Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 23.08.10

Autora da Imagem: Sandra Rizo - Brasil

         

        Aquela cerejeira era a preferida das crianças, porque era a primeira a dar fruto. Mal se aproximava o dia três de Maio, dia da Santa Cruz na antiquíssima freguesia de Várzea, onde a capela votiva atraía multidões das povoações vizinhas para celebrarem a festividade, já se sabia que ali se podiam ir buscar as primeiras cerejas. Os rapazes costumavam pôr, dependuradas das orelhas, duas que estivessem ligadas pelos pés e levavam sempre mais um punhado delas para oferecer às conversadas. Claro que ainda não eram aquelas cerejas carnudas e sumarentas, vermelho-escuro, que davam fama à região. Nem nunca o chegavam a ser, porque, embora grande e pródiga de frutos, a árvore era uma referência gostosa para graúdos e, sobretudo, para os miúdos. E também uma fonte de preocupações para o dono, se assim se lhe podia chamar, já que, desde sempre, ele a pusera ao dispor de toda a aldeia, há um ano privada de tão apreciados frutos. E preocupações, porquê?

 

           É que, naquele tempo em que ainda não se usavam pesticidas, havia por ali muitos pardais que, mal se apercebiam de que as cerejas começavam a pintar, logo passavam palavra uns aos outros e era um ver se te avias.

 

          Preocupado, como disse, o dono fez um grande espantalho que vestiu com roupas que já não usava e até lhe pôs, na tosca cabeça de pano, um grande chapéu de palha que o resguardara de muitos e escaldantes sóis de verão.

 

         A primeira reacção foi a da criançada que, primeiro, ficou pasmada com aquele homem enorme equilibrado lá no alto e depois, esclarecida, achou divertidíssimo aquele enfeite da cerejeira.

 

        Os pardais, esses, ficaram assustadíssimos e desabafavam uns com os outros:

 

          - Lá se foram as nossas cerejas! Com aquele malvado ali de vigia, qual de nós se vai atrever a dar a primeira bicada?

 

        Mas a tentação era grande e o atrevimento ainda maior. A dada altura, um dos pardais mais sabidos decidiu tentar a sorte. O espantalho viu-o aproximar-se, sorrateiro, pousar num ramo vergado ao peso de belos frutos já rosados e pôr-se, digamos, a assobiar para o lado.

 

        Aqui é preciso dizer que o dono da cerejeira, tão preocupado em dar ao espantalho uma aparência igual à sua, lhe transmitira, também, sem dar por isso, um bocadinho do seu coração generoso.

 

        E vai daí, quando o pardal ferrou o bico, deliciado, na primeira cereja, ainda o espantalho estava a tentar perceber qual a missão que lhe fora destinada, quando o puseram naquelas alturas. E, como o patrão nada lhe dissera a tal respeito, ali ficou, vigia de enfeite, a olhar para os seus amigos pardais que, um a um, se iam regalando com o manjar que julgavam perdido para sempre.

 

       O que valeu a toda a gente, e também aos pardais, foi a cerejeira estar tão carregada que ninguém deu pelo aparente descuido do espantalho que gostava de pássaros.

 

 

                                                

publicado por clay às 14:30 | link do post | comentar | favorito
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