Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 08.07.10

Aquela numerosa família, era uma das que, só no Botswana, contribuía para, nas contas de traficantes de marfim e dos fazendeiros cobiçosos de vastos espaços para as suas plantações, se atingirem as cifras astronómicas dos muitos milhares destes paquidermes. O que as autoridades prometiam não agradava aos primeiros, nem aos defensores dos direitos dos animais e muito menos aos elefantes, se o seu cérebro descomunal tivesse o dom de adivinhar o futuro. Quanto aos fazendeiros, falava-se de altas compensações aos responsáveis.

 

A verdade é que, até agora, todas as manadas se dedicavam a percorrer diariamente, seguidas pelas crias, milhares de quilómetros da savana, só parando para comer a sua ração de folhas e de capim, se esfregar no tronco das raras árvores que encontravam de quando em quando e para as prolongadas e deliciosas banhocas nos charcos, cada vez mais secos, que lhes proporcionavam a sua melhor distracção.

 

Era já ao cair do dia, quando os poentes africanos tingiam, repentinamente, duma fantasmagoria de ouro e cor de laranja, os longínquos limites da Terra, que aquela família de elefantes se metia charco ou rio dentro e se rebolava na lama molhada para ter o bom pretexto de longa e abundantemente se aspergirem com a tromba, o seu natural e ecológico chuveiro.

 

Claro que quem mais se divertia eram os filhotes, atirando-se para o lamaçal onde não se cansavam de brincar uns com os outros e buscando depois, com as pequenas trombas erguidas, chamar a atenção dos mais velhos para a necessidade de mais uma chuveirada, se é que em animais tão, como dizer sem risco de equívoco, em animais tão pequenos já podia haver segundas intenções. Por ali se ficavam até a noite cair, prosseguindo depois a marcha, nesse dia ou no seguinte, até ao local que tinham por destino, a quilómetros e quilómetros de distância. Feitas as contas, se as soubessem fazer, toda a savana era sua.

 

Mas, de há uns tempos a esta parte, algo se sentia no ar que não augurava nada de bom. É verdade que havia menos elefantes desdentados pois, dizia-se, os traficantes de marfim estavam sob apertada vigilância e, se apanhados em acto de delito, sujeitavam-se a pesadas coimas e até mesmo a longas penas de prisão. Mas, por outro lado, constava que, embora com uma forte oposição dos seus defensores, os grandes fazendeiros procuravam obter enormes áreas de terra que, destinadas à agricultura e à pecuária, não podiam estar sujeitas à devastação causada pelos passeios dos elefantes. E então, que sugeriam?

Erguer-se-iam numerosas cercas bem sólidas e, em seu entender, suficientemente espaçosas para o dia-a-dia de cada família de elefantes.

 

- Mas isso é o que eles chamam uma prisão! E bem estreita para as nossas necessidades - dizia o chefe da manada.

- É mesmo não perceberem nada de elefantes habituados à savana - acrescentava outro.

- Eu não quero ser intriguista, mas a minha prima já me veio falar duma história de corrupção, que eu não entendo o que seja – opinava uma mais velha.

- Nós somos tantos e temos tanta força, porque não organizamos uma revolta de elefantes e não os impedimos de construirem as cercas?- sugeriu um pequenote que só sonhava com filmes que nunca vira e com heróis de banda desenhada que já algumas vezes lhe tinham aparecido entre as patas, deixadas por algum miúdo, mais interessado no safari.

 

Este foi um assunto de que tomei conhecimento num documentário exibido na Televisão e que me tirou o sono. Excepto as conversas dos elefantes, claro, porque é um problema do nosso tempo e não daquele em que os animais falavam. Mas não são conversas difíceis de imaginar…

 

E também não faço ideia do pé em que se encontra uma tão grande monstruosidade, que espero se não torne real.

                   Lisboa, 6 de Julho de 2010                                  

                        Clementina Relvas

 

 

 

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