Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 26.08.10

                                  

  

            Naquele mundo mágico, as montanhas, pintadas de verde, foram definidas com toda a perfeição pelo Artista que desenha as serras e revestidas, ora de mato rasteiro, ora de florestas densas e ricas de espécies raras. Por todo o lado a água nos saúda e nos convida a momentos de extasiada beleza e de lazer: cascatas inesperadas, represas tão transparentes que deixam ver, sem qualquer esforço, as lajes de xisto que atapetam o fundo e, fonte de todos estes milagres, o Rio Alba com as suas praias fluviais bem cuidadas, a interromper o correr manso e múrmuro do rio.

            Naquele mundo mágico, onde as casas conservam a traça milenária do xisto, amorosamente disposto, sem falhas nem atropelos e as janelas, pintadas de branco, contrastam com as portas azuis, sobressai, toda caiada de branco a Igreja da Imaculada Conceição, que não agradando a todos, encaminha para aquele recanto da aldeia escura, um feixe de inegável espiritualidade.

            Mas, subindo aquelas quelhas tão íngremes, com varandins enfeitados de flores e vistas deslumbrantes, logo, na minha imaginação, começou a impor-se a evidência, de que aliás, não encontrei o mínimo vestígio, da existência de muitas e antiquíssimas lendas suscitadas por todo esse mundo mágico que me fascinou.

            E então Foz de Égua? A represa, encravada num vale profundo e cheio de vegetação, não guarda o aspecto selvagem que teria na época em que decorre a minha história lendária: há três ricas casas, uma delas com uma inútil piscina, dada a vizinhança da outra, natural, mas todos os proprietários tiveram o bom gosto de respeitar escrupulosamente a arte de construir em xisto, na tradição da terra e de plantarem árvores e hortenses que ali nos prendem o coração para sempre.           

            Há várias pontes rústicas sobre o ribeiro e até uma grande ponte pênsil, com perspectivas magníficas para os amantes da fotografia. E, lá muito no alto, para os que preferem as caminhadas, está a ser construída uma capelinha em xisto, de que ainda só existe a torre com um sino e um elegante arco aberto para a zona recreativa.

            E a égua? A minha égua, que tem andado a trotar na minha cabeça, à procura dum oásis de repouso que a liberte do seu fado? Sim, que nestes caminhos sinuosos e à época ainda não desbravados, a vida devia ser tormentosa, especialmente de inverno.

            Era a única égua da região, onde, mesmo os modestos burrinhos, não abundavam. E, até por isso, há quem diga que a palavra Piódão significaria, nada mais nada menos, do que povos que andavam sempre a pé.

            Ora esta minha égua, além de muito esperta, tinha um espírito, se assim se pode dizer, aberto e independente. E, cansada de carregar tantas giestas para forrar o seu estábulo e os caminhos, de as levar depois, transformadas em estrume, para as acidentadas leiras do dono e de ver passar de longe as castanhas e os escassos restos de comida que iam directamente para a pocilga dos porcos, decidiu agarrar as rédeas e ir em busca de melhor futuro. Saiu de casa mal amanhecera e pôs-se a caminho. Caminho é como quem diz, pois só se lhe deparavam trilhos de pé posto e com tantas curvas e contra-curvas, que várias vezes pensou em desistir. Mas não. Já que tinha escolhido a liberdade, teria de desprezar os obstáculos e prosseguir, sempre em frente.

            Já quase no limite das suas forças, vislumbrou um estreito carreiro  que acompanhava um  remansoso ribeirinho, cujas margens rescendiam a hortelã bravia e a fiolho já coberto de florinhas amarelas.

            Seguiu o curso do regato e, embora a água corresse no sentido contrário à sua penosa marcha, deparou-se-lhe, de repente, um largo e fundo açude, no meio dum oásis tranquilo e que a fez exclamar:

            - Eis a Foz. A minha Foz. É aqui que vou ficar, no meio destas pastagens verdejantes, com água límpida para matar todas as sedes e até (que milagre!) esta ruína de xisto que já foi morada de alguém e agora passará a ser a minha casa.

 

Lisboa, 26 de Agosto de 2010

Clementina Relvas

  

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Segunda-feira, 23.08.10

Autora da Imagem: Sandra Rizo - Brasil

         

        Aquela cerejeira era a preferida das crianças, porque era a primeira a dar fruto. Mal se aproximava o dia três de Maio, dia da Santa Cruz na antiquíssima freguesia de Várzea, onde a capela votiva atraía multidões das povoações vizinhas para celebrarem a festividade, já se sabia que ali se podiam ir buscar as primeiras cerejas. Os rapazes costumavam pôr, dependuradas das orelhas, duas que estivessem ligadas pelos pés e levavam sempre mais um punhado delas para oferecer às conversadas. Claro que ainda não eram aquelas cerejas carnudas e sumarentas, vermelho-escuro, que davam fama à região. Nem nunca o chegavam a ser, porque, embora grande e pródiga de frutos, a árvore era uma referência gostosa para graúdos e, sobretudo, para os miúdos. E também uma fonte de preocupações para o dono, se assim se lhe podia chamar, já que, desde sempre, ele a pusera ao dispor de toda a aldeia, há um ano privada de tão apreciados frutos. E preocupações, porquê?

 

           É que, naquele tempo em que ainda não se usavam pesticidas, havia por ali muitos pardais que, mal se apercebiam de que as cerejas começavam a pintar, logo passavam palavra uns aos outros e era um ver se te avias.

 

          Preocupado, como disse, o dono fez um grande espantalho que vestiu com roupas que já não usava e até lhe pôs, na tosca cabeça de pano, um grande chapéu de palha que o resguardara de muitos e escaldantes sóis de verão.

 

         A primeira reacção foi a da criançada que, primeiro, ficou pasmada com aquele homem enorme equilibrado lá no alto e depois, esclarecida, achou divertidíssimo aquele enfeite da cerejeira.

 

        Os pardais, esses, ficaram assustadíssimos e desabafavam uns com os outros:

 

          - Lá se foram as nossas cerejas! Com aquele malvado ali de vigia, qual de nós se vai atrever a dar a primeira bicada?

 

        Mas a tentação era grande e o atrevimento ainda maior. A dada altura, um dos pardais mais sabidos decidiu tentar a sorte. O espantalho viu-o aproximar-se, sorrateiro, pousar num ramo vergado ao peso de belos frutos já rosados e pôr-se, digamos, a assobiar para o lado.

 

        Aqui é preciso dizer que o dono da cerejeira, tão preocupado em dar ao espantalho uma aparência igual à sua, lhe transmitira, também, sem dar por isso, um bocadinho do seu coração generoso.

 

        E vai daí, quando o pardal ferrou o bico, deliciado, na primeira cereja, ainda o espantalho estava a tentar perceber qual a missão que lhe fora destinada, quando o puseram naquelas alturas. E, como o patrão nada lhe dissera a tal respeito, ali ficou, vigia de enfeite, a olhar para os seus amigos pardais que, um a um, se iam regalando com o manjar que julgavam perdido para sempre.

 

       O que valeu a toda a gente, e também aos pardais, foi a cerejeira estar tão carregada que ninguém deu pelo aparente descuido do espantalho que gostava de pássaros.

 

 

                                                

publicado por clay às 14:30 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 07.08.10

Aquele fora um dia de festa lá em casa. Um amigo trouxera, de presente, uma cabrinha, de três meses, que logo ali fora unanimemente chamada Estrelinha, já que toda ela era castanho-dourado e tinha na testa uma mancha branca do perfeito desenho duma estrela.

Ninguém, a não ser talvez os nossos pais, se pôs a deitar contas à vida: os cabritinhos que mais tarde haviam de nascer e, depois, o leite tão necessário para variar o pequeno almoço das crianças, limitado ao caldo verde e a uns fritos deliciosos, com ou sem açúcar, que a nossa mãe fazia de quando em quando.

Todos queriam brincar com a cabrinha que, sempre dócil, se deixava envolver nos jogos daquelas quatro crianças, sem nunca se mostrar enfadada. Os mais pequenos procuravam, nem sempre com êxito, montá-la como se dum cavalo em miniatura se tratasse. Já os mais velhos   inventavam histórias em que ela desempenhava sempre o papel principal: era o Capuchinho Vermelho que, com dois pulos, se desembaraçava do lenço dessa cor que deveria levar na cabeça, quando fosse levar os docinhos à Avó. E só a muito custo e recorrendo a vários estratagemas lá alcançavam, à vezes, o seu intento. Outras vezes era a professora que tinha de ficar muito compenetrada diante deles, enquanto fingiam consultar os livros e rabiscar os cadernos, pose que não aguentava por muito tempo. Mas o que mais os divertia era transformá-la na doente que, um a um, iam examinando: acariciavam-lhe os pêlos sedosos para ver se era verdade que tinha dores de barriga, enrolavam-lhe uma ligadura na perna como se a tivessem engessado para lhe curar uma suposta fractura. Só não conseguiam ver se tinha a garganta inflamadaou se tinha algum dente cariado, ela que nunca lavava os dentes, porque sempre se recusara obstinadamente a consentir que lhe abrissema boca.

Outro motivo de disputa era a alimentação: os mais pequenos queriam que ela provasse a sardinha, chegavam a dar-lhe um bocadinho do seu bife, mas nada.

- Vocês não sabem ainda que ela é um herbvoro.

- E que vem a ser isso?

- É que ela só gosta de ervas, de folhas de couve, de cenouras…

- Mas olhem que nós já a vimos roer castanhas cruas.

- Claro, vem a dar no mesmo.

Daí em diante, era ver quem lhe trazia as ervas fresquinhas, acabadas de apanhar, as folhas de couve e as alfaces que a mãe destinara para o almoço e minguavam como por milagre.

Só num ponto estavam de acordo: não queriam perder a cabrinha de vista e todos concordaram em que a melhor solução era prenderem-na ao tronco da velha amoreira, onde quase todos já tinham trepado a regalar-se com as sumarentas amoras, cuja tinta vermelha só saía quando esfregada com amoras verdes.

A amoreira ficava a poucos metros de casa e era uma ralação constante para a mãe, que não lhes poupava o ralhete quando chegavam de cara e roupas pintalgadas, embora não fosse essa a sua maior preocupação. É que a amoreira nascera, há muitos anos, num muro à beira da estrada, inclinada para a saída da mina que ficava, lá em baixo, ao fundo dum declive que prometia todos os perigos. E se os mais pequenos quisessem imitar os mais velhos…

Pois era neste lugar aparentemente seguro e até agradável pela sombra da amoreira, que as crianças iam, logo pela manhã, levar a sua cabrinha a pastar. A escassez das ervas era suprida por as que eles lhe levavam e tudo parecia passar-se no melhor dos mundos.

Só que um dia… Há sempre o diabo à espreita para fazer das suas. A cabrinha escorregou para o vazio e ficou dependurada da corda, enforcada.

Não é possível descrever a aflição, o desgosto e os rios de lágrimas que a mãe, a muito custo, teve de ajudar a estancar, sem coragem para censurar tal negligência. Quanto à cabra Estrelinha, nunca mais se falou dela. Fez-se um verdadeiro luto em que todas as palavras sobre o assunto feriam como acerados punhais.


publicado por clay às 00:18 | link do post | comentar | favorito
Domingo, 01.08.10

                                                              

                Puseram-me este nome, não sei bem porquê. A carriça que eles conhecem é uma ave tão pequenina, disfarçada nos seus castanhos, sempre a saltitar nas vinhas e nos restolhos, enquanto eu, mesmo quando fui comprado na Feira de S. Torcato, embora sendo muito jovem, já tinha este corpo forte e bem lançado, que fez soltar, na aldeia, a uníssona exclamação:

 

            - Que estampa de cavalo! Só é pena que esteja destinado a andar por estes montes e vales, carregando lenha, batatas, azeitonas e até estrume para adubar os campos.

 

            De facto, não era um destino risonho. O meu pai, cavalo de corrida, tinha ganho numerosas competições em hipódromos afamados, mas partira uma pata num acidente e tivera de ser abatido, pois perdera, sem remédio, toda a sua serventia. Fora o início do declínio da família, que me arrastou, sozinho, para aquela feira nos confins de Trás-os-Montes. Em breve, porém me senti quase feliz, porque o meu dono era uma alma compassiva, incapaz de se servir de chibata ou chicote. E, como tinha quatro filhos pequenos, nunca quis sujar a albarda com o estrume que, aliás, o rebanho de ovelhas, devidamente alugado ao seu dono, espalhava pelos campos, à medida que o curral era mudado de lugar.

 

            Às vezes levava o meu dono até à Vila, onde ele ia tratar dos mais variados assuntos, desde registos de propriedades até décimas ou pequenas compras para casa. Esses eram dias de festa, porque ali íamos os dois, descendo para o Távora nas voltas que serpenteavam entre os olivais e depois, trepando até à estrada que nos levava a Tabuaço, sempre com vinhas de ambos os lados e, ao fundo, a serra de Chavães. Esta era tão rude nos seus inamovíveis rochedos, que até motivara o dito ancestral: “ Raios partam Chavães, onde prendem as pedras e soltam os cães».

            Estas e muitas outras coisas me passavam pela cabeça, enquanto o meu dono, que era de poucas falas, magicava certamente nas dificuldades da sua vida e na alegria que iria dar à família com os dois quilos de carne de vaca fresca, para mudar um pouco a rotina do bacalhau, do polvo salgado ou das sardinhas de barrica. E também com a mão-cheia de rebuçados de mel para os mais pequenos.

 

             Como acabei de dizer, o meu dono era de poucas falas, a não ser que julgando-me cansado, me incitasse com a voz contida de sempre:

 

            - Anda lá, Carriço, agora que já chegámos à estrada, da Quinta do Convento a Tabuaço é como se fôssemos de passeio.

 

            No regresso era a mesma coisa só que, na ida e volta, tinha-se esbatido muito do nosso entusiasmo. Mas, quando chegávamos a casa, lá estavam quatro crianças a disputar o privilégio de me levar a beber, na fonte pública, do outro lado da aldeia.

 

            Eu preferia os mais velhos, apenas porque os sentia mais seguros, mas, nesse dia infortunado, foi a menina, de seis anos e o rapazinho de quatro que obtiveram a licença do Pai:

 

            - A Martinha vai à frente com o Zezinho bem agarrado a ela, para não caírem. E tu, Carriço, vê lá bem como te portas.

 

            Levei-os devagarinho até à minguada fonte, matei a sede que era muita e eis senão quando, já de volta, nos saíu ao caminho um grupo de rapazolas, munido de vergastas de castanheiro e todos se empenharam em me fazer tomar o galope. Resisti quanto pude, mudei depois para um trote contido, sempre a pensar na preciosa carga que me coubera nesse dia.

 

            Porém, a certa altura, aflito com a maldade dos rapazes, o calor e as moscas que também se encarniçavam contra mim, perdi, não as estribeiras, mas o pedaço de raciocínio e de calma que me faziam tão estimado: foi como se uma nuvem vermelha me toldasse os olhos e um poderoso motor fosse acelerando, cada vez mais, o meu coração. Sentia a menina agarrada, com todas as suas forças, às minhas longas crinas, o menino a choramingar de susto, mas nada foi capaz de me travar o galope. Via aproximar-se o grande Largo circular do cimo do povo, adivinhava a catástrofe, mas já não estava em mim evitá-la.

 

            Ao percorrer o perímetro do Largo, o menino foi cuspido sobre as lajes, enquanto a menina, sem me largar as crinas, caíra de pé à minha frente tornando  claro, para mim, o que tinha acontecido. Estaquei imediatamente. Olhando para trás, vi o grupo de rapazes, agora chorosos, a tentar levantar o menino e um grupo de adultos a correrem para o lugar do acidente. A menina, lavada em lágrimas, correra para casa a procurar consolo no carinho dos pais.

 

            É-me impossível descrever, ou sequer pensar, na vergonha, nos remorsos e na tristeza que senti naquele mês interminável, em que ouvia dizer que o menino estava de cama, via o médico sair cabisbaixo e a abanar negativamente a cabeça, até à manhã, já ia alta, em que um pequeno caixãozinho branco, saiu o portão da casa e se dirigiu para a Igreja, no cimo do povo.

 

            Ninguém ralhara comigo, apenas para ali ficara, inútil e desamparado, até que os dias passaram, as searas voltaram a ficar maduras e recomecei a ajudar o meu dono, agora mais calado do que nunca.  

 

         Lisboa, 28 de Julho de 2010

 

                   Clementina Relvas

 

 

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