Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 08.04.09

 

Meus queridos netos:

Hoje, para variar, transcrevo aqui um pequeno conto que escrevi, já lá vai algum tempo. Beijinhos da vossa Vóvó.

 

 

                     O RATINHO QUE CONQUISTOU O GATO

 

Havia por ali muitos ratos, ou melhor, muitas ratazanas, tão grandes, tão nédias, que davam sempre para saciar o apetite de mais do que um gato, por muito comilão que fosse.


Agora já iam rareando e não há dúvida nenhuma de que o gato Lambrusco, o mais lá de casa, se tinha distinguido na caça a tão nocivos roedores, de tal forma que muitas vezes cofiara os bigodes e afilara as orelhas, ao ouvir os elogios da dona:


      - Valeu a pena arranjarmos sete gatos para nos vermos livres desta praga de ratazanas, fonte de poluição e estragos no armazém e que já nos começavam, descaradamente, a entrar pela casa dentro. Mas, na verdade, o campião das caçadas tem sido o Lambrusco, esperto e manhoso como só ele.


     - Por isso está assim tão anafado – dizia a filha adolescente que, a princípio, até se insurgira contra aquela horrível matança, acabando por concordar que talvez não houvesse solução mais assisada.


Havia, no entanto, um ratinho, esse pequeno e rosado, que todos na casa conheciam porque, quando menos o esperavam, lhes aparecia junto ao frigorífico, na cozinha, ou até mesmo ao pé da cama da menina. E uma vez, descaradamente, em cima da sua secretária em corrimaças de pequenote.. A menina não o denunciava, receosa de o ver sujeito a um trágico fim, mas já todos se perguntavam:


          - Um rato tão pequenino e nenhum gato se atreve a dar conta dele.


         - Deve ser porque mal daria para encher a boca dum gato, quanto mais o seu estômago…


Mas não. O que acontecia é que nenhum gato, dispondo ainda de algumas raras ratazanas, achava valer a pena dar-se a trabalhos por tão pouco.


Excepto o Lambrusco: esse tinha um motivo diferente. Habituado a relações afectuosas, aos miminhos da pequena dona, tinha-se tomado de amores pelo ratinho, tão pequeno e vivaço e, além do mais, destemido. A ponto que um belo dia, lá se foi, pé ante pé, chegando bem junto dele e lhe sussurrou ao ouvido:


       - Olha lá. Queres ser meu amigo? Eu sei que tens boa razões para não acreditares em mim. Mas juro-te que nunca te farei mal, e mais: hei-de defender-te dos outros gatos, das ratoeiras e de todos os perigos.


O ratinho piscou maliciosamente os olhos, ficou um pouco a pensar cofiando os bigodes e depois disse:


      - Na verdade, se tu me quisesses fazer mal, onde é que eu já estaria? Certamente junto dos meus parentes e amigos, bem menos afortunados do que eu e a quem vós destes sumiço. Mas, ainda que eu quisesse aceitar a tua amizade, onde é que iria viver para ficar sob a tua protecção?


      - Então onde é que há-de ser? Na minha casota, que é bem confortável. É forrada com uma fofa manta de lã e todas as manhãs encontro, à entrada, um saboroso pires de leite ou biscoitos para gato que tu, certamente, também hás-de apreciar.


Eu podia continuar a história. Mas prefiro acabá-la e de acordo com o que eu penso serem as vossas interrogações:


       - E de manhã? Como reagiu a família àquela inesperada amizade?


Será preciso explicar o espanto dos mais velhos e a reacção da menina que dizia:


- Coitadinho, tão fofinho… Como é que um gato tão afectivo como o Lambrusco lhe havia de fazer mal?

 

 

Lisboa, 28-03-08

 

Clementina Relvas


publicado por clay às 23:45 | link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 02.04.09

 Meus queridos netos:


Creio que a minha verdadeira caminhada de fé começou, por absurdo que pareça, quando comecei, no Liceu, a estudar Filosofia e a colocar-me as questões existenciais, comuns no fim da adolescência. Tive então a sorte de, na minha aldeia, haver então um sacerdote jovem e razoavelmente culto, com o qual tive longas conversas, expondo as minhas dúvidas.


Recomendou-me, para leitura, o livro «Psicologia da Fé», do Padre Leonel Franca, S. J. Daí colhi a ideia, que nunca mais pus de parte, «O obstáculo principal da fé não está nas dificuldades intelectuais que ela suscita, mas nos sacrifícios que impõe”E, outra não menos importante: «O primeiro dos obstáculos à conquista da fé (…) é, incontestavelmente, a ignorância religiosa». E quão grande, tive de admitir, essa minha ignorância! Ajudou-me também o estudo que, um pouco mais tarde, fiz de Pascal, nunca mais esquecendo, a sua sensata teoria: se considerarmos que a vida eterna é uma aposta, mais vale apostar nela ainda que não exista, do que apostar contra ela e perder a aposta.


Mais tarde, de 1962 a 1965, teve início o Concílio do Vaticano II, com tantas inovações a nível do ritual litúrgico com o abandono da missa em latim, a insistência, junto dos fiéis, para que lessem a Bíblia e aprofundassem o conhecimento dos textos sagrados, sobretudo do Novo Testamento e a publicação dos Documentos Conciliares, completados, mais tarde, com o Catecismo da Igreja Católica. Tanta riqueza de doutrina!


Quando morreu o Papa João XXIII, o grande obreiro do Concílio, sucedeu-lhe João Paulo I, o papa do sorriso e do amor, cujo pontificado se resumiu a um mês. Dele e da sua morte já vos falou o Vôvô, numa das suas cartas. Passo, pois, para o Papa da minha predilecção, João Paulo II, que revolucionou as relações da Igreja com os vários povos da Terra que, incansavelmente, percorreu, mesmo quando a sua avançada idade e frágil saúde já faziam dessas visitas apostólicas situações de grandes sacrifícios. João Paulo II, a quem a sua nacionalidade polaca ajudou a conhecer, desmistificar e combater as doutrinas comunistas, deixou-nos uma vasta obra, de que realço «Para além do limiar da esperança», «Fé e razão», além de numerosas e importantíssimas Cartas Encíclicas: sobre a misericórdia divina, sobre a Família, sobre o trabalho humano, sobre o mistério e culto da Eucaristia, sobre Cristo, redentor do homem, sobre a Mãe do Redentor e tantos outros documentos onde o cristão pode ir buscar conhecimentos, orientação e conforto espiritual. Foi extraordinária a sua resistência ao sofrimento até ao último sopro de vida, quando humildemente exclamou: «Parto para o Pai» e a sua devoção por Nossa Senhora de Fátima, cujo santuário visitou três vezes para agradecer a Nossa Senhora o ter-lhe salvo a vida. Prestes a ser canonizado, é para mim, já agora, um santo junto de Deus. Sucedeu-lhe o actual Papa, Bento XVI, que também tem escrito livros admiráveis, entre eles, «Deus é Amor». Não tendo viajado tanto como o seu antecessor, encontra-se nestes dias em África e hoje em Luanda, onde foi levar a sua mensagem de justiça e solidariedade.


Nesta minha caminhada, tem-me sido de especial ajuda o facto de o Vôvô partilhar as minhas convicções e me acompanhar, todos os domingos, à celebração da Eucaristia. Apesar de todos os meus esforços, com a participação num Grupo Bíblico e o acompanhamento de acções de formação religiosa, tenho de confessar que ainda hoje dou por mim a questionar Deus, sobretudo quando se me deparam crianças com doenças muito graves, situações de guerra e de flagrantes injustiças. Mas habituei-me e a aceitar a minha insignificância e a pensar, como diz o povo, «que Deus escreve direito por linhas tortas». Acredito que cada um de nós é livre de decidir o seu destino, quando se trata de escolher entre o Bem e o Mal, mas nada podemos fazer de bom sem a Graça de Deus, obtida através da obediência aos Seus mandamentos e sem a oração.


Destas convicções resulta que o meu grande conforto na velhice, quando, ainda por cima, me vejo sujeita às maiores provações é a leitura e meditação da Bíblia, especialmente do Novo Testamento: os Evangelhos, os Actos dos Apóstolos e as Epístolas, sobretudo as de S. Paulo, o santo que mais admiro juntamente com S, Francisco de Assis. Lamento não ter tido a sorte de, como Santa Teresinha do Menino Jesus, ter nascido para ser santa, ela que entrou no Carmelo aos quinze anos, movida por uma fé inabalável. Mas cada ser criado por Deus tem de fazer o seu percurso, sempre apoiada n’Ele. Basta pensar em S. Paulo que, de convicto perseguidor de cristãos, foi miraculosamente convertido em Apóstolo e destinado a percorrer o mundo de então para levar aos gentios a palavra de Cristo, quase sempre à custa dos maiores sofrimentos, chegando o atingir um tal grau de perfeição que pôde testemunhar: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim». E neste ano em que se comemoram os duzentos anos do seu nas cimento, tem sido o meu grande companheiro e fonte de inspiração para o meu livro de poemas «Nos passos de S. Paulo».


Também aprendi a acreditar que todos nos podemos santificar na vida quotidiana, realizando cada uma das nossas tarefas para louvar a Deus, servindo o próximo e nunca nos dando por satisfeitos com o patamar de perfeição que alcançarmos. Nunca nos devemos dar por satisfeitos mas também nunca devemos desanimar. Devemos ter sempre presente que Deus, nosso Criador, tanto nos amou e nos ama que mandou o Seu único Filho, Jesus Cristo, a dar a vida por nós, pecadores.


Todos os dias Lhe peço que vos ampare e vos encaminhe no caminho da Verdade, Ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, que já vos conhecia pelo nome ainda antes do vosso nascimento e que sempre estará disposto, se assim o pedirdes, a estender-vos a Sua mão de Pai.


É só o que posso fazer pela vossa alma, mas creio que não é pouco.


Beijinhos da Vóvó

 


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