Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 15.02.09

 

Deixem-me os olhos de ver,
os meus olhos,
disponíveis para o que der e vier.

 

Deixem-me ver as crianças
e ensinar-lhes o caminho
florido, das esperanças.

 

Deixem-me ver os velhinhos
que vivem na solidão
e sedentos dos carinhos

 

que antes deram, sem medida,
a filhos, netos, a todos
que lhes encheram a vida.

 

Deixem-me os jovens assim,
alegres, cheios de sonhos,
em dobadoira sem fim.

 

Deixem-me, vá, ver a vida
e na vida me envolver
com os meus olhos de ver.


Lisboa, 29 de Janeiro de 2009

Clementina Relvas


publicado por clay às 23:56 | link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 10.02.09

                             Meus queridos netos:

 

                               Quando falei, na minha última carta, da morte do meu irmão Alfredo e a fiz seguir dum poema, escolhido entre outros que a dor então sentida me inspirou, não o fiz sem grande hesitação: para quê colocar-vos face a face com situações tão extremas e pungentes, a vós que mal começais a despertar para a vida? Resolvi fazê-lo por várias razões: em primeiro lugar, não será tão cedo que vos interessará ler as «memórias duma avó», por muito que ela vos seja querida e, quando chegar a altura de as lerdes, já tereis aprendido - peço a Deus que não seja à custa de muito sofrimento – que a vida não é sempre um mar de rosas; em segundo lugar porque, se vos ocultasse esses factos mais dramáticos, estaria a dar-vos uma imagem destorcida de mim e do que foi o meu percurso; e, por último, para vos mostrar, com o meu testemunho, que Deus é bondoso e compassivo e está sempre pronto a estender-nos a mão para nos ajudar a «dar a volta por cima».

 

                               Assim, na altura em que precisávamos de voltar a trabalhar, não só por motivos económicos mas também para preservar as nossas qualidades intelectuais e o nosso equilíbrio psicológico, fomos chamados a ir para os Açores, como já vos contei em várias cartas que antecederam esta. Como pudestes ver, os objectivos que tínhamos em vista foram alcançados, mas não sem um preço que jamais tínhamos pensado pagar: quando, ao fim de cinco anos, regressámos a Lisboa, esperava-nos a imensa decepção de saber que esses anos, em que os nossos filhos deveriam ter obtido os seus diplomas universitários, tinham sido desperdiçados por eles.

 

                               O Zé, cuja vocação eu sempre soube que eram as letras, no idealismo dos seus dezoito anos, decidiu ir frequentar Agronomia, que lhe daria ferramentas e ocasiões, dizia ele, para combater a fome no Mundo. Mas, na realidade e embora sempre tivesse tido boas notas a Ciências, tropeçou na Matemática, dispersou-se nos movimentos associativos então muito vigorosos e, como entretanto, se criou em Agronomia uma Rádio Universitária, foi aí que ele se sentiu realizado. Não tardou que ingressasse numa conhecida Estação de Rádio, onde, depois de atingido o topo da carreira, ainda hoje se encontra, mostrando a sua cultura e o seu talento de comunicador. Quando ele terminou o Liceu, só havia, para Letras, as saídas tradicionais: Ensino ou Direito e nenhuma delas o seduziu. Só passado um ano ou dois é que surgiram novos cursos: Comunicação Social, Marketing e Publicidade, Relações Internacionais e muitos outros. Nessa altura, ele podia ter começado um desses cursos, nomeadamente o de Comunicação Social, que era, aliás, o que ele já estava a fazer. Mas não enfrentou o desafio e acomodou-se no lugar que já tinha conquistado. E o caso dele serve para vos deixar um conselho: lutem sempre por dar o vosso melhor na conquista do vosso ideal, pois só assim serão felizes.

 

                               O Quim, que, devido a uma hesitação na escolha do Curso, tinha esperado um ano para ingressar no Instituto Superior Técnico e fazer Informática, não trabalhou o suficiente e só poderia ingressar em Telecomunicações, o que teria sido óptimo em termos de trabalho no futuro, mas também não foi a sua escolha e assim perdeu a oportunidade de fazer um Curso Superior. Pagámos-lhe então um Curso de Informática num Instituto privado e nesse ramo trabalhou até ter adoecido.

 

                               Infelizmente, o mundo está agora a atravessar um período de grande crise: todos os dias milhares de pessoas perdem os seus empregos e há muitos jovens que, mesmo com estudos superiores avançados, não conseguem o trabalho adequado às suas habilitações mas quase sempre são os melhores, os que se distinguem não só pela sua inteligência mas também pelo seu esforço, integridade, boa capacidade de relacionamento quando não de liderança que conseguem singrar honestamente na vida.

 

                                Tenho uma grande esperança de ver um mundo diferente, mais justo e mais humano, quando chegar a vossa vez de enfrentar os desafios da idade adulta. Mas tendes de partir de dois princípios fundamentais: nada se consegue sem esforço e só um trabalho de que se gosta pode dar felicidade e paz.

 

                               Desejando, do fundo do coração, que Deus esteja sempre presente nas vossas escolhas e realizações, aqui ficam os beijinhos do costume da Vóvó. E até breve.

publicado por clay às 16:37 | link do post | comentar | favorito
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