Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 29.06.09

                                           

(Aos meus queridos Netos)

 

 

 
  I
   
Era uma vez…uma vez  
uma cabrinha pequena;  
não tinha nascido branca  
e andava cheia de pena.  
  Tinha uma malha na testa,
  na sua testa morena,
  que mais parecia uma estrela.
  E andava cheia de pena!
Via neve, que era branca  
vestir a terra morena.  
E andava cheia de pena!  
E andava cheia de pena!  
   
  Do lado de lá do rio,
  p’ra lá da água serena,
  era branca, branca a margem
  que via, triste, a morena.
Os malmequeres eram brancos  
p’ra lá da água serena.  
- Anjos brancos, a brincar –  
pensava, triste, a morena.  
  Meteu ao rio uma pata,
  turvou a água serena,
  a cabrinha, que era triste
  e andava cheia de pena
Não o sabia tão fundo  
por ser a água serena.  
Sentiu frio, muito frio,  
muito mais frio que pena.  
   
   
  Era branca,  toda branca,
  tão branca a água serena,
  tão branca a alma branquinha
  desta cabrinha morena,
tão branco o fundo rio  
p´ra lá da água serena  
que até o frio passou  
e nunca mais teve pena!  
   
   II
   
  Era outra vez… outra vez
  outra cabrinha pequena.
  Também não nascera branca 
  e também esta cabrinha
Também havia uma malha andava cheia de pena.
na sua testa morena,  
que mais parecia uma estrela;  
E, como a outra cabrinha,   
andava cheia de pena.  
  Nem uma nem outra vira,
  na sua testa morena,
  uma quase, quase estrela
  e andavam cheias de pena!
  (Uma já não tinha pena…
  Era toda, toda branca, 
  para lá da água morena!)
Vivia na mesma margem  
p´ra cá da água, a Morena.  
E havia malmequeres brancos  
cobrindo a terra serena.  

 

 
  Meteu ao rio uma pata,
  e, sob a água morena,
  encontrou uma pedrita,
  uma pedrita pequena.
Pousou a pata na pedra,  
turvou-se a água serena;  
voltou atrás assustada  
a cabra triste e morena.  
   
  III
   
  Não vão agora pensar
  que a outra cabra morena
  de que primeiro falei
  era esta cabra morena.
E que a margem que ficava  
p´ra cá da água serena  
era a mesma em que vivera  
a outra cabra morena.  
  Esta mirou-se tão feia,
  na turva água morena,
  como as bruxas, que eram más,
  quando fora mais pequena.
Quase não acreditou  
(não era tola, a morena!)  
e voltou pé ante pé  
 até à água serena.  
  Debruçou a cabecita,
  a medo, a cabra pequena,
  fechou os olhos, fugiu,
  e não viu nada, a Morena.
   
Mas encheu-se de coragem  
e outra vez, já serena,  
foi espreitar a verdade  
por sob a água morena.  
  Nem bruxa nem meia bruxa:
  serena a água, serena,
  só mostrava uma cabrinha
  muito bonita e… morena!
Podia bem ser que fosse  
a mesma a cabra morena  
(nenhuma cabra era branca  
e ambas tinham muita pena)  
  Nem digo já que não era
  a mesma, a margem morena,
  coberta de malmequeres
  p’ra lá da água serena.
Que nestas coisas, a gente,  
por muito que tenha pena,  
nunca distingue bem feito  
a outra margem morena.  
  Agora o que era diferente
  por sob a água morena,
  era a pedra: uma pedrita
  humilde, pobre e pequena.

                                                                      

  

 

                                  

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publicado por clay às 19:56 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 24.06.09

 

                                                    (Imagem de Divitempo)
Meus queridos netos:


Nestes últimos dias, em que um sol de brasa parecia apostado em dar razão aos mais empedernidos profetas do aquecimento global, passavam-me, de vez em quando, pela memória, como relâmpagos fulgurantes, pedaços de outros verões igualmente impiedosos.


A começar pelos da minha infância, no Alto-Douro, em que, como diziam os mais velhos, «se poderiam estrelar ovos nas pedras» e a terra queimava como brasa principalmente os que, na sua pobreza, a desafiavam, descalços. As horas da sesta - que os mais novos repudiavam, trocando-a pelos jogos debaixo da latada do quintal – era passada no fresco das lojas empedradas, cujas espessas paredes de granito defendiam de todos os rigores, tanto os de Verão como os de Inverno.


Eram longas horas de descanso, bem merecido para aqueles que trabalhavam no campo e que, mais tarde, já a estudar em Lisboa, eu, sempre rebelde a dormir de dia, aproveitava para ler todos os livros que me vinham parar às mãos, sentada no rústico mirante que, na sombra também abafada de calor, dava para os longes do Marão e me faziam ter saudades das suas neves passadas.


Noutro estilhaço da memória, havia uma impressionante mistura de sensações: andava com o meu pai a apanhar figos e eu sentia, na pele, a aspereza das folhas das figueiras, o macio apetitoso dos frutos maduros, o zangarreio das cigarras no meio do feno seco e perfumado e via o ar estremecer com convulsões iguais às que, no deserto, fazem nascer as miragens.


Depois, já era outro tempo: no calor sufocante de Angola, havia horas de refrigério: ou, de manhã, no sólido edifício do Liceu Salvador Correia, com os seus pátios interiores virados às brisas da Baía de Luanda, ou, em dias de não fazer nada, mergulhada nas águas atlânticas da Restinga ou protegida pelas sombras benfazejas dos mangais no Morro dos Veados, lugar predilecto dos nossos pique-niques e das brincadeiras dos nossos filhos.


Lembrei-me agora, subitamente, duma visita às ruínas da cidade de Micenas, à hora do meio-dia, numa Grécia quase incandescente, em que nos abrigámos nas parcas sombras da Porta dos Leões para ouvir o nosso guia falar, quase em transe, daquela civilização desaparecida. Agora, tínhamos de ver, num amontoado de pedras, um sumptuoso palácio, onde tinham tido lugar as mais famosas bacanais, umas termas que tinham feito as delícias de multidões, um fórum enxameado de filósofos e vendilhões, um celebrado templo de Zeus ou de Afrodite. Mas, à frente dos nossos olhos, tudo eram cintilações e reverberos e um senhor, de mais idade, que se tinha sentido mal no meio daquela fornalha.


Mas, alto lá, num dia de tanto calor, o melhor é pôr um freio à minha memória e deixar, estas e outras acaloradas lembranças guardadas para aqueles dias gelados, de chuva e vento, em que tantas saudades nos invadem daquele maravilhoso «calorzinho» do Verão.


Até breve. Divirtam-se muito na praia, sem esquecerem a protecção indispensável.

 

Foto: António Almeida

 

 

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Terça-feira, 16.06.09

                             

    

                            

 Rómulo, Remo e a Loba. Rômulo e Remo são, segundo a mitologia romana, dois irmãos gémeos, um dos quais, Rómulo, foi o fundador da cidade de Roma e seu primeiro rei Segundo a lenda foram amamentados por uma loba. (A Loba Capitolina - Escultura do século V antes de Cristo)

 

 

Meus queridos netos:


Ainda no dia 28, à tarde, fomos visitar a Basílica de Santa Maria Maior, que já conhecíamos, mas fazia parte, com as três outra basílicas patriarcais, todas com «porta santa», (Vaticano, S. João de Latrão e S. Paulo Extra-Muros), fazia parte da nossa peregrinação.


Foi construída no papado de Sisto III, entre 432 e 440, segundo o modelo das basílicas da antiguidade e o interior foi decorado com mosaicos por vontade do mesmo Papa.


Depois do Concílio de Éfeso, ficou intimamente ligada à Virgem Maria, pois foi neste concílio, reunido em Éfeso entre 22 de Junho e 31 de Julho de 431, que Nossa Senhora, contra as heresias vigentes, foi declarada Mãe de Deus, por ser a mãe de Jesus Cristo, que é Deus.


Na época barroca, sofreu uma profunda renovação, que se traduziu principalmente na abside e na fachada, totalmente reconstruída em 1743.


O tecto da Basílica é composto por um grande número de caixotões cobertos de ouro, vindo da Argentina. No dia 15 de Agosto, dia de Nossa Senhora das Neves, há uma concorrida cerimónia em que, abrindo-se um dos caixotões do tecto, dele cai um sem número de flores, em memória da neve duma aparição em sonhos.


O chão, em mármore de diversas cores, parece um tapete da Idade Média. Aqui se encontra sepultado, em campa rasa, o escultor Bernini. O altar-mor é de pórfiro vermelho, proveniente do Egipto e tem uma belíssima estátua de mármore do Papa Pio IX, o Papa da Imaculada Conceição E também aqui há um baldaquino, menos imponente do que o da Basílica do Vaticano, mas igualmente precioso.


À noite fomos quase todos fazer uma visita panorâmica a Roma, a cidade das sete colinas e dos inúmeros palácios e igrejas, com paragem na Fonte di Trevi, para onde uma pequena multidão de turistas atirava, voltando-lhe as costas, algumas moedas, na esperança de voltar a Roma. Penso que já vos falei, numa carta anterior, da primeira visita que fizemos a esta fonte, uns anos atrás, e do episódio inesperado que viria a dar-se. Atirámos nessa altura, como não podia deixar de ser, algumas moedas de acordo com a praxe. O mais curioso é que, no ano seguinte, num voo directo Atenas-Lisboa, o avião que nos transportava foi obrigado a fazer uma aterragem forçada em Roma, onde ficámos a expensas da Companhia durante quatro dias, pois o avião teve de ir a Londres reparar a avaria. Foi uma coincidência extraordinária que nos soube bem e à qual achámos depois muita graça, apesar do susto que a avaria nos pregou.

 

No dia 29 de manhã, bastante cedo para arranjarmos lugares sentados, dirigimo-nos à Praça de S. Pedro, uma vasta praça, imponente e harmoniosa, que simboliza, pelo seu traçado, os braços da Igreja abertos para os seus fiéis. A sua elegante e majestosa colunata, com 284 colunas de mármore, está adornada com 140 estátuas de santos.


Já havia muita gente, à espera de receber a bênção papal, mas a praça pode acomodar 300.000 pessoas e, por isso, ainda houve sempre alguns lugares vagos, embora, lá mais para diante, a multidão já se estendesse também pela Via da Conciliação. A cerimónia foi muito demorada, porque havia peregrinos vindos dos mais diversos cantos do Mundo, aos quais foram dirigidas mensagens nas mais variadas línguas. No final, recebemos a bênção do Papa, que se encontrava em frente da Basílica mas que todos podiam acompanhar, através de numerosas televisões espalhadas pela Praça.


De tarde, fomos visitar a Basílica de S. João de Latrão, que é a Catedral do Bispo de Roma, o Papa e só ele pode celebrar missa no altar papal. Acima deste, ergue-se o tabernáculo dourado com afrescos e esculturas. Na parte superior estão os bustos de S. Pedro e S. Paulo, de prata dourada, que se dizia conterem as cabeças destes dois grandes santos. Uma das preciosidades desta Basílica é o Baptistério Octogonal, considerado o mais antigo do Cristianismo e onde o imperador Constantino parece ter sido baptizado Tem um grande claustro, resto dum antigo mosteiro da Ordem de S. Bento, que é constituído por graciosas colunas de mármore marchetado, do séc. XIII. Tem o título de «cabeça e mãe de todas as Igrejas de Roma e do Mundo».


No exterior tem um grande obelisco, egípcio, do séc. XV a.C., que pertenceu ao templo de Amon, em Tebas, e foi trazido para Roma, em 357, pelo imperador Constantino, que primeiramente o colocou no Circo Máximo.


Num edifício vizinho da Igreja, fica a «Escada Santa», que representa a escada usada por Jesus para entrar no Pretório e agora está sempre superlotada de peregrinos que a sobem de joelhos.


Depois da visita a S. João de Latrão fomos a S. Paulo Extra-Muros. É a segunda maior Basílica de Roma e foi classificada como património mundial da UNESCO.


A actual Basílica, situada a cerca de 2 kms fora da Muralha Aureliana, é uma reconstrução do séc. XVIII da antiga basílica paleocristã de Constantino. Este imperador mandou construí-la sobre um antigo cemitério mas, alguns anos depois, esta foi demolida para dar lugar a uma igreja com cinco naves, parecida com a Basílica Vaticana da época.


Em 1823, um incêndio destruiu-a quase totalmente e o Papa Leão XII fez um apelo a toda a cristandade a fim de angariar fundos para a reconstrução. O apelo não tocou apenas os corações dos fiéis: o rei Fuad I, do Egipto, ofereceu duas colunas de finíssimo alabastro e o Czar Nicolau I blocos de malaquite e lápis-lazúli para os altares laterais do transepto. Foi consagrada em 1854 por Pio IX, que então proclamou o dogma da Imaculada Conceição.


Escavações arquelógicas revelaram, em 2006, um túmulo, debaixo do altar-mor, com a frase: «Paulo Apostol o Mart», o que veio confirmar uma tradição muito antiga de que ali tinha sido sepultado o apóstolo dos gentios. Já a partir do séc. XIII, data do primeiro ano santo, passou a fazer parte do itinerário jubilar.


No interior das naves e no transepto encontra-se a colecção das efígies de todos os pontífices, desde S. Pedro a Bento XVI, mas há ainda 25 medalhões vazios.


Defronte da Basílica, encontra-se uma enorme estátua de S. Paulo


Em 31 de Maio de 2005, o Papa Bento XVI publicou um «motu-próprio» no qual manifesta o desejo de que «o Apóstolo dos gentios ilumine e proteja todos aqueles que desempenham as funções na Basílica a ele dedicada e conceda ajuda e alívio a todos os fiéis.


E aos peregrinos que, com sincera devoção, visitam o lugar sagrado da memória do seu martírio, para reavivar a própria Fé e invocar a salvaguarda do caminho de santificação e sobre o compromisso da Igreja, em vista da propagação do Evangelho no mundo contemporâneo»,


Que assim seja!

 

Em avião dos TAP, regressámos a Lisboa, chegando a casa por volta das 23 horas. E assim terminou a nossa inesquecível mas muito estafante viagem.


Beijinhos dos Vóvós e que a nossa peregrinação vos conceda as graças que para vós implorámos.

 

    

       Bilhete de entrada para a Benção Papal (gratuito)

     

                      Assistindo à Benção Papal

        

       

                   Almoço numa esplanada próxima do Vaticano

     

                 Basílica de S. Paulo Extramuros

     

                                   S. João de Latrão

      

publicado por clay às 00:23 | link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 08.06.09

 

                   

 

 

 

Meus queridos netos:


É esta a terceira vez que vimos a Roma, mas são tantas e tão importantes as maravilhas que esta cidade tem para mostrar, que muito ficará ainda por conhecer: por exemplo as catacumbas, testemunho do que foi a vida dos primeiros cristãos nesta cidade e que sempre desejei visitar. Mas, desta vez, acompanha-nos a lembrança de S. Paulo que, depois dos meses passados em Malta e alguns dias em Puzzuoli, se dirige a Roma pela via Ápia para, como cidadão romano, ser julgado pelas autoridades imperiais. Aí se integra na comunidade judaica, ficando a viver numa casa que lhe é atribuída, embora sempre guardado por um soldado romano. Continua a fazer a sua evangelização, mesmo nas condições adversas do julgamento e parece ter sido decapitado mais tarde no sítio das Tre Fontane, como referirei mais adiante.


Ficámos instalados no hotel Michelangelo que, além dum certo requinte (mobílias lacadas, bom quarto com óptima casa de banho, ampla sala de jantar e boa comida), tem a vantagem de ficar muito perto do Vaticano, de tal modo que, das janelas dalguns quartos se via, ali ao pé, a cúpula da Basílica de S. Pedro.


Depois duma visita panorâmica da cidade, em que revimos os Foros, o Coliseu, o Arco de Triunfo de Constantino, o Circo Máximo, as sete colinas romanas, nomeadamente a do Palatino, o rio Tibre com o forte de Santo Ângelo e a Ilha Tiberina, (onde agora funciona um Hospital) e outros sítios históricos, dirigimo-nos para o Vaticano. A visita começou pelo “cemitério” dos Papas, cripta onde se encontra a maioria dos túmulos papais até João Paulo II. Há outras criptas mais antigas como a catacumba de S. Calixto, onde estão sepultados nove papas até ao séc. IV. Este amplo corredor, com monumentos funerários de ambos os lados, vai dar a umas escadas que levam directamente à Capela Sistina, célebre não só pela decoração, como pelo facto de ser aí que têm lugar os conclaves, as reuniões dos cardeais que, de porta fechada à chave (cum clave), elegem cada novo Papa.


A Capela ergue-se no lugar em que existiu, no séc. XIII, uma “Cappella magna”, que funcionava como capela palatina. Depois de várias transformações, chegou-se à actual, uma grande sala rectangular com 40,93m de comprimento, 13,41m de largura e 20,70m de altura, as dimensões atribuídas pela Bíblia ao Templo de Salomão. Foi reconstruída no séc. XV e, em 1481 já artistas célebres como Peruggino, Boticcelli, Ghirlandaio e outros teriam executado alguns frescos da Capela. Mas foi Miguel Ângelo que, por incumbência do Papa Sisto IV, modificou profundamente o espaço, criando um universo de imagens incomparáveis, que ele executou durante quatro anos (1508 a 1512), deitado numa estrutura suspensa, para que as cerimónias religiosas pudessem continuar a realizar-se. Foi bastante mais tarde, em Abril de 1535, no pontificado de Paulo III, que Miguel Ângelo começou a pintar o Juízo Final, que ocupa toda a parede sobre o altar. É impossível dar uma ideia, ainda que pálida, da beleza, da riqueza de significados e simbolismos saídos do conhecimento e do talento de tais génios, mas posso dizer que desta vez, após a restauração a que as pinturas foram submetidas, entre l964 e 1994, maior foi ainda o meu fascínio e a minha emoção.


Assim, entrámos pela parte detrás da Basílica, o que me parece criar um menor impacto. A Basílica de S. Pedro é, actualmente, a segunda maior do mundo, depois da recente construção, na Costa do Marfim, da Basílica de Yamoussoucros, uma igreja católica romana (1985-1989), inspirada na Basílica de S. Pedro no Vaticano e consagrada, em1990, pelo Papa João Paulo II.


Segundo a tradição, a Basílica de S. Pedro está localizada no lugar exacto onde S. Pedro foi crucificado, por ordem de Nero, que aí mandou construir, depois, um circo romano. Sobre as ruínas deste foi erguida uma grande Igreja, no tempo de Constantino (326), que foi substituída pela actual Basílica, construída, de 1506 a 1526, sob o pontificado de Sisto IV, segundo o genial projecto de Miguel Ângelo e a supervisão do arquitecto Bramante.


Das inúmeras obras de arte que podemos contemplar na Basílica, destaca-se o enorme baldaquino de bronze, assente sobre quatro sólidas colunas também de bronze e em espiral, que protege o altar papal, por cima da cripta de S. Pedro; numa capela lateral, em grande relevo mas protegida por vidro à prova de bala, a magnífica escultura da Pietà, de Miguel Ângelo, a rígida estátua de bronze de S. Pedro, e inúmeras estátuas de santos, bem como monumentos funerários, entre eles o do Papa Júlio II que Miguel Ângelo não conseguiu terminar.


Depois do almoço, num restaurante próximo, decorado ao estilo clássico, fomos visitar, na via Acque Salvie, a Igreja de S. Paulo das Tre Fontane, erigida no local onde S. Paulo foi degolado, por ordem de Nero. Diz a tradição que a cabeça, ao separar-se do corpo, saltou e embateu na terra em três lugares diferentes, donde brotaram três fontes que ainda hoje correm. Encontram-se dentro do Santuário, do lado esquerdo, em pequenas grutas vedadas e encimadas pela representação da cabeça do Santo, em bronze. A Igreja de S. Paulo insere-se num complexo de mais duas, todas à guarda dos monges beneditinos. Fica já nos arredores de Roma, na zona em que Mussolini mandou construir, a partir de 1935, uma área comercial e de serviços, o Eur, onde se realizou a Exposição Universal de Roma e tiveram lugar os Jogos Olímpicos, em 1960. Da arquitectura, maciça, do fascismo, destaca-se um enorme prédio de andares, que foi chamado o Coliseu Quadrado, implantado na praça com esse nome.


Depois desta visita, onde assistimos à Santa Missa, diariamente celebrada pelo nosso prior, dirigimo-nos para Santa Maria Maior, uma Basílica esplendorosa, de que falarei na próxima carta.


Beijinhos dos Vóvós

 


                                 Capela Sistina

                                 Primeiro túmulo de João Paulo II

                           Basílica de S. Paulo Extramuros

                                         À hora do almoço...

 

 

publicado por clay às 21:08 | link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 01.06.09

Queridos netos:

 

Como vos prometi na última carta, aqui vos mostro algumas fotografias da etapa nela relatada, das muitas que eu e o Vôvô tirámos:

                     Visita à Fábrica, utilizando corais e conchas

                             Pompeia - Pórtico do Forum

         Junto a uma das vítimas da erupção (reconstituição)

                           Mosaico da "Casa do Javali"

          Uma passagem de peões em caso de inundações

      Rua da Abbondanza, vendo-se uma passagem de peões

                                      Casa do Fauno

                     Reconstituição de como seria a Casa do Fauno

                                      Na cidade da Pompeia Moderna

                                 

                                      

                                                       Raínha do SS. Rosário de Pompeia

 

Beijinhos dos Vovôs e até à próxima carta sobre Roma

 

 

publicado por clay às 14:56 | link do post | comentar | favorito

Meus queridos netos:


Deixando Nápoles a caminho de Pompeia, fizemos um pequeno desvio para irmos visitar uma fábrica, muito antiga (1848) e muito célebre pelo fabrico de jóias (e candeeiros), a partir de corais e de conchas, especialmente de búzios, Ali pudemos admirar peças de grande valor artístico e… monetário. O Emílio ofereceu-me, como recordação, um bonito colar rosado, feito a partir de casca de búzio. Ainda havíamos de fazer outro desvio, desta vez por causa dum trágico acidente em que morreu um rapaz que ia na sua motocicleta. O trânsito foi cortado e tivemos de atravessar Torre Anunziata, onde foi instalada a primeira fábrica de massa, em meados do séc. XIX. Muitas outras se lhe seguiram, a ponto de os habitantes serem chamados «pastari» e a única fábrica que resta, em laboração, produz a massa mais cara do mundo.


Seguimos, então, para Pompeia, uma cidade que sempre tinha fascinado a minha imaginação. Completamente destruída pela lava da grande erupção do Vesúvio, entre 24 a 27de Agosto de 79 d.C., o material eruptivo que a cobriu, constituído sobretudo por cinzas, rapilho e lava, permitiu que a cidade chegasse íntegra até aos nossos dias, como um excepcional livro aberto sobre arte, ofícios e vida quotidiana do passado. Um dos poucos sobreviventes do cataclismo foi Plínio, o Moço, que, nas suas Cartas, nos deixou um testemunho dramático e minucioso daqueles trágicos acontecimentos. Só em 91 d.C. foi enviada uma inspecção de Roma e chegou-se à conclusão de que 95% dos habitantes tinham morrido asfixiados. Hoje podem admirar-se, no interior da cidade, duas caixas de vidro onde estão expostos dois moldes, em gesso, de duas vítimas da erupção, em cuja expressão se capta o horror das suas mortes.
Só em 1784, o rei de Nápoles mandou vir para Pompeia famosos arqueólogos que iniciaram as escavações, as quais, tendo de ser manuais, ainda não acabaram: falta conhecer 28% do espaço soterrado. Mas o que já se encontra à vista dos visitantes é, de facto, impressionante. Em 79 d.C., a cidade de Pompeia tinha uma forma triangular que hoje chamam “o peixe”. Possuía duas milhas de muralhas com a altura mínima de 4,80ms., chegando a atingir 12ms., nos pontos mais altos. A extensão da cidade dentro das muralhas era de 64 hectares e era dotada de oito portas de entrada e oito de saída. Quanto ao número de habitantes, as estimativas não são fiáveis, pois oscilam entre as 2.000 e 20.000 pessoas.


O núcleo mais antigo de Pompeia é o que está em volta do Foro Triangular. O novo Foro, junto da Porta Marina, aparece descentrado. Na zona periférica ergueu-se o Teatro, o Anfiteatro e a Palestra. Foram construídas Termas em diversos pontos da cidade – as ruínas das Termas Stabiane são ainda hoje espectaculares, graças às colunatas de mármore. Os cemitérios ficavam fora das suas portas, onde também foram encontradas “villas” sumptuosas, como a de Diomedes e a dos Mistérios. Havia na cidade muitas lojas, artes e ofícios, de tal modo que a Corporação dos Tintureiros tinha um edifício no Foro. Não faltavam os bares, hoje facilmente reconhecidos pelos buracos para meter as âncoras, fornos a lenha, hotéis e foram encontradas inscrições com anúncios para alugar casas. Os templos, seguiam o modelo helenístico e eram numerosos: o de Apolo, o de Hércules, o de Júpiter, ou Capitólio, o de Ísis, etc. Havia dois teatros: o teatro pequeno ou Odeon, com capacidade para 1.000 espectadores e a possibilidade de ser permanentemente coberto. Sede de manifestações teatrais e musicais era o mundo da mímica; e o teatro grande, do séc. II a. C., com 5.000 lugares e que também podia ser eventualmente coberto. Aí se representavam tragédias ou comédias.


Um exemplo do avanço técnico de Pompeia são as ruas dum empedrado perfeito, com passeios e tendo passadeiras constituídas por grandes blocos de pedra colocados transversalmente para os peões não molharem os pés, se se verificassem grandes chuvadas. Ao longo da rua havia numerosas lojas, bem como as casas dos proprietários, de, pelo menos, dois andares Uma das ruas mais importantes, a Rua da Abbondanza, tirou o seu nome duma das quatro fontes do centro de Pompeia, a Fonte da Cornucópia.


Excepto no que se refere à arquitectura, não encontramos hoje em Pompeia muitos exemplos do que foi a sua imensa riqueza artística: os mosaicos da caça ao javali, o plinto dum altar de mármore com cenas sacrificiais, e alguns, raros, vestígios de afrescos. 168.000 obras de arte de Pompeia, 1763 achados arqueológicos identificados , 20.000 m2 de pintura e 2.000 de mosaicos encontram-se desde o séc. XVIII, no Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles, cujo acervo não cessa de crescer.


É tão rica e tão espectacular aquela cidade que teve uma época áurea, foi completamente arrasada pela fúria da natureza e hoje renasceu das próprias cinzas, mutilada, mas, ainda assim, deslumbrante!


Depois da visita, fomos para a parte nova da cidade, onde se encontra a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, para assistirmos à Missa celebrada pelo nosso Prior de Benfica Pe. Traquina e pedirmos a intercessão de Nossa Senhora e de S. Paulo junto de Deus, que nos livre de tais catástrofes e tenha compaixão das vítimas daquelas que, tão frequentemente, ocorrem no Mundo.


Beijinhos dos Vóvós e até Roma! Como hoje é já muito tarde, prometo-vos para breve fotografias de Pompeia.

 

publicado por clay às 00:33 | link do post | comentar | favorito
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