Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 18.10.09

 Meus queridos netos:


Depois de o Vôvô vos transmitir, com tanta graça, a velha História da Carochinha, que também encantou a minha infância, vou tentar reciclar, para o vosso tempo, essa famosíssima criação da literatura tradicional.


Não sei se, como diz o Vôvô, a acharam pirosa mas certamente, pelo menos enquanto a liam, não se importaram com saber como é que o João Ratão casou com a Carochinha, depois do extraordinário desfile de tão patuscas personagens e das habilidades com que pretendiam arranjar noiva.


Não é mais nem menos inverosímil do que as aventuras do Harry Potter e dos seus bruxedos, nem das narrativas de dragões e de vampiros que tanto deliciam os jovens leitores deste nosso tempo.


Pois então aí vai a minha Carochinha, reciclada para os meus netos e seus amigos:

 

Para já, «Não era uma vez…». Aconteceu realmente e acontece todos os dias: ia realizar-se um casting, para escolher a personagem principal para uma telenovela, já amplamente publicitada. Como habitualmente, apresentaram-se várias candidatas, todas bonitas, embora algumas delas mais do que outras. Antes da chamada para serem avaliadas pelo júri, aguardavam todas numa sala de espera, com o coração pequenino de ansiedade e procurando, desde logo, fazer valer os seus respectivos méritos:


- Eu frequentei uma escola de dança, onde também tive aulas de representação e toda a gente dizia que eu tinha muito jeito.


- Eu já fiz um pequeno papel numa telenovela, quando ainda era criança e todos diziam que estava ali uma futura actriz.


- Eu aproveitei uma curtas férias dos meus pais, em Londres, para fazer um workshop para actuação em telenovelas.


E assim por diante…


Na mesma sala, mas fazendo grupo à parte, todos muito calados, estavam alguns rapazes entre os quais se destacava um, de porte atlético e feições perfeitas, para o qual todas olhavam, rezando que fosse aquele o escolhido para galã, pois cada uma contava vir a contracenar com ele. Feita, pelo júri, a esperada selecção, todas ficaram estarrecidas: o cobiçado rapaz fora, de facto, o escolhido mas, para sua parceira, o voto foi para uma das meninas que, na sala, se mantivera sempre em silêncio, pensando, lá para consigo:


- Todos os que me rodeiam dizem que sou bondosa e bonitinha, que tenho graça e talento, mas a verdade é que nunca pisei um palco. Também simpatizo com o Rafael, mas, se for outro o meu par, só quero é que ele seja simpático, esforçado e que ambos façamos a dupla que se espera de nós. Mas talvez seja desejar demais…


Passaram-se as semanas de ensaios, seguiu-se a longa gravação dos episódios até ao final da telenovela. E, também, o convívio da Helena com o Rafael, que se apaixonaram perdidamente e já tinham planos para casar.


Só que um dia, malfadado dia! o Rafael foi fazer uma farra com os amigos e, no regresso, entusiasmados com a potência do carro, largaram numa velocidade descontrolada e foram estatelar-se contra a guarda da estrada, batendo nela com a frente do carro e causando a morte imediata do condutor e do Rafael, que seguia a seu lado.


A telenovela foi um sucesso de audiências, mas a Helena pensou que nunca mais poderia representar qualquer outro papel, viúva, inconsolável do seu herói, no ecrã e na vida.

                                …………. 

  Enganou-se redondamente a Helena: não contou com a sua juventude, a sua beleza e energia transbordantes, nem com as voltas que o mundo dá. Passado o tempo do luto, encontrou, na Faculdade onde voltara para terminar o seu curso de Relações Internacionais, o Bruno, que levou algum tempo a conquistá-la. Casaram algum tempo depois, vindo a partilhar com ele uma longa vida cheia de aventuras e de agradáveis emoções, às vezes em países estrangeiros, para onde as suas profissões os levava e aos filhos de ambos que, entretanto, vieram afastar da sua vida toda a tristeza e toda a dor passadas, deixando apenas, lá longe, uma recordação boa de se lembrar. E atribuindo-lhe um novo papel, que ela procurou sempre desempenhar com o brilhantismo que sabia e gostava de pôr em tudo.

 

E por hoje é tudo. Beijinhos da Vóvó.

publicado por clay às 00:01 | link do post | comentar | favorito
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