darem as boas vindas e transformarem em doce lembrança os mágicos meses passados em Portugal.

 

 Mais uma vez o alvoroço de preparar o regresso ao trabalho – se é que se pode chamar trabalho a bênção que nos foi dada e negada a tanta gente, de aprendermos a ler e a interpretar os livros e, através deles, o mundo à nossa volta. Mais uma vez Luanda, a cidade do nosso coração, e a vida a decorrer ainda, apesar de tudo, sem sobressaltos de maior.

 

Convidada para Metodóloga, tive que deixar a disciplina de Português, minha preferida, para a minha amiga Ana Maria, e aceitar o Francês, em que ela não se sentia tão à vontade como eu. Deixei também as minhas funções na Mocidade Portuguesa, que representavam um enorme acréscimo de trabalho e que nunca mais retomei, apesar de o meu lugar ter ficado sempre disponível, à minha espera. E, só com a intervenção do Vôvô, me dispensaram do cargo de vice-reitora do Liceu, agora com mais de dois mil alunos, distribuídos por três turnos de manhã, à tarde e à noite. Esse lugar foi brilhantemente desempenhado pela minha colega Estefânia e mais algumas havia capazes de levar a bom termo tal missão.

 

Começámos, pois, as actividades do estágio, com um grupo de professores muito empenhados e que se haviam de revelar óptimos profissionais, já na Metrópole, para onde concorreram e onde foram colocados após os acontecimentos do 25 de Abril. Para mim (e para eles) foi um ano de intensíssimo trabalho, já que todos tínhamos o gosto de actualizar e adquirir conhecimentos e o sonho de fazer da nossa Escola um lugar onde, além de se ensinar e aprender, todos, professores e alunos, fôssemos participantes, cooperantes e felizes. Pela minha parte, comecei a utilizar os novos meios audio-visuais que então começavam a estar disponíveis, especialmente o projector de slides e o gravador.

 

Que longe estávamos do computador, da Internet e do Magalhães! Mas houve turmas em que conseguimos «editar» jornais de parede, ou mesmo pequenos jornais policopiados em que participavam alunos de todas as disciplinas e que eles próprios se empenhavam em ilustrar.

 

Da turma do 3º ano A, um pouco contra a minha vontade, pois, embora ele fosse bom aluno, eu não queria a responsabilidade da sua avaliação, fazia parte o Zé António. Portou-se sempre muito bem e as notas eram-lhe sempre atribuídas, como aliás aos restantes alunos, pelo grupo de estagiários que o defendiam, com unhas e dentes, do que eles diziam serem os meus escrúpulos de Mãe. Correu tudo bem até ao fim, sem atingirmos, é claro, todas as metas com que tínhamos sonhado, mas fazendo, apesar de tudo assim, um trabalho que ainda hoje tenho por muito positivo.

 

Mesmo ao lado do Liceu Salvador Correia, funcionava a Escola Preparatória D. João II, que o Quim começou então a frequentar com resultados satisfatórios, mas sempre acompanhado por mim nas Letras e pelo Vôvô na Matemática.

 

Quando chegou o fim do ano lectivo, fui convocada para integrar um júri de exames de âmbito nacional, para irmos a Moçambique fazer a avaliação das estagiárias do Liceu Salazar, onde se concentrava um grupo de professores já com muita experiência. Esse trabalho, além de me dar a oportunidade de visitar Lourenço Marques (agora Maputo), foi também a ocasião de conhecer, pela primeira vez, o meu Tio Ernestino, irmão do meu Pai, de há longos anos estabelecido naquela província ultramarina e, que, por nunca lhe terem dado a pensão de reforma a que tinha direito há muito tempo, continuava ao serviço dos Caminhos de Ferro, agora sentado num banquinho a dobrar jornais, dizendo a quem o queria ouvir, de cada vez que recebia o seu ordenado: «Quem me comeu a carne, que me roa os ossos». Vivia ele com a sua esposa numa quintinha na Matola, onde eram muito estimados porque, como nunca tinham tido filhos, tinham criado um bom número de crianças que, agora adultas, os estimavam como pais.

 

Uma das estagiárias era a minha amiga Mami, que fizera comigo o curso de Românicas e me tivera sempre a par da sua vida (casamento, dois filhos então já na Suíça) e que, na altura da descolonização veio leccionar para Cantanhede e, mais tarde para Tomar, onde a visitei na aldeia próxima em que tinha uma bonita casa, poucos meses antes da sua morte prematura.

 

De Lourenço Marques, ficou-me a imagem do luxuoso Hotel Polana, onde ficámos hospedados, muito frequentado por sul-africanos e onde era nítida, ao contrário do que se passava em Angola, uma grande descriminação racial, sobretudo em relação ao pessoal, tratado com bastante sobranceria. Também me lembro do Mercado, onde vendedores predominantemente de origem indiana e pejorativamente chamados «monhés», vendiam toda a espécie de especiarias, entre elas um caril delicioso. Toda a sua área era um delírio de cores e de cheiros que me fizeram esquecer as outras bancas, provavelmente semelhantes às dos mercados de Luanda. Recordo, sim, a silhueta da moderna Sé Catedral e também os deliciosos scones que as senhoras da Cruz Vermelha serviam, para fins beneficentes, com os seus chazinhos e outras iguarias, numa tenda erguida na Avenida Marginal, com vista para um mar azul que parecia não ter fim.

 

Mas a cereja no topo do bolo foi o passeio que nos ofereceram, até ao rio Limpopo onde, além do memorial em honra de Mouzinho de Albuquerque, vi, pela primeira vez, uma enorme manada de hipopótamos refastelados na lama das margens ou nadando, regalados, com os seus corpos disformes, alheios a tudo o que não fosse buscar refrigério para o calor sufocante.

 

No ano seguinte, voltei a Moçambique, mas agora com o Vôvô. Do que foi essa viagem, falarei na próxima carta.

 

Beijinhos e beijocas da Vóvó.


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Quarta-feira, 10.09.08

 Queridos netinhos:


No final da carta anterior, a narração da minha aventura no Rio Zaire ficou num ponto em que, em plena escuridão, algures no rio, o nosso barquito, encalhado num banco de areia e no meio de sons estranhos, sofreu um “encontrão” não se sabe de quem, mas que me deixou bastante assustado.


Lembrei-me de repente que trazia na minha mochila um potente foco eléctrico de três pilhas. Nervoso, apontei-o na direcção do leito do rio e nem queria acreditar no que estava a ver: dezenas de luzinhas brilhantes à tona da água, umas perto, outras mais distantes. Depois apontei para os lados da margem, o espectáculo era semelhante. Como que impelidos por uma mola, os barulhos cessavam quando acendia o foco para logo se ouvirem, ainda mais fortes e furiosos, mal o apagava. E voltei a sentir, e desta vez não havia engano, uma forte pancada no casco do gasolina, como se tivéssemos sido abalroados por qualquer coisa.

 

Fiz todos os possíveis para manter a calma. Mas não, não podia continuar naquela situação sem saber o que estava a acontecer e que seres misteriosos eram aqueles que nos rodeavam no escuro.


Varri o barco com a luz forte da lanterna de pilhas. Com certa dificuldade acabei por distinguir os vultos dos três tripulantes, imóveis e totalmente envoltos em mantas, confundidos com as sacas de fuba. Um deles era, sem dúvida, o Camba que dormia profundamente, como os outros dois. Como não acudisse aos meus chamamentos, desloquei-me até ele com todo o cuidado, sobre carga tão irregular, puxei-lhe a manta por onde calculei ser a cabeça dele e apontei-lhe em plena cara o forte foco gritando energicamente: “Camba, acorda!”. O homem, o tranquilo Camba, sentou-se e mostrou-me, desta vez, uma cara apavorada ao mesmo tempo que lançava um grito de terror, como se tivesse visto o mafarrico. Disse-lhe, “desculpa ó Camba, sou eu que precisa falar imediatamente com você”. “Mam’é, é o Sr. Comandante, desculpa senhor” replicou já mais sossegado. Neste momento senti uma certa vergonha por estar a ser tratado por comandante, mas não lhe disse nada.


Então tivemos a explicação do mistério: Tratava-se de uma manada inofensiva de hipopótamos, mergulhando e resfolegando nas águas. As luzinhas eram os seus olhos reflectindo no escuro o forte foco da minha lanterna! Quanto às luzinhas da margem, o caso era mais sério. Tratava-se do mesmo fenómeno, mas com jacarés, abundantes naquela zona. Eram os tais “olhares vítrios” de que Ferreira da Costa falava no seu livro! A pancada que sofremos no nosso barco seria possivelmente obra de um jacaré, mas não havia problema porque não têm força suficiente para virar um barco ou saltar para dentro dele. Isto dizia o Camba, claro! Para ele não havia problemas. Mas nunca fiando!


Esclarecido o fenómeno, Camba voltou a enrolar-se na manta e estendeu-se sobre a sacaria de fuba como se de um confortável colchão de penas se tratasse. Quanto aos outros seus dois companheiros, creio que nem sequer chegaram a sair do seu pesado sono. A mim e ao pobre do Neves, agora um pouco menos assustado, não nos restava outra solução, pois o cansaço apertava.

 

Desfrutei durante alguns instantes o magnífico espectáculo que o céu me oferecia. Miríades de estrelas, umas de maneira mais intensa do que outras, cintilavam sem parar. Lá estava o Cruzeiro do Sul que não é visível no hemisfério norte e que está representado nas bandeiras de alguns países, entre os quais o Brasil e a Austrália. De facto o espectáculo era magnífico e então…adormeci.


Acordo com a boca muito seca e com um raio de sol a bater-me na cara. Com uma sede imensa, mas a água do meu cantil há muito se tinha esgotado. Os três angolanos da tripulação tinham-se precavido na véspera, quando a maré ia vazia e a água ainda era doce, enchendo uma cabaça com água do rio que eles bebiam sem qualquer receio. Nem eu, nem o Neves, nos atrevemos a tal, preferindo sofrer, na esperança de chegarmos ao destino e lá haver água de maior confiança.


Agora o que me interessava era a luz do dia e luz é vida! É o dia seguinte! É ainda cedo porque, naquelas paragens, os dias, como as noites, surgem rapidamente. Dou conta do lugar onde estava porque, quase à minha frente, vejo o Camba de pé, já cachimbando, fazer-me uma vénia sorridente mas respeitosa. Ergo-me a custo pois o colchão onde estivera estendido cerca de quatro horas era dos durões!


O homem da máquina esforça-se para pôr motor a trabalhar. O barco começara a dar sinais de balanço. O Neves continua a dormir. A corrente do rio, ao largo, invertera de sentido. Eureka! a maré está a subir!. O outro homem da tripulação puxa para cima a corda que sustém a pequena âncora. Tudo indica que vamos sair dali. O Neves acorda e grita de alegria “o barco já balança, o barco balança”.


Mas o motorista não consegue acordar o motor. Pela primeira vez vejo o Camba interessar-se com o que se passa debaixo do toldo da máquina. Estão a falar em Kimbundo. Não entendo o que dizem. O barco agora flutua mesmo e começa a movimentar-se ligeiramente para montante, certamente empurrado pela corrente, agora a nosso favor. Os mosquitos desapareceram. Atiro para o lado a manta que ainda me cobria os ombros porque está a ficar calor. Os minutos parecem agora mais longos; quem me dera voltar a ouvir já o antipático ruído do motor! Mas nada!


Camba, “o que se passa?”. “Nada senhor, só que motor não pega, bateria está a ficar fraca e agora vamos abrir depósito para ver se é falta de gasolina, mas tampão não quer abrir”.


Ora esta! Será possível que a minha aventura tenha de continuar no próximo capítulo, como agora se diz nas telenovelas? Nisto, o pobre do Neves, que até aí não fazia mais nada do que lamuriar-se, arranca veloz aos tropeções sobre a carga e de dedo em riste, atira-se sobre a máquina. Ainda pensei que, em fúria desesperada, ele iria atirar-se às águas infestadas de jacarés... Mas não, inesperadamente, o motor dá sinal de si e, depois de largar dois fortes estampidos, começa finalmente a roncar. O "acto" do bom do Neves é festejado, como se tivesse sido ele o grande salvador.  A alegria e o alívio são gerais. Agora toca a seguir para a Pedra do Feitiço sem mais demoras. E lá seguimos rio acima, com a subida da maré a ajudar, sem mais contratempos.


Passadas umas três horas lá estava a Pedra, como abreviadamente os locais se lhe referem. Um morro rochoso debruçado sobre o rio e nele, lá no alto, um mastro onde tremulava a bandeira das quinas e a casa do Chefe do Posto onde eu haveria de residir cerca de dois anos. Em baixo, em terreno raso, quase despido de vegetação, cinco casas de telhado de zinco, uma delas certamente a loja do Sr. Francisco. Em redor dezenas de cubatas e nada mais.


Ali estava ela, a Pedra, à minha frente. O que iria ser a minha vida ali, só, isolado de tudo. Nem linha telefónica havia. Electricidade e água canalizada, nem pensar. O que iria ali fazer? Qual a minha missão? Seria dura certamente: uma vida inumana, me parece hoje que a idade já me pesa, mas que naquele tempo me parecia absolutamente natural, tão natural que até me dava gozo!!!

 

Beijinhos do Vôvô. Talvez um dia me disponha a contar-vos o que foi a minha permanência naquele rochedo, que Ferreira da Costa tão mal tratou. A título de curiosidade, por agora, apenas direi que a minha estreia foi assistir, como autoridade, logo no dia seguinte, a uma autópsia de uma vítima de acidente de caça... Mas tinha eu apenas 28 anos de idade e está tudo dito!


Mais beijinhos do Vôvô.

                                     

    A Bandeira das quinas  hasteada permanentemente num dos altos da Pedra do Feitiço. Sempre que um barco estrangeiro a saudava com
três sinais sonoros, logo um cipaio corria, a corresponder ao cumprimento, baixando-a e içando-a também três vezes.
 
                
  Do alto da Pedra, da casa do Chefe do Posto,vista sobre o Rio Zaire
 
                                         F I M

 

publicado por clay às 16:24 | link do post | comentar | favorito
Domingo, 07.09.08

 

Meus queridos Netos:


Na minha última carta relatava-vos como tinha sido a minha estreia, na  antiga colónia de Angola. Como então vos contei, ia eu a caminho de uma localidade chamada Pedra do Feitiço, de muito má fama, segundo um livro do escritor Ferreira da Costa com aquele título, subindo o gigantesco Rio Zaire, numa pequena embarcação super carregada de mercadorias destinadas a um tal senhor Francisco que tinha uma loja lá.

 

Então, eu e o Neves procuramos no barquinho um assento, um saco de fuba para cada um. À frente, acocorado, ia um dos tripulantes. Junto à máquina, por baixo do toldo, o segundo tripulante. De pé, equilibrando-se em cima de um tambor de 200 litros, o nosso “Imediato”, fumando uma grande cachimbada!

 

Alfredo Camba, era o nome dele. Camba em Kimbudu quer dizer amigo. Veio de Luanda trabalhar para a região dos Mussurongos, teve várias ocupações, vários patrões, até que se dedicou à navegação do rio, há mais de vinte anos, pelo que poucos conheciam os segredos do Grande Rio como ele. Segredos esses que eram muitos, como vim depois a descobrir…

 

Começámos a subi-lo quase sempre à vista da margem angolana, onde as águas pareciam mais serenas, ao contrário do que víamos acontecer ao largo, onde elas corriam em forte torrente rumo ao mar. De tempos a tempos Camba, do alto do seu pedestal, deixava escapar uma ordem, que mais parecia um ininteligível grunhido, prontamente acatada pelo encoberto homem da máquina que também era o homem do leme. E era assim que o barco mudava de direcção, ora para a esquerda, distanciando-se da margem, ora para a direita, aproximando-se dela, mas sempre em direcção a montante. E o homem do leme, na posição em que se encontrava, nada podia ver, julgo eu, guiando-se apenas pelos urros do Camba que não deviam ser assim tão ininteligíveis como eu supunha.

 

A margem angolana do Zaire, junto à sua desembocadura, foi para mim um dos espectáculos da Natureza mais estupendos, belos e até misteriosos que eu vi.  Era uma mancha verde, imponente, de mangues, formando mangais cerrados. De tantos em tantos metros, abria-se entre o mangal um canal profundo e escuro em direcção à terra firme, às vezes ainda distante. Como mais tarde viria a verificar, numa aventurosa viagem de piroga que fiz, esses canais juntavam-se  a outros no interior do mangal, formando verdadeiros labirintos, que os habitantes das margens percorriam em pirogas, e só eles, porque quem os não conhecesse bem dificilmente conseguiria sair do labirinto, onde só se vislumbrava, em cima, o céu, e dos lados, verdura sem fim. E havia ainda a bicharada que a povoava, desde jacarés, cobras, aranhas venenosas, peixes variados e até aves de rapina. O mangue é um grande arbusto aquático, formando extensos mangais. É um ecossistema costeiro, de transição entre os ambientes terrestres e marinho, característico de regiões tropicais e subtropicais, com uma vantagem ecológica: ajudam a purificar as águas.

 

E, serpenteando, conforme as conveniências da rota escolhida pelo Camba, lá continuávamos a subir o rio. Mas agora com mais dificuldade, exigindo maior esforço ao fraco motor da embarcação. A corrente, à medida que avançávamos, tornava-se mais forte, de tal maneira que o barco por vezes parecia não sair do mesmo local. Era o efeito da maré-baixa. Esta, embora estivéssemos já a alguns quilómetros do oceano, fazia-se sentir, deixando caminho livre à forte expansão das águas do imenso rio, rumo ao mar. E de tal forma era a sua força, que elas iriam avançar pelo mar dentro várias milhas, facto denunciado pela cor barrenta da água, aos que nela navegassem ao largo da costa.


Mas Camba e seus ajudantes mantinham-se calmos, como se tudo estivesse a correr na maior das normalidades. Eu e o Neves assistíamos a tudo com a máxima confiança na experiente tripulação, apenas nos queixando das nossas posições incómodas, sentados há várias horas nas rijas sacas de fuba. Nem espaço havia para podermos, em breves momentos, desentorpecer as pernas. Mas que importava isso, se ambos éramos muito jovens e sedentos de boas aventuras?!


A dada altura, vimos a montante, uma imenso vulto avançar em nossa direcção. O que seria? Passado um bocado vimos que era um enorme navio, potente e muito rápido, que, ajudado pela forte correnteza, passou por nós a menos de cem metros, a toda a velocidade, mas a tempo de vermos que era um lindo paquete de passageiros, de cor cinzenta, com lindas moças na amurada contemplando os mangais. E havia festa a bordo, pois deu-nos tempo de ouvir uma banda de música e gritos de alegria. Era um navio belga que vinha de Matadi, um porto importante do Rio Zaire muito mais acima, a caminho da Bélgica, com funcionários e suas famílias que tinham terminado as suas comissões de serviço no Congo Belga. Daí a festa e a alegria que ia a bordo e que, naquele momento, muito invejámos!


Mas o nosso cruzamento com o paquete estava agora a criar-nos fortes problemas. O enorme navio belga agitou as águas do rio, e depressa chegaram até nós muitas ondas que faziam com que o nosso gasolina parecesse uma casca de noz balouçando perigosamente com a sua carga mal amanhada. Um dos tambores de 200 litros rolou e como estava vazio, desapareceu pelo rio abaixo como uma bóia. Alguns sacos de fuba mudaram de posição o que não foi nada bom para os nossos glúteos, já bastante massacrados! Mas os três homens da tripulação continuaram serenos o que nos serenou também.


O mangal começou a ficar para trás. Agora as margens eram planas, com vegetação rasteira prolongando-se até ao horizonte, sem vestígios de presença humana mas, de quando em vez, víamos alguns veados e até uma pacassa (espécie de boi selvagem) pastando tranquilamente. A outra margem, a do Congo Belga, começava agora a ficar mais visível, pois o rio, à medida que nos afastávamos da sua foz, ia ficando mais estreito e com mais forte corrente. O nosso barquito lutava cada vez com maior dificuldade. Então Camba disse-me que não era só pela força da corrente que tal sucedia, mas pela carga excessiva que levava, o que fazia com que o tubo de escape do motor viesse quase sempre mergulhado na água, dificultando o seu funcionamento, facto que certos engasgos no ruído do motor já tinham denunciado. A noite iria cair rapidamente como acontece nos trópicos, teríamos percorrido, quanto muito, apenas metade do percurso e a embarcação quase não se movia. Começámos a ficar inquietos, eu e o Neves, mas a calma e certa passividade dos três angolanos sossegavam-nos.


Teria sido escolhida a rota certa? Era a pergunta que me vinha ao pensamento. Sim, sem dúvida, como posteriormente se confirmou. O problema residia noutros factores: a maré-baixa, a forte corrente daí resultante, a reduzida potência do motor do gasolina e, principalmente, a carga excessiva que transportávamos. Vimos passar o grande paquete de que falo atrás, algumas embarcações de grande porte e até uma pesada grua de desassoreamento. Se nos tivéssemos metido na rota deles, teríamos sido inexoravelmente arrastados para o mar. O gigante Rio Zaire tinha de facto os seus segredos e estes eram conhecidos, nas suas mansas margens, pelos habitantes locais, que as sulcavam nas suas pirogas com um à vontade de séculos, e, longe das margens, por navios de grande porte, graças a estudos hidrográficos realizados com o auxílio das técnicas mais modernas.


Cismando sobre este tema, pensei em Diogo Cão e nas nossas caravelas de antanho que o subiram muito para lá donde nós estávamos, lutando certamente com grandes dificuldades, no distante século XV. Como se sabe, Diogo Cão subiu este rio, então completamente desconhecido, até lhe aparecer um obstáculo intransponível a cerca de 150 quilómetros da foz, as célebres Pedras de Ielala, onde gravaram a seguinte inscrição: «Aqui chegaram os navios do esclarecido rei Dom Joam o Segundo de Portugal D.º Campº Anes pº da Costa». Certas fontes afirmam que venceram o rio e chegaram até aquele local à força de remos! De qualquer forma grandes e intrépidos eram os nossos navegadores daquela época!

                        

                                              A Pedra de Ialala
Estava eu cogitando sobre tais feitos do passado quando, abruptamente, uma forte sacudidela do gasolina me fez voltar ao presente. Tínhamos acabado de encalhar num banco de areia, já a noite caía, espalhando negrume por toda a volta e nas nossas almas também!


E agora, como sair daquela situação? Os tambores vazios de 200 litros rolaram ruidosamente uns contra os outros, ficando o Neves entalado entre os mesmos. Ele, que sempre se mostrou muito assustado com tudo, gritou: “o barco vai afundar-se e nós vamos morrer todos aqui, meu Deus”. Confesso que também fiquei apreensivo, chegando a pensar que os ditos tambores seriam a nossa tábua de salvação, servindo-nos de bóias. Mas afastei logo a ideia por impraticável e perigosa.


Mas existia o Camba (amigo)! “Camba, o que foi isto?”. “Senhor, a maré ficou tão vazia que gasolina encalhou. Vamos esperar até maré ficar cheia”. Dito isto, com a maior displicência lançou uma pequena âncora à água, entalou o cachimbo na cintura e deitou-se sobre a carga, cobrindo-se com uma manta. Foi a primeira vez que o vi sem ser de pé! Os outros dois seguiram-lhe o exemplo, depois do maquinista ter desligado o motor e nós, eu e Neves, que remédio, pensámos fazer o mesmo.


A noite estava cada vez mais que escura. Ao longe, na margem do Congo-belga, uma pequena luz tremeluzia e nada mais. O silêncio, agora, sem o irritante ruído do motor, no princípio pareceu-nos estranho mas não tardou muito a ouvirmos sons ainda mais estranhos. O que mais nos inquietava era um resfolegar constante, umas vezes ao largo do rio, outras mais próximo, do lado da nossa margem. O calor do dia transformou-se e começámos a sentir frio que vinha não se sabia de onde. Começámos a ser massacrados por nuvens de vorazes mosquitos Às apalpadelas demos com um fardo mais macio que abrimos ansiosamente e, céus, eram mantas que se destinavam às prateleiras da loja do Sr. Francisco mas que agora, providencialmente, nos iam defender do frio e, ainda mais importante, dos malditos mosquitos. Então, confiantes no Camba, lá nos recostámos o melhor possível sobre a carga, enrolados nas mantas.


Dormir? nem pensar. O Neves não parava de se lamentar, “vamos morrer, vamos morrer” tive de o mandar calar várias vezes. Mas o pior era os sons estranhos e muito fortes que se ouviam e que me inquietavam também. A dada altura tive a impressão de que algo roçara no nosso barco e que este se tinha inclinado ligeiramente para um dos lados. Agora é que fiquei deveras assustado...


Meus queridos, esta carta também já vai longa e o resto da aventura terá de ficar para a próxima, para não vos cansar muito.


Até breve! Beijinhos do vosso Vôvô

 

publicado por clay às 23:43 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 03.09.08

Queridos netinhos: 

 

Hoje quem vos escreve é o Vôvô porque a Vóvó tem andado muito ocupada. E de que é que eu vos vou falar? Ora, nada mais do que da minha estreia em Angola, como funcionário público, para onde fui na simples qualidade de estagiário, depois de deixar por livre vontade o meu lugar no Instituto Nacional de Estatística, aqui em Lisboa, o mesmo que ainda hoje existe ali para os lados do Bairro do “Arco do Cego”.

 

 Ainda andava na casa dos vinte anos e não foi por ir ganhar mais que resolvi mudar de vida lá longe, na nossa antiga colónia de Angola. Lembro-me bem que a diferença de vencimentos era só de cerca de 250 escudos. Cá ganhava cerca de 1250 escudos por mês (o que não era nada mau para um rapaz da minha idade) e em Angola passei a ganhar 1500! Foi mais por simples aventura, conhecer outras terras, pois tinha passado toda a minha adolescência (cerca de 14 anos) em Timor, outra nossa ex-colónia.

 

Quando ainda era estudante, tinha lido um livro de Ferreira da Costa, escritor nesse tempo muito conhecido por escrever sobre África, com o título “Pedra do Feitiço”, que ainda hoje guardo com o máximo cuidado na minha biblioteca, protegido por uma encadernação com letras douradas na lombada. É uma sétima edição de 1945 em cujo prefácio o autor escreveu o seguinte trecho que passo a copiar:


“A Pedra do Feitiço existe. Fica distante de Santo António do Zaire, quase em frente de Boma. É um morro pedregoso, agreste e nu. Triste. Sinistro, por vezes. Assenta no limite de savanas bravias, onde as tsé-tsé instilam venenos letais, os carnívoros despedaçam corças e todos os brutos urram de ansiedades frenéticas, nos contactos da procriação. Para lá da colina rochosa, desliza o grande rio majestoso – o Zaire. O calor martiriza. Entontece. Leva ao desvario. Nem réstia de sombra, para lenitivo de tamanho tormento. Em torno não se vislumbram sinais de vida humana. Paira um silêncio trágico, primitivo, só atenuado, ao descer a noite, pelo resfolegar dos hipopótamos e os gritos estridentes dos abutres. Chega-nos o cheiro nauseabundo da carne podre – carcassas sanguinolentas, restos de festins nocturnos das panteras e dos chacais. Na margem, entre limos e juncos, brilha o olhar vítreo dos jacarés. É assim a Pedra do Feitiço.”


Acabados de chegar a Luanda idos de Lisboa, eu e mais dois colegas estagiários, apresentámo-nos no departamento estatal próprio, para sermos informados do nosso destino, algures no vasto território, catorze vezes maior do que Portugal. A expectativa não era grande pois sabíamos, como caloiros que éramos, que iríamos ser colocados em regiões pouco desejadas. Ao receber a minha Guia de Marcha, nem queria acreditar no que lia. Destino: Distrito do Zaire. Posto: Pedra do Feitiço. Manifestei um certo regozijo que os meus outros dois colegas não entenderam porque, embora estivessem tristes por as suas colocações não serem boas, como já esperavam, consideravam-se mesmo assim mais sortudos do que eu. "Eh! Pá, logo a Pedra do Feitiço, que azar!" De facto, Pedra do Feitiço tinha má fama, mas fiquei contente com a novidade. A leitura do livro de Ferreira da Costa nunca me saíra do pensamento e acalentei sempre o desejo de um dia repetir as aventuras nele narradas. Posso mesmo afirmar que este livro até teve forte influência no rumo que havia de dar à minha vida, trocando o cómodo e promissor lugar que tinha no INE pela incerteza dum cargo em África. E logo na Pedra do Feitiço. Que estranha coincidência! Que sorte!

 

Em Santo António do Zaire, conhecida também por Sazaire, terra pequena onde todos se conheciam, a minha chegada foi quase um acontecimento. Quem seria aquele jovem solteiro, com ares citadinos, que chegava ali e era logo “desterrado” para a Pedra do Feitiço? As pessoas receberam-me com simpatia mas dei conta de que, nos semblantes apresentados, embora risonhos, pairava certo ar de admiração e de comiseração. Fiquei cerca de um mês na Vila a adaptar-me, mas o que eu queria era seguir para a Pedra do Feitiço que era o meu destino oficial, como estagiário.

 

E como ir para lá?

 

Vieram então algumas sugestões: Uns diziam: “olhe o sr. Fonseca parece que parte amanhã para o mato com um carregamento de fuba para o pessoal e o senhor podia aproveitar a boleia. Se quiser eu vou falar com ele.” Outros: “Há os camiões dos madeireiros que trazem para as serrações grandes toros de madeira e voltam para as matas vazios, talvez fosse uma solução...” Até que alguém me falou no rio. No rio, mas como? Disseram-me então que no pequeno porto estavam, naquele momento, a carregar um gasolina com mercadorias destinadas, precisamente, a abastecer a loja do Sr. Francisco, na Pedra do Feitiço. Ora aí estava a resolução do meu problema.

 

O rio, como já adivinharam, era o grande Rio Zaire, um dos maiores rios navegáveis do mundo O seu estuário é tão vasto que da sua margem esquerda, onde ficava a Vila de Sazaire, mal se vislumbrava a outra, a direita, que pertencia ao Congo que, naquele tempo, era uma colónia belga.

 

Como queria seguir imediatamente ao meu destino, ansioso como estava de iniciar as minhas novas funções e, para mais, sedento de aventuras próprias da idade, fui logo procurar o tal Sr. Francisco. “Que não estava”, disseram-me. “O Sr. Francisco está na sua loja na Pedra do Feitiço desertinho que cheguem lá as mercadorias que estão a carregar no gasolina para vender na loja dele, no mato, mas se o senhor quer ir no barco dele, o senhor agora é quem manda, vai lá e é só dizer isso à tripulação” e acrescentaram, “porque o senhor, agora, é a autoridade máxima daquela região para onde vai. Acima de si está só o Sr. Intendente, aqui”. “E mais, quando entrar no gasolina passa a ser o comandante do barco”

 

Ao princípio fiquei um bocado confuso. Se esta conversa não tivesse sido na presença do chefe da alfândega, uma pessoa muito prestigiada na Vila, eu não teria acreditado. Autoridade máxima de uma região e para mais comandante de um barco? Ora esta!

 

Mas era verdade. E depois ainda me apareceu um funcionário, mais novo do que eu, que tinha sido colocado mais para o Norte, a pedir-me boleia que logo aceitei. Sempre era mais um companheiro de aventura. Chamava-se ele Neves. Com o calor que estava naquele momento, até achei graça ao nome do rapaz.

 

Lá fomos os dois até ao barco. Eram três os seus tripulantes. Três corpulentos negros, ainda novos, que logo se desbarretaram quando nos viram. Um deles, chamemos-lhe "o Imediato", já sabia de tudo, quem eu era e ao que ia. Naquelas paragens as notícias corriam céleres. Perfilou-se e disse-me: “Sr. Comandante, o gasolina está pronto a seguir”. E ficou-se por ali.

 

Olhei em volta. Era um barco de madeira, não teria mais de trinta metros de comprimento, pintado de branco, tendo ao centro uma pequena cobertura que depois descobri ter por baixo dela um motor a gasolina. Por isso estes barcos eram designados "gasolinas". E muita carga, com tanta carga que não se via o fundo do barco. Por baixo eram caixotes vários, sabe-se lá com quê. Por cima destes, sacos e mais sacos cheios de fuba, (farinha de mandioca, base muito importante da alimentação local) e outros mal cheirosos cheios de peixe seco, como vim depois a saber. E depois, é incrível, por cima disto tudo, ainda, soltos, enormes bidons metálicos, com capacidade para 200 litros. Eram os chamados tambores de 200 litros nos quais eram transportados para todo o lado combustíveis, como gasolina, gasóleo, etc. Mas estes, felizmente, iam vazios para retornarem depois cheios de óleo de palma dém-dém, quando o barco regressasse Tornei a olhar e vi que não havia sequer um lugar para nos sentarmos O "Imediato" continuava de pé, hirto, com os olhos muito brilhantes postos em mim., como quem está à espera de uma resposta. E estava! De repente lembrei-me de que, afinal, era eu o "comandante", caí em mim, e disse com a voz mais autoritária que consegui arranjar: Siga a viagem!

 

O "Imediato" pôs-se logo em acção, mas antes faz-me esta pergunta embaraçosa: “Sr. Comandante qual das rotas vai escolher?” Fiquei deveras encabulado, misto de vergonha e desconfiança. Estaria ele a gozar-me? Mas não. O homem era um daqueles angolanos de aspecto irrepreensível, falando um português sotaqueado mas muito perfeito. Logo naquele momento me inspirou confiança. Aliás, de qualquer forma, era com ele que eu tinha de contar, pois devia conhecer o rio como as suas mãos.

 

Depois de uma compreensível mas curta hesitação disse-lhe: “Rio acima pela rota que você sabe!” Ele mostrou um sorriso e disse-me: “Obrigado!” Pensei aliviado: “Temos homem!”

 

Como esta carta já vai longa, prometo-vos continuar numa próxima, porque vocês nem imaginam o que me havia de acontecer, mesmo antes de chegar ao meu destino: “a tenebrosa Pedra do Feitiço”.

 

Beijos.

 

Nota: As pessoas aqui mencionadas existiram de facto. Por motivos óbvios os nomes de alguns são fictícios.

publicado por clay às 17:29 | link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
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