Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 27.11.09

 

Para o Emílio

 

Amor, o pinheiro-manso,
tua árvore predilecta,
com sua copa redonda,
perfeitamente redonda,
verde e sem falhas,
correcta;
sem desafiar o céu
e bem assente na terra,
donde tira o seu sustento,
sem querer mais do que é seu;

Amor, o pinheiro-manso
de copa verde, redonda,
dando sombra a toda a gente
que nela busca refúgio,
seduz-te e é o sinal
do teu retrato interior
que eu tenho sempre presente
e que se fez meu sinal
do que pode o teu amor.

Protegida pela sombra
do teu amor vigilante,
és força que me dá força
e me protege do mal
a cada instante.

És o meu pinheiro-manso,
tua árvore predilecta
e minha, porque, afinal,
há longos anos que somos
dois num só, em linha recta
do caminho percorrido
em nossa vida discreta.

publicado por clay às 18:45 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 21.11.09

 

Meus queridos netos:
 
                               Hoje vou deixar-vos uma carta diferente, cujo significado talvez escape à vossa tenra idade. É preciso viver a vida com intensidade, deixar correr muito tempo, para nos darmos conta da essência do tempo e da vertente psicológica que o integra, ou seja, da sua relatividade, conforme o demonstrou um grande cientista: Albert Einstein.
                               E assim, com uma certa dose de ironia, escrevi, há anos, estes dois textos:
                                              
 
                               CRONÓMETRO IRÓNICO (I)
 
                               Num minuto, o que é que posso escrever que valha a pena? Entre o nascer e o morrer, o tempo é curto, é longo, tudo depende de quê? De como se viveu e morreu, dizem…
                              
                               Em dois minutos já posso reflectir sobre a vida: para quê estar vivo? E porquê? Não vou emperrar nestas interrogações sem resposta, senão arrisco-me a não viver, mas apenas a escrever bagatelas. Já terão passado dois minutos? Que longa é a vida!
 
                               Em três minutos… Três minutos? É uma eternidade. Quase dá para escrever um conto, se me souber limitar ao essencial. Bem, apesar deste prólogo e das rasuras, que não eram essenciais,  ainda tenho um minuto para tentar o conto: “ O ponteiro corria célere e ia matando o tempo. Avançou um, dois, três…” Gastei cinco segundos a mais, num conto incompleto.
 
 
                            CRONÓMETRO IRÓNICO (II)
 
E agora, sem me preocupar com o tempo, eis uma pequena história ainda sobre o tempo:
 
                               “ Tenho dezoito anos e estou apaixonada. Vou ao encontro do amado, através do jardim, onde o perfume do buxo e das rosas se mistura. O sangue corre mais rápido nas minhas veias, alvoroçado pelo eco dos passos familiares que se aproximam. Uma eternidade até chegar junto dele, afagar a sua mão, tão suave, tão doce, única entre todas as mãos! Um êxtase, um beijo onde se quer guardar a vida e a eternidade… Da torre fronteira vem o aviso de que já passou a manhã e estamos atrasados. Quem diria?”
                                              
Lisboa, 16 de Agosto de 1986
Clementina Relvas
 
Beijinhos da Vóvó
 
publicado por clay às 16:46 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 14.11.09

Quero lavar os olhos de tanta guerra

de tanta pornografia
- política ou outra –
de tanto egoísmo,
de tanta incoerência,
de tanta insensibilidade.
 
Mas deixem ficar nos meus olhos
os ghettos onde se morre de todas as fomes,
os jovens despojados dos seus sonhos
trocados por sonhos artificiais,
os velhos abandonados
ou sentidos como um fardo,
os casais jovens que só podem ter um filho.
Por falta de meios,
por falta de tempo
ou por falta de espaço.
 
 
Deixem-nos ficar nos meus olhos,
para eu não poder recusar
a minha parte de culpa.
  

 

 

    Memorial da Emigração Portuguesa em França

 

Da autoria do escultor português Rui Chafes, a obra intitulada «Venho de ti/ Je viens de toi» está instalada no Parque du Plateau de Champigny-sur-Marne, localidade nos arredores de Paris onde entre 1956 e 1974 milhares de portugueses se instalaram em barracas criando um dos maiores bairros de lata de França.
Construído na totalidade com o apoio de bancos e de empresas portuguesas, o monumento materializa-se numa escultura em ferro com mais de seis metros de altura. Em declarações à Agência France Press, o escultor Rui Chafres explicou que o monumento é “como uma flor selvagem, com as raízes a saírem directamente do solo onde se encontrava o «bidonville»”.

Entre 1956 e 1974, cerca de 15 mil portugueses instalaram-se em Champigny-sur-Marne, em terrenos que tinham sido destinados pela Estado francês a grandes projectos imobiliários que demoraram a realizar-se. O local transformou-se num «bidonville», um dos maiores «bairros de lata» de França.
 
Fonte : www.embaixada-portugal-fr.org/blog/blogger.htm
 
publicado por clay às 15:45 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 07.11.09

 
Meus queridos netos:


Para amenizar o tom de algumas das minhas cartas, resolvi partilhar convosco um texto por mim escrito há muitos anos, em que evoco uma situação real da minha infância: no Inverno, passávamos o serão à volta do lume, aproveitando o calor bom da fogueira, (onde crepitavam os toros de carvalho ou as cepas podadas das videiras) e, principalmente, o ambiente carinhoso da família, entretida com as inúmeras histórias saídas da memória ou da imaginação da minha Mãe. Quando ficávamos sozinhos, pegávamos num pau ou vide, acendíamo-lo no brasido e, fazendo-o girar, inventávamos mundos que só as crianças são capazes de criar e de entender. Assim:


- Ó grilinho , ó meu grilinho cri-cri! Já estou há tanto tempo à tua espera e tu hoje nunca mais chegas…


Na lareira ardem as últimas brasas e já todos se foram deitar. Fizemos muitos bonecos de fogo, brincando com eles até morrerem. Havia uma borboleta dourada e um carro de chamas puxado por dois cavalos brilhantes e uma bruxa velha que não brilhava mas deitava labaredas, o que pode ser perigoso.


Agora, os bonecos já morreram todos. E é por isso que tenho frio. Por isso e porque estou sozinho, à tua espera. Vem ter comigo e põe-te a cantar como nos outros dias: cri-cri-cri-cri-cri-cri.


Quando todos se foram embora e a cozinha começou a ficar escura, eu não tive medo das sombras. Acendi, outra vez, a minha varinha de vime e pus-me a fazê-la andar à roda. As sombras ficaram cheias de estrelinhas vermelhas e desenhei uma estrada muito comprida. Depois, eu era um capitão invencível e cada estrela um exército que eu comandava. A borboleta era, agora, uma princesa encantada e as estrelas caíam das suas mãos por ela ser a menina mais bondosa do mundo.


Vem, ó grilinho! O lume está quase apagado. Eu estou sozinho, tenho frio e tu esqueceste-te de me vir dar as boas noites. Se tu vieres depressa… mostro-te os meus bonecos de fogo… comando para ti o meu esquadrão de estrelas… e hás-de ver a menina que traça no mundo, ao passar… que traça no mundo…que traça...


-Cri- cri- cri- cri- cri- cri- cri!


Só então a Mãe se lembrou de que o menino tinha ficado a sorrir, ao pé do lume, como se estivesse à espera dum amigo ou duma avozinha velha, que sabe muitas histórias. Pegou ao colo no seu menino que continuava a sorrir e deitou-o na cama pequenina, enquanto, na cozinha, um grilo se lamentava:


-Cri… cri…cri…cri..cri…


Lisboa, escrito há muitos anos e revisto em 12 de Novembro de 2009, para que os dois tenham sempre a recordação de muitos momentos maravilhosos. Beijinhos, beijinhos!


 

 

publicado por clay às 23:26 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 04.11.09

 

Assisti, no dia 13 de Outubro passado,pela Televisão, às cerimónias que, em Fátima celebraram a última aparição, em 1917, de Nossa Senhora aos três pastorinhos. Como sempre comoventes e de grande elevação espiritual, tiveram este ano, consagrado como Ano Sacerdotal, uma notável homilia do Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, que todos os fiéis, povo sacerdotal, deviam ler e meditar.


Entre as inúmeras referências a Nossa Senhora, foi invocado o episódio das Bodas de Caná, com a intervenção de Maria em favor daqueles noivos, prestes a passar por um grande embaraço, ao darem conta que não havia mais vinho.


Veio-me então à memória um episódio ocorrido em S. Jorge, nos Açores, durante um bodo em louvor do Espírito Santo, para o qual tinha sido convidada.


Havia grande abundância de comida, a começar pelas sopas do Espírito Santo, seguidas por grandes travessas de alcatra e muitos doces, bem como vinho de cheiro e refrigerantes. Via-se que, se mais pessoas chegassem, ainda que não convidadas, para todas chegaria o almoço. No entanto, não podia deixar de se reparar no nervosismo da dona da casa que, quando eu procurei acalmá-la, dizendo-lhe que tudo estava perfeito, me respondeu:


- Ó senhora, que o Divino Espírito Santo a escute pois, se a comida ou a bebida faltassem, o que aliás nunca aconteceu, eu teria de sair de casa, coberta de vergonha, pela porta das traseiras e não sei quando arranjaria coragem para voltar.


Foi por se deparar com uma situação semelhante que Nossa Senhora, nas Bodas de Caná, disse, aflita, para o Seu Filho: «Não têm vinho» e que Ele, apesar de lhe responder que ainda não tinha chegado a Sua hora, realizou o Seu primeiro milagre, transformando a água das purificações num vinho tão excepcional que levou os convidados a espantarem-se por os noivos, contra o que era o costume, guardarem para o fim da festa o melhor vinho que tinham.

                                IMPÉRIOS Açorianos

O bodo — No 7.º domingo após a Páscoa (dia de Pentecostes) realiza-se o bodo. Nesse dia, o cortejo depois de sair da igreja dirige-se ao Império, sendo as coroas e bandeiras aí colocadas em exposição. Frente ao Império, em longos bancos corridos são colocadas as esmolas, que depois de abençoadas são distribuídas. Os irmãos recebem-nas e todas as pessoas que passam podem livremente servir-se de pão e vinho. No entretanto são arrematadas as oferendas, normalmente gado, alfenim e massa sovada. (in Wikypédia)

 

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publicado por clay às 15:58 | link do post | comentar | favorito
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