Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 31.10.10

Logo que os leves flocos de neve abandonavam a pequena aldeia e, depois o Marão, ao longe, ia despindo discretamente, o seu real manto de arminho, a velhinha lá estava, com o seu cesto de costura, a aproveitar o tempo: as horas e também os primeiros raios de sol da Primavera prestes a chegar. O seu poiso era numa típica varanda duma casa de pedra à vista, já muito escurecida pelo tempo. A varanda coberta e resguardada, de cujo tecto pendiam résteas de alhos e cebolas e, sobre uma manta estendida no chão, maçãs perfumadas e cachos de uvas da recente vindima, era, para a pequenita que se dirigia para a Escola, um autêntico retalho dum conto de fadas.

 

A aldeia só tinha uma rua, tortuosa, íngreme e com casas parecidas com as da varanda, preenchendo ambos os lados. Não totalmente. Havia espaços vazios, donde se avistavam os vinhedos, soutos, olivais e raras hortas, que a terra, apesar de ser tratada com muito amor, era, por natureza, bastante sáfara, sobretudo pela ausência de água que a vivificasse.

 

Defronte da casa, havia sempre algumas galinhas cacarejantes e rodeadas de pintainhos amorosos que elas ensinavam a procurar o milho, ou mesmo restos de comida. E a menina ficava sempre, durante alguns minutos, a apreciar esta cena, tanto mais que a velhinha já lhe tinha ensinado os nomes das poedeiras. Sim, porque todas tinham um nome. Os pintainhos ainda não, pois eram todos muito parecidos. Lá chegaria o seu tempo.

A menina estava fascinada por aquele retalho da aldeia. Diariamente, ao ir ou vir da Escola, ali se quedava para cumprir a sua rotina que, aliás, lhe havia de fazer muita falta, quando partisse para continuar os estudos, bem longe dali. E, diariamente também, era docemente interpelada pela voz da velhinha:

 

- Ó Alicinha, meu amor, hoje vai ter tempo para me enfiar algumas agulhas? É que já me restam muito poucas e se não fosse a menina…

 

A Alicinha rejubilava. Subia dois a dois os numerosos degraus de pedra que a separavam da velhinha e lá ia ela, sempre prestável, enfiar algumas dúzias de agulhas, de diferentes tamanhos e com linhas geralmente pretas e brancas. Era assim que a velhinha, já muito míope, conseguia fazer bainhas, deitar remendos e outros pequenos arranjos para pessoas que não sabiam ou não tinham tempo para o fazer. Ela não aceitava dinheiro, mas recebia com agrado pequenos mimos que todos lhe davam: na colheita das maçãs, nas vindimas, quando faziam a matança do porco ou quando coziam, no forno do povo ali ao lado, a sua fornada de pão para a semana. E também batatas, cebolas, azeite, que a velhinha vivia sozinha e só tinha de seu aquela velha casa.

A menina só pensava na falta que ela lhe iria fazer quando tivesse de partir para Lisboa. Nunca mais receberia uma deliciosa maçã ou um cacho de uvas que lhe soubesse tão bem e, sobretudo, lá se acabariam as histórias que a sua amiga velhinha ia desenterrar da memória, repleta de lendas, de curiosidades ou factos ocorridos ali mesmo, na aldeia muito antes de a menina ter nascido.


            Mas numa esplêndida manhã de primavera, em que os campos, estuantes de vida, exibiam os novos rebentos das videiras e muitas flores por todo o lado, a velhinha não estava na sua varanda. Fora levada para o Porto, pela sua única filha, que julgou já não poder condescender com o desejo sempre manifestado pela mãe, de continuar no seu cantinho, a fazer arranjos para a maior parte das mulheres da aldeia, que eram todas suas amigas. À filha, argumentos não lhe faltavam:

 

- Ó Mãe, até parece que, além de a desprezarmos, somos tão pobres que a senhora tem de viver da caridade alheia.

 

- Não digas tal coisa, filha. Não faço trabalhos para ser paga, nem as minhas amigas me enchem de mimos como se fossem esmolas. É assim como a Alicinha: ela gosta de me vir enfiar as agulhas e eu gosto de lhe contar coisas que encheram a minha vida e histórias que sempre ouvi aos mais velhos. Doutros tempos. Mas reconheço que cada vez preciso mais que me ajudem e que já nem â missa posso ir por causa destas malfadadas escadas. Se a casa fosse ao rés da rua…

 

- Mas não é. E tanto eu como o Alberto temos dito muitas vezes: «Se a Mãe viesse cá para casa, ficava ela melhor e seria uma companhia para os nossos dois filhos, que tanto gostam dela e das suas histórias».

 

Depois de muita insistência, lá conseguiram convencê-la, sobretudo por causa dos netos, que só via no Verão e, ao partir, a deixavam mergulhada em tantas saudades que só a Alicinha conseguia mitigar.

 

Ao despedir-se de tão grande amiga, deixou-lhe uma cestinha de maçãs envoltas numa pequena toalha que bordara para ela e a decifração dum enigma: porque é que, durante um certo período, a velhinha tinha pedido que lhe enfiasse agulhas com linhas de várias cores, suaves e macias.

 

Ao receber o presente, a menina rompeu num choro convulso que só a promessa de se reencontrarem nas férias grandes teve força para estancar.

                                      

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Terça-feira, 26.10.10

                         

 

Meus queridos netos:

                                                                                                                                                                                Conversava, há dias, com o pai do Zezinho e a conversa, como sempre sucede nestes dramáticos tempos por que estamos a passar, imediatamente se focou na crise que o País atravessa: a perda de regalias, mesmo pequenas, que as pessoas empregadas viram esvair-se como fumo, a insegurança quanto à conservação do posto de trabalho e, pior do que tudo, a perda do emprego, muitas vezes dos dois membros do casal. Pessoas que tinham como importantes, quando não únicos objectivos da sua vida, umas férias exóticas num país longínquo, um ou mais carros de alta cilindrada, inúmeros gadjets, todos topo de gama e da última geração viram-se, de repente, defrontados com o problema de pagar a prestação da casa, quando não com a sobrevivência, sua e da família. Já tínhamos referido, como casos inaceitáveis, as míseras reformas de certos idosos que se vêem obrigados a só aviar parte dos medicamentos que lhes são receitados e a alimentar-se com o mínimo possível, mas, o que de facto mais nos deu que pensar foram essas pessoas da classe média que, de repente, viram desabar o seu confortável mundo.

 

                        Dizia o Zé:

 

                       - Ó mãe, quanto a mim, actualmente, há três grupos de pessoas: as que mal conseguem sobreviver, mas já estavam habituadas a passar privações; as da classe média que tiveram de abdicar de muitos sonhos e se viram arrastados para o número dos novos pobres e aqueles que se julgam muito seguros nos postos de trabalho que ainda ocupam e continuam a viver como sempre, julgando-se imunes à crise.

 

                            - Bom, não devemos ser tão pessimistas: basta olhar para as redes de solidariedade social e mesmo para as acções individuais de ajuda aos que mais precisam.

 

                       - De acordo. Mas eu olho à minha volta e vejo muitas pessoas novas e sem trabalho que, no limite da sua resistência, mergulham na depressão, um dos maiores flagelos do nosso tempo.

 

                        - Pois é. Mas, se aprofundares mais o assunto, verificarás que há ainda outra crise, na raiz das já citadas, e que não figura nas estatísticas: a crise de valores e, sobretudo, a crise que resulta de as pessoas se terem paganizado, afastado dos mandamentos, desprezando a justiça e o amor de Deus. Ou, como diz S. Paulo aos Gálatas, terem deixado de se guiar pelo Espírito, deixando-se escravizar pela carne e pelos seus apetites e paixões. É que, sem Deus, não há verdadeira vida e toda a obra humana se desmorona como se tivesse sido erguida sobre areia.

 

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Quarta-feira, 20.10.10

      

                                               (Um grupo de galinhas pedreses)  

 

      Toda a criançada esperava, ansiosa, que a anafada galinha de penas ruivas e crista de rubi, deixasse a confortável cama do choco, ali mesmo ao lado do galinheiro, para poder espreitar os ovos estalados e os doze pintainhos amarelos a procurarem debicar o que por ali fossem encontrando.

 

- E quem te disse que iam ser amarelos? – perguntou a Rita, só para contrariar, como era seu costume.

 

- Querem lá ver que haviam de ser pretos, com uma mãe tão colorida como a deles? - ripostou o Gonçalo, fiado nas poucas luzes da ciência genética do seu manual escolar. Se bem que, sendo o pai aquele galaró, preto como azeviche, de longas penas luzidias que se tornou o incontestado líder do galinheiro…

 

Os dias custavam tanto a passar… Mas eis que uma bela tarde, ao regressarem da escola, foram dar a habitual espreitadela à galinha choca e… que é dela? Lá estavam, no ninho, as cascas partidas dos ovos, mas todos as aves tinham debandado. Foram encontrar a família – excepto o pai, sujeito a várias obrigações – à beira do pequeno charco que havia no quintal e onde a mãe estava a ensinar os filhotes a procurar os pequenos grãos de painço que teriam de empurrar com moderados goles de água.

 

Estavam tão radiantes que nem se lembraram da dúvida da Rita. Viam diante de si doze pequenos pintainhos, amorosos e fofinhos, entretidos a aprender com a mãe, e nem sequer o Gonçalo, esquecido das suas leis da genética, se apercebeu do fenómeno: pintalgado de preto e branco, com o pescoço sem penas e mais longo do que o dos irmãos, lá andava ele, o pintainho pedrês, perfeitamente integrado na ninhada e recebendo, de quando em quando, uma especial mirada da mãe, a única a inquietar-se com o que tinha acontecido e a recear futuras descriminações.

 

Mas tal não aconteceu. O pintainho pedrês era o mais gentil e prestável de toda a ninhada, correndo sempre em auxílio dalgum irmão mais fraco ou mais desajeitado e, como crescera mais do que os outros, em breve se tornou uma espécie de líder se bem que… se bem que o pintainho era, afinal, uma pintainha. Todos tinham orgulho nela e, como foi a primeira a pôr uns ovos magníficos, em breve se transformou numa espécie de heroína que todos admiravam. Mais tarde, quando a febre do choco a prostrou no ninho em que nascera e que todos tinham ajudado a remodelar, dotando-o de mais conforto, era já como que uma tia muito respeitada e muito querida.

 

A mãe dos meninos costumava dizer:

 

- Esta vai morrer de velha. Boa poedeira como é, quase lhe poderíamos chamar a nossa «galinha dos ovos de ouro».

 

E assim foi. Durante vários anos forneceu ovos para bolos, ovos para estrelar ou mexer, ovos cozidos para animados piqueniques e, quando chegava a altura de chocar as suas ninhadas, aí ficava ela, majestosa e tranquila, sem se preocupar se os seus filhotes viriam a ser amarelinhos, pedreses ou revestidos de preto luzidio, de acordo com o que ditassem as leis da genética que ela, claro está, desconhecia por completo.

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Sábado, 16.10.10

 

                                                                Meus queridos netos:

                                                          

                                                           Mais um passeio de encantamento, desta vez atraídos pelo fascínio de Monsaraz, uma vila medieval muito bem preservada, conquistada aos mouros pelo rei D. Sancho II, em 1232. É, portanto uma terra antiquíssima, com o seu majestoso castelo a mirar, lá do alto, a imensa planura alentejana, com extensos vinhedos e azinheiras a pintar os vastos espaços amarelos, onde resta o restolho das searas. De há poucos anos para cá, mira também, do lado oposto, as águas repousadas do Alqueva e as suas numerosas ilhotas de vegetação intocável, numa tal extensão que os locais já lhe chamam «O GRANDE LAGO».

 

                                                           Eu queria celebrar os oitenta e cinco anos do Vôvô num sítio onde imperasse o sossego e a beleza e lembrei-me de Monsaraz, que tínhamos visitado há já longos anos. Na Internet, a chave mágica dos nossos tempos para nos abrir os caminhos deste vasto mundo, tive alguma dificuldade em encontrar vaga no refúgio que idealizara, pois a data do aniversário caía a meio dum fim de semana prolongado pelo feriado da comemoração dos Cem Anos da República. Guiada pelas estrelas, a da sorte e as que assinalam a categoria dos alojamentos, consegui que me reservassem um quarto, dos dois que ainda havia vagos, num turismo rural (a Casa Pinto) que, apesar desta designação, se localiza mesmo no Centro de Monsaraz, defronte da Igreja Matriz dedicada a Nossa Senhora da Lagoa e dum interessante pelourinho. Há ali, ainda, um poço muito antigo, junto do qual paravam todos os turistas. Ao lado da Igreja fica o Museu de Arte Sacra, onde se pode admirar um magnífico fresco do século XV, representando o Bom e o Mau Juiz, este mostrando uma cabeça com duas caras.

 

A casa que a sorte nos destinara está assinalada por dois grandes potes de barro, típicos, com plantas, um de cada lado da porta. Ao entrarmos, ficámos logo muito bem impressionados com o bom gosto da decoração da sala de entrada e ainda mais com o acolhimento caloroso que nos foi dispensado. Tínhamos visto na Internet que os quartos, cinco apenas, tinham nomes relacionados com o passado português no Oriente e uma decoração inspirada nessas longínquas paragens. E, imaginem lá o meu espanto quando, ao receber a chave, verifiquei que nos tinham destinado, por puro acaso, o quarto DILI, capital de Timor, para onde o Vôvô tinha ido aos oito meses e onde tinha frequentado o Liceu de Dili até regressar com os pais, aos quinze anos! Não foi menor o pasmo dos nossos hospedeiros e o interesse que desde logo lhes despertámos e foi crescendo com o convívio.

 

                                                           Havia, porém, um senão: a escada que conduzia ao quarto tinha um número considerável de degraus, bastante altos, o que preocupou o Vôvô, a contas com as suas artroses nos joelhos. Mas logo ficou animado, ao ver o quarto muito bem decorado, cama com mosquiteiro à maneira de Timor e uns candeeiros de mesinha de cabeceira com abat-jours de palha a lembrar as casas dessa terra. O resto da decoração eram budas e pinturas de origem asiática e de muito bom gosto. A casa de banho, espaçosa e funcional, com roupões, chinelos e turcos de muito boa qualidade, tinha uma particularidade: revestida a pedra, tinha uma platibanda donde corria uma pequena cascata, para quem a preferisse ao chuveiro.

 

                                                           O pequeno almoço, muito farto e variado, era servido numa sala do rés do chão, com porta para um quintal onde pontificava um viçoso limoeiro com os seus frutos, confortáveis assentos e vários elementos decorativos. No dia dos anos do Vôvô, presentearam-no com um bem humorado postal (um pica-pau a dizer: Pareces ter vinte e um anos) e um queijo fresco enfeitado com uma vela e cinco florinhas de açúcar, azuis, em substituição do bolo que sabiam o Vôvô não iria comer, já que tinham reparado que ele nunca se servia de doces. Com outro casal ali hospedado, cantámos-lhe os «Parabéns a você» e só no dia seguinte a comemoração continuou com um passeio de barco no Alqueva, pois nessa segunda feira o vento soprava ameaçador.

 

                                                           Mas, antes de partirmos para o Alqueva, quero acentuar mais alguns gestos de simpatia e de carinho dos nossos anfitriões: todos os dias, às nove da noite, nos levavam um delicioso e quentinho chá de tília. Para me ajudarem a passar bem o tempo, puseram à minha disposição belíssimos livros de arte, da Taschen, já que, tanto Joan como o Gilberto são dois artistas e, portanto, pessoas muito sensíveis.

 

                                                           E vamos então para o passeio no Alqueva: fomos com outro casal alojado na Casa Pinto, o dono do barco, a mulher e um filho pequeno, numa radiosa manhã. O barco, muito moderno e confortável, sulcava lentamente as águas serenas do Grande Lago, dando-nos a oportunidade para apreciarmos a paisagem muito diversificada, ora pequenas elevações com azinheiras, ora extensos vinhedos e até uma fazenda onde pasciam touros bravos que, mesmo com o barco à distância, se aperceberam de presenças estranhas pelo embater das pequenas ondas produzidas pelo barco de encontro à margem e se puseram em fuga. Só restaram dois, em luta renhida pela posse do território. Aves cruzavam serenamente os ares e a superfície das águas encrespava-se ao de leve, com as brincadeiras dos barbos e achigãs, numerosos naquela imensa superfície líquida.

 

                                                           À tarde, atravessámos, de carro, a longa ponte que liga o lago a Mourão, vila castiça junto a Espanha e regressámos a Monsaraz, para, no dia seguinte, voltarmos a casa, felizes de tão belo passeio.

 

 

 

                                                         

                                                                                                                                                          

publicado por clay às 11:33 | link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 07.10.10

 

           Passados poucos meses depois de termos chegado a Luanda, fomos dar um passeio de domingo pelos arredores. Seguimos o caminho da costa: estrada da Corimba mirando o mar muito azul e as ilhotas onde então começavam a aparecer provisórias casas de praia, depois, um pouco afastada, a Ilha do Mussulo com os seus areais dourados debruados de palmeiras e, finalmente, o Morro dos Veados onde, mais tarde, faríamos com os nossos filhos entretanto nascidos, muitos e animados pique-niques.

A dada altura do passeio, deparou-se-nos um angolano que nos fez sinal para pararmos o carro. Assim fizemos, curiosos por saber a que se devia comportamento tão insólito. Ele levava, aconchegados no colo, dois pequenos e encantadores veadinhos.  E queria vendê-los! Era frequente, sim, ver miúdos a vender pássaros exóticos, em toscas gaiolas de pau mas, como eu sempre detestei ver aves em cativeiro, passava de largo e seguia caminho. Agora, porém, a tentação era grande: além dos veados que há anos vira no Jardim Zoológico, o que me ficara para sempre gravado na imaginação, fora o Bambi do filme de Walt Disney, especialmente a cena em que ele chora pela mãe, morta pelos caçadores. E, como tinha ao lado da casa umas vastas e confortáveis capoeiras vazias, o pedido saiu-me antes de qualquer reflexão:

 

- Vamos comprar os veadinhos?     

                                          

- Logo os dois, nem penses nisso.

 

- Mas têm uns olhinhos tão doces, são tão queridos e pequeninos…

 

- Pois é. Mas não vão ficar assim para sempre. Vão crescer imenso e…

 

- Pelo menos um.

 

Eu já sentia o coração apertado pela separação dos dois animaizinhos, certamente irmãos. Mas tinha perdido, no parto, o meu primeiro filho e parecia-me que, ao tratar do pequeno veado, talvez achasse um pequeno lenitivo para a minha dor e um centro de interesse para me ajudar a sair da depressão em que caíra.

 

Custou-nos apenas cem escudos e, no regresso a casa, com um pôr-do-sol magnífico a que quase nem dei atenção, vim sempre abraçada ao veadinho, afagando amorosamente a sua pelagem macia. Foi muito a contra gosto que me separei dele, levando-o para o galinheiro onde todos os dias passávamos algum tempo juntos. A princípio, alimentava-se com ervas e folhas de árvores que havia por ali perto, mas não tardou que estas ficassem despidas. O seu apetite tornara-se insaciável, enquanto crescia a olhos vistos. Na ida semanal à praça com o empregado, trazíamos sempre grandes sacos de folhas de couves, alfaces, nabiças e outros vegetais. Mas tudo desaparecia num ápice. E o veado crescia, deitava corpo e perdia a graça do pequeno bambi que tanto me seduzira.

 

Aproximava-se o Natal e o meu marido comentou, como quem não quer a coisa:

 

- Que rica ceia aí tens para o nosso empregado e a sua numerosa família.

 

Arrepiei-me ao ouvir tal coisa mas, nessa altura, já o meu coração andava cheio de sombras: o remorso de ter separado os dois irmãos, em vez de os ter comprado ambos e de os ter restituído à Natureza, onde, pensava eu para me consolar, também podiam não ter sobrevivido; a angústia de ver um animal tão doce e já tão crescido naquela grande gaiola de tábuas de madeira que, por mais que eu lá entrasse para o visitar, não deixava de ser uma prisão. E eu, que sempre fora contra criar animais em cativeiro…

Estava decidido. Tal como nós, que não éramos vegetarianos, tivemos na nossa mesa de Natal um enorme peru, bem douradinho no forno e enfeitado de papillotes, também o nosso empregado passou um Natal diferente, com a família deliciada à roda duma saborosa caldeirada de veado.

 

Ora, como se costuma dizer, este episódio serviu-me de emenda. Deixei de ver os veadinhos como desenhos animados e passei a ter, por todos os seres vivos, o mesmo e profundo respeito. Só ainda me não tornei vegetariana, mas quem sabe?

     

                                            

 

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