Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 12.12.09

                                  

 

                Nascera naquele cantinho por um verdadeiro milagre: numa noite de muito vento, todas as sementinhas andaram num rodopio, meio tontas e ela viera ali parar.
                A princípio não gostou: era um estreito socalco sustentado por um muro de pedras e a terra era dura, seca… Quem poderia ali criar raízes?
                Mas um dia, na aldeia, começaram as ladainhas. O povo, já cansado de ver o céu sempre azul, enchia serras e vales de cânticos desesperados. Pedia água, o sangue da terra. Os caminhos já não eram caminhos, eram rotas de penitência. E, finalmente, choveu. A terra fez-se macia, suave, terna. E, em breve, tudo se transfigurou: as árvores encheram-se de ramagens e de ninhos, de cada átomo de terra surgia uma hastezinha verde e até as pedras se cobriram de musgo e acolheram nos seus interstícios numerosas florinhas silvestres.
                A semente de lilás partilhara do milagre. Passou Fevereiro. Passou Março. Agora era já uma arvorezinha esguia, de folhagem verde-escura, toda vibrante de canções que a brisa lhe murmurava ao ouvido. E sentia-se feliz: aprendera a olhar para as coisas e quantas maravilhas descobrira! O seu chão já não era duro na angustiada espera da chuva. Os socalcos, à sua volta, eram suportes de cortiços e as abelhas faziam-lhe boa companhia, sempre contentes e a fazer pela vida. Em cada socalco, uma amendoeirinha da sua idade enchia de brancura aquele recanto onde se julgara perdida e havia perfumes bons por toda a parte: a rosmaninho, a mel, a alecrim…
                Aproximava-se a Páscoa. A Primavera tinha chegado há pouco e o seu árduo labor não terminara. “Fada de bom fadar”, alegrava tudo aquilo em que a sua varinha mágica tocava. Cada rebento, cada flor, cada rego de água vivia na expectativa de novo milagre.
                O  coração do jovem lilás não lhe cabia no peito. Desejava despegar-se daquela terra, embora já a amasse , e deixar-se levar nas palavras suaves do vento que lhe falava de tanta coisa maravilhosa, em países distantes. Desejava ser todas as aves, o seu voo e os garotinhos da aldeia que vinham largar barcos de papel no regatinho ali ao lado e partiam para viagens sonhadas e sem fim.
                E nessa manhã, nessa manhã em que, pela primeira vez, se cobriu de flores, veio a saber que o seu destino era ainda mais belo. Foi então que chegou a menina e se pôs a bater palmas de contente. Depois, de mansinho, com os seus dedos suaves como asas, começou a recolher, um a um, os cachos perfumados do lilás. E só depois, quando já era uma grinalda sobre a brancura da toalha pascal, em volta dos bolos de azeite, da enorme laranja que exibia a moeda do óbolo e da garrafa de vinho generoso,  quando na sala entrou Cristo e o perfume da Ressurreição é que o lilás percebeu qual o verdadeiro milagre do seu destino.
 
                O lilás já viveu muitos anos e tornou-se um arbusto frondoso. Houve secas e desespero e, cada ano, a chuva chegou. A menina já não bate palmas e tem menos suavidade nas mãos.
Mas, todos os anos, quando a Semana Santa se aproxima, o lilás sente desejos de se desprender da terra e espera pelo milagre.
                Depois vai, humildemente, enfeitar a toalha pascal e perfumar a visita de Cristo.
 
publicado por clay às 00:17 | link do post | comentar | favorito
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