Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 01.09.09

Meus queridos netos:


Nos tempos longínquos da minha infância, numa pequena aldeia em que não havia talhos nem hipermercados, toda a gente procurava viver com os produtos da terra por si cultivados e com os animais que criava em galinheiros e pocilgas.


Era o caso do porco que o meu Pai ia comprar, ainda leitão, a uma das feiras das redondezas e que, durante meses e meses crescia e engordava, alimentado com vegetais, legumes, castanhas e com os restos da comida que sobrava das refeições.


Quando se aproximava o mês de Novembro, esgotadas já todas as reservas de carne do ano anterior, procedia-se à matança do porco, que congregava parentes e vizinhos, encabeçados pelo algoz, sempre o mesmo, perfeito sabedor do seu ofício. Havia uma alegre azáfama, pois, quando tudo terminava, juntavam-se num festim em que se saboreavam as primeiras bifanas, acompanhadas de batatas e fartas rodadas de vinho.


Para mim e para os meus irmãos, que tínhamos visto crescer o bicho e, sobretudo os mais pequenos, que logo lhe arranjavam um nome carinhoso, era esse um dia de tormentosa aflição. Mal víamos chegar o «matador», logo nos afastávamos para bem longe, onde, apesar da distância, ainda nos chegavam, embora esbatidos, os gritos aflitivos daquela agonia que nem a perícia do carrasco abreviava. Tapávamos os ouvidos, enxugávamos uma ou outra lágrima que não queríamos chorar para não dar parte de fracos. E, quando deixava de cheirar a chamusco, pois todos os pelos tinham sido queimados e raspados e já tudo se tinha aquietado, lá nos íamos aproximando, muito relutantes pois sabíamos que dramático espectáculo nos esperava: o porco dependurado dum barrote (chambaril?), com a enorme barriga aberta de alto abaixo e já despojado de todas as suas vísceras e miudezas.


Nesse dia todos nos recusávamos a comer aquela carne, sacrificada à nossa sobrevivência. Mas por ali ficávamos, entre enojados, tristes e curiosos a ver o corrupio das mulheres: umas iam lavar as tripas do porco, que depois de cheias, se transformavam em moiros (os mais grossos) e moiras (as mais delgadas), em chouriços, salpicões, alheiras e farinheiras que logo iam, enfiadas em compridas varas, pender sobre o lume de lenha, aceso no lar da cozinha, para serem secas e fumadas; outras iam cortando as carnes adequadas, algumas para serem marinadas em «vinha de alhos», outras, bem gordas, para encher o bucho que se reservava para as vésperas da Quaresma. Os homens pegavam nas enormes pás e espáduas do animal, para as salgarem e porem também a fumar, até que se transformassem nos deliciosos presuntos, As mantas de toucinho, bem como a cabeça e os pés, iam para a salgadeira, uma arca de madeira, onde eram cobertas de sal, para se conservarem e serem gastas conforme as necessidades. Como todos por ali diziam:
«Tudo, no porco se aproveita».


Resta apenas acrescentar que, uma vez transformado em produtos tão diferenciados, ia-se esfumando na nossa memória infantil, a imagem do grande porco que víramos crescer e nos regalávamos com tão saborosos petiscos, enquanto, no chiqueiro do quintal, outro porco era cevado para, na altura própria, ter idêntico destino.

 

Beijinhos e até à próxima carta

 


publicado por clay às 01:05 | link do post | comentar | favorito
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