Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 18.12.08

 

Meus queridos netos


1974. O Ano começou com as esperanças de sempre e a araucária do nosso jardim, em Luanda, já com tamanho adequado, transformada, novamente, num foco de luzes e cores como era característico daqueles natais dos trópicos. O calor intenso fazia com que o Natal em Angola, sem deixar de ser, antes de mais, a celebração do nascimento de Jesus e uma festa de família, fosse também uma festa de ar livre: não havia jardim ou quintal que não caprichasse na sua árvore de Natal e, depois da Missa, lá rumávamos nós, com o cesto do pique-nique, para a praia da Ilha, ali ao pé, a juntar-nos ao nosso grupo de amigos, numa inesquecível confraternização. Ninguém resistia a um banho refrescante e aos petiscos da quadra, que cada uma de nós, caprichava em apresentar, conforme a tradição da região donde provinha. Isto depois de, na noite de consoada, nos termos reunido com a família mais próxima, no nosso caso a do meu irmão Alfredo, onde nunca faltava o bacalhau com todos e as filhós, à maneira transmontana e os nógados, de que a minha cunhada Adelina, alentejana de Vila Viçosa, jamais prescindiria. Além destes pratos tradicionais, havia também carne de pacaça ou veado, que o meu irmão trazia das suas caçadas e de que nós não éramos grandes apreciadores. E a distribuição dos presentes, o auge da festa para os mais pequenos.


Mas o Natal passou, entrou-se no novo ano, cada um retomou os seus afazeres e os passeios do costume e, embora os ecos da guerra continuassem a preocupar-nos, começava a haver uma certa esperança de que o nosso governo acharia uma via adequada para negociar a paz com os movimentos de libertação. Nada mais falacioso: no dia 25 de Abril, aconteceu em Portugal a chamada «revolta dos capitães», que destituiu e mandou para o exílio, no Brasil, o Presidente da República, Américo Tomás, e o Presidente do Conselho, Marcelo Caetano. Seguiram-se tempos muito conturbados, como deveis saber, e a descolonização. Claro que foi esta a que mais fundamente nos atingiu, mas, a nossa vida continuou por algum tempo sem alterações dignas de nota, até porque tínhamos grande esperança na construção dum país multi-racial, onde nos sentiríamos muito bem.


Continuei as minhas aulas no Liceu (incluindo as do pequeno grupo de estagiários), interrompidas, embora raramente, pelas inovadoras R.G.A’S. que procuravam politizar os alunos. Quanto a mim, sempre fui respeitada por alunos e pessoal auxiliar e até fiz parte dum grupo de trabalho, constituído por professores das várias disciplinas, alguns deles angolanos regressados do exílio no estrangeiro, com o intuito de ser criado um Instituto de Ciências da Educação.


Houve alguns motins em Luanda, algumas prisões arbitrárias e até pessoas que eram assassinadas ou desapareciam sem deixar rasto, como sucedeu com o meu tio Zeca, que os filhos em vão procuraram por todas as prisões de Angola.


Apesar de tudo, continuaram os nossos almoços na praia, donde às vezes assistíamos, já sem estranheza, aos tiros e rebentamento de granadas no Forte situado do outro lado da Baía. Era a rotina que se instalava. Mas já não nos aventurávamos em passeios longe de Luanda, perturbados por factos ou boatos inquietantes. E tendo sempre, em pano de fundo, o ruído dos martelos a fazer caixotes que os mais incrédulos se apressavam a acabar, para neles enviarem alguns dos seus haveres para Portugal. Não era o que se passava connosco, como já vos referi numa carta anterior. E era tão grande a nossa esperança que, terminadas as aulas, viemos passar as férias a Portalegre e até fizemos, os quatro, uma inesquecível excursão à Inglaterra e à Escócia, de que possivelmente vos falarei, baseada no diário feito pelo Quim e que ainda conservo.


Regressámos depois a Luanda, dispostos a contribuir com o nosso trabalho no crescimento de Angola, naquele tempo considerado o segundo país mais desenvolvido da África sub-saariana , depois da África do Sul. Mas tal não foi possível e regressámos definitivamente a Portugal quase em fins de 1975, na forma como já relatei numa carta anterior.


Mais uma rodada de beijinhos para os dois, e até breve.

 


publicado por clay às 10:29 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Dezembro 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
14
15
16
17
19
20
21
22
23
24
26
27
28
29
30
31
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds