Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 05.07.09

 

 

 

 

Meus queridos Netos:

 

Não. Não se trata dos pastores que, ao anúncio dos Anjos, acorreram a adorar o Menino Jesus, deitado nas palhinhas da manjedoura. Estes eram os únicos que havia na minha aldeia, quando eu era criança. Eram dois ou três homens rudes, com a pele da cara rugosa e queimada pelo sol, maltratada pelas intempéries, com a barba de muitos dias e o cabelo, fosse branco ou escuro, sempre sujo e emaranhado. Vestiam roupas andrajosas, igualmente sujas e eram pessoas de poucas falas, talvez devido ao isolamento em que viviam com o seu rebanho. Era realmente um só rebanho que possuíam e não me lembro de alguma vez saber que tinham vendido ou matado uma rês que fosse. Vendiam o leite que sobejava de alimentar as crias e, sobretudo, viviam de alugar o rebanho, durante um tempo e um preço combinado, aos proprietários das terras, refractários ao uso de adubos químicos, mais pelo seu custo elevado do que por preocupações ecológicas, que desconheciam.


Quando chegava a nossa vez, era um reboliço por toda a casa, mas especialmente entre os mais pequenos, sempre ansiosos de novidades, raras naquela pequena aldeia isolada.


No primeiro dia, o nosso pai levava-nos ao terreno onde eles armavam o aprisco, uma sebe de madeira desengonçada, que abria por uma cancela e onde, ao fim da tarde, com a ajuda dum grande cão que nos fazia muito medo, encurralavam o rebanho até ao dia seguinte. Durante esse tempo, o chão cobria-se do estrume que havia de fertilizar aquele campo, onde mais tarde se semeariam e colheriam muitos sacos de óptimas batatas, o alimento base da família. Decorrida essa noite, a vedação era mudada, e, depois, tantas vezes quantas as necessárias, até todo o terreno ficar estrumado e pronto para ser cultivado.


Mas a parte mais excitante de todo este afã era a «ceia dos pastores», que fazia parte do contrato e que consistia num rescendente caldo-verde acomodado na parte inferior da grande marmita, acompanhado por uma generosa porção de batatas cozidas e tiras de toucinho fritas que enchiam a parte superior. A ceia era confeccionada, pela minha Mãe, com o mesmo esmero que punha na preparação das nossas refeições, geralmente um pouco mais elaboradas. Mas mal nos chegava o cheirinho do caldo verde bem regado com azeite da nossa safra ou ouvíamos rechinar o toucinho na frigideira, aí nos íamos nós aproximando como quem não quer a coisa, e a minha Mãe, habituada a esta cena, já tinha contado connosco e distribuía por todos nós, que éramos quatro, o nosso quinhão da «ceia dos pastores». Quando chegava a hora da nossa, podia haver os melhores petiscos, mas nós já estávamos saciados e felizes por termos partilhado daquela comida simples, e, durante um mês, nunca nos enfastiávamos.


Ainda hoje, tantos anos decorridos, me parece sentir aqueles cheirinhos bons, que me trazem à memória a minha casa de infância, a paciência e ternura da minha Mãe e, por isso achei perfeitamente natural, ao ler, muito mais tarde, no livro de Marcel Proust, «Em busca do Tempo Perdido», a evocação comovida da «madalena», essa ligação afectiva e saudosa aos tempos passados, que tivemos por felizes.


Lisboa, 27 de Junho de 2009


Clementina Relvas


publicado por clay às 09:11 | link do post | comentar | favorito
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