Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 08.05.10

   

              A multidão aguardando a chegada de Bento XVI ao Terreiro do Paço

 

 

                                                                                

                                   Meus queridos netos:

 

A predilecção de Nossa Senhora por Portugal, escolhendo a Cova da Iria para se manifestar aos Pastorinhos e lhes transmitir tantas e tão importantes mensagens para o nosso País e para o Mundo, foi uma inesgotável fonte de graças: deu-nos três almas santas, Lúcia, Francisco e Jacinta para serem nossos guias espirituais e nossos intercessores junto de Deus e deu-nos o privilégio de trazer a Portugal, em poucas décadas, três Papas que escolheram ser peregrinos de Fátima por amor à Virgem Maria.

 

Em primeiro lugar, em 1967, Paulo VI que, dois anos antes, em 1965, distinguiu o Santuário de Fátima com a Rosa de Ouro, visitou Portugal, para celebrar o cinquentenário das aparições e onde esteve apenas oito horas, mas fez dois discursos, celebrou uma Eucaristia e nos dirigiu exortações tocantes como esta: “Homens, sede homens. Homens, sede bons, sede cordatos, abri-vos à consideração do bem total no mundo. Homens, sede magnânimos”.

 

João Paulo II veio três vezes a Portugal: em 1982, um ano após o atentado na Praça de S. Pedro, para agradecer a Nossa Senhora a sua intervenção milagrosa, que lhe salvou a vida e para lhe oferecer a bala do delito, agora incrustada na coroa da Virgem; em 1991, quando visitou os Açores, a Madeira e Fátima, tendo permanecido em Portugal setenta e cinco horas e celebrado, entre outras, uma missa no Estádio do Restelo. A essa missa assistiram multidões entusiásticas, com grande predomínio de jovens, seduzidos pelo carisma do Papa que tinha adoptado para divisa uma declaração de profundo amor a Nossa Senhora “Totus tuus” (Todo teu) e procurado incutir-lhes ânimo através da expressão tirada do Evangelho e que usou repetidamente:”Não tenhais medo”.

 

No ano 2000, João Paulo II, já muito debilitado e deslocando-se sempre no papa-móvel, esteve novamente na Cova da Iria para proceder à beatificação dos Pastorinhos e revisitou Lisboa.

Este ano, é a vez de Bento XVI, que, na sua qualidade de Chefe de Estado do Vaticano, terá várias honras oficiais e, como Papa, celebrará, no dia 12 de Maio, missa em Lisboa, no Terreiro do Paço, no dia 13 presidirá a várias cerimónias em Fátima, e, no dia seguinte, honrará o Porto com a primeira visita papal e celebrará missa na Avenida dos Aliados.

 

Com o maior dos pesares, nunca me foi possível integrar a multidão de fiéis que acolhem cada Papa como se fosse o próprio Jesus. Mas vivi a singularidade de ir a Roma e ver o Papa… morto.

 

Estava em Roma, integrada numa excursão que se preparava para ir ver e ouvir o Papa, João Paulo I, eleito há pouco mais dum mês, quando o nosso guia nos trouxe a inesperada notícia da morte deste Pontífice, o que, primeiro, tomámos como brincadeira de mau gosto, mas que depois, ao confirmar-se, nos deixou a todos consternados, pois todos o amávamos e admirávamos.

 

O nosso programa teve de ser alterado: nesse dia visitámos a Basílica de S. Pedro, cujas imagens iriam ser veladas por panos negros e também o Museu do Vaticano e a Capela Sistina, encerrados no dia seguinte. E, como soube que se podia visitar o Papa morto, nos seus aposentos até ao fim da tarde, integrei-me numa longa fila e aguardei pacientemente a minha vez. Tinha apenas seis pessoas à minha frente quando, pelos altifalantes, nos avisaram de que já não entraria mais ninguém. Criou-se uma onda de pânico e por pouco não fui esmagada pela multidão. O que não tinha qualquer razão de ser porque, no dia seguinte, toda a gente pôde desfilar diante do sarcófago, entretanto trasladado para a Basílica.

 

E assim tive a oportunidade de, estando em Roma nesses dias, ter visto o rosto sereno de João Paulo I, o Papa Sorriso, que já tinha partido para Deus.

 

                                   Lisboa, Maio de 2010

 

                                   Clementina Relvas

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