Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 25.06.10

 

                         Quando começaram a atirar imprestáveis para aquela sucata, lançaram para lá, à toa, uma velha enxada que o seu dono tinha usado durante muitos anos e guardado depois, saudosamente, já que, só lá de quando em quando, a utilizava para dar um jeito em canteiro mais esquecido.

         Agarrada à enxada, ia uma sementinha que, com a queda, foi parar a um pequeno pedaço de terra ainda a descoberto, ao lado dum velho regador já sem o ralo e com muitos furos e amolgadelas.

         Ao fim dalgum tempo, a sementinha espantou-se de sentir a terra húmida e, quase sem dar por isso, começou a inchar, a inchar e em breve saiu cá para fora um caulezinho de nada que se foi desenvolvendo, derramando-se em folhas e, por fim, num botãozinho duma flor.

        Enquanto se desenvolvia, a sementinha agora planta ia-se entretendo a observar o que se passava a sua volta.

       A princípio, assustou-se muito com os estrondos que faziam, ao cair, velhos frigoríficos já sem gás, máquinas de lavar entupidas de cálcio e até alguns automóveis que, ao vê-los, se ficava com a estranha impressão de que bem gostariam de contar as suas vidas recheadas de viagens e aventuras, mas rematadas por um fim dramático, como bem se podia adivinhar pelas suas destroçadas carcaças.

      Depois, quando se sentiu já mais adaptada àquele estranho ambiente, começou a reparar em coisas mais pequeninas: máquinas de café, torradeiras e um velho regador que lhe tinha calhado por vizinho e que, sem ela dar por isso no fundo da sua prisão, lhe tinha ido preservando a vida pois, a cada vez que chovia, lá guardava ele o seu bocadinho de água que não se escapava pelos buracos e ia deixando cair, espaçadamente, sobre a sementinha e, mais tarde, no pé da pequena flor.

       Ah! Ainda não revelei que o botãozinho desabrochara num malmequer de enormes pétalas brancas, distribuídas à volta dum centro amarelo, onde as abelhas iam desencantar o pólen, levando assim, para aquele sítio que parecia amaldiçoado, uma pequena festa de danças e de zumbidos.

        Mas, há sempre um mas…

        Claro que a flor, por mais resistente que fosse, não podia durar sempre. Simplesmente, aconteceu um milagre: quando retiraram a sucata para a reciclarem, ficou ali uma enorme mancha de terra, preta dos óleos e da sujidade que por ali se foram acumulando.

       Aconteceu – e aí está o milagre – que o filho do patrão, um rapaz dos seus dezasseis anos, tinha recebido, como prenda de aniversário, uma moderníssima máquina digital, que jamais abandonava, sempre na esperança de tirar a tal fotografia, a fotografia duma vida. Vendo o esplendoroso malmequer, completamente sozinho naquele enorme e feio descampado, foi seduzido pelo contraste e logo lhe tirou uma fotografia, que lhe pareceu ser a tal.

       De facto, algum tempo depois, houve um concurso para fotografias que tivessem por tema a ecologia. O rapaz concorreu cheio de esperança e com fundada razão: ganhou o primeiro prémio.

       Não me digam que ainda não repararam num anúncio da Televisão que divulgou por milhões de pessoas a imagem do malmequer afortunado, não deixando que ele morresse nunca.

       Mas ele sim, reparou. Ficou feliz e cheio de orgulho, mas com uma estranha dor a minar-lhe e coração: gostaria de ver, ali a seu lado, o velho regador que, meio desfeito, o tinha ajudado a passar de sementinha a flor, como uma mãe carinhosa que, cumprida a sua missão deixa o seu filho livre de seguir o seu destino.

 

 

                            Clementina Relvas

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Sábado, 19.06.10

                           

 

                  Todos os anos, quando o Inverno estava prestes a chegar, aquela andorinha integrava o seu bando e rumava ao sol do Norte de África.

 

                 Aí, em vez de fazer o seu ninho de gravetos e de lama no beiral da Igreja paroquial, como era seu costume, ia instalar-se no rebordo da Mesquita, onde sempre tinha sido muito bem recebida, pois era tida por mensageira da paz e da fertilidade. É verdade que, cinco vezes ao dia, o brado do muezzin, chamando os crentes à oração, lhe transtornava um pouco o sossego mas, como ela era tolerante e muito prática, aproveitava esses momentos para ir dar um passeio: umas vezes dirigia-se às margens do Nilo, onde contemplava as falucas , os cavalos puxando carruagens já muito usadas, com turistas deslumbrados, sempre a disparar as suas máquinas fotográficas ou pondo-se à conversa com outras vizinhas, que adoptavam o mesmo estratagema; outras vezes dirigia-se ao Grande Bazar e, embora soubesse que aí não era muito desejada, escondia-se num buraquinho donde podia observar os frutos variados e apetitosos, as especiarias tão coloridas e perfumadas que quase a faziam desfalecer, as extensas montras dos ourives cheias de brilhos ou o estendal de tapetes com os mais variados desenhos e cores. Era divertido, mas também um pouco fatigante, sobretudo devido ás intermináveis discussões necessárias para se chegar a acordo sobre um preço que satisfizesse vendedor e comprador.

 

                 Assim, mal lhe parecia que, por agora, o muezzin se tinha calado, regressava ao aconchego do seu ninho, no rebordo da Mesquita. Dormia então a sua soneca, reparando as forças para a viagem que, a seu devido tempo, a havia de trazer, de novo, ao doce sol de Portugal e ao beiral da sua Igreja que, em vez do vozeirão do muezzin, desfiava alguns acordes duma suave melodia, para anunciar as horas ou chamar os fiéis para a missa.

 

                 Mas, naquele ano, na sua viagem de regresso, o seu coração foi ficando apertado, primeiro com maus augúrios e depois com o que via: ao longo da Europa, o caminho que mais gostava de percorrer – não conseguia localizar certas aldeias que simplesmente tinham sido arrasadas pelas cheias; via florestas inteiras com os ramos despidos, atingidas pelas chuvas ácidas. E sentia-se desnorteada, pois nenhuma daquelas paisagen lhe era familiar.

 

                 Ao passar sobre um lago, no Sul de Espanha, ia-lhe caindo a alma aos pés: dezenas de aves e de peixes mortos ocultavam as margens, onde tinha pensado parar um pouco para recobrar as forças. Teve de seguir caminho e, um pouco mais adiante, poisou num bonito castanheiro mas logo se apercebeu de que ele estava doente, com o grosso tronco cheio de manchas vermelhas, verdadeiras chagas, de difícil cicatrização.

 

                 Olhando à sua volta, viu que já estava na fronteira de Portugal, portanto perto da sua primeira casa, onde iria construir ou reparar o seu ninho e criar uma nova família.

 

                 Tomou alento e foi voando, sem a alegria dos anos anteriores, mas sempre esperando voltar a encontrar os prados verdejantes, os ribeirinhos límpidos e múrmuros e, finalmente, a sua Igreja branquinha, de torres esguias e beiral acolhedor. Mas o seu coração ia parando, ao sobrevoar o regatinho que deixara límpido e agora estava acastanhado com as descargas provenientes de pocilgas que, como cogumelos, foram crescendo a toda a volta da aldeia.

 

                 Era meio-dia. Estava frio, ao contrário do que sempre tinha acontecido. Procurou a Igreja, ansiosamente, mas só viu um montão de ruínas. Até as duas torres esguias tinham sido devoradas por um incêndio, culpa de alguém que, maquinalmente, atirara um fósforo ainda aceso para a bonita mata circundante, onde ela tinha sempre mesa posta, no Verão, graças aos inúmeros piqueniques, sobretudo de emigrantes a celebrar o reencontro com a terra, a família e os amigos.

 

     Sem pontos de referência, desolada, a andorinha, enfiando-se no buraco duma parede semi desfeita escondeu a cabeça debaixo das asas e desatou a chorar.

    …………………………………………………………………

 

     Mas eis que chega a velha Titá, sua amiga de muitos anos e lhe pergunta se não quer continuar sua vizinha, num sítio lindo que tinha encontrado: o beiral duma pequena capela, há pouco erigida no alto do Monte Verde, assim chamado porque tinha à sua volta uma aprazível e bem cuidada mata, onde se continuavam a fazer animados piqueniques.

 

     Claro que aceitou, não acham?

 

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Sexta-feira, 11.06.10

 

                              Tinha sido, pelo menos até àquele dia, a mais imponente ave daquela capoeira: o seu corpo, livre de qualquer senão, era coberto de penas luzidias, de vários matizes e dispostas em camadas impecáveis. Quanto à crista, bem vermelha e recortada, constituía, indubitavelmente, a sua coroa de glória, só comparável à voz, tão potente e cristalina que, ao ouvi-la, até os mais dorminhocos acordavam bem dispostos.

 

                            Sabia promover a paz na capoeira, com paciência e diplomacia e não havia notícia de, pelo menos nas redondezas, haver um galo que pudesse rivalizar com ele. E assim vivia, feliz, até que um dia…

 

                           Um dia a dona chegou com um grande cesto de milho que, como era seu costume, começou a espalhar no terreiro, de forma a  que todos pudessem comer, sem atropelos. Um frémito de excitação propagou-se a todo o bando, maravilhado com a  abundância do milho e o tamanho dos seus grãos.

 

                             Houve, porém, uma excepção de peso: o nosso galo Farrabrás, que nem sequer tocou no milho.

 

                            Ao princípio, a sua abstinência passou totalmente despercebida. Mas, uma vez saciadas, algumas galinhas houve que perguntavam a si mesmas se ele não estaria doente. E a sua preocupação agravou-se quando, no dia seguinte e no outro e no outro, o galo se manteve fiel ao jejum, como se tivesse feito alguma promessa ou jura. Mas não. O que havia acontecido é que, uns dias atrás, ele tinha surpreendido uma estranha conversa entre os dois filhos da dona da casa, ambos a fazer investigação científica. Dizia o rapaz:

 

                       - Milho transgénico? Mas tu não vês que é o milagre do Século XXI? Haverá um tal aumento de produção que nunca mais se falará em fome.

 

                            Ao que a rapariga retorquiu:

 

                       - Estás louco! Hás-de ler um relatório científico que ainda ontem me chegou às mãos e que me deixou aterrada.

 

                       - Porquê, poderás dizer-me?

 

                       - Olha, chegaram à conclusão de que o milho transgénico é uma bomba de pesticidas, com graves consequências nos animais e nos humanos e, além disso, as experiências em cobaias mostraram que a sua ingestão fez com que os machos crescessem  menos e as fêmeas se desenvolvessem muito mais.

 

                        Foi só ao ouvir esta última parte da conversa que o galo se sentiu seriamente preocupado: a ser assim, ele deixaria de ser o rei da capoeira, enquanto as galinhas ganhariam corpo e poder.

 

                       Vendo tão seriamente ameaçado o seu estatuto, o galo resolveu protestar à sua maneira: fazer uma greve de fome, evitando assim comer o milho transgénico.

 

                       A sua dona não era capaz de entender tão estranha como inesperada atitude. Que se passaria com o galo? Que fazer para preservar tão cobiçado animal? Vendo-o emagrecer, pender a crista sem graça e permanecer calado por mais bonita que se apresentasse a manhã, a dona começou a dar-lhe os seus miminhos de dieta, que ele devorava com fome de tigre. E, pouco a pouco, retomava o seu antigo e esplendoroso vigor, enquanto as galinhas, de papo cheio, iam morrendo sem causa aparente mas que o veterinário, consultado pelos proprietários a conselho dos filhos, atribuía às quantidades significativas de pesticidas, recolhidas nas análises que, dizia ele, também  iam exterminando borboletas e outros insectos que viviam perto do campo de  milho transgénico, conforme vários testemunhos que já lhe tinham chegado aos ouvidos.

 

                       Quando a dona do galo se convenceu de tal problema, jurou que nunca mais recorreria ao milho transgénico, por mais barato e apetitoso que parecesse.

 

                        E, daí a alguns dias, o galo cantou tão alto e afinado que toda a gente naquela terra, até mesmo os mais dorminhocos, acordava sempre bem disposta e feliz.

 

 

                             Clementina Relvas

 

                     

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Sexta-feira, 04.06.10

  

                                                     O peixinho Barbatanas – assim lhe chamavam os amigos em razão da sua cauda, longa e brilhante – era um lindo peixe vermelho e dourado que vivia numa lagoa, formada por um braço de rio, onde sempre se sentira seguro e feliz, na companhia de algumas rãs que passavam a vida a coaxar, ou a ver as acrobacias das libelinhas, em danças improvisadas ao som da música das cigarras.

 

            Não sabia bem que idade tinha, mas sempre, até àquela data, se sentira forte e saudável, nadando sem descanso até à hora de ir para a cama, que, por um feliz acaso, fizera debaixo duma grande folha de nenúfar, o que o protegia do vento e dos rigores do sol, já que a chuva não podia ser desagrado para quem nascera e vivia dentro de água.

 

            Sentia-se privilegiado, pois nunca lhe faltara a comida, a amizade dos amigos e, sobretudo, o amor duma criatura tão encantadora que não parecia pertencer àquele mundo, e que ele sempre tratara por «minha sereia».

 

            Tudo seria perfeito, se o peixinho Barbatanas e a sua numerosa família, bem como alguns amigos ou meros conhecidos não tivessem começado a definhar a olhos vistos: tinham perdido o apetite, moviam-se lentamente, como por obrigação e desinteressaram-se do coaxar das rãs e da dança das libelinhas, também elas atingidas por um torpor que não deixava pressagiar nada de bom.

 

            Estavam as coisas neste ponto, quando resolveram fazer uma reunião aberta a quantos nela quisessem participar. Vieram novos e velhos, mulheres e crianças, alguns mais interessados na quebra da rotina do que na discussão de tão importante problema. Mas o peixinho Barbatanas é que não quis perder aquela oportunidade: afastou os brincalhões e os fala-barato e rodeou-se dum grupo de pessoas que estavam sempre prontas a ajudar a resolver os problemas da pequena comunidade. Depois de muitas sugestões, mais ou menos interessantes – e algumas delas disparatadas – tomou a palavra um peixe ainda muito novo mas que todos consideravam inteligente e ponderado, além de que era, sem qualquer sombra de dúvida, o mais viajado de todos. De vez em quando, desaparecia por uns tempos da lagoa e regressava sempre cheio de novidades. Nesse dia, tinha ele voltado a casa, após uma longa ausência e eis o que se apressou a propor: que fizessem das fraquezas forças e fossem em busca dum lugar mais seguro para viver. Dizia ele que a comunidade estava doente porque no braço de rio, um pouco mais acima, havia uma enorme pocilga que poluía as águas, especialmente as águas paradas da lagoa. Mas, se quisessem aceitar a sua sugestão, estava disposto a servir-lhes de guia, até à nascente do rio, um lugar tão despoluído e formoso que alguém se lembrara de lhe chamar «Olhos de Água».

 

            Houve muitas hesitações, pois estavam habituados àquele lugar, mas, ao olharem os olhos mortiços das crianças e a debilidade dos mais velhos, resolveram seguir o conselho do peixinho viajante e puseram-se a caminho: custava-lhes imenso respirar, porque a água se mostrava cada vez mais poluída, mas, com algumas curtas pausas para descansarem e o encorajamento do seu guia, lá conseguiram ultrapassar o esgoto da pocilga e ficaram encantados com a pureza da água que, daí para a frente, corria limpa e saltitante, muito melhor que a da lagoa, mesmo nos tempos felizes. Bem queriam aproveitar aquela corrente ali à mão, a desafiá-los para umas cambalhotas, principalmente aos mais pequenos, mas eram estes que se mostravam mais abatidos, com grande preocupação dos adultos.

 

            Ora, pausa aqui, pausa ali, recomeçavam a respirar melhor e aumentava a sua expectativa em relação ao que aquele sítio mágico, os Olhos de Água, teria para lhes oferecer.

 

            Quando lá chegaram, todos abriram a boca de espanto: esperavam a nascente dum rio, com poucas larguezas para brincarem, mas o que se lhes deparou foi uma grande piscina natural, rodeada de pequenos arbustos verdejantes, sem os nenúfares para se abrigarem mas com tocas na rocha, que começaram a distribuir pelas várias famílias. E, maravilha das maravilhas! Havia por ali muitos peixinhos, grandes e pequenos, que, tinham a certeza, em breve se viriam a tornar seus amigos.

 

            Tudo isto aconteceu na primavera, mas mal o calor começou a apertar, foi como se a sua piscina tivesse sido atingida por um… como direi? Terramoto, maremoto ou, pensando numa palavra mais adequada mas que não existe, um verdadeiro piscina-moto: aos fins-de-semana, começaram a chegar famílias com muitas crianças e todos, miúdos e graúdos, em breve se libertavam das poucas roupas que traziam e, ficando em fato de banho, era certo e sabido que saltavam logo para a água e por ali ficavam a regalar-se, nadando, mergulhando ou simplesmente, se não sabiam nadar, chapinhando pelas bordas da piscina.

 

            Ao princípio, os peixinhos ficaram numa aflição, sem saber que voltas dar à vida, mas em breve descobriram uma solução: enfiarem-se nas suas tocas e, se possível, aproveitarem para dormir uma soneca, enquanto a «invasão» não acabasse. E acabava. Primeiro, uma vez refrescados e cansados do exercício, todos se dirigiam para os abundantes farnéis, colocando sobre mesas desdobráveis deliciosos petiscos. Depois, tinham de fazer a digestão antes de voltarem à água. E, lá pelo fim da tarde, após mais uns mergulhos, todos regressavam a casa, deixando a piscina calma e silenciosa. E, quem havia de dizer? Espalhados pela piscina, ficavam muitos fragmentos de pão e até autênticas iguarias, que saciavam os peixinhos, pelo menos durante alguns dias. Isto, apesar de as mães estarem constantemente a recomendar: «Não sujem a água, meninos, senão em breve não terão onde nadar!».

 

            Ignoravam que, nos buracos, à volta da piscina, havia muitos peixinhos à espera de se regalarem com aqueles restos, deixando de novo a água limpa para as suas acrobacias e para novos mergulhos dos visitantes dos fins-de-semana.

 

            Um dia, os mais pequenos, nas suas brincadeiras, elegeram rei o peixinho viajante que, graças aos seus conhecimentos, os encaminhara para aquele autêntico paraíso terreal.

 

                                 Clementina Relvas

           

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