Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 23.03.09

 

 

 

Hoje estou triste, ó Deus,
e não Te reconheço:
olho o mundo em redor,
o mundo a ferro e fogo,
quando Tu deste a vida
por um mundo melhor.

 

Hoje estou triste, ó Deus,
porque me sinto só,
pobre e desamparada.
Eu quero acreditar, Senhor,
que Tu «és tudo em todos»
e em mim não sinto nada.

 

Olha: já não estou triste
pois, a falar Contigo,
mesmo neste lamento,
senti-Te a consolar-me,
a dar-me novo alento.

 

Não estou triste, ó Deus,
porque a minha tristeza
era falta de Ti.
E agora sim: vejo-Te
em cada irmão
como nunca Te vi.

 

 

Lisboa, 2 de Maio de 2006
    Clementina Relvas


tags:
publicado por clay às 13:06 | link do post | comentar | favorito

 

Meus queridos netos.


Entre as várias coisas que não sei fazer, há duas que nunca deixei de lamentar não ter aprendido: andar de bicicleta e nadar, já não digo com estilo mas com à-vontade. Coisas tão simples, direis. Como é possível?


Mas foi assim: bicicleta, quando eu era criança e mesmo jovem, não era objecto acessível à minha bolsa e quedou-se no domínio dos sonhos: nesse tempo, só possuíam bicicleta os corredores, os adultos que, vivendo em zonas pouco acidentadas, a utilizavam normalmente como meio de locomoção e meninos ricos a quem nada faltava.


Com os vossos pais já tudo foi muito diferente: tiveram triciclo antes de começarem a andar e bicicleta um pouco mais tarde, como prenda de anos ou de Natal. O Zé nunca foi muito fã e o Quim teve, muito novo, uma experiência negativa mas que não o traumatizou: já não sei explicar como, prendeu-se-lhe a bicicleta em que andava a passear na nossa rua ao pára-choques dum jeep militar e, depois de ter sido arrastado alguns metros, teve a sorte de sair ileso mas com uma das rodas da bicicleta feita literalmente num oito. Chegou a casa acompanhado por um militar, que me deu uma explicação bastante confusa do ocorrido e quase em estado de choque. Lá o consolei como pude: «Não foi nada! Não foi nada!». Mas o certo é que a acidentada bicicleta ficou muito tempo atirada para um canto e só muito mais tarde, já adulto, retomou esse desporto, fazendo frequentemente largas passeatas contigo, Cristina, pelos arredores de Santarém.


A mim, dá-me vontade de rir que só agora, já muito avançada em anos, eu tenha um simulacro de bicicleta, uma «pedaleira» que, como o seu nome indica, só serve para pedalar, sempre no mesmo sítio e, assim, desenferrujar um pouco as pernas.


Quanto à natação, ainda tive umas poucas lições e fui aprendendo à minha custa a fazer uma ou duas piscinas, mas ficava logo sem fôlego. No mar, mesmo quando muito calmo, nunca me aventurei fora de pé e era um susto só de olhar para aquela imensidade de água à minha volta. Mesmo assim, deu para me divertir e perceber que a natação podia ter si o meu desporto favorito.


Pior ainda era o que se passava com o Vôvô: como tinha ido para Timor com poucos meses e aí viveu até aos quinze anos, não lhe faltaram condições para aprender. Não faltaram, é como quem diz… O seu Pai, que também não sabia nadar, levava-o à praia com os três irmãos mais novos, mas não deixava ninguém meter o pé na água, com medo dos tuba-rões que infestavam aqueles mares. Mas, segundo o Vôvô conta, as praias eram maravilhosas, não só pela sua extensão, qualidade da areia e pureza das águas, mas também pela abundância de conchas exóticas, que eles se entretinham a coleccionar. Diz ele que iam para a praia todos descalços, mas completamente vestidos. O Bisavô levava confortáveis cadeiras de verga, uma para ele e outra para a Bisavó Inês que, para não ficar morena, usava ainda uma sombrinha que a resguardava do sol. E por ali se ficavam, gozando o aproximar do fim dia, enquanto o céu se tingia dos mais fantásticos coloridos.


Mas nada apagou no Vôvô a pena de não saber nadar, sobretudo quando decidíamos ir passar um dia à praia do Mussulo, nos arredores de Luanda e para onde se ia de barco, no Caposoca. Aí o mar era manso e havia pé até muito longe, pelo que sempre se podia regalar com uma banhoca, antes de irmos almoçar no restaurante-esplanada que tinham instalado mesmo à beira-mar, à sombra de magníficos coqueiros. O almoço era, invariavelmente, um delicioso frango de churrasco com batatas fritas, acompanhado por cerveja fresquinha (a célebre CUCA) para o Vôvô e Coca-Cola (cuja venda era naquele tempo vedada na Metrópole) para nós os três, ou quatro quando levávamos connosco a vossa prima Tininha.


Aí apanhei um dia um enorme susto porque o Quim, ainda com pouco mais de três anos e inconsciente do perigo, começou a andar pelo mar dentro, sem que ninguém se apercebesse. Quando me voltei para o mar, na intenção de o vigiar, já ele estava com ãgua pelo peito e lá fui eu, numa correria, puxá-lo para terra.


Foi por isso que, mal o Zé António fez quatro anos, o matriculámos nas aulas de natação do Clube Nuno Álvares, onde havia excelentes treinadores e que era frequentado pela maior parte dos seus colegas no Colégio da D. Júlia. Como sempre, o Quim também quis ir com o irmão mas foi precisa muita paciência nossa e do treinador, e muito tempo, até que ele largasse as escadas da piscina e se aventurasse na água. Porém, quando lhe tomou o gosto, chegou a nadar muito bem, Íamos levá-los ao Clube, ao fim da tarde, dois dias por semana, o que era bom para o desenvolvimento deles e para nós desfrutarmos dalgum tempo de descontracção, à conversa com os amigos que por lá encontrávamos. A dada altura, eles já reuniam condições para frequentarem o Clube como atletas, mas entretanto os estudos foram exigindo mais tempo e não dava para frequentarem as aulas de natação cinco dias por semana. Ficaram, no entanto, a nadar muito bem, o que lhes permitiu usufruir das praias onde os levávamos, tanto em Luanda como depois do regresso a Lisboa, sobretudo quando íamos fazer um mês de campismo na Costa Verde, no Algarve.


Aí também eu passava o dia praticamente todo em fato de banho e me regalava com múltiplos banhos naquelas águas tépidas e serenas. Tinham mudado os tempos e os costumes, pois já eu era crescida e não só era proibido às senhoras o uso do bikini - só fato de banho duma só peça, mas até os fatos de banho dos homens, também duma só peça, tinham à frente uma espécie de avental curtinho, que agora seria extremamente ridículo.


Que longa carta, direis vós! Para a próxima prometo ser mais concisa. È que aqui, a conversar convosco para o futuro, nem dou pelo tempo passar.


Beijinhos dos Vóvós



publicado por clay às 11:03 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Março 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
21
22
24
25
26
28
29
30
31
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds