Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 19.02.11

 Meus queridos netos:

  

            Nestas últimas semanas, toda a gente informada andou com o coração apertado, devido às convulsões sociais que abalaram o Egito, exigindo a renúncia do Presidente daquele País, Hosni Mubarak, e  melhorias nas condições de vida para a maior parte dos oitenta milhões de pessoas, entre as quais uma grande percentagem de jovens, que, lá como em quase todo o Mundo, se vêem perante um futuro sem perspectivas.

 

            Foram dezoito dias de manifestações, concentradas na Praça Tahir, no Cairo e também noutras cidades egípcias, até o Presidente ter abandonado o poder que detinha há cerca de trinta anos e de lhes terem feito muitas promessas, oxalá para serem cumpridas.

 

            O mundo assistiu a quase tudo pela TV e Internet eu, ao ver a esfinge e as pirâmides de Gizé, não pude deixar de recordar a excursão que, no verão de 1987, fiz ao Egito com o Vôvô.

 

            Fomos num avião da Alitalia (via Roma) até ao Cairo, uma cidade gigantesca mas com um trânsito caótico, que obrigava os automóveis, sempre a buzinar, a protegerem os faróis com uma grelha, para os proteger dos choques constantes.

 

            A cidade é atravessada pelo rio Nilo, onde se viam inúmeros barcos, desde grandes paquetes até às típicas falucas e apresenta muitos motivos de interesse.

 

            Nós ficámos instalados num moderno e confortável hotel, muito perto das pirâmides, que se viam perfeitamente das janelas do nosso quarto. Mas é claro que as fomos visitar e eu, com a minha curiosidade insaciável, fui a única do nosso grupo que trepou, por uma estreita passagem, até a uma câmara interior que se revelou uma deceção, pois apenas  continha um túmulo de granito, sem tampa, que devia ter um remotíssimo passado. Impressionaram-me muito pela sua grandiosidade e também me detive na contemplação da esfinge, evocando antiquíssimas lendas.

 

            Visitámos o Museu do Cairo, agora vítima de um incipiente saque, apesar de rigorosamente guardado por militares e civis e onde um infindo número de relíquias arqueológicas, entre as quais a pedra de Roseta, se amontoavam sem preocupações expositivas, o que nos deu a impressão dum imenso armazém de múmias. A exceção foi a câmara de Tutankamon, não só pela riqueza e arte que a singulariza, como por outros objectos de grande interesse resgatados do seu túmulo pelo arqueólogo francês Champollion.

 

            Outro motivo de grande espanto foi a visita ao Grande Bazar, um verdadeiro mundo onde se vende de tudo, desde as tapeçarias e o ouro, até às perfumadas e coloridas especiarias, o que ali atrai multidões ruidosas e deslumbradas com tantas e tão variadas mercadorias expostas.

 

            Depois de termos visitado o Cairo, fizemos um cruzeiro pelo Nilo, mas tantas foram as maravilhas que este nos desvendou que o seu relato fica para a próxima carta.

 

            Não sem antes lamentar que a crise actual vede o acesso deste fabuloso país aos turistas de todo o mundo e o prive da sua principal fonte de riqueza.

 

            Muitos beijinhos dos Vóvós e até breve.

  

 

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publicado por clay às 11:56 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 12.02.11

Meus queridos netos:

 

 

Depois de quase três meses de ausência, devido às insuportáveis dores que me provocou a queda de que o Vôvô vos falou num breve post, aqui estou eu, de novo, embora ainda com algumas dificuldades, a retomar as minhas cartas para vós os dois.

 

Tendo-me sido perguntado, pela Cristininha, o que são as Misericórdias e quando tinha sido criada a primeira, acudiu-me logo a resposta óbvia: na realidade foi Jesus, ao estabelecer, como primeira obrigação dos cristãos «Amai-vos uns aos outros», mandamento seguido pelas primeiras comunidades que, como testemunhou S. Lucas (Actos 2, 42- 47), praticavam a união fraterna, assistiam juntos à fracção do pão e às orações e partilhavam os bens.

 

 Mas a Cristina queria dados mais concretos, por assim dizer, um breve resumo histórico daquilo a que se chamam Santas Casas.

 

Tentei cingir-me ao essencial: podemos já pensar em instituições de solidariedade, como hoje se diz, ao lembrarmos as albergarias, hospitais e leprosarias que socorriam os peregrinos (e os Cruzados), que percorriam,  a pé, vários caminhos conforme os santuários da sua devoção. Mas foi na cidade de Florença, em 1244, que, com o patrocínio de S. Pedro, Mártir, se fundou a primeira Misericórdia. Em Portugal, embora essas obras assistenciais já viessem do tempo de D. Sancho II, foi com as Confrarias-Império do Espírito Santo, fundadas pela Rainha Santa Isabel, que este movimento de caridade se consolidou. Com os nossos descobrimentos marítimos espalharam-se pelo mundo, ainda hoje florescendo, em regiões tão longínquas como o Brasil e os Açores. E foi no exemplo de Santa Isabel que se inspirou uma outra Rainha, D. Leonor, esposa de D. João II e irmã de D. Manuel que, entre outras obras relevantes como o Hospital das Caldas da Rainha, fundou, em 15 de Agosto de 1498, a Misericórdia de Lisboa. Foi escolhida para padroeira das Misericórdias Nossa Senhora da Visitação, pelo seu empenho em ajudar, nos últimos meses da gravidez, sua prima Santa Isabel, superando o afastamento de casa e uma viagem penosa.

 

A Rainha D.Leonor não esteve só no empreendimento. Foi ajudada e incentivada pelo Rei, seu marido, pelo Cardeal de Alpedrinha, D. Jorge Costa, que então gozava de grande influência em Roma, pelo  Cabido da Sé e pelo seu confessor, o frade Trinitário Frei Miguel Contreiras e viu a sua obra reconhecida pelo Papa Alexandre VI. A Igreja, geralmente coadjuvada pelo Estado, garantiu a sua actividade ao longo dos séculos.

A princípio, o emblema era encimado pela coroa real, mas, mais tarde, esta foi substituída por outros símbolos: o camaroeiro que, além de evocar as redes onde foi colocado o corpo de D. Afonso, filho de D. Leonor e afogado no Tejo, simboliza também a rede de solidariedade que é o fundamento da Irmandade; a estrela, símbolo da Luz de Deus que deve inspirar todas as obras, pois, como diz Bento XVI, “Quem não dá Deus não dá o suficiente” e é a evocação das sete virtudes espirituais e a rosa de sete pétalas, símbolo das sete virtudes corporais. Segundo a Bíblia, o número 7 era o símbolo da plenitude e da perfeição. Multiplicado por dois dá  as catorze obras de Misericórdia, que têm servido de guia a estas instituições de solidariedade social e que todos devíamos saber de cor e seguir à risca.

 

Muitas mais coisas interessantes teria para lhe dizer, mas termino com outro pensamento de Bento XVI:” Para ser fecundo no campo espiritual, o amor não deve seguir apenas as leis do mundo, mas deve deixar-se iluminar pela verdade que é Deus e traduzir-se nessa medida superior de justiça que é a misericórdia”. Ou essa palavra não significasse “Ter lugar no coração para os que são vítimas de qualquer forma de miséria”.

 

                                  Lisboa, 10 de Fevereiro de 2011

 

                                               Clementina Relvas

 

 

Antigo Hospital da Misericórdia de Portalegre

publicado por clay às 12:40 | link do post | comentar | favorito
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