Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 06.08.09

 Meus queridos netos:


Como era de esperar numa menina gentil como a nossa netinha, também o Vôvô (e o Papi, como verão), foram contemplados com longas mensagens, muito carinhosas e bem escritas, em que ela exprime todo o amor que nos dedica. E como não era justo, e até podia ser levado à conta de vaidade, que eu só pusesse no blogue a que me foi dirigida, aqui fica também a que muito comoveu o Vôvô, tanto mais que foi escrita no dia 26 de Julho, «Dia dos Avós»:


O meu vôvô:

O meu vovô chama-se Emílio Miranda Relvas. Ele poderia ser um famoso escritor de histórias, escrevendo, na maior parte das vezes, sobre a sua vida e aventuras passadas. Mas prefere escrever para a sua netinha que gosta tanto de ouvir as suas histórias aventureiras.


Muitas vezes o avô relembra-se da sua antiga vida, de quando era ainda mais novo e percorria o mundo em busca de novas aventuras. Ter tido uma vida tão diferente desta, em Angola, fez com que o vôvô tivesse possibilidade de colher muitas e variadas experiências. O meu avô andou muito pelas terras angolanas onde até fez de juiz. Uma vez encontrou-se perante uma situação muito complicada. Resumindo, dois homens e um cão. Pois, podem pensar que mal têm dois homens e um cão? Na verdade não tem mal nenhum, se não se desse o caso de ambos os senhores angolanos reclamarem o cão, dizendo ambos serem os seus donos. O meu vôvô não sabia bem como resolver tal situação, pois não havia maneira possível de provar de quem era realmente o pobre animal. Pensou arduamente em como resolver este caso, mas simplesmente não lhe ocorria qualquer solução. Mas de repente teve uma ideia: pensou numa antiga história, a sentença de Salomão. Claro que não iam dividir o pobre do animal ao meio. Chamaram os senhores que afirmavam serem os dois os donos do cão, e pediram para irem cada um para seu lado de uma grande sala em que se encontravam. O cão foi posto exactamente no meio da sala, entre os dois “donos”. Depois o meu avô ordenou que ambos chamassem pelo nome do rafeiro. O verdadeiro dono seria o que o cão escolhesse para ir ao seu encontro. A princípio, o animal parecia um tanto indeciso mas, felizmente, decidiu-se e, assim, se resolveu o problema.


E, passado tanto tempo, o meu avô veio para Lisboa e, alguns anos depois, recebeu, como prenda, uma netinha chamada Cristina. Foi o meu avô que me foi buscar tantos anos seguidos à escola, quando ainda morava em Lisboa. Esperava por mim ao portão e lá vinha eu toda animada de poder estar de novo com os meus avós. Todas as vezes o meu vôvô agarrava-me com a sua tão grande mão (nessa altura a mão dele parecia-me muito maior que agora, mas isso devia-se a que eu era muito mais pequenina que ele, agora já estou muito maior) no meu tornozelo e via se ainda estava acordada, pois tinha o hábito de adormecer de imediato logo que entrava no carro. Eu acordava logo e fingia não estar nada ensonada. A reacção do meu avô era rir.


Como já contei no outro texto sobre a minha vóvó nós íamos a muitos parques. Quem nos levava aos parques? O meu vôvô. Uma vez, no parque de Monsanto, sucedeu um pequeno “acidente”. Eu estava toda animada a brincar ao pé do lago, até que a certa altura caí lá dentro e fiquei encharcada. O vôvô teve de ir a casa buscar-me roupa seca e uma toalha. Mesmo assim estava o tempo todo sorrindo.


O vôvô adorava jogar Xadrez. Um dia ele convenceu-me a jogar um joguinho com ele. Primeiro teve a paciência de me explicar como se jogava este novo jogo, que, ao princípio, me pareceu muito complicado; mas com o passar do tempo, tornou-se mais fácil. Com tanta prática adquirida a jogar com o vôvô, comecei a ganhar muitas partidas. Então tive de me concentrar noutro adversário que estivesse á minha altura: o papi. Mas agora que estou mais velha nem o papi me consegue ganhar (só quando estou muito cansada e ele teima jogar mais um jogo). Mesmo assim gosto de ter um bom jogo com o meu antigo “professor” de Xadrez, o vôvô. Espero disputar ainda muitos jogos com o meu vôvô e aprender muito mais técnicas de como ultrapassar um obstáculo, não só no jogo mas também na vida.


Com muito carinho,
Para o melhor vôvô do mundo!
Cristina Kohlhoff Feijó Relvas
25 de Julho de 2009

 

publicado por clay às 00:12 | link do post | comentar | favorito
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