Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 27.03.09

 Meus queridos netos:


Um aspecto fundamental da minha vida sobre o qual ainda não vos falei é o que diz respeito à minha relação para com Deus.


Nascida numa família católica tradicional, fui baptizada com poucos meses de idade, tornando-me assim católica, apostólica, romana e, o mais maravilhoso de tudo, filha de Deus e revestida da Sua Luz. Quando cresci o suficiente para me portar bem na Igreja, ia todos os Domingos à Missa com os meus pais e irmãos. Estávamos muito longe do revolucionário Concilio do Vaticano Ii: a Missa era rezada em Latim, com o sacerdote de costas voltadas para a comunidade e a minha cultura religiosa era baseada nas homílias, em português, sobretudo quando se referiam às parábolas de Jesus, algumas das quais, como a do Bom Samaritano, fui encontrar mais tarde nos meus livros da Escola Primária.


À noite, depois da ceia, rezávamos, todos juntos, por uma enfiada de intenções: pelas almas do Purgatório, pelos doentes e moribundos, por todos os pecadores, pelos viajantes, pelos que não têm que comer ou que vestir e assim por diante. Quem orientava a oração familiar era a minha Mãe e todos a seguíamos, de pé, excepto o meu Pai que tendo em conta o seu cansaço com as lides da lavoura, tinha o privilégio de rezar sentado.


É claro quem sempre eu compreendia muito bem as intenções por que rezava: por exemplo, o que eram as Almas do Purgatório, mas nenhum de nós, as crianças, se atrevia a fazer perguntas sobre matérias tão misteriosas. E era por isso que, às vezes, saltitando de pé para pé, já cansada, lá entoava a litania, mas sem grande convicção.


O padre, então encarregado da nossa paróquia e de mais outras duas pertencentes a freguesias vizinhas, era já bastante velho e tornara-se um pouco rotineiro. Reunia nas suas missas quase todos os paroquianos – grande raspanete levava algum que faltasse… Os homens estavam separados das mulheres e crianças, mas todos eram seus amigos, tendo por ele o maior respeito.


Quando chegou a altura de fazer a minha Primeira Comunhão, depois de algumas lições de Catequese, onde se aprendia, entre outra coisas obscuras para crianças de cinco ou seis anos que os inimigos do Homem eram três: Mundo, Diabo e Carne. O meu mundo era a minha aldeia e, mais tarde, o dos mapas e dos globos escolares; o diabo sabia eu muito bem o que era: um monstro horrível, com chifres e garras afiadas, sempre pronto a castigar os meninos que se portassem mal; mas a carne? A carne é que era o busílis porque, embora raramente, o meu Pai comprava-a na feira, além de que matávamos o porco e comíamos toda carne, muitas vezes, embora nunca durante a Quaresma.


Devo dizer, no entanto, que não me perturbavam muito esses mistérios, insondáveis para mim. Mais me preocupou e fez sofrer o facto de, no dia da minha Comunhão, para a qual eu sabia que devia estar em jejum natural, me ter deixado tentar por um pequeno cacho de uvas, pois, perto do meio-dia, a fome já apertava. Depois de muitas hesitações, lá arranjei coragem para falar do pecado à minha Mãe que, antes da Missa, me levou ao Senhor Prior, para ele me dar a competente absolvição. Livre de tão grande aflição, já pude gozar, à vontade, a minha festa: o meu vestido novo, branco e o almoço melhorado desse dia.


Já com o Crisma foi mais grave: já com os meus treze ou catorze anos andava na Escola Comercial e, depois duma prelecção colectiva em que nos explicaram, sumariamente, o significado desse Sacramento, juntaram um imenso grupo de alunas que escolheram, para Madrinha, cada uma a professora de quem mais gostava e, terminada a cerimónia nunca mais se falou nisso.


E ainda mais me chocou e entristeceu o Crisma dos meus filhos: frequentavam, na altura, um Colégio interno, de orientação católica, mas nós, os Pais, só soubemos que tinham sido crismados, na cerimónia presidida pelo Bispo, quando eles nos escreveram a dizê-lo e a mandar-nos, cada um, a pagela comemorativa que lhes tinha sido oferecida.


Aí, já tinha corrido muita água sob as pontes, já tinha tido lugar o Concílio do Vaticano II, donde emanou o Catecismo da Igreja Católica e que tão grandes e importantes reformas trouxe para a Igreja Católica.


Na próxima carta, falar-vos-ei da minha caminhada de Fé, que, graças a Deus, continua.


Beijinhos dos Vóvós
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Segunda-feira, 23.03.09

 

 

 

Hoje estou triste, ó Deus,
e não Te reconheço:
olho o mundo em redor,
o mundo a ferro e fogo,
quando Tu deste a vida
por um mundo melhor.

 

Hoje estou triste, ó Deus,
porque me sinto só,
pobre e desamparada.
Eu quero acreditar, Senhor,
que Tu «és tudo em todos»
e em mim não sinto nada.

 

Olha: já não estou triste
pois, a falar Contigo,
mesmo neste lamento,
senti-Te a consolar-me,
a dar-me novo alento.

 

Não estou triste, ó Deus,
porque a minha tristeza
era falta de Ti.
E agora sim: vejo-Te
em cada irmão
como nunca Te vi.

 

 

Lisboa, 2 de Maio de 2006
    Clementina Relvas


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Meus queridos netos.


Entre as várias coisas que não sei fazer, há duas que nunca deixei de lamentar não ter aprendido: andar de bicicleta e nadar, já não digo com estilo mas com à-vontade. Coisas tão simples, direis. Como é possível?


Mas foi assim: bicicleta, quando eu era criança e mesmo jovem, não era objecto acessível à minha bolsa e quedou-se no domínio dos sonhos: nesse tempo, só possuíam bicicleta os corredores, os adultos que, vivendo em zonas pouco acidentadas, a utilizavam normalmente como meio de locomoção e meninos ricos a quem nada faltava.


Com os vossos pais já tudo foi muito diferente: tiveram triciclo antes de começarem a andar e bicicleta um pouco mais tarde, como prenda de anos ou de Natal. O Zé nunca foi muito fã e o Quim teve, muito novo, uma experiência negativa mas que não o traumatizou: já não sei explicar como, prendeu-se-lhe a bicicleta em que andava a passear na nossa rua ao pára-choques dum jeep militar e, depois de ter sido arrastado alguns metros, teve a sorte de sair ileso mas com uma das rodas da bicicleta feita literalmente num oito. Chegou a casa acompanhado por um militar, que me deu uma explicação bastante confusa do ocorrido e quase em estado de choque. Lá o consolei como pude: «Não foi nada! Não foi nada!». Mas o certo é que a acidentada bicicleta ficou muito tempo atirada para um canto e só muito mais tarde, já adulto, retomou esse desporto, fazendo frequentemente largas passeatas contigo, Cristina, pelos arredores de Santarém.


A mim, dá-me vontade de rir que só agora, já muito avançada em anos, eu tenha um simulacro de bicicleta, uma «pedaleira» que, como o seu nome indica, só serve para pedalar, sempre no mesmo sítio e, assim, desenferrujar um pouco as pernas.


Quanto à natação, ainda tive umas poucas lições e fui aprendendo à minha custa a fazer uma ou duas piscinas, mas ficava logo sem fôlego. No mar, mesmo quando muito calmo, nunca me aventurei fora de pé e era um susto só de olhar para aquela imensidade de água à minha volta. Mesmo assim, deu para me divertir e perceber que a natação podia ter si o meu desporto favorito.


Pior ainda era o que se passava com o Vôvô: como tinha ido para Timor com poucos meses e aí viveu até aos quinze anos, não lhe faltaram condições para aprender. Não faltaram, é como quem diz… O seu Pai, que também não sabia nadar, levava-o à praia com os três irmãos mais novos, mas não deixava ninguém meter o pé na água, com medo dos tuba-rões que infestavam aqueles mares. Mas, segundo o Vôvô conta, as praias eram maravilhosas, não só pela sua extensão, qualidade da areia e pureza das águas, mas também pela abundância de conchas exóticas, que eles se entretinham a coleccionar. Diz ele que iam para a praia todos descalços, mas completamente vestidos. O Bisavô levava confortáveis cadeiras de verga, uma para ele e outra para a Bisavó Inês que, para não ficar morena, usava ainda uma sombrinha que a resguardava do sol. E por ali se ficavam, gozando o aproximar do fim dia, enquanto o céu se tingia dos mais fantásticos coloridos.


Mas nada apagou no Vôvô a pena de não saber nadar, sobretudo quando decidíamos ir passar um dia à praia do Mussulo, nos arredores de Luanda e para onde se ia de barco, no Caposoca. Aí o mar era manso e havia pé até muito longe, pelo que sempre se podia regalar com uma banhoca, antes de irmos almoçar no restaurante-esplanada que tinham instalado mesmo à beira-mar, à sombra de magníficos coqueiros. O almoço era, invariavelmente, um delicioso frango de churrasco com batatas fritas, acompanhado por cerveja fresquinha (a célebre CUCA) para o Vôvô e Coca-Cola (cuja venda era naquele tempo vedada na Metrópole) para nós os três, ou quatro quando levávamos connosco a vossa prima Tininha.


Aí apanhei um dia um enorme susto porque o Quim, ainda com pouco mais de três anos e inconsciente do perigo, começou a andar pelo mar dentro, sem que ninguém se apercebesse. Quando me voltei para o mar, na intenção de o vigiar, já ele estava com ãgua pelo peito e lá fui eu, numa correria, puxá-lo para terra.


Foi por isso que, mal o Zé António fez quatro anos, o matriculámos nas aulas de natação do Clube Nuno Álvares, onde havia excelentes treinadores e que era frequentado pela maior parte dos seus colegas no Colégio da D. Júlia. Como sempre, o Quim também quis ir com o irmão mas foi precisa muita paciência nossa e do treinador, e muito tempo, até que ele largasse as escadas da piscina e se aventurasse na água. Porém, quando lhe tomou o gosto, chegou a nadar muito bem, Íamos levá-los ao Clube, ao fim da tarde, dois dias por semana, o que era bom para o desenvolvimento deles e para nós desfrutarmos dalgum tempo de descontracção, à conversa com os amigos que por lá encontrávamos. A dada altura, eles já reuniam condições para frequentarem o Clube como atletas, mas entretanto os estudos foram exigindo mais tempo e não dava para frequentarem as aulas de natação cinco dias por semana. Ficaram, no entanto, a nadar muito bem, o que lhes permitiu usufruir das praias onde os levávamos, tanto em Luanda como depois do regresso a Lisboa, sobretudo quando íamos fazer um mês de campismo na Costa Verde, no Algarve.


Aí também eu passava o dia praticamente todo em fato de banho e me regalava com múltiplos banhos naquelas águas tépidas e serenas. Tinham mudado os tempos e os costumes, pois já eu era crescida e não só era proibido às senhoras o uso do bikini - só fato de banho duma só peça, mas até os fatos de banho dos homens, também duma só peça, tinham à frente uma espécie de avental curtinho, que agora seria extremamente ridículo.


Que longa carta, direis vós! Para a próxima prometo ser mais concisa. È que aqui, a conversar convosco para o futuro, nem dou pelo tempo passar.


Beijinhos dos Vóvós



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Sexta-feira, 20.03.09

 

Meus queridos netos:


Em Luanda, antes da guerra só havia dois cinemas: o mais antigo, o Tropical, que tinha mesas de madeira e cadeiras a condizer, à volta das quais os espectadores se sentavam para ver o filme – e que belíssimos filmes franceses eu lá vi! – enquanto, cheios de calor, íamos bebericando refrigerantes ou cerveja, bem frescos; mais recente, o Restauração era um imponente edifício moderno, destinado exclusivamente ao cinema. E tal era o seu tamanho e a sua comodidade que, depois da Independência, ali foi instalado o Parlamento da nova nação.


Durante a guerra, e com o afluxo de novos e mais exigentes públicos, os cinemas foram proliferando, construídos agora ao ar livre, rodeados por bem cuidados jardins. O primeiro nesse estilo e, para mim, o mais bonito, era o cinema Miramar, com uma vista deslumbrante sobre a Baía de Luanda, principalmente à noite, com a magia de tantas luzes acesas.


Mas o filme da nossa aventura, passava no cinema Império, relativamente perto da nossa casa do  Bairro Alvalade, já em plena época conturbada, logo no início da descolonização. Era o «Lawrence da Arábia», um filme cheio de acção e emoção, protagonizado por um actor de primeira linha: Peter O’Toole. Como era muito longo, começava ainda de dia mas terminava cerca da meia-noite. Decidimos ir a pé, eu e os vossos pais, confiados em que, no regresso, alguém, entre tantos conhecidos e amigos, nos daria uma boleia para casa, uma vez que o Vôvô se tinha ausentado temporariamente para Lisboa pelas razões já apontadas em carta anterior.


Acontecera, porém, que tinha sido decretado o recolher obrigatório às vinte e três horas, o que significava que, depois dessa hora, ninguém podia circular nas ruas da cidade.


Lá fomos, vimos o filme de que gostámos muito, mas como acabou tão tarde, a multidão que o tinha ido ver sumiu-se como num golpe de mágica e, de repente, ali nos encontrámos os três, sozinhos, sem vivalma a quem pedir a imaginada boleia.


Não tivemos outro remédio senão regressar a casa a pé, cheios de medo, calcorreando as ruas completamente desertas e sabendo que tínhamos de passar, inevitavelmente, em frente dum Quartel, com as suas sentinelas. Já me via presa com os meus dois filhos, o que não era pura fantasia pois, por muito menos, já muitas pessoas tinham sido dadas como desaparecidas para sempre. Eu tinha um triste exemplo na família: um dos meus Tios tinha ficado pelo caminho, quando regressava da cidade de Salazar (Dalatando), e nunca mais foi encontrado, nem o jeep em que viajava, apesar das inúmeras buscas e outras diligências, feitas pela sua mulher e filhos.


Nós nem pelas sentinelas do Quartel fomos interpelados e regressámos a casa sãos e salvos e dando graças a Deus por nos termos saído bem de tão perigosa aventura. Não nos livrámos foi do «sermão» do Vôvô, que soube da nossa imprevidência quando regressou de Lisboa: que nos mostrámos totalmente imprevidentes, principalmente eu, com a idade e a experiência da vida que já tinha. Bem podia ele estar descansado, longe de nós, confiado na nossa inteligência e bom senso. E assim por diante…


Mas o mal já estava feito e só nos restava não esquecer que devemos ser sempre prudentes, e muito mais em circunstâncias anormais.


É e lição que vos deixa, com muitos beijinhos, a Vóvó

 

 

 

 

 

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Sexta-feira, 13.03.09

 

Meus queridos netos:

 

Embora já tivesse dado por acabadas as cartas sobre o que foi a nossa vida em Luanda, ocorreram-me agora à memória alguns episódios dessa época:


Já vivíamos em Luanda há cerca de catorze anos e há bastantes numa moradia moderna, de dois pisos, com um quintal nas traseiras onde o Quim cuidava de gatos, peixes, porquinhos-da-índia e até dum cágado que lhe deram mas desapareceu ao fim de pouco tempo. A casa ficava situada no bairro de Alvalade, um dos mais modernos e selectos de cidade e que ficava muito próxima duma das maiores sanzalas de Luanda. A sanzala era um aglomerado de barracas, onde também viviam os vários empregados que então fomos tendo, a não ser que não tivessem família e preferissem ficar num bom quarto independente que tínhamos no quintal.

 

Vários empregados? De facto, é preciso explicar: quando contratávamos um empregado, para ajudar a Luísa na cozinha e para tratar do quintal e do jardim, era ela quem o ensinava, lhe dava as ordens e, em alguns casos, lhes dava lições de religião. Quando as relações entre ambos se tornavam mais familiares e eles se inteiravam de que o Vôvô tinha um cargo importante nas Obras Públicas, lá vinha a Luísa pedir, para eles, um emprego no Estado. Quase todos transitaram, deste modo, da nossa casa para um lugar de contínuo, com sacrifício para a Luísa pois, como eu lhe dizia, tinha de começar de novo a ensinar o trabalho destinado ao recém-vindo.


As coisas estavam de tal modo pacíficas que começaram a aparecer moradias ricas junto ao musseque e, mesmo atrás da nossa casa, havia um conjunto de casas pobres, algumas de angolanos pobres e era aí que os nossos filhos iam procurar os companheiros para as suas brincadeiras, sobretudo para jogar à bola ou fazer e utilizar carrinhos de rolamentos.


As coisas começaram, porém, a piorar quando os guerrilheiros dos três partidos – MPL.A, UNITA e FNLA.- foram autorizados a criar sedes pela cidade, depois de, em Portugal, ter ocorrido o 25 de Abril. Na nossa rua, instalaram-se duas facções rivais, a curta distância uma da outra. E, quando cruzavam fogo, o que era frequente, as balas passavam pela nossa casa, tendo até uma delas caído no quarto do Quim, que durante muito tempo e até já em Lisboa, a trazia ao pescoço como amuleto.


Entretanto, o Vôvô teve de vir a Lisboa, tratar de assuntos pessoais, ligados ao nosso regresso à Metrópole. Nós os três, com a Luísa e o empregado, refugiávamo-nos na escada interior, que levava ao 1º andar e ali ficávamos enquanto o tiroteio não acabasse. E razão tínhamos de ter medo, porque em breve aconteceu um drama num prédio de vários andares, situado na embocadura da nossa rua: uma bala perdida foi atingir, num quarto andar, uma menina de dezoito anos, estudante de medicina, quando estava sentada à mesa com os seus pais. Teve morte imediata. Também eu, algumas vezes, atravessei o jardim até casa, agachada, ouvindo as balas a zumbir sobre a minha cabeça. Mas, graças a Deus, nenhuma delas me atingiu.


Também Deus esteve connosco numa aventura em que, com o Vôvô em Lisboa, nos vimos os três enredados e que podia ter tido trágicas consequências. Mas vou contá-la na próxima carta, pois esta já vai longa.


Muitos beijinhos dos Vóvós.

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Quarta-feira, 04.03.09

Meus queridos netos:


Preenchendo a vaga da Vóvó, enquanto ela descansa e busca nos mais recônditos cantinhos da sua memória belas histórias por ela vividas que certamente vos irá contar em próximas cartas, aqui estou eu, o Vôvô, para mais uma pequena conversa convosco.

 

Numa carta anterior falei, com muita ternura e saudade, da vossa Bisavó Inês, minha mãe, a propósito da morte do Papa João Paulo I. Hoje, também por me lembrar dela, vou falar-vos de outro grande vulto da Igreja. E porquê? dirão vocês. É o que vão saber um pouco mais adiante.

 

A vossa Bisavó Inês, embora crente, não era pessoa muito frequentadora da Igreja. Ela, lembro-me bem, contava que, quando ainda era novinha, frequentou a creche da fábrica onde a mãe dela trabalhava, a minha avó Casimira, e foi ali que aprendeu a ler e a escrever muito bem. Como a referida fábrica era dos ingleses, a religião praticada era a anglicana e, antes de as aulas começarem, rezavam sempre o Pai Nosso, fazendo uma vénia e apoiando a testa na mão direita, absorvendo-se na oração. Mais tarde, já mulher e casada com o meu Pai, partiu para Timor comigo ao colo, como já vos contei. E lá, quando calhava, ia assistir às missas católicas onde se mantinha sempre muito séria e silenciosa mas, quando se rezava o Pai Nosso, levava a mão à testa e inclinava-se para a frente tal como fazia quando era pequenina! Nós, eu e meus irmãos, só começámos a estranhar este lindo gesto dela quando chegou a altura de frequentarmos a catequese da Missão Católica, pois ali nunca nos ensinaram a proceder daquele modo. Mais tarde, com os anos, ela foi perdendo o hábito.

 

Naqueles tempos já recuados (anos trinta do século XX), Timor ainda fazia parte da Diocese de Macau, lá longe junto à China. Só em 1941 foi criada a Diocese de Dili, capital de Timor, com Bispo próprio. Portanto, as visitas pastorais do Bispo de Macau a Timor eram muito espaçadas devido à distância pelo que, quando se realizavam, constituíam sempre um acontecimento notável, a quebrar a rotina do dia-a-dia timorense.

 

Era então Bispo de Macau e Timor, D. José da Costa Nunes. Parece que ainda o estou a ver, com a sua barbicha e óculos de aros dourados, sempre com um sorriso nos lábios. Para um labárak (garoto em linguagem tétum) da minha idade, isolado no meio daquelas grandes e muitas vezes enevoadas montanhas de Timor, a novidade de tal personagem não podia deixar de impressionar. Foi ele quem me deu o sacramento do crisma. Quando estava na fila para o receber, o rapaz timorense à minha frente, ao chegar a vez dele, talvez um pouco intimidado, não se aproximou do Bispo o suficiente para ele lhe tocar na cara. Então D. José disse-lhe: “Ó rapaz, aproxima-te mais de mim, julgas que o meu braço é o Ramelau?” Ramelau é o monte mais alto de Timor, com cerca de 3.000 metros! Oh, como eu me lembro tão bem destas coisas tão antigas e me esqueço de outras tão recentes! Mas não se aflijam, porque é normal em pessoas da minha idade.

 

D. José da Costa Nunes era filho de um casal de agricultores modestos da ilha do Pico, Açores. Ingressou na vida religiosa onde viria a atingir uma altíssima posição. De facto, muito novo, foi nomeado Bispo de Macau, cuja diocese abrangia vasta área da Ásia, como a região sudoeste da China, Singapura, Malaca, etc. e Timor, como já disse atrás. Mais tarde, como Arcebispo, foi-lhe conferido o título de Patriarca das Índias Orientais, com sede em Goa, cargo que deixou alguns anos depois para ingressar como vice-camerlengo da Cúria Romana, dignidade muito importante no Vaticano. Acabou por aceder ao cardinalato no tempo do Papa João XXIII. Como Cardeal, participou no célebre Concílio Vaticano II, onde teve papel de grande relevo e fez parte do conclave que elegeu o Papa Paulo VI. Ele próprio até podia ser eleito Papa. Até à sua morte, em 1976, com 96 anos de idade, foi uma figura muito importante da Igreja católica romana, da qual os açorianos muito se orgulham, homenageado em vários pontos do país e até do Oriente, com escolas, lares, bustos, com o seu nome e outros memoriais. Está sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma.

 

Nas suas visitas a Timor, percorria a antiga colónia portuguesa de lés a lés, o que naquele tempo não era fácil, pois as vias de comunicação eram quase inexistentes. As deslocações faziam-se em regra a cavalo, nos célebres cavalinhos timorenses (os Kudas), por montanhas que então me pareciam enormes com vales profundos, por caminhos pedregosos que só estes animais aguentavam, embora nem fossem ferrados. Apesar de o país não ser grande, as viagens por vezes demoravam dias.

 

E foi assim que certo dia o nosso Bispo chegou a Maubara, locali-dade a cerca de 80 quilómetros a oeste de Dili, na costa Norte do país, onde o vosso Bisavô, embora fosse militar, desempenhava funções de autoridade civil daquela zona (Chefe de Posto). Maubara era a sede do Posto com o mesmo nome e resumia-se a várias casas de comércio, todas chinesas, e à casa do Chefe de Posto, um casarão de estilo colonial, com larga varanda a toda à volta, coberta a chapas de zinco, como quase todas as casas do Timor daquele tempo. Ficava situada num ponto alto muito (bárak) arborizado com uma soberba vista para o mar (táci) e praia ao redor da qual ficavam as casas dos chineses. Como não existia ali Missão Católica (apenas uma igreja bastante frequentada pela população timorense) e muito menos um Hotel, o Bispo iria pernoitar na casa do Chefe de Posto, a casa dos vossos Bisavós, claro, como era tradição.

 

Ora é aqui que entra a Bisavó Inês e era aqui que eu queria chegar, depois deste palavreado todo.

 

Receber em casa hóspede tão ilustre era uma honra e um grande prazer para os Bisavós. Por tal motivo os preparativos, para o receber com a dignidade que se impunha, começaram bem cedo. A vossa Bisavó, como boa dona de casa e esposa e mãe extremosa que sempre foi, não consentiu que ficassem por mãos alheias os seus créditos, e foi ela própria que tratou de tudo: as refeições, as sobremesas e, principalmente, o alojamento. E foi assim que preparou com o máximo esmero o melhor quarto da casa, com uma cama digna de um Bispo, com os seus melhores lençóis de desfiados (bordado típico timorense).

 

D. José foi recebido em triunfo pela população e depois recolheu a nossa casa, onde jantou, conversou, e encantou, principalmente os labáraks (eu e meus irmãos mais pequenos). Quando se aproximava a hora de recolher aos seus aposentos, surgiu na sala o criado do Bispo, que sempre o acompanhava, ainda me lembro bem, um chinês que eu achava muito parecido com o “china-padeiro” lá da terra que era quem fabricava e nos fornecia o pão. O homem, cheio de vénias, chegou-se ao pé de D. José e segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Bispo ficou muito sério durante algum tempo, olhou para meus pais mas depois fez um pequeno sorriso. O que seria?

 

Bem, não vou perder mais tempo com o que se passou logo a seguir àquele instante. Apenas direi que, passado um bocado, a Bisavó Inês apressou o passo em direcção ao quarto que fora preparado para o Bispo e eu, sorrateiramente e cheio de curiosidade, fui atrás dela. Céus! Exclamou minha mãe. É que em plena colcha de seda, a melhor que havia em casa e cobria a cama do Bispo, estava a nossa gata a dar de mamar a três lindos gatinhos que ali mesmo, momentos antes, dera à luz! Logo na cama do Senhor Bispo, clamou minha mãe, muito perturbada . ..

 

Hoje, quando me lembro deste episódio, na altura tão dramático para a minha mãe, sorrio como também sorriu D. José, pois tudo se resolveu. Apenas lamento não me lembrar do nome da gatinha-mãe, mas recordo-me muito bem de como era: muito mansinha, nossa amiga e branca com malhas pretas, ou seria preta com malhas brancas? Ora esta!

 

Beijinhos do Vôvô

 

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