Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 16.10.10

 

                                                                Meus queridos netos:

                                                          

                                                           Mais um passeio de encantamento, desta vez atraídos pelo fascínio de Monsaraz, uma vila medieval muito bem preservada, conquistada aos mouros pelo rei D. Sancho II, em 1232. É, portanto uma terra antiquíssima, com o seu majestoso castelo a mirar, lá do alto, a imensa planura alentejana, com extensos vinhedos e azinheiras a pintar os vastos espaços amarelos, onde resta o restolho das searas. De há poucos anos para cá, mira também, do lado oposto, as águas repousadas do Alqueva e as suas numerosas ilhotas de vegetação intocável, numa tal extensão que os locais já lhe chamam «O GRANDE LAGO».

 

                                                           Eu queria celebrar os oitenta e cinco anos do Vôvô num sítio onde imperasse o sossego e a beleza e lembrei-me de Monsaraz, que tínhamos visitado há já longos anos. Na Internet, a chave mágica dos nossos tempos para nos abrir os caminhos deste vasto mundo, tive alguma dificuldade em encontrar vaga no refúgio que idealizara, pois a data do aniversário caía a meio dum fim de semana prolongado pelo feriado da comemoração dos Cem Anos da República. Guiada pelas estrelas, a da sorte e as que assinalam a categoria dos alojamentos, consegui que me reservassem um quarto, dos dois que ainda havia vagos, num turismo rural (a Casa Pinto) que, apesar desta designação, se localiza mesmo no Centro de Monsaraz, defronte da Igreja Matriz dedicada a Nossa Senhora da Lagoa e dum interessante pelourinho. Há ali, ainda, um poço muito antigo, junto do qual paravam todos os turistas. Ao lado da Igreja fica o Museu de Arte Sacra, onde se pode admirar um magnífico fresco do século XV, representando o Bom e o Mau Juiz, este mostrando uma cabeça com duas caras.

 

A casa que a sorte nos destinara está assinalada por dois grandes potes de barro, típicos, com plantas, um de cada lado da porta. Ao entrarmos, ficámos logo muito bem impressionados com o bom gosto da decoração da sala de entrada e ainda mais com o acolhimento caloroso que nos foi dispensado. Tínhamos visto na Internet que os quartos, cinco apenas, tinham nomes relacionados com o passado português no Oriente e uma decoração inspirada nessas longínquas paragens. E, imaginem lá o meu espanto quando, ao receber a chave, verifiquei que nos tinham destinado, por puro acaso, o quarto DILI, capital de Timor, para onde o Vôvô tinha ido aos oito meses e onde tinha frequentado o Liceu de Dili até regressar com os pais, aos quinze anos! Não foi menor o pasmo dos nossos hospedeiros e o interesse que desde logo lhes despertámos e foi crescendo com o convívio.

 

                                                           Havia, porém, um senão: a escada que conduzia ao quarto tinha um número considerável de degraus, bastante altos, o que preocupou o Vôvô, a contas com as suas artroses nos joelhos. Mas logo ficou animado, ao ver o quarto muito bem decorado, cama com mosquiteiro à maneira de Timor e uns candeeiros de mesinha de cabeceira com abat-jours de palha a lembrar as casas dessa terra. O resto da decoração eram budas e pinturas de origem asiática e de muito bom gosto. A casa de banho, espaçosa e funcional, com roupões, chinelos e turcos de muito boa qualidade, tinha uma particularidade: revestida a pedra, tinha uma platibanda donde corria uma pequena cascata, para quem a preferisse ao chuveiro.

 

                                                           O pequeno almoço, muito farto e variado, era servido numa sala do rés do chão, com porta para um quintal onde pontificava um viçoso limoeiro com os seus frutos, confortáveis assentos e vários elementos decorativos. No dia dos anos do Vôvô, presentearam-no com um bem humorado postal (um pica-pau a dizer: Pareces ter vinte e um anos) e um queijo fresco enfeitado com uma vela e cinco florinhas de açúcar, azuis, em substituição do bolo que sabiam o Vôvô não iria comer, já que tinham reparado que ele nunca se servia de doces. Com outro casal ali hospedado, cantámos-lhe os «Parabéns a você» e só no dia seguinte a comemoração continuou com um passeio de barco no Alqueva, pois nessa segunda feira o vento soprava ameaçador.

 

                                                           Mas, antes de partirmos para o Alqueva, quero acentuar mais alguns gestos de simpatia e de carinho dos nossos anfitriões: todos os dias, às nove da noite, nos levavam um delicioso e quentinho chá de tília. Para me ajudarem a passar bem o tempo, puseram à minha disposição belíssimos livros de arte, da Taschen, já que, tanto Joan como o Gilberto são dois artistas e, portanto, pessoas muito sensíveis.

 

                                                           E vamos então para o passeio no Alqueva: fomos com outro casal alojado na Casa Pinto, o dono do barco, a mulher e um filho pequeno, numa radiosa manhã. O barco, muito moderno e confortável, sulcava lentamente as águas serenas do Grande Lago, dando-nos a oportunidade para apreciarmos a paisagem muito diversificada, ora pequenas elevações com azinheiras, ora extensos vinhedos e até uma fazenda onde pasciam touros bravos que, mesmo com o barco à distância, se aperceberam de presenças estranhas pelo embater das pequenas ondas produzidas pelo barco de encontro à margem e se puseram em fuga. Só restaram dois, em luta renhida pela posse do território. Aves cruzavam serenamente os ares e a superfície das águas encrespava-se ao de leve, com as brincadeiras dos barbos e achigãs, numerosos naquela imensa superfície líquida.

 

                                                           À tarde, atravessámos, de carro, a longa ponte que liga o lago a Mourão, vila castiça junto a Espanha e regressámos a Monsaraz, para, no dia seguinte, voltarmos a casa, felizes de tão belo passeio.

 

 

 

                                                         

                                                                                                                                                          

publicado por clay às 11:33 | link do post | comentar | favorito
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