Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 26.03.11

                   Meus queridos netos:

 

            Na vossa idade, o tempo parece estar parado no tempo. Mas, quando já temos uma idade avançada, ficamos, de vez em quando, estupefactos ao ver como as coisas, mesmo as mais importantes, passaram por nós, se sumiram na nossa memória e quando, por qualquer motivo, reaparecem, não podemos deixar de exclamar, às vezes angustiados: “O quê? Já lá vai tanto tempo?”.

 

            Foi o que me aconteceu há dias quando, a propósito do gravíssimo acidente nuclear no Japão, assisti, na TVI a uma impressionante reportagem sobre a tragédia de Chernobyl, ocorrida na Ucrânia, faz hoje, precisamente,  vinte e cinco anos!

 

            Foi o maior desastre nuclear da história, em que a brecha num reactor despejou para a atmosfera mais de 200 toneladas de veneno radioactivo, provocando a morte a muitos milhares de pessoas, tanto na altura do acidente como ao longo de todos estes anos em que a radioactividade continuou a produzir os seus efeitos letais.

 

            A catástrofe atingiu especialmente a Ucrânia, então região da ex-URSS, onde estavam localizadas essas instalações nucleares, mas também, e com muita gravidade, a Bielorrússia e a própria Rússia, espalhando-se ainda o efeito das radiações por alguns países do Norte da Europa.

 

            O cemitério de Mitino, em Moscovo, acolheu, um tanto à socapa, (como à socapa foram oficialmente guardadas as informações sobre o cataclismo), os corpos de numerosos bombeiros que deram a vida pela comunidade.

 

            E foram aparecendo os meninos, nascidos posteriormente, que, além das deformações físicas, vieram encontrar um país onde a alimentação é perigosa, devido às radiações que ainda hoje contaminam os produtos agrícolas e pecuários aí produzidos e o ar não se apresenta suficientemente puro para proporcionar uma vida sã e um desenvolvimento adequado.

 

             Por isso foi criado um movimento internacional, em que Portugal também já participou dois anos, reunindo famílias de acolhimento que vivem perto da praia ou ali se podem deslocar com as crianças ucranianas, facultando-lhes, assim, alimentação e ambiente propícios ao fortalecimento das defesas imunitárias que lhes permitam resistir aos longos meses de inverno na Ucrânia.

 

            E deste modo, quer se chamem Larissa, Kalina, Pavlo ou Vladir, são cerca de dezasseis crianças que vêm passar cinco semanas de verão em Portugal, despedindo-se, chorosos, do seu país natal e dos seus familiares e amigos para se alongarem depois, também chorosos, daqueles que os acolheram com muito carinho, facultando-lhes umas férias saudáveis, divertidas, inesquecíveis.

 

                                   Lisboa, 26 de Março de 2011

 

                                         Clementina Relvas

 

 Localização de Chernobyl no mapa da Europa (fonte: news bbc.co.uk)

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Domingo, 20.03.11

Meus queridos netos:

 

            Distando cerca de noventa quilómetros de Lisboa, Alcácer do Sal, vizinho da Costa Atlântica, é o segundo maior município do pais, que alia a tranquilidade da pequena cidade ao deslumbramento das mais variadas e ricas paisagens, a começar pela Reserva Natural do Estuário do Sado, dominada por este longo rio navegável numa grande extensão.

 

            Foi principalmente o rio que o tornou acessível a diversos povos e civilizações, desde os mais remotos tempos históricos: o Neolítico, a Idade do ferro e, depois, romanos e árabes. Todos aí deixaram as suas influências, até à conquista por D. Afonso Henriques, em 1160 e, depois dum longo período de reconquista árabe, à tomada definitiva, em 1257, por D. Afonso II. A marca mais significativa foi a da civilização islâmica, que aí deixou um imponente castelo, na base do qual se foi desenvolvendo a povoação, actualmente cidade.

 

            Na minha memória, estavam bem presentes as manchas de pinheiro manso, os extensos arrozais atravessados pelo Sado, com as suas pontes e os inúmeros ninhos de cegonhas, estrategicamente construídos, quer nas mais altas torres das igrejas, quer em postes espalhados um pouco por toda a parte, na tentativa, bem sucedida, de proteger a espécie e de a fixar naquele território.

 

            Foi essa vívida memória, embora colhida pouco mais que de passagem, que nos fez decidir, ao Vôvô e a mim, a demandar a Pousada aí existente para descansarmos durante um fim de semana prolongado e festejarmos, tranquilamente, os meus já longos oitenta e dois anos de vida.

 

            Em boa hora o fizemos, pois a Pousada, integrada Castelo e construída sobre as ruínas das várias civilizações atrás referidas (e foi, também, sede da Ordem de Santiago de Espada e depois um convento de clarissas), é um exemplo feliz duma adaptação arquitectónica segundo moldes actuais, que preservou, não só as muralhas do Castelo, mas vários pormenores de interesse como, por exemplo um cativante nicho com uma belíssima imagem de Nossa Senhora.

 

            Devido às limitações, que ainda persistem, da minha queda no princípio de Novembro, reduzimos as nossas habituais visitas a alguns sítios de grande valor, embora em número escasso.

 

           Assim, fomos visitar o Santuário do Senhor dos Mártires, que data da época da reconquista e foi melhorado no século XIV e no século XVI. No século XVIII, foi-lhe acrescentada uma torre sineira, actual propriedade duma magnífica família de cegonhas. Além da Capela dos Mestres (da Ordem de Santiago de Espada), com a sua magnífica abóbada estrelada, sobre planta oitavada e onde a luz penetra por altas janelas, infelizmente já despojadas dos antigos e, dizem que maravilhosos vitrais, pode-se visitar um pequeno mas interessante museu arqueológico.

 

            No dia seguinte, uma manhã de sol, fomos até à Comporta, tão procurada no verão, mas nesta época despovoada. Porém, antes de chegarmos à Comporta, visitámos o cais palafítico da Carrasqueira, impressionante rede de estacaria, sobre a qual foram construídas várias passadeiras de madeira, que permitem o acesso dos pescadores aos seus barcos de pesca, mesmo na baixa mar, quando as margens do Sado são longos esteiros lamacentos. Por cima das passadeiras, foram construídas várias casinhas de madeira, pintadas de cores vivas, onde os homens do rio guardam os redes e demais apetrechos de pesca. Foi um passeio inolvidável! 

 

            À tarde, fomos visitar a Cripta Arqueológica, nas fundações do Castelo. É um autêntico labirinto, onde se podem admirar as ruínas das sucessivas civilizações e vinte e seis séculos de história, da Idade do Ferro até ao período medieval, de que se conservam fragmentos de louças, moedas e uma original colecção de pequenos bonecos, estátuas, capitéis, vindos da Idade do Ferro. É uma visita imperdível.

 

            No domingo, dia do regresso a casa, assistimos â Missa das dez na Igreja de Santa Maria do Castelo. a dois passos da Pousada, que pertenceu à Ordem de Santiago e é um dos raros exemplares do românico tardio, apresentando também traços góticos, manuelinos e barrocos. Mas o que ali mais me impressionou foi o púlpito em talha dourada, suportado por um anjo. Ainda passámos pela, mais recente, Igreja de Santiago, contudo, como se estava a celebrar a Missa do meio dia, limitámo-nos a admirar os belíssimos azulejos, a azul e branco, que revestem toda a Igreja e representam a vida de Santiago e da Virgem, bem como figurações dos Apóstolos. 

                                                                                                                                                                 

Um aspeto do Cais Palafítico da Carrasqueira

 



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Terça-feira, 15.03.11

Meus queridos netos:

 

Li, há dias, num jornal, que os rebuçados da Régua iam ser certificados. Parece uma notícia insignificante mas, para mim, foi uma estrada que me levou a recuar muitos anos, ao tempo em que vinha de férias, no verão, para passar dois meses a descansar na minha pequena aldeia, junto da família e amigos.

 

Ao contrário dos primeiros anos, o comboio já me não levava até ao Pinhão, onde nunca me cansava de admirar os belíssimos azulejos, a azul e branco, decorados com cenas do mundo rural da região, sobretudo as referentes às vindimas. Daí a viagem prosseguia, então, a cavalo, geralmente acompanhada pelo meu Pai ou por um primo mais velho do que eu e sempre disposto a fazer-me companhia. E era uma valente estirada!

 

Agora, num comboio mais rápido e mais cómodo, apeava-me na Régua e apanhava uma camioneta que me levava até à Quinta do Convento, a poucos quilómetros para lá de Távora. Aí esperava-me idêntica cavalgada, desta vez já mais curta, mas que nos obrigava a descer até ao rio e a subir um caminho tão sinuoso que era chamado “As Voltas”. É que, só uns anos mais tarde, a estrada passou a contemplar também a minha freguesia e outras pequenas terras vizinhas.

 

Mas voltemos, agora só via recordação, até à Régua e aos seus inesquecíveis rebuçados.

 

Nem era preciso ir ao Largo. Encontravam-se ali mesmo, à mão de semear, acompanhados pelas bilhas de água fresca, pois os vendedores ou as vendedeiras, alguns muito conhecidos, aproximavam-se da saída da estação, com as suas cestas de vime forradas de alvas toalhas bordadas e com as suas batas verdes que mais tarde foram substituídas (pela ASAE?) por batas e lenços brancos. Apregoavam:

 

“Olha os rebuçados da Régua!

Levem lá um saquinho!”

 

Eram elas próprias que os faziam em casa (por isso lhes chamavam rebuçadeiras) e cada uma delas guardava ciosamente o seu segredo, embora houvesse uma base comum: água, com casca de limão e açúcar, fervidos até caramelizar em ponto de lágrima; passam para a pedra da mesa, untada de margarina, faz-se um estreito rolo e, ainda a escaldar, cortam-se em pequenos pedaços cilíndricos que se embrulham em papel de seda, na forma de laçarote.

 

É assim que me lembro deles e ainda hoje me parece sentir aquele delicioso sabor, tão singelo mas tão singular.

             

 

 

Estação ferroviária do Pinhão - Douro

 


 

Peso da Régua e o rio Douro

 

publicado por clay às 10:39 | link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 08.03.11

             Meus queridos netos:

 

             Ponto culminante da nossa viagem foi o desembarque em Luxor, onde, nas ruínas da antiga Tebas, se encontra Luxor e Karnak, bem como, nas proximidades, o Vale dos Reis e das Rainhas e os colossos de Memnon.

  

            Visitámos em primeiro lugar o Templo de Luxor, que nos esmaga com a imponência dos seus dois pylones como que a guardar a entrada e o enorme obelisco, de granito vermelho, defronte do pylone da esquerda. O que se erguia à direita e pesa trezentas toneladas, foi oferecido à França em troca dum relógio que nunca funcionou e, depois duma viagem de dois anos, está agora implantado na célebre Praça da Concórdia, em Paris. A entrada no monumento, constituído por vários templos, é como que guardada por duas colossais estátuas do faraó Ramsés II. O templo, dedicado ao deus Amon e que esteve (bem como o de Karnak) soterrado pelas areias do deserto durante mais de mil anos, permite-nos apreciar várias civilizações sobrepostas, por exemplo uma, também antiquíssima, mesquita árabe.

 

            Do templo de Luxor passámos, pela Avenida das Esfinges, para o Templo de Karnak que, com o anterior, constitui o maior museu do mundo ao ar livre. Esta avenida tem, erigidas de cada lado, trinta e quatro esfinges dedicadas aos faraós.

 

            O Templo, que levou mais de mil anos a construir, tem a celebérrima Sala Hipostila, cujo tecto era suportado por cento e trinta e quatro colunas de vinte e três metros de altura, em forma de lótus e de papiro. Era, também aqui, um templo do deus Amon e considerado o mais amplo do mundo. Todas as suas inúmeras belezas nos foram mostradas num inolvidável espectáculo de luz e som.

 

            Ainda nesta área arqueológica, visitámos o Vale dos Reis, imensa necrópole de túmulos de faraós, incluindo o de Tutankamon e o Vale das Rainhas, onde se encontra o túmulo de Nefertari, esposa de Ramsés II e o monumento funerário da rainha Hetshepsut, que governou como um faraó, pelo que é considerada a primeira mulher chefe de governo da História. Foi parcialmente escavado na rocha e ficou respaldado pelos enormes rochedos calcários. Era no Vale das Rainhas que se enterravam os príncipes mortos na infância, entre os quais o dum filho de Ramsés III, ricamente decorado, que nós visitámos. Também nesta zona se encontram os impressionantes colossos de Memnon, um dos quais, segundo uma lenda antiquíssima, representaria um filho da deusa Aurora. Ao amanhecer, a estátua emitiria um som vago e prolongado, repassado de tristeza, que seria o choro de Memnon ao ser acariciado por sua Mãe que, ao sabê-lo morto por Aquiles, teria pedido a Júpiter que ressuscitasse o seu filho, ao menos uma vez por dia.

 

           É pena que muitos destes monumentos fúnebres tenham sido pilhados, como se podia ver pela presença duma aldeia de salteadores de túmulos.

 

           Com os olhos cheios de tanta história e beleza, regressámos ao bulício do Cairo, onde fizemos mais algumas visitas e passeámos numas decadentes charrettes, puxadas por cavalos. Num desses passeios, entrámos numa padaria para comprar o típico pão espalmado. Estava a sair do forno mas, para me furtar ao ataque dum imenso batalhão de moscas, procurei enfiá-lo rapidamente no saco que levava e regalámo-nos com ele, besuntado pelo mel do pequeno-almoço.

 

           E por aqui termino o relato desta fascinante viagem, que desejo, um dia, vocês possam fazer também.

 

                            Beijinhos, com saudades do Egito, da Vóvó.

 

 

 

  

                                                                                                          

publicado por clay às 10:42 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 02.03.11

 

                           Meus queridos Netos:

 

             No terceiro dia, partimos, num avião a jacto da Egyptair, do Cairo para Assuão. Aí ficámos instalados no confortável Hotel Isis, na margem do Nilo e com vista para a Ilha Elefantina. Num pequeno barco tradicional, dirigimo-nos à Ilha e, aí, visitámos o túmulo de Agha-khan e um jardim Botânico, que nos dececionou. Das piscinas do nosso Hotel, onde nos desforrávamos do calor intenso, podíamos admirar as numerosas falucas que, tranquilamente, sulcavam as águas mansas, proporcionando-nos momentos de grande calma e beleza.

 

            No percurso para a grande barragem de Assuão, com cinco quilómetros de comprimento e uma represa de cerca de quatrocentos, soubemos pelo guia que foi construída nos anos sessenta, com a ajuda técnica e económica da União Soviética, para abastecer o Egito de água e electricidade e evitar as cheias do Nilo. Não faltou oposição a esta obra, pois veio alterar o ecossistema e submergir muitos monumentos. Salvou-se o Templo de Philae, dedicado à deusa Ísis e que foi reconstruído perto dali, em Agilkia, também no meio das águas, mas a salvo. Duma enorme beleza que lhe advém das numerosas e elegantes colunatas, ali assistimos a um deslumbrante espectáculo de luz e som.

 

            Também visitámos uma aldeia núbia, onde nos explicaram que as casas decoradas eram pertença de pessoas que já tinham realizado o seu sonho de ir a Meca.

 

            Seguiu-se a navegação e, pelo caminho, visitámos Kom-Ombo, com os templos de Sobek e Haroeris, Esna com uma admirável Sala Hipostila e as suas colunas ornamentadas de flores de lótus estilizadas e Edfou com um imponente templo dedicado a Horus, o deus falcão, cuja estátua colossal guarda a entrada. Este templo é o segundo maior do Egito, depois de Karnak e está muito bem conservado. Os seus baixorelevos representam a vitória de Horus contra Seth, para vingar seu pai.

 

            As instalações, no navio Noor, eram confortáveis e a comida variada, embora nem sempre a nosso gosto e, mesmo evitando as saladas, quase todos os passageiros tiveram problemas intestinais.

 

            Entre outras sessões de animação, organizaram a festa das máscaras, em que muitos se apresentaram trajando como autênticos egípcios.

 

            Para mim, contudo, o sítio mais aprazível era o convés, onde me sentava para ler. Mas logo me conquistava a paisagem que ia desfilando a meus olhos: o Nilo sempre calmo, algumas falucas ou outro grande barco ao longe e as margens verdejantes onde, frequentemente, se erguiam numerosas palmeiras que mal adejavam com a brisa, refrigério para os nossos corpos cansados e para as nossas almas sequiosas de paz.  E em breve chegámos a Luxor, de que vos falarei na próxima carta.

 

            Beijinhos, inspirados nesta mágica paisagem, da Vóvó

                                                                     

 

 

 

 

    Quatro dias, descendo o Rio Nilo, de regresso ao Cairo. No convés do "Noor".

                                                                                                                 

 

 

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